domingo, 20 de outubro de 2013

A miséria em primeiro lugar

A miséria em primeiro lugar

Visitada em agosto de 1998, Tapera é considerada pela ONU como a cidade mais pobre do Brasil. Sofre com a seca de Alagoas, apesar de estar a 20 km do Rio São Francisco, e possui uma taxa de mortalidade infantil quase igual à de Angola.
Por Leonardo Sakamoto |  


José Bezerra perdeu seis filhos por causa da seca
Maria deu à luz sob o olhar insuspeito de uma vaca e um jegue – figurante sempre presente nessas ocasiões há quase dois mil anos. José acompanhava a cena de perto, amparado pelas paredes de barro e um cigarro de palha. A fumaça esbranquiçada fugia pela porta e fundia-se à paisagem queimada de sol. A pele do bebê à lavoura, que morreu ainda no pé por carência d`água. Mal presságio. Ao contrário da outra criança – do outro José com a outra Maria – não recebeu reis, muito menos presentes. Contudo, para ambos o destino deu-se logo a conhecer.
Os anos se passaram e ela cismou em ficar do mesmo tamanho. Talvez por causa da água e da comida. Ou da falta de ambos. Certo mesmo é que adoeceu. O pai, desesperado, correu de um lado para o outro e levou-a para se tratar. Diarréia, disenteria, olhar longo, profundo, perdido. Os doutores fizeram o que podiam e mandaram-na de volta para casa. Naquela tarde, rastejou pelo chão da sala, agonizando. Maria avisou ao marido que a criança estava indo embora. Mas sabiam que de nada adiantaria, pois há tempos a fome vinha comendo-a por dentro. Então, José, resignado, foi à cidade fazer a única coisa que estava ao seu alcance: pedir uma caixão emprestado. Quando voltou, a filha já estava morta.
Essa cena se repetiria mais cinco vezes na vida da família Bezerra. Assim como eles, muitos Josés e muitas Marias têm enterrado a fome de seus filhos pelo nordeste brasileiro, castigado com uma das piores secas das últimas décadas. Essa história tem sido uma constante nos últimos anos no município de São José da Tapera, sertão das Alagoas.
No ano passado, a Organização das Nações Unidas divulgou o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, de quase cinco mil municípios do país. São José aparece em último lugar, com uma taxa de mortalidade infantil de 147,94 mortes por 1000 nascidos. Para se ter uma idéia do que é isso, Angola, país há quase 25 anos em guerra civil, coberto por nove milhões de minas terrestres e que foi recentemente considerado pela ONU o pior lugar para uma criança viver em todo o mundo, apresenta uma taxa de 170 para mil.
Quem visita o centro urbano de São José da Tapera não imagina que essa é uma das cidades mais pobres do Brasil. Banco, farmácias, mercados, feira livre. Uma bela praça, parque infantil, lanchonete. Porém, lá vivem menos de 20% dos quase 30 mil moradores. O resto está espalhado em aproximadamente 60 povoados, neste que é o segundo maior município do estado. A família Bezerra mora em um desses vilarejos, Furnas. Na verdade, um amontoado de pequenos sítios onde dezenas de casas de taipa e madeira salpicam a paisagem, habitadas por alguns barbeiros e muitas pessoas.
Falta água, falta emprego
O único braço de água que atravessa Furnas e região chama-se Riacho Grande: largo, sinuoso, longo… e seco. Assim como em todo o sertão, um rio temporário que existe quando há chuvas, ou seja, quase nunca. A maioria das comunidades não dispõe de poços artesianos e são obrigadas a cavar cacimbas no leito seco para conseguir alguma coisa. Por azar, devido a depósitos minerais, a água, barrenta, sai salobra da terra.
Até pouco tempo atrás, essa água era utilizada para beber, lavar roupa, fazer comida e alimentar o gado. Problemas de saúde era o que não faltava, principalmente entre as crianças, com o organismo já fraco devido à fome. Em esquema de emergência, o Exército junto às autoridades locais têm levado caminhões-pipa aos locais mais atingidos pela seca. No Estado de Pernambuco, trens partem carregados de água em direção ao interior para tentar suavizar a situação.
A Visão Mundial, entidade internacional de assistência, construiu 35 cisternas na região, reservatórios de alvenaria com capacidade para 10 mil litros. Várias famílias têm então que se virar com essa quantidade por meses a fio até que o próximo carregamento chegue. Teodoro Félix da Costa e sua mulher Maria Rita foram os primeiros a receber a cisterna em sua comunidade. "Eu buscava água salgada até três meses atrás. Criança já chegou a morrer por causa dela". E ele sabe de perto o que é isso, uma vez que perdeu quatro filhos – todos com menos de um ano de idade.
Porém, essa água não é suficiente para a agricultura, quase que de forma exclusiva dedicada à subsistência. O céu ainda é a única fonte de irrigação para essa gente. Em junho, chamado por lá de "mês de São João", choveu um pouco, esverdeando a paisagem. Plantações foram feitas, esperando que a água continuasse. Infelizmente, não continuou e boa parte da colheita ficou comprometida. Os produtos mais cultivados são o feijão e o milho. Cena comum são os milharais que permaneceram baixinhos, espigas nanicas ainda em fase de crescimento. Quem conseguiu tirar algo do roçado, por pouco que seja, está satisfeito. Há famílias que perderam tudo e agora esperam a divina providência ou a ajuda do governo.
Maria Aparecida com os filhos desnutridos
