terça-feira, 27 de agosto de 2013

PT consegue assinaturas para projeto que prevê plebiscito, diz Falcão

POLÍTICA


Pedro Venceslau, Estadão
Após a realização do primeiro debate entre os seis candidatos à eleição para a presidência do PT, marcada para 11 de novembro, o atual presidente da sigla, Rui Falcão (foto abaixo), afirmou que o partido já atingiu o mínimo de 171 assinaturas necessárias para protocolar um projeto de decreto legislativo para a realização de um plebiscito sobre reforma política. O projeto será protocolado nesta quarta-feira, 28, pelo líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), de acordo com Falcão.
O assunto surgiu em meio a críticas ao deputado federal Cândido Vacarezza (SP), alvo dos seis candidatos à presidência do partido no debate realizado nesta segunda-feira, 26, em São Paulo. Os representantes de todas as correntes petistas condenaram o fato dele ter aceitado o convite do PMDB para coordenar um grupo de trabalho sobre reforma política da Câmara dos Deputados. Vaccarezza chegou a ser desautorizado pela bancada do PT, mas não sofreu nenhuma punição.


Após a realização do primeiro debate entre os seis candidatos à eleição para a presidência do PT, marcada para 11 de novembro, o atual presidente da sigla, Rui Falcão, afirmou que o partido já atingiu o mínimo de 171 assinaturas necessárias para protocolar um projeto de decreto legislativo para a realização de um plebiscito sobre reforma política. O projeto será protocolado nesta quarta-feira, 28, pelo líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), de acordo com Falcão.
O assunto surgiu em meio a críticas ao deputado federal Cândido Vacarezza (SP), alvo dos seis candidatos à presidência do partido no debate realizado nesta segunda-feira, 26, em São Paulo. Os representantes de todas as correntes petistas condenaram o fato dele ter aceitado o convite do PMDB para coordenar um grupo de trabalho sobre reforma política da Câmara dos Deputados. Vaccarezza chegou a ser desautorizado pela bancada do PT, mas não sofreu nenhuma punição.
Rui Falcão explicou que a estratégia do PT não era a de priorizar o grupo de trabalho da reforma política, mas, sim, o plebiscito.
Valter Pomar, membro da direção executiva e candidato ao comando da sigla, disse que Vaccarezza "precisa ser enquadrado pelo partido". "Não dá para admitir que um deputado do PT tenha o comportamento de um peemedebista", disparou. "Acredito que o mandato do deputado Vaccarezza pertence ao PT. Não convém ao partido que uma comissão fadada ao fracasso seja presidida por ele", emendou Renato Simões, que também concorre ao cargo de presidente do partido.
"Não me ofereci, não saí chorando e não me articulei (para ser o coordenador do grupo de trabalho). Fui convidado pelo presidente da Câmara", respondeu Vaccarezza ao Estado. Ainda segundo ele, uma "minoria" do PT apresentou uma moção no diretório nacional para que fosse divulgada uma nota pedindo que ele deixasse o cargo. "Perderam por 47 a 23. Isso é página virada", concluiu.

Tudo a mesma coisa

POLÍTICA

 por Merval Pereira

Merval Pereira, O Globo
O caso do resgate do senador boliviano que acabou determinando a demissão do ministro das Relações Exteriores Antonio Patriota tem a ver com o dos médicos cubanos, tudo junto e misturado cabe na mesma geleia geral da concepção de política internacional dos governos petistas, que não se pejam de serem usados por seus parceiros regionais de ideologia.
É evidente que o encarregado de negócios da embaixada brasileira na Bolívia, Eduardo Saboia, que por conta própria decidiu dar fim ao cativeiro de mais de um ano do senador Roger Molina, não poderia tê-lo feito à revelia de seus chefes hierárquicos, por mais razão que tivesse para indignar-se com a situação.
Cabia a ele a tarefa indigna de proibir o contato de Molina com outras pessoas, e assistiu de perto à angústia e à depressão tomarem conta de uma espécie de prisioneiro do governo brasileiro por obra e graça de uma decisão política do governo boliviano.

