domingo, 29 de setembro de 2013

Pode existir amizade entre o professor e o aluno?


Pode haver amizade entre o(a) professor(a) e os(as) alunos(as)? Se a amizade pressupõe igualdade, ela não tem espaço onde as relações humanas se pautam por relações de poder. A autoridade do professor pode ser exercida democrática ou autoritariamente, mas não deixa de expressar relação de poder. Ambos, professores e alunos, de certa forma, representam papéis diferentes. Como escreve Vernant (2002, P. 31)*:
“Um professor age como um ator quando chega numa sala de aula. Mas existem diferentes formas de atuar. Podemos bater na mesa e mostrar toda a distância que separa alunos do professor. Podemos jogar o jogo contrário, e foi o que fiz quando dei aulas no colégio: não só sendo informal com os alunos, mas procurando abolir, até nas roupas e no vocabulário, qualquer indício de autoridade conferida por uma hierarquia social. Evidentemente, o professor sabe muito bem, seja qual for a estratégia que adotar, que não é a mesma coisa ser professor e ser aluno.”
O aluno também tem plena consciência da realidade que o interpõe ao professor. Ele joga o jogo e pode vislumbrar na postura do professor uma simples manifestação demagógica – como também pode se convencer, simplesmente, de que o professor é um tolo. Faz parte da sua estratégia de sobrevivência diante das regras sociais e burocráticas. É compreensível. Por mais que o professor se mostre democrático e amigo, ambos, ele e o aluno, sabem que: “Aquele que está sentado em sua carteira e aquele que se encontra atrás da mesa não possuem o mesmo estatuto. A estratégia da não-distância pode ser muito eficiente ou, ao contrário, conduzir aquele que a usa para a catástrofe” (p. 31-32).
Professor e aluno expressam uma relação social. Contudo, a representação democrática implica a idéia de que ambos compartilham do mesmo grupo, constituem uma comunidade. Neste sentido, é possível estabelecer um jogo que questione a hierarquia socialmente definida. Para Vernant, não se trata apenas de uma habilidade, mas de “uma estética, e de uma ética da relação social” (p. 32). O professor ético não tenta iludir seu aluno, até porque este sabe que o poder burocrático-institucional legitima a função professoral.
“É preciso começar por deixar de ser professor para poder sê-lo”, afirma Vernant. Mas é possível ao professor deixar de sê-lo, abdicar do seu papel e mesmo do seu poder? E ainda que o faça não soará como falso ao seu aluno? A amizade implica um cimento que une os iguais em suas diferenças e permite a constituição da comunidade. A idéia de que professores e alunos constituem uma comunidade, um grupo, indica que, apesar do jogo de poder, eles são cúmplices:
“Esse elemento fundamental é o sentimento de cumplicidade, de uma comunidade essencial sobre as coisas mais importantes. Na relação do professor com seus alunos, é o fato de compartilhar uma certa imagem do que deve ser uma pessoa, de ter em comum uma forma de sensibilidade e de abertura para o outro, de concordar com a idéia de que ser outro significa também ser semelhante” (Id.).
É preciso anular a distância que separa professores e alunos, mas é possível? Não se pode ser simultaneamente professor e aluno. Também não se deve perder de vista que “as estratégias igualitárias têm um aspecto hipócrita, demagógico, e podem na verdade reforçar as posições de poder” (Id.). E os limites entre o democrático e demagógico são tênues. Porém, se o ser professor indicar uma atitude fundada em algo mais forte do que a relação de poder. Ou seja, se há ética na relação social e a compreensão de que professor e aluno constituem uma comunidade, então é possível diminuir a distância que os separa e fortalecer a relação fundada no sentimento de amizade. Este sentimento não indica harmonia, mas pertencimento à mesma comunidade. Ao pautarmos a relação por esta ética e sentimento, a amizade nos transforma. Assim, se o professor demonstra amor pelo que faz e respeito aos seus alunos, maior será a possibilidade destes se verem numa relação social formadora de uma comunidade cimentada por laços de solidariedade.
A amizade “sempre implica afinidades relativas às coisas essenciais” (p. 33). Trata-se de colocar em destaque o que é fundamental na relação professor-aluno para que eles se reconheçam enquanto um grupo constituído, uma comunidade. Pois a amizade também implica em que os diferentes compartilhem para que possam criar algo juntos. Nesta relação, o professor se constrói e também aos seus alunos: na medida em que está aberto ao outro, este outro se reflete nele e ele se transforma; mas, simultaneamente, transforma o outro. Nessa interação, que é conflitante e contraditória, a amizade torna-se possível.
E você, caro(a) leitor(a), considera possível a amizade entre professores e alunos? Como avalia os argumentos expostos acima?

* Esta reflexão resulta de notas de leitura da obra Entre Mito e Políticade Jean-Pierre VERNANT (São Paulo: Edusp, 2002). Todas as citações se referem a este livro.

Sobre a Amizade

Sobre a Amizade

*“Entre amigos tudo é comum”, já diziam os gregos. Eles foram os primeiros a estabelecerem a separação público e privado. A esfera pública diz respeito ao que deve ser compartilhado, colocado em comum; já o âmbito do privado se refere ao que pertence a cada indivíduo, à sua singularidade. A amizade se tece na interface entre o público e o privado. Através dela publicizamos a nossa individualidade, compartilhamos nossos desejos e sonhos. Mas isto não se dá aleatoriamente, e sim em comunidade. Esta é a chave da amizade: os amigos formam uma comunidade de compartilhamento, sentem-se em comum. Não se trata, portanto, de uma relação restrita a dois indivíduos, mas a um fórum mais amplo que inclui os que constituem “os amigos”. Isto não quer dizer que tudo entre eles é “comum”, nem que a relação de igualdade suprima as diferenças A amizade supõe um certo igualitarismo, fundado no que é comum, e divergências.
A amizade pressupõe partilha, igualdade. Não pode haver amizade em relações de poder, em que um se sobrepõe ao outro e um dos pólos se submete. “Quando se é amigo, mesmo se existir discordância ou rivalidade, é-se igual. Para um grego, só é possível ter amizade por alguém que é, de alguma forma, um semelhante: um grego para com outro grego, um cidadão para com outro cidadão” (p.28). [1] A política do “inimigo meu inimigo teu” exige submissão ao indivíduo que se considera o líder ou se imagina a personificação do grupo. A homogeneidade do grupo não pode descartar a diferença. “Não há philía sem rivalidade, éris” (Id.). A amizade pressupõe conflitos e, portanto, uma relação democrática. Sem discussão não se tem amizade, mas sim submissão.
A amizade inclui os amigos, mas também os colegas. A diferença talvez esteja no grau de intensidade: se considero alguém meu amigo, sinto-me mais próximo dele e mais predisposto a compartilhar; já o colega é alguém mais distante, porém, como o amigo, compõe o círculo, a comunidade, isto é, constitui uma referência.
A amizade pressupõe igualdade e partilha, mas não em qualquer circunstância e com qualquer um. Na verdade, escolhemos com quem compartilhar, quem é o nosso igual. A amizade é eletiva e seletiva. “As pessoas que escolhemos, aqueles com quem temos afinidades são aquelas que nos inspiram uma confiança total. Existe nisso algo da ordem da escolha, da avaliação; o “nós” não existe necessariamente apenas porque trabalhamos no mesmo setor ou porque temos as mesmas idéias” (p.30). É preciso sentir-se em comunidade. “E não existe comunidade sem philía, sem o sentimento de que, entre o outro e nós, alguma coisa circula, a qual os gregos podiam representar sob a forma de um daímõn alado, que voa de um para o outro” (p.31).
“Existimos com e pelos outros, que, ao mesmo tempo, são e não são como nós” (p.35). A amizade não é um percurso harmonioso, fácil de percorrer. Implica conflitos, transformações do eu e do outro. “É assim que se tece a amizade, por meio de percursos mais ou menos difíceis, de fracassos, de contra-sensos, de retomadas… Não existe imediato no homem. Tudo acontece por meio de construções simbólicas” (Id.).
A amizade pressupõe a luta por sua construção; ela não está dada a priori, tem que ser tecida. Se ela pressupõe fidelidade, como o amor, pode ocorrer a necessidade do rompimento, que se corte o tecido para ser fiel a si mesmo. Há indivíduos que precisam romper com os outros e com eles mesmos. “Só conseguem ser eles mesmos cortando não só o tecido que os une aos outros, como também aquele que os une a si mesmos” (p.37). Um exemplo dessa dupla ruptura é as cisões políticas e/ou religiosas. Muitos não conseguem consolidar o rompimento sem que se transforme no oposto do que eram.