Maria Aparecida Corrêa e seu marido Adeído são um exemplo. Os dois e mais sete filhos dividem uma casa de um só cômodo com uma só cama, feita de pau-a-pique. A cozinha se resume a uns tijolos no lado de fora da casa. E nem precisaria de muito mais, pois o feijão, dieta única, é pouco. Quase todas as famílias comem feijão no almoço, feijão no jantar e caldo de feijão no café da manhã. Quando conseguem, colocam uma carne e uma farinha. Mas, em alguns lares como o de Maria Aparecida, mesmo o feijão três vezes por dia é raridade. Um bom indicador são os filhos. O menor, de um ano, está com cinco quilos de peso. A desnutrição também ataca a outra filha do casal, com dois anos, olhos fundos, cabeça grande, bracinhos finos.
Com o roçado perdido, Adeído está atrás de serviço. Emprego não há, tanto no comércio do centro urbano quanto na prefeitura, que já emprega muito mais gente do que poderia. De vez em quando, abre uma vaga para trabalhar em alguma fazenda, como a Jequiá, cortando palma (uma espécie de cacto que serve de ração para o gado), fazendo cerca, processando palha de milho. "Só que eles pagam três contos secos (R$ 3,00) por um dia inteiro de serviço e os patrões não dão nem a água para beber. E no final do dia, você fica tossindo pó", reclama José Bezerra. Adeído estava disposto e bem que tentou, mas ainda não havia conseguido vaga para ganhar os três contos secos.
Como em "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, há muitas Marias. Boa parte, afilhadas também de Maria, também mulher de José, porém com um filho famoso que não morreu de desnutrição. O marido da irmã de Maria Aparecida, Maria de Lurdes, está trabalhando em um desses bicos. Enquanto Antônio passa o dia fora, ela fica em casa cuidando dos oito filhos. Bem, eram nove até meados de agosto quando o caçula morreu. Magro, com as costelas tentando sair para fora da pele. Talvez se o pseudo-emprego tivesse chegado antes a história teria sido diferente.
A história também poderia ter sido diferente se as cestas básicas distribuídas pelo governo federal não tivessem sofrido um atraso em todo o país. Da mesma forma, a verba destinada às frentes de trabalho não aparecem em São José da Tapera há muito tempo. De acordo com Antônio Benedito Júlio, dono de um sítio e um dos beneficiados, o valor do auxílio caiu de R$ 80,00/mês para R$ 65,00/mês- metade um salário mínimo. Famílias com 10, 12 pessoas que conseguiram ter apenas um membro inscrito têm que fazer mágica e se virar com isso. De acordo com a prefeitura, em 1983 havia 11 mil nas frentes de trabalho. Hoje, esse número foi reduzido para 2 mil. Os moradores da zona rural arranjaram um apelido para essa ajuda econômica, "magnu, pois com ele e você fica magro ou você fica nu".
Maria de Lurdes: a hipertensão é comum na região
Agentes de saúde
Outro problema que Maria de Lurdes enfrenta é o coração. "O médico do posto de saúde me disse que, se eu tiver outro filho, eu posso morrer." Problemas cardíacos ocasionados por má alimentação, além de estresse e hipertensão são freqüentes. E de quebra, a doença de Chagas que muitos possuem e nem sabem. Barbeiros costumam sair meio dia das tocas, principalmente em dias quentes, e transmitir o Trypanosoma Cruzi. Lurdes espera na fila para ir a Maceió e fazer a cirurgia em um hospital do Sistema Único de Saúde.
Contudo, a situação da saúde nessa região do sertão nordestino conheceu uma melhora considerável nos últimos cinco anos, desde a implantação do Agente Comunitário de Saúde. O programa, com verba de Brasília e sem nenhum vínculo político, recruta moradores locais, que recebem treinamento, e visitam regularmente todas as famílias. As crianças são atendidas desde o pré-natal até a adolescência, com vacinação completa e algum controle de alimentação. A multimistura, um complemento alimentar com proteínas, vitaminas, cálcio e sais minerais tem sido distribuído à população para tratar de casos de desnutrição.
Os resultados são animadores. De acordo com Ivete de Barros, professora aposentada e, hoje, agente de saúde, a mortalidade infantil diminuiu desde o começo das visitas. Ainda de acordo com ela, vários vilarejos já não possuem mais casos de desnutrição crônica – aquela que leva à morte. Crianças são pesadas regularmente, tratadas com complemento alimentar e encaminhadas para o posto de saúde quando necessário. O agente trabalha em conjunto com os médicos do Plano de Saúde Federal e com a Pastoral da Criança da Igreja Católica. Trabalham em cooperação às esferas federal, estadual e municipal – fato raro em se tratando da República Federativa do Brasil.
A agente de saúde Ivete de Barros acompanha regularmente o peso das crianças
Nos últimos quatro anos, a mortalidade infantil caiu 30% nos municípios mais pobres do país. A prefeita de São José da Tapera, Edineuza Ricardo, garante que a taxa de 148 para mil, indicada pela ONU, despencou e agora fechou 1998 em 100 para mil. Mesmo assim, bem acima dos 42 da média nacional.
O agente de saúde acaba sendo também um agente de cidadania. Ele entra na vida de cada família, estabelece uma relação de amizade e confiança. Conscientiza a população de seus direitos e deveres, de que pode cobrar soluções ou ir em busca dessas soluções. Noções de saneamento básico, como filtrar ou ferver a água antes de utilizá-la, ou de planejamento familiar vêm se tornando a cada dia parte integrante do universo dessas pessoas.
Crescei e multiplicai