Roger Molina, senador

O governo da Bolívia age exatamente como o da Inglaterra, que impede a saída do país do mentor do WikiLeaks, Julian Assange, apesar de o Equador ter concedido asilo político a ele. Mas o presidente equatoriano, Rafael Correa, não mede esforços para defender o direito de asilo, enquanto o governo brasileiro, pelos relatos do próprio Saboia, colabora com o da Bolívia, montando um grupo de trabalho fictício para tratar do assunto, enquanto o tempo vai passando.
Enquanto Assange dá entrevistas no interior da embaixada do Equador em Londres, o senador Molina estava praticamente em cárcere privado. Não foi a mesma a atitude tomada pelo governo brasileiro quando Manuel Zelaya, deposto da presidência de Honduras dentro das regras constitucionais, bolou um plano, apoiado na época por Hugo Chávez, para tentar voltar ao poder.
Usou para isso a embaixada brasileira, onde passou a fazer reuniões políticas e a dar entrevistas para o mundo contra o novo governo. A subserviência do governo brasileiro aos países alinhados à ideologia esquerdista não tem limites e geralmente está ligada a tentativas de golpes institucionais.
O apoio a Zelaya não deu certo porque o povo hondurenho não o queria de volta ao poder, mas, dentro das organizações regionais que dominam, como o Mercosul, o golpe no Paraguai surtiu o efeito desejado: abrir caminho para a entrada da Venezuela no bloco.

Alvo errado

POLÍTICA

 por Ana Amélia

Ana Amélia
A restrição à presença de jornalistas no plenário da Câmara voltou à pauta. Após a invasão do plenário por manifestantes, durante a primeira votação do novo rito de apreciação de vetos presidenciais, pelo Congresso Nacional, requentados argumentos de líderes reapareceram na tentativa de cercear o trabalho dos repórteres.
Ansiosos por abrandar as insatisfações populares, intensificadas pela precariedade dos serviços públicos e pelos rumos da política e da economia, alguns líderes atacaram a imprensa.
Querem, no fundo, esconder malfeitos. É o surrado hábito de escolher uma vítima, deixando-a ao relento, como faziam os antigos sacerdotes quando caçavam um animal que encarnaria os pecados da humanidade, o imolado “bode expiatório”. Exemplos não faltam para compor a extensa ladainha dos alvos errados!
Notável, por exemplo, é o caso recente do jornalista britânico Glenn Greenwald, do jornal The Guardian. Desde 5 de junho, o repórter tem publicado uma série de informações sobre ações de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), a partir de documentos vazados pelo ex-funcionário da Agência de Inteligência Norte-Americana (CIA), Edward Snowden, exilado na Rússia.
Com base em rasa justificativa, o brasileiro David Miranda, companheiro de Greenwald, ficou detido por aproximadamente nove horas no aeroportoHeathrow, em Londres. Equipamentos eletrônicos foram confiscados quando Miranda tentava embarcar de volta ao Rio de Janeiro.
Na tentativa de explicar o injustificável, as autoridades britânicas se apoiaram na lei de combate ao terrorismo. A ação da Scotland Yard teve como alvo o trabalho da imprensa.

Câmara dos Deputados é invadida por manifestantes

Tudo que incomoda, como resultado da visibilidade dada pela mídia, provoca reação. Nesse contexto, não raro, a apuração responsável dos fatos pelos repórteres tropeça em barreiras intransponíveis. Sempre que a mídia expõe os malfeitos de pessoas ou grupos, se torna alvo da crítica, da ira e até da violência.
Uma das líderes do anarquista Black Blocs atacou a Revista Veja por ter desnudado as táticas empregadas pelo bando nos protestos. De novo, o alvo errado. Nos vizinhos latino-americanos, governantes que não suportam a crítica amordaçam, impiedosamente, os meios de comunicação, principalmente na Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina.
Não seria surpresa, portanto, se o sanguinário ditador sírio Bashar Al-Assad atribuísse à imprensa a responsabilidade pelas fotos chocantes do massacre de civis, vítimas de suas armas químicas. Em vez de assumir os próprios erros, dando novo rumo aos fatos, preferem mirar e atacar o alvo errado.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Mais um sucesso de Edney Silvestre

VIDAS PROVISÓRIAS



Veja o booktrailer de "Vidas Provisórias", livro de Edney Silvestre.