* Anotações de leitura da obra Entre Mito e Política, de Jean-Pierre VERNANT (São Paulo: Edusp, 2002).

o significado pedagógico da dissidência

Noam Chomsky: o significado pedagógico da dissidência

*Nas livrarias e sebos salta aos olhos a quantidade de biografias à disposição do leitor-consumidor. Há histórias de vidas para todos os gostos: política, ídolos da juventude, livros que alimentam a curiosidade sobre a vida alheia etc. Afinal, por que se escrevem tantas biografias? Do ponto de vista mercadológico a resposta deve estar na possibilidade de atender a expectativa de consumo e, é claro, concretizar o lucro. Mas de onde vem esta expectativa? Por que os indivíduos, mesmo os não dados a leituras cotidianas, são tão fascinados por este gênero literário?
A verdade é que estas vidas, sintetizadas em palavras, transformadas em livros, valor de uso e valor de troca, são vidas modelares. São vivências que extrapolam o viver comum da maioria dos indivíduos; vidas virtuosas que se destacam. Portanto, do ponto de vista do leitor, a biografia cumpre uma função modelar. É o exemplo a ser admirado e, se possível, seguido. Mas é também o exemplo a ser recusado e criticado. Em ambos os casos, para o bem ou para o mal, cumpre uma função pedagógica, tem uma potencialidade educativa e configura uma pedagogia do exemplo.[1] O paradoxo é que a biografia é una, singular e intransmissível. Por mais elogios que o biografado mereça, a sua vida não poderá ser assumida por outro, este não pode vivê-la à sua maneira. Talvez a sua força resida neste paradoxo…
Que o leitor me perdoe por estas digressões. Mas, como aprendi com Paulo Freire, a leitura dialógica pressupõe uma atitude ativa e crítica, isto é, uma interação entre o leitor e o autor, através do seu escrito.[2] Vale a pena ler uma obra quando esta acrescenta algo, quando esta é instigante, quando dialogamos com o lido. O leitor passivo toma o lido enquanto a verdade consubstanciada em palavras. Esta atitude nega a riqueza do diálogo e despreza a necessidade da dúvida metodológica.
Os dissidentes são, em essência, indivíduos insatisfeitos, instabilizadores da ordem, críticos das certezas absolutas. Seria, portanto, um desrespeito, e também a demonstração de nada ter aprendido, se a leitura de um livro sobre a vida de um dissidente se resumisse apenas à passiva atitude de maravilhar-se. A biografia de Noam Chomsky permite este diálogo; não é o tipo de obra a ser lida passivamente. A vida de um dissidente é, em si, ativa, polêmica e instigante.
Noam Chomsky: a vida de um dissidente, de Robert F. Barsky, é dividido em duas partes: os três primeiros capítulos tratam do meio que formou Chomsky; os dois últimos, do meio que ele ajudou a criar, isto é, da sua influência sobre as pessoas nos espaços em que conviveu. Na primeira parte, o autor analisa a influência da família, da cultura e política judaicas, dos primeiros passos no mundo acadêmico e o impacto do pensamento cartesiano e racionalista sobre o desenvolvimento intelectual de Noam Chomsky no campo lingüístico. Na segunda, ele enfatiza a carreira universitária e o ativismo militante do biografado. Por fim, o autor contempla a atualidade, o trabalho de Noam Chomsky em relação ao cenário sóciopolítico contemporâneo.
Escrever sobre a vida de um intelectual à altura de Noam Chomsky não é uma tarefa fácil. O autor a define com “assustadora”. Por que? Eis seu argumento:
“Chomsky é uma das mais importantes figuras deste século e é descrito como um daqueles que serão para as futuras gerações o que Galileu, Descartes, Newton, Mozart e Picasso foram para a nossa. Ele é o ser vivo mais citado do mundo – 4 mil citações de sua obra estão relacionadas no Arts and Humanities Citation Index (Índice de Citações de Artes e Humanidades) de 1980 a 1992 – e é o oitavo numa lista, que inclui Marx e Freud, das figuras mais citadas de todos os tempos”. (BARSKY: 2004, p.15)
O autor continua a exibir dados estatísticos sobre citações, publicações e se refere aos inúmeros prêmios recebidos pelo biografado. È mesmo “assustador”. A responsabilidade do biógrafo não é pequena. Ao tratar de um intelectual desta envergadura, qualquer autor corre o risco de fazer a apologia. Este é um dos dilemas das obras biográficas – excetuando, é claro, aquelas de cunho declaradamente crítico. Como escreve Carino (1999: 155):
“Embora as apologias proliferem, seus autores preferem tentar esconder-se (sem êxito) por detrás de uma pretensa neutralidade. Quando a admiração pelos biografados é forte a ponto de tornar-se incontrolável, os biógrafos preferem renunciar a qualquer distanciamento crítico e deixam-se levar pelas ondas arrebatadoras de sua paixão, tornando-se cegos (como qualquer apaixonado) e chegam muitas vezes a naufragar no ridículo. Em verdade, o que fazem são “hagiografias”, cuidando, eles mesmos, de canonizar seus biografados”.
Não é o caso desta biografia. A própria personalidade do biografado não o permite. Chomsky não admitiria o culto à personalidade e ele tem claro que a biografia de um indivíduo está vinculada à vida de inúmeras pessoas que não aparecem e que não são objetos dos biógrafos. Seu biógrafo está atento a este aspecto, mas sua biografia se mostra simpática ao biografado. Por outro lado, é importante ressaltar a sua premissa de que “as idéias de Chomsky, e em particular suas idéias políticas, não podem ser totalmente entendidas sem algum conhecimento acerca das organizações, dos movimentos, grupos e indivíduos com os quais ele teve contato”. (BARSKY: 2004, p. 17)
Dessa forma, a leitura da obra nos permite não apenas conhecer a vida de um dissidente, mas também a história, a cultura e sociedade contemporânea, bem como os movimentos políticos judaicos e no âmbito norte-americano. Permite-nos, ainda, aprender sobre o sistema educacional, o campo acadêmico e a intelectualidade norte-americana. O leitor interessado pela lingüística também encontrará farto material sobre o tema.
A vida de Noam Chomsky atualiza alguns problemas candentes para os intelectuais responsáveis diante do mundo. Sua vida é um desafio ao intelectualismo individualista dos que se isolam em suas torres de marfins e, assim, filosofam sobre o mundo sem arriscarem a assumir compromissos práticos que coloquem em xeque as possibilidades de angariar as benesses prometidas pelo status quo. É um desafio à hipocrisia que reina no campo acadêmico, onde os interesses egoísticos solapam qualquer perspectiva de compromisso social e político, em nome de uma pretensa cientificidade e neutralidade axiológica. Chomsky aceita o dilema de agir segundo a vocação dual do cientista e do político e, simultaneamente, respeitar as particularidades de cada espaço:
“Há um terreno intermediário que eu gostaria de ocupar e acho que as pessoas vão ter de achar meios para isso: isto é, tentar manter um compromisso sério com os valores intelectuais e problemas intelectuais e científicos que realmente as preocupam e, ao mesmo tempo, fazer uma contribuição séria e, espera-se, útil para as enormes questões extracientíficas. O compromisso com o trabalho acerca dos problemas de racismo, opressão, imperialismo e assim por diante, nos Estados Unidos, é uma necessidade absoluta”. (Idem, p. 149)
Isto não é simples nem fácil. Aceitar o compromisso de responsabilidade política e social e manter a atividade do cientista, exige dispêndio de tempo nem sempre disponível, sacrifícios no âmbito familiar e individual e pressupõe um conflito pessoal permanente. Isto é ainda mais complexo quando o indivíduo, como exemplifica Chomsky, torna-se uma voz dissidente no campo acadêmico e extra-acadêmico.
Noam Chomsky é o tipo de intelectual que não faz o sacrifício do intelecto. Descendente de família judaica, polemiza com os judeus sobre o sionismo, o Estado de Israel e a liberdade da crítica; influenciado pelo pensamento libertário, entra em rota de colisão com a esquerda vinculada à tradição marxista; intelectual reconhecido em sua área, confronta a autoridade instituída e desafia a ortodoxia; cidadão norte-americano, não poupa críticas às políticas governamentais, mas também não aceita as justificativas de certa tradição esquerdista para quem o equivocado é sempre o outro e nunca os que estão nas próprias fileiras. Em sua obra, Robert F. Barsky, expõe as atividades de Chomsky enquanto cientista e intelectual engajado, suas influências intelectuais e as polêmicas em que se envolveu.
A vida de Noam Chomsky é modelar. E os modelos podem ser “negativos” ou “positivos”, a depender da interpretação do leitor. Porém, não esqueçamos que o leitor não se encontra suspenso no ar, isto é, sua atitude e posicionamento político diante da ordem instituída – dentro e fora da academia – é um fator de profunda influência sobre a sua postura. Em qualquer dos casos, é preciso ter a ousadia intelectual para confrontar nossas certezas e, então, podermos aprender. Só por isso, já vale a pena ler esta obra.
Referências
BARSKY, Robert F. Noam Chomsky: a vida de um dissidente. São Paulo: Conrad Editora, 2004 (271 p.)
CARINO, Jonaedson. “A biografia e sua instrumentalidade educativa”. Educação e Sociedade, Ano XX, agosto de 1999, nº 67, Campinas/SP: Cedes, pp. 154-178.
FREIRE, Paulo. Considerações em torno do ato de estudar. Revista Espaço Acadêmico, nº 33, fevereiro de 2004.