O planejamento é quase inexistente. Encontra-se famílias com 11, 12 filhos. A própria Ivete teve 15. O problema é que o crescimento do número de bocas não vem acompanhado de um crescimento da renda da casa, e sim de um aumento da fome.
Boa parte das mulheres de São José da Tapera já conhecem métodos contraceptivos, orientadas médicas e enfermeiras. Mas a desinformação e o preconceito ainda são grandes, desde casos menores, como a que engravidou por achar que a pílula anticoncepcional deveria ser tomada dia sim, dia não, até a recusa dos maridos em usar preservativos.
Devido à fé do sertanejo, a dicotomia religião versus controle da natalidade transforma-se em um desafio a qualquer projeto que tente mudar o cenário. Por estarem atreladas à Pastoral da Criança, algumas agentes de saúde não estão autorizadas a ensinar outros métodos além do da tabelinha, endossada pelo Vaticano. O padre da cidade, durante o sermão na missa, condena o uso de preservativos, pílula anticoncepcional e a vasectomia ou a ligadura de trompas.
Mesmo assim, muitas mulheres passam por cima do pecado e, arriscando a salvação eterna, querem passar pela operação de esterilização.
Jeíusa Pereira dos Santos é uma delas. Tem 29 anos de idade. Mas bem que poderia ter 45, visto as marcas de um tempo que foi mais severo com ela do que com outras pessoas. Tem também oito filhos (um deles desnutrido), outro no ventre – que deve ter nascido em setembro – e um par de gêmeos que morreu. Porém, seu marido é contra e a ameaça para que ela não leve a idéia da cirurgia em frente.
Às vezes ele consegue um bico de apanhar feno em alguma fazenda do Sítio Antas, povoado em que moram. Porém, a renda da família vem basicamente da fabricação e venda de vassouras de palha de coco aricuri. Andam vários quilômetros sob o sol escaldante para buscar a matéria-prima na mata. Dedicam uma semana inteira na produção de 100 unidades, que depois vendem por R$ 15,00.
A família de Jeíusa é uma das mais pobres de toda São José da Tapera. Durante três anos, viveram em um barraco feito com palha e madeira. Pequeno, com aproximadamente dez metros quadrados, com uma cama de palha que servia de descanso para todo mundo. Quando aparecia uma chuva, motivo de alegria para todo o sertão, era um sofrimento. "Ela entrava por toda a parte e caía cima de mim, dos meninos", lembra-se com água nos olhos.
Jeíusa e o marido: álcool como válvula de escape
Por causa da situação de sua família e do sentimento de incapacidade diante da dor dos filhos, o marido de Jeíusa entrega-se à bebida. Sem ter o que fazer, abraça a garrafa de cachaça, sentado embaixo de uma árvore. Quando o álcool sobe à cabeça, briga com a mulher e os filhos. Já chegou a tentar derrubar a casa que a prefeitura construiu para eles em substituição da palhoça. No dia em que esta reportagem visitou a família, encontrou um de seus filhos desmaiado em meio a moscas, estirado no chão da casa. Ele havia pedido o que o pai estava tomando e entornou pinga. Com estômago vazio.
Como Jeíusa, a maioria da população tem título de eleitor e carteira de identidade – exatamente nessa ordem de importância. A região nordeste é famosa por ter seu povo oprimido e explorado por coronéis, grandes latifundiários que utilizam mão-de-obra quase escrava em seus domínios, mantendo através da violência seu poder e o status quo. Até pouco tempo atrás, São José da Tapera e cidades vizinhas eram dominadas pela família Maia. A população reluta ainda em falar abertamente no assunto, mas o curral eleitoral estava estampado em cada esquina, nos muros pichados com propaganda. Do tio ao primo, da cunhada ao genro. A situação começou a mudar de uns tempos para cá quando Ênio Ricado Gomes, marido da atual prefeita e sem vínculo com os Maia, venceu as eleições municipais. Pouco tempo depois, foi assassinado misteriosamente. Edineuza então resolveu se candidatar para dar continuidade ao trabalho do marido e venceu.
E o mais interessante é que muito poucos sabem escrever além do próprio nome, lembrado apenas nos dias de votação, e de ler o nome dos candidatos, estampado nas urnas eletrônicas. O analfabetismo é grande entre os adultos.
A casa de Jeíusa não tem um móvel sequer. "Não quero mesa, não quero cama, quero trabalho." Apesar de haver acomodados que estão a espera da comida cair do céu, a maioria das pessoas de todo o sertão quer emprego e principalmente quer poder trabalhar na sua roça, cultivar a sua terra.
Ajuda do Velho Chico
Alguns pedem indústrias na região. Algo difícil, haja visto que, apesar da mão-de-obra barata e de possíveis subsídios e facilidade dos governos, a região possui baixo poder aquisitivo. A inexistência de um mercado consumidor e a distância até os grandes centros urbanos é um balde de água fria nos planos de um possível investidor. A indústria mais próxima é ligada às plantações de fumo da região de Arapiraca (AL), cidade já tradicional nesse ramo.
A solução para São José da Tapera parece ser a agricultura irrigável. As condições de clima e solo do semi-árido brasileiro são ideais principalmente para o plantio de frutas. As altas temperaturas e o sol o ano inteiro proporcionam o surgimento de frutas bem mais doces do que as produzidas no Centro-Sul.
E não está se falando apenas de frutas típicas da região, como umbu, cajá, cacau, caju. Manga, melancia, acerola, maracujá, melão, laranja, uva. Os vinhos produzidos no Nordeste já começam a rivalizar em qualidade com os das parreiras gaúchas. Também no sertão, em Juazeiro (BA), o tomate é cultivado pela empresa Cica para a produção de popa, molhos e catchup devido às boas condições de plantio. Boa parte da produção é exportada, gerando empregos e divisas.