Resumo do livro:

Expatriados, Paulo e Barbara tiveram identidades e sonhos destruídos em dois momentos marcantes da história brasileira: a ditadura militar e a implementação do Plano Collor. Inspirado em sua experiência como correspondente internacional, o escritor e jornalista Edney Silvestre retrata o exílio e o cotidiano de brasileiros fora do país em Vidas provisórias, seu novo romance que chega às livrarias pela Intrínseca. Vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2010, Silvestre retoma no novo livro a história de personagens de seus dois romances anteriores (Se eu fechar os olhos agora e A felicidade é fácil). Partindo dos regimes ditatoriais da América Latina até os atentados do 11 de Setembro nos Estados Unidos, Vidas provisórias compõe um vigoroso retrato das transformações que ocorreram no país e no mundo nos últimos 40 anos, com uma trama que viaja pelo Chile, Suécia, Estados Unidos, França e Iraque.

Baseado em Nova York entre 1991 a 2002, Edney Silvestre foi o primeiro jornalista da TV brasileira a chegar ao World Trade Center após os ataques. Além de correspondente internacional pelo jornal O Globo e pela Rede Globo, atua como Repórter Especial, com colaborações para os programas Jornal Nacional, Bom Dia Brasil e Jornal da Globo, possui uma coluna semanal no RJTV e é apresentador do Globonews Literatura.

Em Vidas provisórias, Paulo e Barbara compartilham, além da experiência do exílio, o estranhamento pela perda de suas identidades, o isolamento e a sensação de interrupção do curso normal de suas vidas. Diferentes motivos os levam ao estrangeiro. Em 1970, Paulo, perseguido pela ditadura militar, é preso, torturado e abandonado sem documentação na fronteira, de onde segue para o Chile e depois para a Suécia. Barbara, com uma identidade falsa, deixa o país para trás em 1991 — durante o governo Collor —, fugindo de um rastro de violência, e se instala nos Estados Unidos como imigrante ilegal.

O erro de esquecer

LUIZ GARCIA


O Comando Militar do Leste não parece perceber que a tropa de hoje não é herdeira da ditadura militar 
Oregime militar acabou há décadas, e não deixou saudades. Ou, pelo menos, poucos se atrevem a defender aquele período de nossa história, que começou com as melhores intenções e terminou desmoralizado por uma condenação, generalizada ou quase isso, da opinião pública. Com o apoio de boa parte dos militares. 
Não há dúvida que muitos brasileiros, principalmente os que usam farda, prefiram esquecer aquela parte de nossa história. É um desejo até compreensível, mas, lamentavelmente, vai de encontro a uma verdade antiga, que continua valendo: quem varre da memória os seus erros, corre sério risco de repeti-los. 
Isso vem a propósito de um episódio destes dias. É uma divergência entre autoridades militares e o Ministério Público Federal, apoiado pela Comissão Estadual da Verdade. A briga é em torno de um prédio na Tijuca, que pertence ao Exército e serviu, durante a ditadura militar, como prisão e centro de torturas de inimigos do regime. 
Os órgãos civis pretendem transformá-lo numa espécie de centro de memória dos anos de chumbo. Os militares se opõem ao projeto, com um argumento frouxo: alegam que a Comissão da Verdade, por ser estadual, não pode se meter em assunto da área federal. O defeito desse argumento é o fato que o projeto é também do Ministério Público Federal. 
Mas há um defeito maior: o Comando Militar do Leste não parece perceber que está brigando com uma iniciativa que não representa qualquer ofensa às autoridades militares. Elas não são herdeiras da ditadura militar, assim como os políticos de hoje não têm qualquer parentesco com aqueles que serviram ao regime militar — e não foram poucos. 
O projeto do centro de memória tem mérito evidente, como diz o seu próprio nome. Um país que tenta esquecer os dias negros de sua história — e não há aquele que não os tem — corre sério risco de repeti-los. Há exemplos disso no mundo inteiro. As lições do passado, tanto as boas como as ruins, são inestimáveis. 
Os militares brasileiros de hoje não têm qualquer compromisso com a ditadura militar de décadas atrás. Muito pelo contrário: é óbvia a sua dedicação ao regime democrático. Faz parte do seu perfil, por isso mesmo, contribuir para que ninguém se esqueça de um período de nossa história de que ninguém, fardado ou civil, deseja ver repetido — nem esquecido.
"O Comando Militar do Leste não parece perceber que a tropa de hoje não é herdeira da ditadura militar".
Publicado o Globo de hoje.