Quem são os intelectuais?

Quem são os intelectuais?

“Quando os intelectuais falam dos intelectuais estão falando, na realidade de si próprios, mesmo se por uma curiosa duplicação de personalidade acabam por falar da própria confraria, como se a ela não pertencessem” (Norberto BOBBIO[1]
A postura sobre o intelectual é carregada de contrariedades. Depende de quem o analisa, e dele próprio. A origem intelectual tem como marco o dia 14 de janeiro de 1898. Nesta data, apareceu em Paris, no jornal L’aurore, oManifeste des intellectuales, assinado por ilustres escritores como Zola, Anatole France, Proust, a favor de Dreyfus. Entao, o termo já estava incorporado e aceito na acepção vigente. Os intellectuales, segundo Bobbio, viam-se como não-políticos e enquanto homens de letras que combatiam “a razão de Estado em nome da razão sem outras especificações, defendendo a verdade da qual se consideram os depositários contra a “mentira útil”. [2]
Antes de ser assumido pelos dreyfusistas, o termo estava associado à palavra russa intelligentsia, que se tornou comum no idioma italiano:
“No particular contexto da história da Rússia pré-revolucionária, de fato, o termo, usado, ao que tudo indica, pela primeira vez, pelo romancista Boborykin, e difundido nos últimos decênios do século XIX, significava o conjunto (não necessariamente constituindo um grupo homogêneo) dos livres pensadores – que iniciaram, promoveram e ao fim fizeram explodir o processo de crítica da autocracia czarista e, em geral, das condições de atraso da sociedade russa.” [3]
No movimento operário socialista, o termo se tornou célebre a partir de Lenin e sua obra Que fazer?(1902), quando ele difundiu a tese de Karl Kautsky, segundo a qual a consciência socialista do proletariado é exterior a este. O que significa afirmar que não resulta espontaneamente da luta direta entre as classes sociais, mas sim como produto do acúmulo de profundos conhecimentos científicos, algo só possível aos intelectuais. Na base desta polêmica está a idéia, já presente em Platão (A República), de que os trabalhadores necessita de uma vanguarda iluminada, de filósofos e líderes que indiquem o caminho. A estes caberia a tarefa pedagógica de educar, no sentido de levar a teoria revolucionária aos trabalhadores, liderá-los e governar. Eis o núcleo central da concepção de partido revolucionário, portador da razão e demiurgo da história.
De qualquer forma, os intelectuais correspondem a uma categoria mais antiga do que imaginamos. Os doutos, philosophes, literatos, gens de lettre, enfim, os intelectuais modernos, tem como predecessores os religiosos, clérigos e outros que, nos diversos contextos sociais, expressaram o poder ideológico. Como ressalta Bobbio:
“Embora com nomes diversos, os intelectuais sempre existiram, pois sempre existiu em todas as sociedades, ao lado do poder econômico e do poder político, o poder ideológico, que se exerce não sobre os corpos como o poder político, jamais separado do poder militar, não sobre a posse de bens intelectuais, dos quais se necessita para viver e sobreviver, como o poder econômico, mas sobre as mentes pela produção e transmissão de idéias, de símbolos, de visões, de ensinamentos práticos, mediante o uso da palavra (o poder ideológico é extremamente dependente da natureza do homem como animal falante)”. [4]
A palavra, escrita e falada, é o instrumento principal do poder ideológico. Os intelectuais são os que têm as condições propícias para o exercício deste poder. A quem favorecem? Contribuem para reprodução ou a crítica do status quo? Nenhum intelectual é política e ideologicamente neutro. Qual é, portanto, o seu papel social, a sua função?
Referência
BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo, Editora UNESP, 1997.

CELSO ARNALDO: O duelo virtual, mas pessoal, entre Dilma Bolada e Dilma Rousseff reacende a polêmica: existe uma Dilma oficial?

CELSO ARNALDO ARAÚJO
─ Oi, internautas.
A saudação comicamente pueril, que encabeça qualquer lista dos assombros produzidos por Dilma desde que ela foi obrigada a falar em público, era um aviso: a mineira-gaúcha que fizera fama exclusivamente por seu gênio irascível no subsolo do governo, e fora guindada à condição de candidata à Presidência da República por vontade pessoal de Lula, encontrava-se na era paleolítica do mundo digital.
O “oi, internautas” foi sua resposta sincera, bastante e definitiva, no nível de sua desenvoltura, ao pedido de Marcelo Branco, então guru virtual da candidata-surpresa do PT, para que mandasse uma mensagem aos que a seguiam nas redes.
Mas, pouco a pouco, à medida que ela ia expondo seus pensamentos sobre saúde, educação, agricultura, condição feminina, sempre com uma inclemente pobreza de raciocínio, esse irremediável deserto de ideias foi se alastrando para todos os temas do mundo real.
Os palanques da campanha e, logo em seguida, os do Brasil Maravilha de Dilma/Lula ganharam a presença empolgada da pior oradora de todos os tempos, incluindo as cavernas ainda silenciosas e os milênios por vir. Mas a tentativa inicial de expressar rudimentos de ideias em 140 toques foi sumariamente abandonada em 13 de dezembro de 2010 ─ quando o Twitter oficial da então presidente eleita Dilma Rousseff calou-se prudentemente.
Esta semana, Dilma retornou, triunfalmente, ao estrelato virtual. A campanha de 2014 já começou.
Esta semana, aliás, ela foi do topo do mundo ─ o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, em plena cidade-ícone dos Estados Unidos, onde eriçou o topete para passar outro pito em Obama pelo Spygate ─ aos píncaros da insignificância, recebendo no Palácio do Planalto, para marcar o renascimento de seu perfil oficial no Twitter, o criador do personagem virtual Dilma Bolada, que faz gracinhas domesticadas em perfis com a foto da presidenta. Sátira? Não, exatamente. A tentativa de humor disfarça, ou melhor, não disfarça, o proselitismo escancarado:
No Twitter:
– Sou linda, sou diva, sou Presidenta. SOU DILMA!!! Bjs
No Face:
- Em primeiro lugar, boa noite! Em segundo Marina, em terceiro Aécio, em quarto o Campos tudo ladeira abaixo…Uma coisa é fato: não adianta rogar praga, colocar meu nome na encruzilhada, fazer vodu porque o que o povo guardou pra gente, ninguém tira!
Bem, a estadista que em nome da liberdade cibernética do mundo peita Obama em sua própria casa, a ponto de o presidente americano ter se ausentado, inusitadamente, da abertura da Assembleia da ONU, acolheu no Palácio dois dias depois, com carinho de avó e a leveza descolada de uma fã de Justin Bieber, o quase imberbe e inofensivo Jeferson Monteiro ─ alter ego de Dilma Bolada.
Não, ele não esteve nas ruas em junho. Apesar da aparente causticidade de seus ditos em nome de Dilma, nunca joga uma bola pelas costas. Mas o pessoal da Secretaria da Comunicação fica mesmo diabólico em época de campanha: com esse encontro, numa só jogada, a estadista da ONU demonstrou modernidade, bom humor, desprendimento. Oi, internautas.
O duelo de teclados entre os dois perfis de Dilma ─ a oficial Rousseff e a fake Bolada ─ foi reproduzido, sem qualquer reparo, pela grande mídia. Os blogs financiados foram à cloud. Pois as duas Dilmas, cada qual em seu notebook, mas lado a lado, certamente num dia de pouco movimento na casa, travaram um dos grandes diálogos da história republicana, sem retoques:
Dilma Oficial:
─ Bom dia linda maravilhosa, sempre acompanhei vc. Mas não me dê bom dia. Mas me dê bons resultados.
Dilma Bolada:
─ Bom dia pra mim mesma linda, maravilhosa, sempre eu, @dilmabr, Finalmente o pessoal e profissional se cruzando…
Dilma Oficial (com um toque de Guimarães Rosa soprado pela assessoria)
─ Vocêzinha eu acho que por boniteza, eu por precisão. Lanço hoje o novo @portalbrasil . São + informações,serviços & participação.
Vocêzinha? Huumm.. Portal? Sim, vamos ao que interessa que é ensaio de campanha: além do renascimento do Twitter, nessa pré-estreia de gala com o duo Dilmas, há que cumprir a pauta dos marqueteiros ─ o lançamento do novo Portal interativo e…
Dilma Bolada:
─ Agora é hora de sambar e falar do #MaisMédicos, o programa maravilhoso que tinha que ter até no hospital do Cesar de “Viver A Vida”…
Dilma Oficial:
─ Respeito muito os médicos brasileiros, mas traremos médicos de onde pudermos. Importante é atender melhor a população. Isso é o + médicos
Bem, o resto é o resto ─ incluindo um pito na The Economist pela capa do looping descendente do avião Brasil em torno do Cristo Redentor.
Parece óbvio que Jeferson saiu do Palácio enlevado com o upgrade de seu personagem ─ ele é o caso clássico do imitador que homenageia o ídolo ao longo de toda uma carreira e, um dia, tem a honra de dividir o palco com ele. Em sua primeira tuitada fora do cenário oficial, ele retomou, no Facebook, a linha da sátira a favor, em nome de Dilma Bolada:
─ Gente, o Jeferson Monteiro já foi. Ele até que é gente boa mas despachei logo porque tenho mais o que fazer. Agora ninguém me segura com o twitter lá o outro cá, o Face aqui é o do Planalto também, e o insta @dilmabolada e @palaciodoplanalto. Sambei!
Se cuida Obama!!!
ÊTA PRESIDENTA CONECTADA!!!
Os três anos que separam o último tweet da primeira fase do Dilma Oficial desse renovado “o”” da presidente aos internautas, no diálogo non sense com Dilma Bolada, foram deixando no caminho evidências cabais de que a Dilma Oficial, a que ora ocupa a Presidência e caminha para a reeleição, é a verdadeira Dilma Bolada: uma criação ficcional, um falso perfil, que tomou corpo e forma reais. Por isso, não é surpresa que Dilma Bolada, através da figura deslumbrada de seu oportunista criador, tenha sido admitido no Palácio do Planalto.
Dilma Rousseff, a Oficial, chegou lá três anos antes.
Quanto a Jeferson, o futuro do falso outsider brincalhão está garantido ─ agora, com a melhor madrinha, ele é Oficial.
Por falar nisso, alguém sabe por onde anda o Dilmaboy?