O rio São Francisco na altura da cidade de Pão de Açúcar
Pode-se dizer: "mas Juazeiro está às margens do São Franscisco, um dos maiores rios brasileiros". Acontece que São José da Tapera fica a apenas 20 quilômetros do Velho Chico, em um trecho em que ele tem 300 metros de largura.
A contradição, de tão grande, parece surreal. Enquanto as plantações secam, o gado padece de sede e crianças morrem desidratadas, a poucos minutos dali na cidade de Pão de Açúcar, turistas de vários lugares brincam e se divertem em uma praia natural na beira do rio. É desse trecho que a água é captada e enviada por tubos para os centros urbanos de municípios da região. E é nesse trecho que os caminhões-pipa abastecem as caçambas para distribuir água aos povoados carentes. Esse vai e vem é necessário, porém paliativo.
"O político acha bom a seca,pois enche um caminhão de água e sai ganhando voto", afirma José Vinícius Rodrigues, presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Sítio Furnas. "Só o dinheiro que o governo gasta com caminhões dava para irrigar esse sertão", desabafa José Bezerra.
Bem, exageros a parte, José não está muito longe da verdade. O projeto para a transposição das águas do São Francisco, que beneficiaria milhões de nordestinos, custaria aproximadamente R$ 700 milhões aos cofres públicos. Uma ninharia levando em conta seu custo – benefício. Captando apenas 3% da água da Barragem de Sobradinho – a maior do país -, o projeto prevê a construção de canais artificiais para abastecer os rios temporários que correm fantasmas pelo sertão além de diques e açudes.
O projeto geraria empregos e criaria estruturas para a região se desenvolver por conta própria, sem depender do assistencialismo do Sul-Sudeste ou das esmolas dos coronéis do Nordeste. E seria uma bela facada nas costas da indústria da seca, vide como alguns políticos chiam ao se mencionar a transposição.
Não significa, porém, que a água vai acabar com a pobreza e transformar o sertão em uma França do dia para a noite. Porém, esse é um grande passo a ser dado se o Brasil quiser reduzir o enorme degrau da desigualdade social. A capacitação da população seria o próximo passo assim como o financiamento para o plantio e a produção. Reduziria o êxodo rural – que, apesar de menor, ainda existe em direção aos centros urbanos, como ainda há moradores das taipas de Alagoas fugindo para as favelas São Paulo. E isso, óbvio, passaria por uma mudança na forma de pensar o país.
Cristo Redentor da cidade de Pão de Açúcar
A solução para São José está mais próxima ainda, uma vez que 20 quilômetros de tubulação não são muita coisa. A vizinha Pão de Açúcar já planta melões irrigados. E o mesmo se aplicaria às cidades vizinhas que vivem a mesma condição surreal. A prefeitura tem um projeto de desviar água de uma adutora já existente para o vilarejo de Antas para tentar o plantio irrigado de tomate e quiabo. Custaria a gigantesca cifra de R$ 8 mil.
De acordo com José Carlos Libânio, um dos responsáveis pela divulgação do ranking do IDH brasileiro, uma nova listagem depende do censo do IBGE, que será realizado no país no ano que vem. Talvez, até lá, São José da Tapera já tenha perdido o posto do lugar mais pobre do país. Ou talvez Tapera nunca tenha sido mesmo o local mais pobre do país e sim alguma cidadezinha escondida nas areias do sertão. É quase impossível quantificar a dor e o abandono.
Contudo, a triste colocação serve para trazer à luz do sol a miséria escondida nas sombras do sertão nordestino. As histórias dos sofrimentos de Josés e Marias vivificam o problema, transformam números, gráficos e dados estatísticos em rostos, sonhos e lágrimas. Traduz a distante expressão "mortalidade infantil", na forma dos cinco filhos de Maria Bezerra, dos gêmeos de Jeíusa, dos quatro de Maria Rita, do caçula de Maria de Lurdes…
Filhos de Jeíusa no povoado de Antas
O Índice de Desenvolvimento Humano
Criado em 1960, o IDH é uma espécie de termômetro usado pelas Nações Unidas para avaliar as condições de vida em todos os países membros da organização. Em um ranking, recebem notas de zero a 1 de acordo com o seu grau de desenvolvimento em três áreas: educação, renda per capita e expectativa de vida. É importante ressaltar que o índice não cria uma hierarquia entre modos de viver diferentes, mas classifica países e cidades de acordo com a qualidade de vida que oferecem aos seus habitantes.
O Brasil é o 79º da lista, em posição considerada de médio desenvolvimento. A primeira posição fica com o Canadá. Em comparação com as últimas quatro décadas, o índice aponta uma melhoria na qualidade de vida do brasileiro, devido principalmente à alfabetização e à redução da mortalidade infantil. O Nordeste é um dos lugares onde essa redução foi mais marcante.
Um levantamento divulgado no ano passado, aponta uma lista das cidades brasileiras utilizando-se o mesmo método do ranking internacional. São José da Tapera aparece em último lugar, com renda familiar per capita de 0,19 salário mínimo. Em contrapartida, Feliz, no Rio Grande do Sul, foi considerada a melhor cidade do país, com 99,6% de suas moradias duráveis e uma esperança de vida em 72,59 anos.
São José da Tapera, 