Biruta de aeroporto

 Míriam Leitão e Valéria Maniero - 
COLUNA NO GLOBO


As empresas aéreas não precisam de ajuda do governo, precisam de boa gestão, atenta regulação e boa infraestrutura aeroportuária. Mas foram pedir ajuda ao governo porque Brasília é o caminho favorito das empresas brasileiras de terra, mar e ar. Números da Anac mostram um crescimento espantoso de passageiros e de receita líquida desde 2004. Agora, o vento é contra.
Vento contra sempre haverá. É da vida das voadoras. Elas têm a maior parte das suas despesas em dólar porque fazem leasing de avião em empresa estrangeira, têm dívida externa e a Petrobras não perdoa: de 15 em 15 dias tem reajuste de querosene de aviação.
Quando o dólar ficou baixo, tão baixo que o ministro Guido Mantega levantava imposto de importação e punha IOF em entrada de capital, as empresas tiveram uma baixa de custo. Isso durou bastante tempo. Coincidiu com o período de maior crescimento da renda e da ampliação da classe média no governo Lula. Após uma queda de 5,9% no ano do ajuste de 2003 (no qual houve, apesar disso, aumento de receita de 7,6%), a demanda por transporte aéreo de passageiro cresceu todos os anos a nível chinês. Eu disse chinês? Foi mais. Em 2010, a medida do setor, RPK, que é bilhetes vendidos multiplicado por quilômetros voados, chegou a aumentar 23,8%. Naquele ano superou a China. O número de passageiros transportados atingiu a marca dos 100 milhões, informou a Anac.
Veja o gráfico abaixo do aumento ano a ano da demanda de transporte aéreo de passageiro. Na receita líquida das companhias aéreas também o saldo é positivo. Houve de 2003 para cá três anos negativos (2006: -8,1%; 2007: -0,6% e 2009: -7,6%), mas a queda foi totalmente superada. Em 2004, o crescimento foi de 12,3%; 2005, 3,3%; 2008, espantosos 27%; 2010, 25%; 2011, 14%; 2012, 12,7%. Na receita líquida, a Anac agrega o transporte de passageiros, carga e mala postal, mas não o táxi-aéreo.
Os números são sólidos: o mercado cresceu, a receita aumentou na maioria dos anos na última década e o número de empresas do mercado é muito pequeno e concentrado. É praticamente um duopólio que começa a perder participação pelo crescimento das menores, mas houve fatos como a compra da Webjet pela Gol. A empresa comprada foi fechada logo depois. Em qualquer país do mundo, a lei antitruste impediria isso. O mercado é restrito para as estrangeiras.
Elas podem reclamar que a Petrobras tem duas políticas de preço: um de reajuste quinzenal para os preços não visíveis, e outra de preços que só sobem quando o governo deixa. Mas numa época em que o imposto sobre carbono começa a recair sobre algumas voadoras do mundo, principalmente na Europa, não faz sentido incentivar querosene de aviação. Aliás, subsídio a combustível fóssil não faz sentido algum, apesar de o Brasil usar em outras modalidades de transportes e até no automóvel por puro populismo.
Quem voa no Brasil tem do que reclamar. Espaços encurtaram, lanches ficaram raros e na Gol só água é de graça. Quem compra passagem e se arrepende meia hora depois tem que esperar três meses para receber o dinheiro de volta. Quem antecipar a viagem paga mais, quem quer postergar também. A milhagem raramente pode ser usada. Os voos atrasam e nada acontece. Tudo aguentamos, mas dar dinheiro público no ano de vento contrário, após anos de vento de cauda, é pedir demais aos senhores passageiros.