Matando a democracia por um mundo melhor


Demétrio Magnoli e Elaine Barbosa oferecem uma visão panorâmica da segunda metade do século 20, enquanto que Jan-Werner Müller apresenta uma defesa desinibida da ordem democrática liberal.
"Liberdade versus igualdade (vol.2): O Leviatã desafiado, 1946-2001", de Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa
“Liberdade versus igualdade (vol.2): O Leviatã desafiado, 1946-2001″, de Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa
contesting
“Contesting democracy: Political ideas in twentieth-century Europe”, de Jan-Werner Müller

Estou convencido de que, dentro de vinte anos, se não houver nenhum movimento
retrógrado na evolução política, não haverá mais assembleias legislativas na Europa.
Antônio Salazar (1934)

1.

Esses dois livros ajudam a amarrar as pontas ideológicas do século 20. O livro de Demétrio Magnoli e Elaine Barbosa é o segundo volume de Liberdade versus igualdade. O primeiro, que vai de 1914 a 1945, saiu em 2011. O segundo, do final da Segunda Guerra aos ataques de 11 de setembro de 2001, saiu meses atrás. Juntos, eles narram, através de uma visão panorâmica e linguagem jornalística, os principais fatos políticos, econômicos, militares e comportamentais do século passado. O livro do professor em Princeton Jan-Werner Müller se circunscreve às batalhas intelectuais na Europa.
Como o totalitarismo europeu contaminou o restante do planeta, a obra de Müller pode até ser lida antes dos dois volumes de Magnoli e Barbosa. Por outro lado, se você que me lê no momento é um jovem que até agora só teve contato com a historiografia do século 20 mais ou menos marxista, eu sugeriria primeiro a leitura de Liberdade versus igualdade, como um contraponto de leitura ágil, para só então você passar para historiadores liberais de mais fôlego, como Müller, Robert Conquest, John Lewis Gaddis e Michael Burleigh, cujas obras são melhor aproveitadas se o leitor já tem um conhecimento razoável dos principais caminhos do século 20, conforme delineados não apenas por autores de esquerda.
Por exemplo: hoje em dia praticamente nenhum autor tem a cara-de-pau de defender o Pacto de Varsóvia, mas muita gente ainda, desde os bancos escolares, só consegue enxergar a aliança militar comunista como um suposto equivalente moral da Otan. Mas como observam Magnoli e Barbosa em uma de suas passagens desmistificadoras:
O Pacto de Varsóvia, constituído em 1955, ostensivamente como resposta ao rearmamento da República Federal da Alemanha, não era uma aliança militar defensiva, mas uma ferramenta da hegemonia soviética sobre o bloco de países satélites. Sua função, oculta mas bastante óbvia, consistia em servir como sentinela armada dos regimes comunistas da Europa Oriental. Como colocar um sinal de identidade entre uma aliança voluntária dirigida contra a perene ameaça soviética e um pacto entre governos tirânicos dirigidos contra os povos que oprimiam?
Ao final de cada parte de O Leviatã desafiado, há uma espécie de crônica dos tempos, com as mudanças sócio-culturais em diversos cantos do mundo. O grosso do conteúdo de cada parte é dedicado aos temas geopolíticos. Dessa forma, o capítulo que cobre o período 1960-1974 tem cerca de 100 páginas sobre a Revolução Cultural chinesa, a Primavera de Praga, o crescimento da Irmandade Muçulmana etc., e cerca de 20 páginas sobre as diversas conquistas das mulheres.
O Leviatã foi desafiado de todos os lados, de formas e em várias intensidades. Magnoli e Barbosa fazem um ótimo trabalho ao trazerem para as páginas não apenas as revoltas de fundo totalitário de certa esquerda ocidental nos anos 60 e 70, como também os ataques à democracia “ocidental” desferidos por ditadores latino-americanos, asiáticos (como Sukarno e sua “democracia dirigida”) e por ideólogos árabes como Michel Aflaq e Salah Bitar (sírios, ambos). Aflaq e Bitar são uma prova da influência decisiva que o pensamento antiliberal europeu teve no Terceiro Mundo. Os dois “estudaram juntos na Sorbonne, na década de 1930, quando formularam as bases da doutrina que combinaria as ideias da unidade árabe às do socialismo”.
O baathismo, como incontáveis vertentes da descolonização, via a democracia liberal do Primeiro Mundo como um modelo falido, e defendia que os árabes teriam sim que viver em democracia, mas uma democracia em que as liberdades, inclusive de imprensa e associação, deveriam estar “dentro dos limites do interesse nacional árabe” – o qual, obviamente, seria definido pela cúpula do movimento.
Não demoraria muito para nascer o choque de autoritarismos que ainda hoje martiriza o mundo árabe-muçulmano. De um lado, propostas seculares como a do Baath de Saddam Hussein e Bashar al-Asad, além do nasserismo; de outro, o desafio posto por grupos religiosos menos (Irmandade Muçulmana) ou mais (wahhabismo, Al-Qaeda e suas franquias) fundamentalistas. O Leviatã desafiado tem o que pouquíssimos livros de história de autoria de brasileiros têm: trechos e análises de discursos e escritos dos precursores do fundamentalismo, como os egípcios Sayyid Qutb e Hassan al-Banna. Qutb não era apenas um islamita (ou seja, um muçulmano que aplica, ou melhor, funde o islã à política), mas um pensador totalitário ao pé da letra. Nazismo e fascismo falharam, dizia ele; chegou a vez do islã, interpretado “como uma ideologia universal e uma filosofia de vida completa”, explicam Magnoli e Barbosa, ideologia que deveria ditar desde as vestes apropriadas para homens e mulheres até os assuntos a serem ensinados (para homens) em sala de aula e as circunstâncias em que se justifica um estado declarar guerra contra outro. O Ocidente marcara sua própria sentença de decadência e morte ao separar Igreja de Estado. O islã moldaria o estado e este promoveria então o bem-estar de todas as pessoas.

2.