‘É possível criar regras globais para a internet’

  • Para o diretor de Tecnologia da Informação do Fórum Econômico Mundial, Alan Marcus, o escândalo de espionagem revelado por Edward Snowden cria a oportunidade para a construção de regras globais de governança da internet


Alan Marcus: debate sobre princípios universais para a rede é prioridade
Foto: Divulgação

Alan Marcus: debate sobre princípios universais para a rede é prioridade Divulgação
O esquema de coleta massiva de dados revelado pelo ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional dos EUA Edward Snowden levantou questões sobre o futuro da internet. Alan Marcus defende que é preciso criar novos pactos de confiança. Governos, organizações e empresas devem deixar claro o que será feito com as informações dos internautas. E, principalmente, cumprir o que for acordado. O especialista vem ao país em novembro para participar da Cúpula Mundial de Políticas Públicas em TI, que acontece pela primeira vez no Brasil, com apoio da Associação das Empresas Brasileiras de TI.
Como o senhor avalia o impacto que o escândalo de espionagem provocou na internet?
Eu não encontro uma resposta certa para essa pergunta, mas sei que o futuro do mundo digital vai depender da criação de novos pactos de confiança. Quando eu digo confiança, não quero dizer que o seus dados não serão coletados, mas que governos, empresas e outras organizações vão dizer o que pretendem com esses dados e fazer apenas o que foi dito.
A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, fez um discurso duro durante a Assembleia Geral das Nações Unidas. Foi uma posição acertada?
A presidente Dilma Rousseff teve uma reação muito forte quando soube que era alvo de espionagem. Foi uma resposta racional: “como ousa fazer isso comigo? Quero que não aconteça novamente”. A reação inicial é dessa maneira, mas espero que a segunda seja o diálogo entre governos e organizações, para que eles expliquem o que estão fazendo com essas informações.
Após o escândalo, muito se falou sobre a criação de regras globais de governança da internet. Isso é possível?
Sim. Eu acredito ser possível criar regras globais para a internet. Mas temos que ter cuidado para que países, individualmente, não confundam a necessidade de normas globais e boa governança com a necessidade de controle governamental sobre a rede. Essa é a linha tênue com que precisamos nos preocupar. Não acredito que seja o caso do Brasil, mas existem países que podem aproveitar a oportunidade para cercear a liberdade dos cidadãos.
E esse tema está na agenda do Fórum Econômico Mundial?
Certamente está na agenda da nossa comunidade, formada por líderes globais, e a discussão é tratada com prioridade. O caminho tomado até agora é sobre a noção de princípios universais, pois é difícil aplicar leis que atendam às necessidade de todos os países. Os princípios permitem a definição do que pode ou não ser aceito e as legislações são criadas localmente.
Sobre a indústria de TI no Brasil, como o senhor avalia a nossa situação?
O Brasil está fazendo um bom trabalho, incentivando o desenvolvimento de companhias de TI. O país também tem exercido excelente papel na atração de grandes multinacionais, que facilitam o desenvolvimento de talentos, mas a falta de mão de obra especializada é uma lacuna que precisa ser preenchida.
A educação é um problema para o mercado brasileiro?
Não podemos dizer que a educação é ruim, mas podemos dizer que há falhas no desenvolvimento de habilidades necessárias para a indústria de TI, particularmente nas áreas de análise de dados e matemática computacional.
Além da falta de mão de obra especializada, o Brasil possui outros problemas no setor?
Eu não chamo de problemas, mas oportunidades. Um ponto particularmente importante é dos contratos. Nossas pesquisas apontam que o número de procedimentos e a quantidade de dias para fechar um contrato no Brasil são elevados em relação a outros países. Outra questão é o foco nas plataformas móveis. O Brasil está bem servido de computadores, penetração da internet e celular, mas o alto custo de tablets e smartphones ainda atrapalha.

NUTRIÇÃO BASEADA NO GENOMA PREVINIRÁ OBESIDADE (1)

NUTRIÇÃO BASEADA NO GENOMA PREVINIRÁ OBESIDADE (1)
Desde a descoberta do genoma humano em 2001, a nutrigenética tem avançado nas discussões sobre nutrição personalizada. É importante saber que ao longo da história a nutrição tem dado forma a nossos genes, canalizando as mudanças que determinaram as capacidades intelectuais que possuímos atualmente. Nesse sentido, a nutrigenética é a ciência que estuda a forma como determinadas substâncias presentes nos alimentos alteram a regulação dos genes, e como variações em certos genes podem levar a uma relação problemática entre genes e nutrientes, chegando a levar a uma doença.

NUTRIÇÃO BASEADA NO GENOMA PREVINIRÁ OBESIDADE (2)
A situação atual da nutrigenética, consonante com sua evolução nos últimos anos, mostra que cada ser humano se diferencia geneticamente de outro também no campo que trata da alimentação. Isto determina, entre outras coisas, que a interação que cada pessoa tem com os alimentos e seus nutrientes seja bastante variável.
NUTRIÇÃO BASEADA NO GENOMA PREVINIRÁ OBESIDADE (3)
Dessa forma, a nutrigenética se centra no estudo do genoma de cada indivíduo para, a partir de suas características, determinar o risco que se tem de adoecer de determinada doença no futuro. Assim, será possível recomendar um tipo de dieta que minimizará esse risco. A dieta personalizada está tomando cada vez mais forma e o estudo do genoma de cada um será decisivo para a prevenção de várias patologias. Afinal, a nutrição moderna centra-se na prevenção de doenças e na manutenção da saúde.
OBESO QUE SE EXERCITA VIVE MAIS
Recente estudo feito na Universidade de Carolina do Sul, Estados Unidos, concluiu que pessoas obesas que praticam exercício físico apresentam menor risco de morrer ou desenvolver doenças crônicas nos dez anos seguintes, do que aquelas sem problemas de peso, mas que não estão em forma por não praticarem atividade física. De uma maneira resumida, pode-se dizer que a atividade física é um dos hábitos que, junto a dieta, o controle do estresse, o sono e não fumar, podem ajudar a reduzir as doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, o câncer, o diabetes, a obesidade e as patologias respiratórias, que são as principais causas de morte no mundo.

Municípios gastam mais com burocracia que com Saúde



São José do Sul. Sede da prefeitura da cidade, inaugurada no ano passado, custou R$ 3,5 milhões, enquanto a reforma do único posto de saúde de lá teve orçamento de R$ 55 mil; à direita, o prefeito do município gaúcho, Anildo José Petry <252,1> Foto: Nabor Goulart/Agencia Freelancer / Nabor Goulart
São José do Sul. Sede da prefeitura da cidade, inaugurada no ano passado, custou R$ 3,5 milhões, enquanto a reforma do único posto de saúde de lá teve orçamento de R$ 55 mil; à direita, o prefeito do município gaúcho, Anildo José Petry <252,1> Nabor Goulart/Agencia Freelancer / Nabor Goulart
RIO E SÃO JOSÉ DO SUL (RS) — São José das Missões, a 310 quilômetros de Porto Alegre (RS), tem um posto de saúde e dois médicos para dar conta de 2,7 mil habitantes. Quarenta crianças em idade pré-escolar têm aulas em salas improvisadas na única escola estadual existente por lá, enquanto esperam a construção de uma creche, com recursos do governo federal, que só deve ficar pronta em 2014. A cidade gaúcha ficou apenas na 3.090ª colocação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre 5.565 municípios brasileiros. Em meio a tantos números, existe um ranking que São José das Missões encabeça: o de prefeitura que, proporcionalmente, mais gastou em 2011 para custear a máquina pública municipal. Entre suas despesas, 53% foram destinados apenas para essa função.

