domingo, 11 de agosto de 2013

"Só é dinheiro aquilo que posso imprimir"


por  

bernanke.jpgOs dados recentes sobre a economia americana, acentuados pelos recentes e desanimadores números sobre o emprego no país, confirmam o cada vez mais decrescente impacto dos estímulos fiscal e monetário orquestrados pelo governo Obama e pelo Banco Central americano, o Federal Reserve.  No que deve ter sido um enorme desapontamento para os entusiastas keynesianos, as doses recordes dos narcóticos fiscal e monetário não produziram os resultados desejados.  Com efeito, a "recuperação" econômica dos últimos dois anos foi bem mais fraca do que a recuperação que tipicamente ocorreria em um cenário recessivo que não recebesse qualquer tipo de estímulo governamental.  O fato é que a atual "recuperação" econômica americana é a mais fraca da história do país, não obstante o pacote de estímulos governamentais implementado ter sido o maior e mais agressivo de todos os tempos.
Nos últimos meses, venho prevendo com quase certeza que o QE2 [Quantitative Easing 2 — "Afrouxamento Quantitativo", eufemismo tecnocrático moderno para "imprimir dinheiro"] não seria o último dos programas de maciça impressão de dinheiro criados pelo Fed.  Minhas suspeitas foram confirmadas tanto pelo último relatório do Fed quanto pelo depoimento semestral dado pelo presidente do Fed, Ben Bernanke, à comissão monetária do Congresso, ambos ocorridos na primeira quinzena de julho.  O relatório explicitou as condições sob as quais uma nova rodada de inflação monetária seria lançada, e o depoimento de Bernanke reenfatizou — caso ainda restasse alguma dúvida — que o indigitado não tem nenhuma consideração pelos princípios de um sistema monetário sólido.
As atas do Fed continham a primeira indicação de que uma terceira rodada de afrouxamento quantitativo (QE3) já está sendo considerada.  As notas descreviam uma concordância unânime quanto ao fato de que o QE2 deveria ser integralizado, e foram complementadas com o seguinte comentário: "dependendo de como as condições econômicas evoluam, o Comitê pode vir a considerar o fornecimento de estímulos monetários adicionais, especialmente caso o crescimento econômico permaneça muito lento e não reduza significativamente a taxa de desemprego no médio prazo". 
Dado que o desemprego está se deteriorando, e, de acordo com a opinião geral, continuará assim por um bom tempo, o Fed basicamente está prometendo que irá manter as torneiras abertas.  O comitê de política monetária do Fed também decidiu levar em consideração apenas o atual "índice de inflação geral" para fazer seus julgamentos, e não as "tendências inflacionárias".  Considerando-se que os novos dólares criados levam algum tempo para circular pela economia e elevar os preços, isso significa que o Fed estará muito atrasado para restringir a política monetária quando a inflação de preços começar a ficar fora do controle, causando ainda mais descoordenação na economia americana.
Se ainda havia algum resquício de fé de que o senhor Bernanke tem um plano para acabar com o vício do governo americano no dinheiro fácil criado pelo Fed, seu depoimento semestral ao Congresso já deveria ter eliminado por completo essa ilusão.  Além de alegar que suas injeções monetárias ajudaram a economia americana, Bernanke, ao responder a uma pergunta feita pelo congressista Ron Paul, disse que "ouro não é dinheiro", que as pessoas que hoje estão comprando ouro não estão preocupadas com a inflação, e que o valor do dólar nos mercados internacionais de câmbio não possui nenhuma influência no poder de compra da moeda no mercado interno dos EUA.  Ele até dedicou alguns minutos para discursar em favor do plano de Obama para elevar o teto da dívida americana.
Ao alegar que ouro não é dinheiro [veja o vídeo, e observe a disfemia de Bernanke ao ser confrontado com a pergunta], o presidente do Fed demonstrou toda a sua ignorância acerca de grande parte da história monetária do mundo.  Ele disse a Ron Paul que não tem a menor ideia do motivo de os bancos centrais mundiais estocaram ouro, e completou dizendo que deve ter algo a ver com a tradição.  Sim, tradicionalmente ouro é dinheiro, sempre foi dinheiro, e é exatamente por isso que os bancos centrais têm ouro em seus ativos.  E ouro é dinheiro porque as pessoas sabem que jamais devem confiar na capacidade de banqueiros centrais, como o senhor Bernanke, gerirem de maneira decente um dinheiro de papel.