O leitor de Contesting democracy vai encarar três teses principais: 1)o pensamento político liberal pré-1914, que bem valeria a pena defender diante das alternativas hegemônicas à direita e à esquerda, forneceu as bases para o consenso pós-Segunda Guerra; 2)no pós-guerra, a Democracia Cristã foi tão ou mais importante que a Social-Democracia para a consolidação de um forte arranjo democrático; 3)nenhum dos dois maiores desafios a esse arranjo desde então, os movimentos de 68 e o neoliberalismo econômico, conseguiram derrubá-lo, e é melhor que tenha sido assim.
A tragédia que deslegitimou (momentaneamente) a democracia liberal europeia foi, claro, a Primeira Guerra, esse mais estúpido de todos os conflitos. Após a carnificina e a mediocridade criminosa de líderes políticos, as concepções tradicionais de legitimidade caíram em descrédito. Novas justificativas para os mandatos políticos, “mais extensas e mais explícitas”, puderam ser desenvolvidas, e deu-se o nascimento das lideranças carismáticas que não deixariam mais que reles “formalismos” atrapalhassem os caminhos da nação, da raça, da classe trabalhadora – o Nacional-Socialismo alemão priorizaria o segundo item, o fascismo italiano fundiria o primeiro e o terceiro, e os diversos revolucionarismos de esquerda ficariam com o terceiro, só décadas mais adiante incorporando o primeiro.
Mas o consenso liberal pré-1914 foi forte durante o muito que durou, e não sumiu de todo. Sua linguagem pró-democracia, pelo menos, permaneceu. “Mesmo os experimentos políticos que estridentemente definiam-se como contrários à democracia parlamentar liberal (…) jogavam com as aparências dos valores democráticos”, escreve Müller. Giovanni Gentile, ideólogo fascista, jurou em uma edição de 1927 da Foreign Affairs que “o Estado fascista (…) é um estado popular e, como tal, o estado democrático par excellence”. É nesse sentido que devemos entender a contestação da democracia apresentada por Müller: não, principalmente, como discursos explicitamente antidemocráticos propondo experiências antidemocráticas, mas como discursos democráticos na fachada, propondo uma democracia melhor e “verdadeiramente” popular, mas que no fundo escondem os atalhos que levarão a regimes antidemocráticos por qualquer definição de bom senso do termo.
De Gentile, passamos para Lenin. O pai da revolução russa não tinha dúvidas de que estava implantando naquela infeliz nação “uma democracia verdadeiramente completa”. O inimigo, dizia ele, não era a democracia, mas o “parlamentarismo”. A democracia russa seria não-parlamentar, então. Ademais, apenas indivíduos “produtivos” teriam direito a voto – ou seja, os trabalhadores. E o único representante legítimo dos trabalhadores seria o Partido. Do bolchevismo para o nazismo: para Carl Schmitt, uma “democracia genuína” é aquela em que a identificação entre os governantes e os governados é total, de forma que um regime como o de Mussolini, na Itália, é mais “verdadeiramente democrático” do que o parlamentarismo liberal, onde os cidadãos muitas vezes se acham alienados de seus líderes. Do nazismo para o stalinismo: György Lukács dizia que não existe “liberdade real” em uma democracia parlamentar, mas somente quando há “subordinação consciente do eu ao desejo coletivo”, desejo este que é representado pelo Partido. Nada contra a democracia, em suma.
As três ideias centrais que sustentavam o consenso pré-1914, escreve Müller, eram “a ausência de guerra e outros tipos de violência em larga escala”, “uma crença no geral muito forte no progresso, especialmente no progresso científico”, “e uma crença na eventual europeização do mundo” – que significava basicamente propagação de valores democráticos e técnico-científicos. Não é necessário ser especialista em história contemporânea para perceber que tal consenso derivava diretamente do Iluminismo. É por isso que o nazi-fascismo foi o supremo anti-Iluminismo. “O ano de 1789 está doravante erradicado da história”, disse Goebbels em 1933. E Müller:
O fascismo se opôs a virtualmente tudo que o Iluminismo defendia: a ideia de que os seres humanos poderiam chegar à verdade através do raciocínio conjunto, de que eles poderiam garantir-se mutualmente direitos iguais e liberdade através de um contrato social, de que razão e progresso estão inextricavelmente ligados. Assim, os fascistas têm sido chamados de misologistas – odiadores da razão.
O autor elenca as semelhanças entre fascismo, nazismo e comunismo, mas nota também suas diferenças centrais. O nazismo, em contradição ao fascismo, centrava na importância da raça; e, em contradição ao leninismo, era mais anárquico. Já o stalinismo, entendia que “a luta de classes se tornaria mais severa à medida que o socialismo se aproximava; e, no processo, o estado não murcharia, mas na verdade se tornaria mais poderoso”.
Müller também analisa com perícia as semelhanças e diferenças dos autoritarismos não-fascistas do entre-guerras, em relação ao regime de Mussolini e entre si. Por exemplo, enquanto o ditador italiano se via e queria ser visto como um semideus, o ditador português Salazar fazia questão de ser visto como um humilde servidor público – não um mobilizador das massas como o italiano, mas alguém que as coloca em seu “devido lugar” e faz a apologia do comportamento bovino. O paternalismo salazarista deixava espaço para uma miúda forma de pluralismo, algo inviável na Itália ou na União Soviética.

3.

Após a Segunda Guerra, o discurso de contestação da democracia que se apossou da Europa Oriental foi o comunismo, através de suas “democracias populares”. Inicialmente, muita, muita gente recebeu os soviéticos como libertadores, ao invés de novos imperadores. Para os europeus orientais, o império nazista era um terror na teoria (com os eslavos e outros povos classificados como “subumanos”) e na prática. O império soviético, por outro lado, não tinha um discurso racista, mas sim universal, e, após anos de morticínio em mãos alemãs, esse dado já era um alívio para parte das terras de sangue entre Alemanha e Rússia.
Mas a prática soviética não tardou a se impor sobre o discurso, nem tampouco as primeiras insatisfações com a nova ordem, que levariam aos picos de 1956 e 1968. Assim como havia comparado antes os totalitarismos e os regimes autoritários não-totalitários, Jan-Werner Müller aproveita essa parte do livro para comparar as “democracias” do leste europeu, outro ponto alto da obra.
Enquanto isso, na Europa ocidental o estado no pós-guerra era desalentador, mas, por isso mesmo, o espírito para a (re)construção de uma ordem duradoura começou aos poucos a vencer o desânimo e o pessimismo. É aí que entra a segunda tese de Müller: a importância decisiva da Democracia Cristã, “a mais importante inovação ideológica do período pós-guerra, e uma das mais significantes do século 20 europeu como um todo”. A DC, observa ele, foi um movimento imprescindível para as duas políticas mais bem sucedidos do século no continente, a saber, o estado de bem-estar social e a integração europeia. Com habilidade e poder de síntese,Contesting democracy traz uma narrativa das origens da DC que é raramente igualada por outros volumes sobre o século passado, indo do pensamento dos católicos franceses Emmanuel Mounier e Jacques Mauritain aos pragmáticos políticos da República Federal da Alemanha.
Os partidos da DC estavam bem posicionados para receber os votos conservadores, após o fracasso do extremismo de direita, e faziam questão de ser o principal baluarte contra a comunização do continente.
(…) os democratas-cristãos se tornaram os partidos mais quintessencialmente anticomunistas do período, ajudados pelo fato da direita tradicional ter sido tão completamente desacreditada junto com o fascismo. Uma razão pela qual os direitos humanos se mostraram tão atrativos para os católicos é que a linguagem dos direitos pessoais podiam sem empregados contra a ameaça do “bolchevismo ímpio”.
Ao mesmo tempo, os democratas-cristãos defendiam um “Estado decente”. O estado de bem-estar social do pós-guerra visava principalmente à reconciliação das classes médias com o novo arranjo, não permitindo, por exemplo, a volta do surto inflacionário que, anos antes, havia levado estas classes a darem o peso decisivo para o sucesso político da extrema-direita. “Tal reconciliação”, escreve Müller,
foi muito facilitada pelo fato de que o estado de bem-estar foi justificado, nem tanto em termos de ideais socialistas duradouros, mas como uma forma de – palavra muito usada nos anos 1940 e 1950 – decência. Seus arquitetos – William Beveridge, antes de mais ninguém – eram na verdade liberais, dedicados a uma evolução do estado existente, e não a rompimentos revolucionários.
Da mesma forma, a DC seria instrumental para a união europeia. Alcide De Gasperi, Adenauer e Robert Schuman, pais da Comunidade Europeia, eram democratas-cristãos. Na união, os países cediam certos poderes para entidades supranacionais, em troca da macro-estabilidade da democracia liberal, que preveniria recaídas autoritárias. Com isso, os legislativos nacionais ficaram enfraquecidos, e os executivos muito fortalecidos. “Justificações da democracia”, observa Müller, “centravam menos em ter pontos de vista efetivamente representados no parlamento do que em garantir o revezamento regular de elites políticas responsáveis, através de eleições”.
Sim, esse esquema, devido a seu caráter “sem graça” e de aversão ao redentismo político, de certa forma lembra o pré-1914 – por isso o movimento pós-guerra foi construção, mas foi também reconstrução. Mas, comparando com os anos antes da Primeira Guerra e dos anos entre-guerras, a economia europeia e mundial estava mundo mais amarrada, e a preocupação de fundo moral com o bem-estar dos indivíduos, muito mais disseminada. Ainda assim, houve quem se rebelasse contra a “atomização” pós-guerra.
Na esquerda, a contestação foi de Hannah Arendt a mauricinhos maoístas. Sobre as revoltas de 68, Müller defende que suas motivações principais foram a crise do ensino superior europeu e a hipocrisia dos países ricos em relação ao Terceiro Mundo. O lado sombrio dessa contestação, no entanto, foi a idealização dos movimentos guerrilheiros terceiro-mundistas. “Não foi por acidente”, escreve o autor, “que os grupos terroristas [europeus] dos anos 1970 se classificariam como ‘guerrilhas urbanas’”.
Os líderes de 68 falavam numa linguagem revolucionária, mas sua revolução deveria ser, pelo menos inicialmente, uma revolução das consciências, liderada por uma minoria que esclareceria o restante da sociedade sobre o caráter fraudulento da “democracia formal” – do “estado autoritário de bem-estar” e da “tolerância repressiva”, como dizia Marcuse, um dos heróis da rapaziada. Müller (autor de um estudo sobre a influência do pensamento de Carl Schmitt no pós-guerra), confronta essas ideias:
(…) é surpreendente que muitas das descrições dos teóricos do que havia dado errado com as instituições democráticas e liberais, como os parlamentos, baseavam-se em ideias ingênuas e leituras históricas implausíveis do que o liberalismo havia sido na Europa do século 19. Contrastar instituições como elas funcionavam sob as condições da democracia industrial de massas de meados do século 20 com uma era de ouro imaginária era uma típica jogada teórica – uma que mostrava afinidades com o antiparlamentarismo de Carl Schmitt nos anos 1920.
A Europa parecia estar de volta ao ceticismo do entre-guerras. De fato, aquele que Müller considera o principal teórico político do 68 alemão, Johannes Agnoli, parecia estar, com sua crítica radical da democracia liberal, presente ao mesmo tempo na extrema-direita e na extrema-esquerda, lembrando os ideólogos italianos do fascismo, por exemplo. (Aliás, Johannes nasceu “Giovanni Agnoli” em 1925, e seu histórico de radical incluiu hinos dedicados a Mussolini e trabalho voluntário na Wehrmacht. Ele se tornou cidadão da Alemanha Ocidental em 1955.)
Um dos resultados positivos de 68 foi a liberalização de costumes. O resultado mais negativo foi o terrorismo dos anos 70. Os enfrentamentos internos na esquerda italiana, que levaria à radicalização e ao terrorismo de certos grupos, lembra o que ocorreu aqui no Brasil. A acomodação cada vez maior do Partido Comunista italiano ao sistema levou a críticas de pensadores como Raniero Panzieri, críticas que seriam ainda mais radicalizadas por seus discípulos Mario Tronti e Antonio Negri, dois dos racionalizadores do terrorismo. Ao percorrer essa história, o leitor brasileiro se vê lembrando a linha moderada do PC brasileiro em momentos dos anos 50 e 60, e a consequente carreira solo no mundo das armas de gente comoCarlos Marighella – que, por sinal, teve seu Minimanual do guerrilheiro urbano bastante apreciado pelos extremistas europeus. A diferença, claro, é que a partir de 1964 o Brasil viveu numa ditadura. A Itália, por sua vez (ou a França, ou a Alemanha), só era uma “ditadura” para quem via nas “democracias” do leste algo a, no mínimo, ser comparado positivamente com a “hipocrisia” ocidental.
A democracia liberal sobreviveu aos ataques da extrema-esquerda, conclui Müller, porque, no fundo, “68 (e após) demonstrou que o arranjo constitucional do pós-guerra era imensamente compatível com uma liberalização da cultura”. O que não era o caso com as “democracias populares”.
Da mesma forma, o arranjo pós-guerra sobreviveu aos ataques do ultraliberalismo econômico das últimas décadas do século – “a maior ameaça à Social-Democracia (e, por extensão, às versões sociais da Democracia Cristã)”. Hayek (que, em suas próprias palavras, não queria “fazer da democracia um fetiche”), investiu contra o consenso do pós-guerra com a sua própria forma de utopia: um regime em que leis universais abstratas garantiriam a liberdade máxima dos indivíduos, em que parlamentos teriam seus membros eleitos apenas entre sábios de idade avançada, que serviriam por longos períodos e não precisariam se preocupar constantemente com reeleição e prestação de contas às massas… “Em resumo”, escreve Müller, “o poder deveria ser delegado tanto quanto possível a corpos políticos insulados da população – quer dizer, de eleições e pressões de grupos”.
As ideias de Hayek e companhia se mostraram a muitos nos anos 70 como a bíblia que continha as receitas para sair das crises econômica e de governabilidade assolando países ricos. O neoliberalismo teve implicações práticas, mas Müller não concorda com aqueles que dizem que ele derrubou as bases do consenso do pós-guerra. No final das contas, escreve, “mesmo políticos nominalmente conservadores no continente concordaram que as coisas deveriam mudar apenas de forma a que continuassem essencialmente o mesmo”.
(…) o arranjo constitucional do pós-guerra não foi fundamentalmente renegociado de acordo com o que pudesse ser chamado de neoliberalismo. Mas isso se deu em parte porque ele já se conformava a alguns dos esquemas que os neoliberais defendiam – estado de direito e freios e contrapesos, em particular. O próprio Hayek pareceu não ter visto o quão hayekiana a política do pós-guerra – fora do Reino Unido – sempre havia sido. E suas ideias mais estranhas, como o senado de anciãos, sempre foram de muito improvável implementação.
A verdade é que eventos como a crise econômica dos anos 70, e a atual, sempre colocaram enormes desafios ao consenso europeu do pós-guerra. Müller não foge da questão quando ela se apresenta. Mas o que ele quer provar é que, assim como o consenso pré-14 merecia ser aprimorado, e não destruído, o consenso pós-45 tem se mostrado duradouro e amplamente benéfico para a paz e o bem-estar no continente porque encontrou os atalhos para sair de crises, sociais e econômicas, dentro de seu próprio esquema. E o autor, vigorosamente e sem pedido de desculpas, defende a democracia parlamentar liberal diante dos inúmeros ataques que sofreu ontem e sofre hoje. Quem quiser experimentar algo fora de seus parâmetros será, como sempre foi, por sua própria conta e risco.