Os salários de professores e de médicos, por exemplo, estão contabilizados como gastos em Educação e Saúde, respectivamente. Já administrar as contas das prefeituras, fazer o controle interno, normatizar e fiscalizar ações privadas locais, além das despesas do Legislativo, entram como custeio da máquina pública.Levantamento inédito da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), feito a pedido do GLOBO, mostra quais são as principais despesas das prefeituras Brasil afora. Conclui que 533 cidades analisadas (12%) gastaram mais com atividades burocráticas da administração e com o Legislativo local do que com Saúde e Assistência Social; e que 548 (12,3%) desembolsaram mais com o custeio da máquina pública do que com Educação. Os dados, fornecidos pelas próprias prefeituras ao Tesouro Nacional, são relativos a 2011. A análise leva em consideração 4.437 municípios que apresentavam dados consistentes para o período.
Cruzando os dados, verifica-se que 269 prefeituras gastaram mais com atividades burocráticas da administração e com a Câmara de Vereadores do que com Saúde, Assistência Social e Educação. Metade delas possuía menos de 5 mil habitantes no período analisado, e apenas dez superaram a barreira dos cem mil habitantes. É um indicativo de que o peso da administração municipal é maior nas cidades pequenas.
Justamente para impedir que esses municípios menores e que tanto gastam para manter a máquina pública se proliferem é que o Senado aprovou, na semana passada, um projeto de lei complementar que permite que os estados autorizem a criação de novas cidades, mas impede que elas tenham menos de 5 mil habitantes.
— Independentemente do tamanho do município, há uma estrutura mínima necessária ao funcionamento da prefeitura. Em cidades pequenas, os ganhos de escala da administração são limitados, impedindo a queda dos custos com a manutenção da máquina pública e, portanto, limitando os recursos para outras áreas — explica o gerente de Estudos Econômicos da Firjan, Guilherme Mercês, responsável pelo levantamento.
Para se ter uma ideia, cada cidadão brasileiro desembolsou, em média, R$ 280 para custear a administração e o Legislativo municipais em 2011. Em uma cidade com menos de 5 mil habitantes, esse valor mais do que dobra, passando para R$ 621.
Os dados mostram que, apesar de ainda significativas, as despesas destinadas ao custeio da máquina pública foram as que menos avançaram entre 2006 e 2011: passou de 16% para 14%.
— É desejável que esses gastos comprometam o mínimo possível do orçamento, de forma a não consumir recursos que poderiam ser destinados à prestação de serviços à população. Mas vale ressaltar que essas cidades destoam do conjunto de municípios brasileiros, onde essas despesas vêm perdendo espaço no orçamento, ao mesmo tempo em que crescem os gastos com Saúde e Educação — analisa Mercês.
O Rio Grande do Sul tem seis cidades entre as dez que, proporcionalmente, mais gastam com o custeio da máquina pública. O GLOBO foi a São José do Sul, cidade com 2,3 mil habitantes no pé da serra gaúcha e sétima colocada no ranking dos municípios que mais apresentam despesas com a administração e a Câmara de Vereadores, percentualmente.
Não foi fácil encontrar a prefeitura. Não há placas indicativas, ela não está ao lado da igreja, como na maioria das pequenas cidades brasileiras, e nem ocupa um prédio histórico da comunidade. Mas basta descer a rua que leva ao Centro Administrativo Municipal para não ter mais dúvidas: a obra chama a atenção pela imponência dos vidros espelhados e pelo gramado frontal. O gabinete do prefeito Anildo José Petry (PSD), em segundo mandato, tem quase 50 metros quadrados de área. O salão onde os nove vereadores da cidade se reúnem a cada 15 dias daria para abrigar um baile.
Sem indústrias e com poucas empresas, São José do Sul vive basicamente dos repasses federais do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O prédio da prefeitura foi inaugurado em junho do ano passado e custou R$ 3,5 milhões — 63 vezes mais que a reforma do único posto de saúde de lá, orçada em R$ 55 mil. O prédio, acanhado, não tem equipamento de raio-X e nem atendimento de urgência. Os casos mais graves têm de ser transferidos para Montenegro, a 25 quilômetros de distância.
A reportagem do GLOBO constatou que a cidade não tem rede de saneamento básico, apenas dois dos seis distritos onde vive a população rural têm unidade de saúde, e as estradas municipais estão em mau estado. Dos R$ 9,2 milhões que gastou em 2011, a prefeitura dedicou 42,4% para custear a máquina pública, enquanto o destinado para Saúde, Assistência Social e Educação ficou na casa dos 18%. O prefeito diz oferecer serviços que nenhuma outra cidade vizinha oferece à população.
— Nosso centro de saúde tem cardiologista, fonoaudiólogo, psicólogo. Também temos dois dentistas à disposição na rede pública. Além disso, compramos plantões nos hospitais da região caso algum morador necessite de atendimento à noite ou nos finais de semana. E fazemos o transporte. Onde tem isso aqui por perto? — questiona o prefeito.
A população, entretanto, não reclama. A aposentada Isolde Schutz, tem 73 anos e mora há meio século no distrito de Harmonia. Era uma das poucas pessoas que faziam consulta no posto de saúde da cidade na última quarta-feira:
— Não dá para se queixar. Moro aqui há 50 anos e nunca vi o postinho tão bem cuidado.
Mas exames mais complexos não são feitos na cidade. A consulta com um ortopedista, por exemplo, tem uma fila de espera de quase um ano.
— Temos dificuldade justamente nos procedimentos de média e alta complexidade, por falta de médicos e de estrutura. Mas, no resto, somos um modelo para a região — assegura a secretária de Saúde do município, Juliane Bender.