Os gregos, apesar da crise, ainda se reúnem pela música

Simone Leitão - 

Os gregos, apesar da crise, ainda se reúnem pela música

(A pianista Simone Leitão foi à Grécia tocar num festival de música clássica e, de algum ponto do Mar Egeu, na volta, ela enviou para o blog esse relato da crise vista de perto) 
Vim à Grécia convidada para o 9º Festival Internacional de Música clássica de Cyclades em Syros. Esse é hoje um festival estabelecido e um dos mais importantes do setor nesse país. Syros é uma ilha que praticamente vive do turismo como tantas outras do lindo mar Egeu, e teve seu apogeu econômico no século XIX, a partir da revolução Grega de 1821; Syros recebeu imigrantes de Creta, Psara, Chios, Ásia menor e se transformou no centro das atividades marítimas e rota de comércio de Cyclades. O apogeu durou até o início do século XX. Vestígios dessa era de fartura se encontram nas construções, entre elas a belíssima, aconchegante e confortável casa de Ópera construída em 1840, onde acontece o festival.
Carlos, motorista que em Atenas me levaria ao Porto, não esperou pergunta. Imediatamente começou a me mostrar os efeitos e os sinais da crise no “sightseeing” da cidade. Alguns estádios das Olimpíadas de 2004 e algumas obras abandonadas. Cheguei em uma terça-feira à tarde, era um dia útil, mas notei muitos estabelecimentos comerciais fechados. Perguntei se os estádios que via eram usados. Carlos me respondeu que os que foram construídos para as Olimpíadas têm alto custo de manutenção, são pouco usados. Os que já existiam e foram reformados têm mais eventos como já tinham antes.
Carlos, assim como a maioria dos gregos que conheci, acompanha de perto aeconomia da Grécia e da Europa. Acham que o Brasil está muito bem. Apesar do esfriamento do crescimento que contei, sua visão foi que temos futuro e presente. Enquanto eles não sabem do futuro e sentem que o presente lhes está sendo roubado. Carlos, em seus 45 anos, se emocionou ao falar do desalento da juventude atual.
Crise é assunto sempre presente. O tema do festival foi crise. O garçom do hotel onde fiquei contou longamente seu sofrimento para Efy, a diretora do festival, quando jantávamos no encontro de boas-vindas: este ano ele se aposentaria, mas não poderá, não sabe quando isso vai acontecer e teve seu salário e benefícios cortados. Terá que viver com menos e trabalhar mais. O festival, assim como a maioria dos eventos, vive de financiamento do governo. E eles lutam com uma burocracia irracional e atrasos impiedosos. A mesma agência do festival tem uma série de música de Câmara e Ópera em Atenas. O atraso dos aportes é de 6 meses a 2 anos depois que o evento acontece. Vivem até lá da venda dos ingressos, que está cada vez mais escassa.
A crise desembarcou mais forte em Atenas. Muito desemprego. Nas ilhas, graças ao turismo, de maio a setembro tem trabalho. Se come o que se planta e pesca na ilha. É vida simples, sem glamour. Cardápio restrito nos restaurantes e sem lojas de grife. As lojas, hotéis, restaurantes, taxis, tudo existe para o turista. Na verdade, somos encorajados a comprar roupas e presentes feitos na Grécia. Eles estão fumando muito. Em todas as idades. Perguntei a razão a uma jovem que não fuma. Ela é estudante de piano clássico em Atenas. A resposta foi direta: estamos deprimidos. Todo o serviço é feito por gregos, ao contrário de outros países europeus que contam com braços estrangeiros: africanos, asiáticos e outros.