O peemedebismo de Marcos Nobre

O peemedebismo de Marcos Nobre

Relacionado aos protestos apenas de modo incidental, ensaio discute o sistema político brasileiro ignorando aspectos históricos e ideológicos.
"Choque de democracia: Razões da revolta", de Marcos Nobre
“Choque de democracia: Razões da revolta”, de Marcos Nobre
A primeira observação, inevitável, é: Choque de democracia não é um livro sobre os protestos. De modo estrito e mesquinho, também não se pode dizer que seja um livro, pois existe apenas em formato digital e é somente um ensaio, com algo equivalente a trinta páginas. Por apenas cinco reais, vale a pena para quem estiver interessado nas ideias de Marcos Nobre, que tem feito algum barulho no meio da ciência política com sua tese sobre o peemedebismo. Mas os protestos são apenas a justificativa para o e-book existir, e não há no livro uma avaliação satisfatória desses eventos.
No momento em que surgiu o e-book, eu tinha outra posição sobre a tese de Nobre acerca do que seria o “peemedebismo”. Achava que sua avaliação do quadro político capturava bem o sentimento de ausência de oposição e voraz negociação de cargos em quaisquer governos por parte dos partidos que compõem a “base aliada”, construindo uma hegemonia fisiológica em vez de ideológica. Além disso, um texto anterior assinalava que o modelo parecia estar em vias de esgotamento — algo que teria se tornado patente com a explosão dos protestos por todo o Brasil durante o mês de junho. Assim, haveria certa “presciência” de Nobre quanto à insustentabilidade social e política do peemedebismo.
No entanto, com o benefício da distância (há mais de um mês os protestos diminuíram radicalmente de tamanho e parecem estar restritos, agora, ao black bloc carioca e sua atuação contra Sérgio Cabral), é possível ver que os protestos se transformaram em uma espécie de teste de Rorschach aplicado à política. As avaliações sobre seu significado com frequência revelam mais sobre as ideias prévias do analista do que sobre a verdadeira natureza das manifestações. Parece ser o caso, indisfarçado até, do ensaio de Nobre, dedicado mais a explicar a formação do peemedebismo ao longo dos governos do que a associar as revoltas a uma insatisfação com esse estado de coisas.
A argumentação poderia se valer do fato de os protestos, reconhecidamente, não terem tido um alvo claro, exceto como expressão de uma deficiência representativa intensa na sociedade brasileira. A crise de representação estaria necessariamente ligada ao fenômeno do peemedebismo na interpretação de Nobre, pois este teria criado uma situação política na qual
quem nasceu na década de 1990 em diante […] não assistiu a qualquer polarização política real, mas somente a polarizações postiças, de objetivos estritamente eleitorais.
Conforme veremos, essa afirmação não está totalmente equivocada, mas apresenta inúmeras deficiências da tese em estado reduzido. Por ora, é preciso problematizar até que ponto a crise de representação de fato é uma expressão do descontentamento da sociedade com o peemedebismo. Igualar os dois planos está longe de ser uma associação natural.
Em primeiro lugar, os partidos políticos como os conhecemos estão em crise há décadas em todas as partes do mundo democrático. Na Europa, em especial, a falta de alternativas entre os principais partidos gera até mesmo o avanço de opções que se acreditava jogadas na lata do lixo da História, como o neonazismo na Grécia e o ultranacionalismo xenófobo na França, representado por Le Pen. Nos EUA a situação não é diversa: o bipartidarismo radical não tem funcionado para equacionar disputas políticas de modo adequado, levando à série de filibusterspraticados pelo Partido Republicano radicalizado e à falta de alternativa para a esquerda, forçada a aceitar políticas do Partido Democrata quase idênticas às de seu rival. Se o fenômeno da crise de representatividade é global, talvez diga mais respeito às contradições trazidas pela globalização nas últimas duas décadas do que à dinâmica interna da redemocratização brasileira, embora esta tenha suas particularidades.
Segundo, a identificação dos protestos com a oposição ao peemedebismo é arriscada se não houver uma reconstituição adequada dos fatos que levaram às ondas de manifestantes. Todos vimos que tudo começou com o MPL em São Paulo protestando contra o aumento na tarifa de ônibus, mas poucos apontaram a participação em peso, de primeira hora, de partidos como o PSOL e o PSTU, permitindo que os números raquíticos do MPL fossem ampliados, produzindo o efeito em cascata inesperado em todas as cidades brasileiras. O papel do aparato repressivo também não pode ser ignorado: as grandes manifestações da segunda-feira, dia 17 de junho, pareceram muito mais um ato de desagravo à atuação bárbara da Polícia Militar na quinta-feira anterior do que um protesto específico contra o sistema político.
Ainda que o descontentamento com a atual configuração dos nossos partidos e instâncias de representação popular esteja presente de forma brutal (pois é natureza de qualquer protesto apresentar descontentamentos…), não se pode afirmar que exista essa ligação com o peemedebismo, exceto em um plano simbólico, difícil de avaliar por essência. Conforme dito acima, o ensaio se dedica pouco a essa dimensão e parece apenas traçar um paralelo entre protestos e peemedebismo, apenas por estarem inseridos em um mesmo contexto. Acaba ficando a impressão, talvez injusta, de conveniência analítica — e que a tese do ensaio seria a mesma com ou sem protestos.
Feita a crítica, talvez minuciosa em excesso, à pertinência do livro, seja dito que a contribuição de Marcos Nobre é muito bem-vinda. Os debates dos quais participou recentemente, em especial com André Singer, são necessários para que tenhamos uma compreensão o mais ampla possível da nossa atual condição política. No final das contas, pouco importa para a fatura do texto que os protestos lhe confiram autoridade — ainda mais por não ser possível antecipar todos os efeitos que as manifestações causarão daqui para frente. Trata-se de uma análise do sistema político brasileiro, e assim deve ser encarada.
Entretanto, creio que este seu ensaio erra em demasia. É preciso registrar que está programado para breve o lançamento de um livro pelo autor, no qual se pode esperar que os tópicos abordados no e-book de modo mais condensado sejam mais bem desenvolvidos. De todo modo, para simplificar a crítica, esta será apresentada em três partes. Na primeira, aponto os problemas do “passado”: como a leitura de Nobre deforma a avaliação do processo histórico brasileiro, condicionando e simplificando demais a análise. Na segunda, os problemas do “presente”: a consequência das afirmações do texto seria um quadro eleitoral sem qualquer polarização, algo que não se verifica no momento. Na terceira, os problemas do “futuro”: ao advogar o “bom combate” ao peemedebismo, Nobre introduz uma agenda política específica e a defende, sem deixar isso muito claro. Não seria um problema, se a discussão ideológica necessária não tivesse sido soterrada, no restante do texto, pela quimera do peemedebismo.