Bernanke prosseguiu contestando os fatos ao alegar que a única razão por que as pessoas estão comprando ouro é para se protegerem contra incertezas, ou "riscos de cauda" [distúrbio financeiro cuja probabilidade de acontecer é inferior a 1%], como ele nomeia tal fenômeno.  Meu conselho ao presidente Bernanke: pergunte às pessoas por que elas estão comprando ouro, e aí o senhor começará a ter alguma idéia do motivo de o metal já estar acima dos US$ 1.600 a onça.  Como alguém que vem comprando ouro há uma década, posso assegurar que essas minhas compras de ouro nada têm a ver com "incerteza".  Na realidade, é exatamente o oposto.  Estou comprando ouro por causa daquilo que é certo, e não do que é incerto.  Estou certo de que a incompetência de Bernanke irá destruir o valor do dólar e desencadear uma inflação descontrolada.
Se fosse verdade que as pessoas compram ouro para se proteger contra as incertezas do mercado, como Bernanke alega, então o metal deveria ter disparado no ápice da crise financeira de 2008.  No entanto, ocorreu o contrário, e o ouro caiu junto com a maioria dos outros ativos.  As pessoas instintivamente correram para o dólar e para os títulos do Tesouro americano por causa do seu histórico de estabilidade.  O que Bernanke parece não entender é que sua política monetária irresponsável está solapando a fé das pessoas nos ativos americanos, que foram arduamente construídos ao longo de gerações.  É isso que está valorizando o ouro: crédito fácil, taxas de juros reais negativas e afrouxamento quantitativo.
Finalmente, ao alegar que o valor do dólar no mercado internacional de câmbio não gera efeitos sobre os preços dentro dos EUA, Bernanke demonstra não ter sequer a competência para ser um caixa de banco, muito menos o presidente do Banco Central americano.  Um dólar desvalorizado significa que os preços dos bens importados pelos americanos serão mais altos.  Significa também que os produtores americanos terão de pagar mais por matérias-primas, insumos e outros componentes importados, o que também eleva os custos da produção doméstica nos EUA.  E também significa que mais bens produzidos nos EUA serão exportados, o que irá reduzir a oferta de produtos na economia americana, gerando uma elevação dos preços daquilo que sobrar para os americanos.  Isso é economia introdutória.
Dado que Bernanke não sabe nem mesmo economia básica, não é surpresa alguma que ele tenha voltado a considerar uma nova rodada de afrouxamento quantitativo — o qual, apesar de toda a retórica moderada, vem ocorrendo ininterruptamente.  O Fed sempre esteve disposto a manter o programa; está apenas em busca de uma desculpa plausível para poder "implementá-lo" novamente.
O problema é que combater uma recessão imprimindo dinheiro é como combater um incêndio jogando gasolina.  À medida que as chamas da recessão são revigoradas, mais impressão monetária, embora encharquem momentaneamente o cenário, irão apenas produzir um inferno econômico ainda maior.
Em um dado momento do depoimento, Bernanke diz que "A analogia correta para o não aumento do teto da dívida é ir às compras, fazer uma gastança com seu cartão de crédito e depois se recusar a pagar a fatura."  A analogia até esta correta, mas a conclusão está completamente errada.  Sim, o Congresso americano incorreu em uma gastança profusa e chegou a hora de pagar a conta.  Mas elevar o teto da dívida é o equivalente a utilizar um Mastercard para pagar a fatura do Visa — apenas piora o problema.  Se você e eu resolvemos sair todas as noites para a farra, nos embebedarmos constantemente e falarmos para o garçom não economizar na comida e na bebida, sendo que, ao final da cada noite pagamos tudo no cartão de crédito, quando a fatura chegar no final do mês o valor será assustador.  E aí saberemos que a maneira de corrigir essa situação e não ficar com o nome sujo será apertando os cintos e pagando a fatura.  Talvez tenhamos de adiar os planos de férias, deixar de trocar de carro, cancelar a assinatura da TV a cabo e da academia de ginástica.  O fato é que teremos de reduzir o consumo presente para podermos pagar o consumo excessivo do passado.
Obama alega que elevar o teto da dívida americana é o equivalente a controlar a dívida do governo federal.  Você conhece alguém que acha inteligente se endividar mais para sair de uma dívida atual?  Conhece alguém que já reduziu seu endividamento sem ter reduzido o consumo?  Como pode o presidente do Banco Central americano defender uma ideia tão ilógica e afrontosa?
Bernanke, na verdade, foi ainda mais longe e alertou contra a redução dos gastos federais atuais, alegando que, caso sejam reduzidos, isso poderia impedir a "recuperação".  Ele aparentemente acredita que a função do Congresso americano é cair na gastança, e que a função dele, Bernanke, é pagar as contas que vão se avolumando com dinheiro recém-criado pelo Fed.  O fato de que esta fórmula vem, ao longo do tempo, produzindo crises econômicas cada vez mais severas não parece incomodá-lo.  A ignorância é de fato uma benção.