POLÍTICA Campanhas eleitorais concentram corrupção

JAILTON DE CARVALHO
Publicado
Oslain diz que a Justiça não têm estrutura para fiscalizar sistema de financiamento de campanhas Foto: Marcelo Casal / Agência Brasil
Oslain diz que a Justiça não têm estrutura para fiscalizar sistema de financiamento de campanhas Marcelo Casal / Agência Brasil
BRASÍLIA — O diretor de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, Oslain Santana, terceiro na hierarquia da instituição e tradicionalmente avesso a declarações públicas, afirma que pelo menos metade dos casos de corrupção tem relação com financiamento de campanhas eleitorais. Ele coordenou todas as grandes operações de combate contra fraudes em licitações, superfaturamento de contratos e contratação de ONGs de fachada desde 2011.
Podemos falar sobre a relação entre corrupção e campanhas eleitorais?
Cinquenta por cento das operações da Polícia Federal contra corrupção têm como pano de fundo financiamento de campanha. Quando você investiga um caso de corrupção, desvio de dinheiro público, vai ver lá na frente que tinha um viés para financiar campanha política. Então, se resolvessem fazer uma reforma política, diminuiria muito o crime de corrupção. Isso é fato. Normalmente, numa investigação, é um prefeito desviando dinheiro, parte do dinheiro vai para seus interesses pessoais e parte do montante, para financiar a campanha. Essa é a realidade hoje. Um prefeito, um deputado, um governador e por aí vai. Não dá para precisar em números, mas é fato. É a sensação que temos nas várias investigações em que trabalhamos. E são todos os partidos. Não é privilégio desse ou daquele. Todos. As várias investigações da PF e do Ministério Público comprovam o que a gente está comentando agora.
O que é possível fazer para diminuir esse tipo de problema?
Isso é opinião pessoal nossa como técnico. Tem que ter uma reforma política. O modelo atual de financiamento de campanha, se você não mudar, vai acontecendo esse tipo de crime: vão continuar desviando dinheiro público para esse financiamento. Qual é o melhor modelo? Não sei. Financiamento totalmente público ou financiamento privado só de pessoa física, com determinado limite, e colocando limites de quanto cada candidato pode gastar? Se for se candidatar a presidente pode gastar x, se for a governador em estado com PIB x pode gastar y. Não sou filiado a partido político, não trabalho na Justiça Eleitoral, mas o sistema atual não está funcionando. Só incentiva mais a corrupção. Vamos continuar enxugando gelo. A polícia vai continuar investigando, o Ministério Público vai continuar denunciando, o Judiciário julgando e vai continuar o problema. Nós não aprendemos com a lição de 89, do governo do presidente Collor. Por que ele foi cassado? Sobra de campanha. Isso que levou ao impeachment há 20 anos. Outros casos se sucederam e não se mudou o sistema. Todos os anos, integrantes de vários partidos afirmam que tem que ser feita a reforma política. São mandados projetos para o Congresso Nacional e não passam. Esse sistema atual tem que mudar. Só o financiamento de pessoa jurídica, sem limite de gastos, não tem como fiscalizar isso. A Justiça Eleitoral não tem estrutura. A polícia não tem estrutura. Esse sistema que tem hoje é para facilitar o caixa dois de campanha.
Há gente da polícia e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) preparando algumas mudanças?
Estamos nos reunindo com o TSE e com o Ministério Público Eleitoral, os três atores da persecução penal em matéria eleitoral, para discutir sugestões, sejam alterações administrativas na Justiça Eleitoral que facilitem a investigação do crime eleitoral, seja proposta de mudança na legislação. Por exemplo, que sejam cadastrados todos os cabos eleitorais, que todo pagamento de despesa, toda movimentação de um candidato tenha uma conta única. Todo pagamento tem que sair por aquela conta. Que se possa facilitar auditorias. São propostas que podem dificultar a prática do crime eleitoral, corrupção ou caixa dois de campanha. Também, no campo legislativo, está sendo discutida no Congresso a proposta da reforma eleitoral tocante ao financiamento. Uma proposta que achei bastante coerente foi colocar um limite para doação só de pessoa física e parte do financiamento por recursos públicos. Seria muito mais barato para a União o gasto com financiamento, que com o desvio de recursos públicos nas fraudes em contratos da administração pública nas três esferas para financiamento de campanha. O prejuízo é muito maior. Garanto: se for gastar R$ 1 bilhão para financiamento com recursos públicos, os recursos desviados hoje são bem maiores do que esse R$ 1 bilhão.
O senhor poderia dizer quais mudanças estão sendo estudadas nesse grupo no TSE?
O pessoal que trabalha na campanha teria que ser cadastrado na Justiça Eleitoral. Quando você passar, no dia da eleição, vê se aquela pessoa está cadastrada ou não para trabalhar para aquele candidato. Vê se ela está recebendo e quem está pagando. São mudanças que podem ser feitas por resolução. A Justiça Eleitoral pode colocar uma série de regras para dificultar a prática de crimes, para deixar as eleições mais transparentes. O que vejo aqui é que, se não houver mudanças, continuará havendo desvio para financiamento de campanha. Vai continuar tendo caixa dois. Queremos isso? Não. Lideranças de partidos chegam a consenso em programas de TV, mas só que a coisa não anda no Congresso. Não interessa para muita gente ter essa reforma.
O senhor diria que a matriz da corrupção de todos esses grandes escândalos são campanhas eleitorais?
O que posso dizer é que, nas investigações da Polícia Federa, onde você tem desvios de recursos públicos, 50% tem como pano de fundo fazer caixa para campanha política, se não for um número maior. Você começa uma investigação de uma prefeitura desviando recursos da merenda, da Saúde. É para quê? Para caixa de campanha. Você vê numa investigação um governador de um determinado estado fraudando uma licitação. E para quê? Para caixa de campanha. Aí vai parte (do dinheiro desviado) para a campanha e parte para o bolso de alguém. Ele desvia para a campanha para se manter no poder, para continuar roubando. Parte para o bolso dele, para o “staff”, e parte para financiar a campanha. E, se não fizer isso, não consegue se reeleger. A campanha é cara.
O senhor acha que o financiamento público resolveria?
Resolver, seria ingenuidade da minha parte (acreditar nisso). Mas diminuiria bastante. Vou mais longe. Têm pessoas que querem se tornar políticos. São idealistas, querem mudar alguma coisa. Hoje, quem entra na política, e pode ser até colega meu, vai dizer: “Olha, não quero saber de onde veio o dinheiro da campanha. Alguém arrecadou. Alguém financiou minha campanha. Eu não vou perguntar de onde veio o dinheiro”. Não vai perguntar porque vai ouvir o que não quer ouvir. É um dinheiro, no mínimo, de sonegação, caixa dois de uma empresa. Sonegação é crime. Quando não é dinheiro oriundo de corrupção, pagamento de propina. Então, pessoa de bem, que tem financiamento da campanha arcada com dinheiro do partido, parte dos recursos vem dessa fonte.
Por que essas ideias de reforma política e mudanças no financiamento de campanhas nunca prosperam?
Vi um debate de um líder do PT com um líder do PSDB na televisão em 2009 ou 2010. Tanto esse líder do PSDB, quanto o do PT, pessoas bastante sérias, instruídas, eram favoráveis ao financiamento (público) de campanhas. Teria que mudar o sistema. E a jornalista, que mediava o encontro, perguntou: “O seu partido ficou oito anos no poder, não conseguiu mudar. O seu está sete anos no poder, não conseguiu mudar. Por quê?” Um olhou para o outro e fez assim (abre os braços). Não passa no Congresso. Os dois líderes tinham consciência de que era necessário mudar o sistema, que induz à corrupção, à sonegação fiscal. Mas por que não passa? (abre os braços novamente).
Quais as consequências disso?
Walter Maierovitch (juiz aposentado) fez um artigo com procuradores e policiais italianos sobre o que ocorre na Itália. A simbiose entre as máfias e a política é muito grande lá. O financiamento de campanha tem os mesmos problemas que no Brasil. As máfias financiando campanhas políticas, cometendo crime do colarinho branco, se envolvendo em fraudes em licitação, como na Itália. E o que você vê no modelo italiano, que tem as máfias mais fortes, você está vendo no Brasil. Se não tiver uma mudança, sem esperança.
O senhor falou que o tráfico está financiamento campanhas?
Nos estados de fronteira você encontra isso. No Rio, você encontra milícias financiando vereadores. O jogo do bicho financiava. O bicho é crime, não pratica só o jogo. Vê infiltração política desses criminosos. Quando se tem financiamento público, não, dificulta.
Esses grupos continuam atuando, misturando interesses públicos e privados?
No sistema de hoje, o político precisa de dinheiro. A campanha é cara. Então ele aceita qualquer doação. Já vimos em estados de fronteira, e também algumas situações no Rio de Janeiro: o candidato a cargo eletivo recebendo dinheiro de criminosos ligados ao tráfico, ao contrabando. Sem contar que, em meu ponto de vista, o sonegar também é criminoso. O modelo está esgotado. Se a gente quer enfrentar a criminalidade do colarinho branco, a corrupção e isso se não chegar num estágio maior, como na Itália. Mas, no modelo que está, em 15 anos podemos chegar a isso.