O mundo não começou no Centrão

Talvez o maior defeito do ensaio, do ponto de vista analítico, seja a tendência de Nobre a tratar o peemedebismo como um fenômeno bastante representativo da política na redemocratização. Ele entende o conceito como a “blindagem” que o sistema político construiu contra “a força das ruas”; uma capacidade de ignorar sistematicamente os anseios da população e responder às crises costumeiras da democracia sem afetar o sistema em seus fundamentos. Identifica a origem dessa blindagem no chamado Centrão, grupo numeroso na Constituinte conhecido por travar a inclusão de propostas progressistas, de fato constituído em grande parte pelo PMDB. Uma das razões para a criação do PSDB, inclusive, foi a discordância dos tucanos com o resultado das manobras do Centrão.
Parte da crítica corrente ao PMDB é encampada por Nobre: ausência de ideologia (ou melhor, ideologia das conveniências), conforto em apoiar qualquer partido (desde que fisiologicamente recompensado) e, não menos importante, força nas eleições proporcionais. Para o autor, o PMDB é a manifestação mais fiel do fenômeno, que não se resume a esse partido. Tratar-se-ia, portanto, de um sistema político razoavelmente fechado e pouco representativo da população, baseado no poder das oligarquias regionais e frequentemente obstáculo para o avanço democrático e social do país.
Não há problema em identificar o peemedebismo hoje, tal como existe — aliás, o melhor do livro é o desenho de como algumas medidas dos governos de PSDB e PT acabaram por fortalecer o poder federal, favorecendo a alimentação do peemedebismo no Congresso. O que precisa ser considerado, entretanto, é que esse fenômeno, além de dificilmente ser particular ao Brasil (quase qualquer sistema multipartidário o apresenta, em maior ou menor grau), também está longe de ser novidade em nossos partidos.
Desde o Império, no qual havia o ditado “nada mais parecido com um saquarema [conservador] do que um luzia [liberal] no poder”, existe a dificuldade brasileira em conciliar a necessidade de um governo central forte e a exigência de autonomia regional, além da complicada equação entre representação e representatividade. Como as eleições eram muito restritas até 1945, os problemas típicos que o peemedebismo apresenta só puderam se fazer presentes em uma democracia de massas. O regime de 1946, ainda longe de ser plenamente democrático (afinal, a extinção do Partido Comunista e a negação de voto aos analfabetos tinham um papel excludente muito grande), pelo menos passa a demonstrar com mais clareza o funcionamento da política em meio a todas essas contradições.
Nesse sentido, o PSD, partido que elegeu dois presidentes no período (Dutra e Juscelino), já se mostrava um representante muito forte do peemedebismo. Formado em sua maior parte pelas hostes políticas dos interventores estaduais de Getúlio Vargas no Estado Novo, o PSD possuía uma máquina eleitoral gigantesca e disputava cargos no governo mesmo quando estava na oposição — nunca ficou dessintonizado do poder. Exemplos máximos dessa postura são a candidatura abandonada de Cristiano Machado em 1950 (quando a maior parte do partido pulou no barco de Getúlio) e o apoio ao golpe em 1964, aceito com a pretensão de eleger novamente Juscelino em 1965 (eleição que acabou não se realizando pela permanência dos militares no poder e consequente acirramento da repressão política).
livro de Lucia Hippolito sobre o PSD apresenta bem todas as contradições que envolviam o partido. Apesar de ter encabeçado o governo Kubitschek, que se notabilizou pelo fomento à modernização nacional (daí a dimensão “reformista”), a constituição da legenda não era muito diversa do que hoje é o PMDB: composto por grandes nomes da política regional, orientados sobretudo à manutenção de sua presença na máquina estatal, e mestre em atuar como o “fiel da balança” na frágil democracia brasileira. Como Hippolito aponta, nos dois momentos em que o PSD renunciou à sua função de equilibrar os polos houve graves crises institucionais: o suicídio de Vargas e a radicalização generalizada que culmina no golpe de 1964.
A ausência de qualquer menção ao antigo PSD no ensaio de Nobre é um índice de como sua análise falha em integrar o sistema político brasileiro à sua História e à sociedade que, pelo menos em teoria, representa. Afinal, se a persistência de formas de peemedebismo desde o Império em nosso ambiente político parece um dado inescapável — e mesmo as ditaduras de Vargas e dos generais falharam no fim das contas em suas tentativas de projetar um novo quadro —, ignorar nossa trajetória parece pavimentar o caminho para não entender a funcionalidade social do que seria o peemedebismo.
Pode-se argumentar que essa questão não é tão relevante ao objetivo do ensaio, que é descrever a formação e o funcionamento do peemedebismo atual. É uma opinião mais sobre a estrutura do texto do que sobre o mérito do ponto, mas ainda assim é difícil escapar à impressão, no livro de Nobre, de que o sistema atual se constrói a partir da redemocratização e que os defeitos atuais surgem a partir daí. Na última parte da crítica, deixarei claro o quanto de distorção ideológica acaba surgindo como resultado dessa omissão na análise — e o resultado é menos desinteressante do que parece.

Polarização: existe ou não?