A história de Efy reflete esse momento. Mãe de 4 filhos, começou trabalhar aos 38 anos. Hoje, aos 50, ela, empreendedora, é dona da única agência e produtora de música clássica credenciada internacionalmente pela IAMA da Grécia. O atual marido, nove anos mais jovem, ficou desempregado e hoje trabalha com ela, sendo o designer gráfico, web administrator. As duas filhas mais velhas fizeram mestrado e doutorado na
Inglaterra, com bolsa do governo inglês, e se estabeleceram lá. Efy busca parcerias com outros países e embaixadas para manter a arte num país em crise. O festival tem sempre grupos escandinavos que contam com todo apoio financeiro dos governos de seus países para manutenção e gastos de seus artistas em terras estrangeiras. Eles querem manter relação com festivais no Rio até 2016 já que essa é a próxima cidade olímpica. Pensam que seria um bom argumento e oportunidade de apoiarmos a Grécia.

Em um país de 10 milhões de pessoas, onde 2 milhões de trabalhadores ficaram desempregados nos últimos três anos, onde um em cada três em idade produtiva não tem salário, toda parceria é bem-vinda. Eles atribuem a crise profunda à completa irresponsabilidade de vários governos e da corrupção desenfreada.
Compartilhava as frustrações de uma nação perder tanta verba com corrupção, como o Brasil, com Christos, meu motorista em Mykonos e ele lembrou: corrupção existe em vários países, não se deve parar de lutar contra esse mal, porque ele pode contaminar uma economia saudável irreversivelmente.

Na sexta, depois de correr trinta minutos e ensaiar quatro horas, almoço um carneiro em uma viela charmosa que dá para a rua do teatro. Todos falam grego comigo. Dizem que tenho cara de grega. Me sinto incluída!

Observo que os gregos são unidos. Podem estar em momento difícil, mas mantêm a classe, o charme e a calma. São ritualísticos e, a princípio, racionais; com  poesia. O país que mais influenciou a formação de nossa identidade ocidental, hoje, não consegue identificar seu futuro. Mas permanece. A fé cristã ortodoxa inquestionável é somente uma das sinalizações que esse é um lugar onde as coisas ficam. Dúvidas, nunca tiveram tantas. Mas uma das instituições que seguram a base desse país é a família. Idosos são muitos. Mas são na maioria cuidados diligentemente por sua descendência.
No festival, uma surpresa boa: os concertos tinham excelente público. Estavam ávidos por boa música. Quando toquei o trio nº. 2 de Brahms, com o violoncelista pernambucano radicado nos EUA, Léo Altino, e o violinista grego Yannos Margaziotis parecia que todo romantismo intelectual de Brahms se tornava mais visceral, mais experimental. Coisa que Brahms não é. Até o lirismo poético e confortável de Dvorak, testemunha de uma época de paz e prosperidade, tinha que ter uma dose de dúvida e sofrimento. A interpretação do mesmo texto realmente muda com os tempos. Ele reflete o repertório de emoções pertinente a uma determinada época. Foram assim os concertos desse festival na Grécia. Intensos e cheios de um certo abandono emocional.

Nessa atmosfera de dúvida, a paz ainda me emociona. O som sereno do vento. Permanente. Esse mar azul. O cuidado com a aparência e o interesse genuíno pelo estrangeiro. Estratégia. Uma palavra que eles inventaram, assim como tantas outras, parece hoje perder o Kratos (poder). Gregos não conseguem identificar a estratégia para manutenção no seu futuro, cada vez mais incerto.