Inteligência e investigação contra o vandalismo (Editorial)

POLÍTICA


O Globo
As multidões que saíram às ruas em junho não tinham uma pauta fechada. Mobilizados a partir de uma luta contra o aumento de tarifas de transporte coletivo, os manifestantes acabaram incorporando às passeatas palavras de ordem que mostravam o descontentamento contra uma série de problemas na educação, na saúde e na infraestrutura em geral.
Previsivelmente, cada grupo puxou o tom dos protestos para sua plataforma. O ronco não foi unânime nas reivindicações, mas em torno do movimento houve um consenso: a condenação à violência e ao vandalismo nos protestos.
Não por acaso, as manifestações começaram a refluir à medida que grupos, hospedando-se nos protestos, passaram a trocar o grito pacífico por ações não só de enfrentamento do aparato de segurança, imprescindível para preservar o respeito aos limites da lei, mas principalmente de vandalismo.


Ultrapassou-se, portanto, a fronteira em cujos espaços as passeatas representavam legítimos movimentos de indignação ou mesmo de reivindicações específicas de categorias de trabalhadores.
Black blocs e semelhantes não são um fenômeno novo no planeta. Suas táticas surgiram como uma alternativa à ortodoxia da chamada esquerda europeia, no início dos anos 80.
Chegaram ao apogeu midiático em Seattle, em 1999, quando manifestantes com máscaras negras, em protesto contra a OMC (Organização Mundial do Comércio), ilustraram as primeiras páginas de jornais de todo o mundo.
A democracia convive com este tipo de ameaça, desde que o Estado acione os dispositivos que a lei lhe concede para defender a segurança e o patrimônio público e privado. Agora em evidência no Brasil, eles atuam no vácuo de uma expertise de repressão que as autoridades de segurança ainda não conseguiram desenvolver.
É urgente que o façam. Rio e São Paulo, onde se concentram as ações de vandalismo, parecem estar indo por esse caminho, mas ainda precisam aperfeiçoar os protocolos de segurança contra tais atos. A punição, consequência lógica para quem transgride os limites da cidadania, é uma das pontas da defesa do Estado.