O artigo de Nobre citado acima se chama, para não deixar dúvidas, “Fim da polarização”. A discussão da tese de Singer sobre o lulismo (livro que resenhei aqui) dá oportunidade à exposição do peemedebismo como real hegemonia política nacional, transformando as consecutivas disputas entre PT e PSDB em “falsas polarizações”, conforme citação do e-book acima. Entretanto, Nobre não deixa de apontar que isto se deu em um processo ao longo dos governos de ambos: primeiramente, o governo FHC estabeleceu dois polos no sistema, liderados pelos dois partidos; depois, o governo Lula cooptou parcela significativa do polo tucano, tirando-lhe o chão e inviabilizando a continuidade da polarização. A hegemonia peemedebista estaria então consolidada.
Embora posterior a “Fim da polarização”, o mais forte índice dessa hegemonização poderia ser a formação do novo PSD, o partido organizado por Gilberto Kassab como forma de aproximar-se do PT, desidratando em especial o DEM (antigo PFL e até hoje aliado do PSDB na maior parte do país). Assim, formada a maior “base aliada” da história do Congresso democrático, estaria configurada afinal a hegemonia do peemedebismo, sendo a vitória de PT ou PSDB nas urnas apenas um detalhe; não importa quem vença, o peemedebismo seria o mais forte.
Mas como interpretar as movimentações políticas em outros partidos? Nos últimos anos, aliados históricos do PT como o PSB, o PDT e o PCdoB (que chegaram a formar o não tão famoso “bloquinho”, acostumado a votar a favor do PT até mesmo em seus tempos de oposição) aproximaram-se cada vez mais do PSDB e de seus aliados, especialmente para compor bases em assembleias legislativas e obter cargos nos governos estaduais e municipais. Se por um lado isso parece confirmar a tese de Nobre, com o peemedebismo avançando inclusive sobre os partidos historicamente considerados de “esquerda”, evidencia-se a falta de avaliação ideológica dessas alianças e o quanto elas se sustentam quando as polarizações reais surgem na discussão congressual.
Para entender o quadro, dois textos de Fernando Limongi, cientista político, são essenciais. Oprimeiro, feito com Rafael Cortez, deixa claro como a chamada “oposição” (que frequentemente se reduz a PSDB, DEM e PPS, ignorando a quantidade de lideranças de outros partidos avessas ao governo petista, inclusive no PMDB) ainda tem força — não apenas eleitoral — e como são organizadas as alianças estaduais, justamente em torno dos dois polos que Nobre diz serem apenas “falsas polarizações”. O segundo desmonta a afirmação de que nosso sistema político seria bastante sui generis, em especial no que se refere à sua funcionalidade.
O fato é que a polarização ideológica esteve e está presente no embate entre PT e PSDB. O que se percebe, com frequência, é o fato de na última década o PSDB ter tido grandes dificuldades para encontrar um discurso oposto ao PT sem descambar para a defesa de uma agenda excessivamente conservadora (como em 2010) ou resumir-se a uma anódina afirmação sobre sua melhor capacidade gerencial (especialmente em 2006, mas também em 2010). No entanto, as diferenças entre as políticas públicas dos dois partidos são palpáveis até hoje — talvez a discussão quanto ao modelo de capitalização das distribuidoras de energia elétrica seja um bom exemplo das visões distintas em jogo. Não se pode confundir a ineficiência comunicativa de um dos polos do sistema com ausência total de alternativas no espectro político — por mais que o peemedebismo o parasite de um lado e de outro, de acordo com as conveniências.
A distorção do quadro atual no ensaio de Nobre dá ensejo à sua necessidade de propor uma alternativa — muito embora esta já exista em sua análise: o “social-desenvolvimentismo”, esmiuçado na próxima seção. No entanto, a existência real de uma polarização externa ao peemedebismo, conforme colocado acima, acaba por dificultar a própria utilidade da proposta do autor, ainda mais considerando a permeabilidade das alianças eleitorais brasileiras — as alternativas que polarizam o sistema, PT e PSDB, comungam apenas da necessidade, nem sempre percebida, de dar a volta sobre o peemedebismo, seja por hegemonizar o processo eleitoral, seja por construir uma força social capaz de superá-lo. O fato de esta ser uma polaridade menor não a tornaria menos polarizada, por assim dizer, e a denúncia de Nobre sobre o “fundo peemedebista do PSDB” parece jogar a toalha muito cedo para um partido que, segundo ele próprio, descolou-se da lógica peemedebista durante a maior parte do período democrático recente.
Por fim, toda a crítica desta parte pode ser resumida em uma pergunta, que o ensaio deixa sem resposta: como ignorar as afinidades eletivas dos políticos brasileiros sem resumir tudo a um jogo de legendas, ou seja, como substituir apropriadamente a visão do senso comum sobre a “farinha do mesmo saco”? A questão é mais relevante do que parece: as alianças provocadas por realidades locais costumam produzir contradições aparentes no quadro nacional, mas nada que não esteja presente em outras democracias ao redor do mundo. Para entender melhor o ensaio, talvez seja necessário responder a outra pergunta: qual é, verdadeiramente, o alvo de Nobre quando mira o peemedebismo?

“Social-desenvolvimentismo”: uma agenda política escondida

Ausente de outros textos de Nobre, mas bastante forte nesse ensaio, é a ideia de um novo paradigma político-econômico no Brasil, em substituição ao nacional-desenvolvimentismo, esgotado durante os anos 1970 e enfim derrubado pela crise da dívida nos 1980 e pela hiperinflação subsequente. Tratar-se-ia do “social-desenvolvimentismo”, associado aos governos tucanos e petistas (embora muito mais claramente a estes últimos). A ideia de nomear assim as atuais políticas de incentivo ao desenvolvimento combinadas aos avanços sociais (que não se resumem à transferência de renda, é bom frisar) já vem sendo tratadas por alguns autores, como Marcio Pochmann.
No ensaio, o social-desenvolvimentismo surge como o paradigma político que buscou superar a crise do nacional-desenvolvimentismo, passando a incorporar políticas sociais à estratégia do Estado de fomentar o desenvolvimento econômico do país. Qualquer semelhança com a política dos governos tucanos e petistas (embora o autor enfatize que o governo Lula foi mais fundo no estabelecimento dessa política) não é mera coincidência: Nobre identifica o social-desenvolvimentismo como um paradigma travado, que tenta se estabelecer nas poucas brechas oferecidas pelo peemedebismo. A partir daí pode-se perceber melhor o porquê de tantos circunlóquios para apresentar a tese principal desta crítica: o peemedebismo como o autor o constrói se caracteriza, especialmente, pela oposição silenciosa (por não se manifestar dessa forma eleitoralmente) às políticas progressistas de corte social-democrata dos últimos vinte anos — ou seja, uma estratégia política conservadora.
Em outras palavras, o peemedebismo de Nobre é apenas uma forma conceitual de se referir ao conservadorismo como este tem se manifestado no Brasil: patrimonialista, com presença em quase todos os partidos do espectro, muitas vezes cioso de seus privilégios (seja oriundos do Estado ou não) e firme na manutenção dos costumes e da ordem. O que é uma posição ideológico-política que pode ser questionada em diversos aspectos e defendida sob outros acaba sendo retratada de forma restrita, apenas por sua estratégia de ocupação dos espaços institucionais no período da redemocratização. Em outras palavras, o peemedebismo é o nome dado ao modus operandi do conservadorismo patrimonialista brasileiro, procurando transformar a crítica de Nobre, ideológica em essência, em uma avaliação comprometida unicamente com a normalidade democrática, tanto que sugere a seguinte “frente de ação” contra o peemedebismo:
a formação de um bloco no poder mais enxuto e aguerrido, unido em torno de um programa comum de reforma institucional claramente antipeemedebista e direcionado a uma aceleração dos aspectos distributivos do novo modelo social-desenvolvimentista.
Outro indício é o medo do autor de renovação do peemedebismo:
pode ser que as forças da inércia mais uma vez mostrem força suficiente para retardar e mesmo travar a passagem ao modelo social-desenvolvimentista.
Um desdobramento que vai nesse sentido é o da renovação do próprio peemedebismo, com o surgimento de um peemedebismo “repaginado”, “jovem guarda”.
Não se trata aqui de considerar que o conservadorismo nacional seja imune a críticas, mesmo em sua versão mais republicana. Muito pelo contrário: o verdadeiro teste para uma democracia é poder contar com a presença da maior diversidade possível de posições ideológicas, inclusive aquelas afeitas à manutenção do status quo. Discordo da maior parte destas visões, mas não se pode combatê-las negando-lhes a legitimidade por elas obtida em ambiente democrático — e o ensaio de Nobre, sem dizer, flerta com a consideração de que, em uma democracia saudável, não deveria haver espaço para essa ideologia. Toda a quimera do peemedebismo é uma forma sub-reptícia de negar a presença do conservadorismo enquanto ideologia, reduzido a uma geleia geral.
O efeito negativo dessa construção, como se pode notar, é a dificuldade em entender a verdadeira tarefa para aqueles que desejam disputar o debate político: aqueles que negarem o paradigma “social-desenvolvimentista” poderão ser considerados “peemedebismo jovem guarda” sob essa visão, mesmo que estejam propondo alterações radicais ao patrimonialismo tradicional. Se se trata da tentativa de melhorar as instituições brasileiras, é preciso compreender qual a visão de país implícita do “peemedebismo”, por mais desorganizada e aleatória que esta possa parecer à primeira vista. Caso contrário, abraçaremos qualquer “desenvolvimentismo-alguma-coisa” em nome da melhoria de um sistema político que não foi criado a partir do nada.
Não tenho a pretensão de, com esse longo texto, ter oferecido a melhor visão possível sobre o ensaio de Marcos Nobre. Tenho certeza de que muitas críticas à minha própria crítica são possíveis. Mas creio que o conjunto de características que considerei na argumentação do autor aponta para uma dificuldade maior de expressão, da qual este texto também padece: elaborar uma intervenção no debate público que consiga exprimir, após reflexão e análise, uma posição plenamente coerente em relação a um contexto no qual as mudanças têm sido intempestivas e inesperadas. Se o Brasil vive tempos confusos, nada mais justo que eu, Nobre, ou ambos, e talvez todos os outros, fiquemos um tanto confusos também.