Ação humana é ação propositada



PurposefulAction.jpgUma das implicações que pode ser logicamente deduzida do irrefutavelmente verdadeiro axioma da ação humana é a de que a ação humana significa ação propositada (ou consciente) — ação que está voltada à realização de certos fins.
Essa constatação é essencial para uma compreensão completa da reconstrução, feita por Mises, da economia como uma ciência lógica e formal (praxeologia, como ele a denominou), e todas as implicações que podem ser deduzidas disso.
Essas implicações incluem, por exemplo, o fato de que causa e efeito (a causalidade) e tempo são categorias da ação humana, que os meios são escassos com relação aos fins para os quais eles possivelmente podem ser utilizados, e que a existência da ação humana implica incertezas quanto ao curso futuro dos eventos.
Entretanto, a afirmação verdadeira de que a ação humana é ação propositada pode muito facilmente atrair críticas.  Por exemplo, não se poderia desafiar essa constatação de Mises dizendo que muitas das decisões que as pessoas tomam não são propositadas, mas sim baseadas em arbitrariedade, capricho ou impulso?[1]
Rejeitar a constatação de que a ação humana é propositada colocaria em dúvida todas as afirmações verdadeiras que podem ser derivadas do axioma da ação humana.  Isso abriria caminho para desorientações metodológicas e, como resultado, falsas teorias no campo da ciência econômica.
Dada a importância de se compreender a irrefutável verdade de que a ação humana é ação propositada, vale a pena relembrarmo-nos brevemente de como Mises chegou à sua constatação, a qual ele deduziu tendo como ponto de partida o axioma da ação humana.
Como observado anteriormente, o axioma da ação humana é irrefutavelmente verdadeiro.  Trata-se de uma proposição autoevidente cuja veracidade lógica não pode ser negada.  Qualquer tentativa de negá-la resultaria em uma insolúvel contradição intelectual, pois dizer que "humanos não podem agir" já é em si uma forma de ação humana.
Como explicou Mises,
O objetivo final da ação é sempre a satisfação de algum desejo do agente homem.  Só age quem se considera em uma situação insatisfatória, e só reitera a ação quem não é capaz de suprimir o seu desconforto de uma vez por todas.  O agente homem está ansioso para substituir uma situação menos satisfatória por outra mais satisfatória.
E o homem deve fazer uso de meios para alcançar tais fins.  Os meios, por sua vez, são sempre escassos em relação aos fins que se deseja alcançar.  Se os meios não fossem escassos, eles não precisariam ser economizados, e por conseguinte não poderia haver nenhum tipo de ação — e isso, obviamente, não é algo crível.
É nesse sentido que a ação humana é ação propositada: fazer uso de meios com os quais se alcançar determinados fins.  E a praxeologia é indiferente em relação ao conteúdo dos fins ou em relação à motivação destes fins.
Mises observou que,
Ação humana é comportamento propositado.  Também podemos dizer: ação é a vontade posta em funcionamento, transformada em força motriz; é procurar alcançar fins e objetivos; é a significativa resposta do ego aos estímulos e às condições do seu meio ambiente; é o ajustamento consciente ao estado do universo que lhe determina a vida.  Estas paráfrases podem esclarecer a definição dada e prevenir possíveis equívocos.  Mas a própria definição é adequada e não necessita de complemento ou comentário.
II.                                      
Ao mesmo tempo, Mises afirma que nem todas as ações efetuadas por humanos podem ser qualificadas como ações propositadas.  Ele explicitamente se refere a ações não propositadas (ou inconscientes), senda estas "os reflexos e as respostas involuntárias das células e nervos do corpo aos estímulos."
Mas será que essa referência de Mises à ação não propositada permitiria a conclusão de que há humanos que nãoagem como indicado pelo axioma da ação humana?  Como será mostrado abaixo, tal pergunta pode ser respondida com uma negativa.
(1) Pra começar, deve-se observar que a constatação de que a ação humana é ação propositada não está relacionada à psicologia.  Enquanto esta última visa a explicar o funcionamento dos eventos (mentais) interiores de uma pessoa, bem como os motivos que a levaram a uma determinada ação, a praxeologia está estritamente confinada à lógica da ação humana. 
A praxeologia, baseando-se no axioma da ação humana, utiliza a lógica formal para chegar à conclusão de que a ação humana é ação propositada (a qual é totalmente oposta de ação não propositada).  A praxeologia não recorre a nenhum tipo de suposição comportamental.
(2) Para Mises, exemplos de ações não propositadas são o funcionamento do corpo (as batidas do coração, a respiração etc.) e as respostas reflexivas e involuntárias a estímulos (por exemplo, a hesitação causada por um barulho súbito e estranho).  A ação não propositada possui, na acepção de Mises, a mesma importância de dados externos: é parte das condições gerais sob as quais ocorre a ação humana — a ação propositada.
Escreve Mises,
O comportamento inconsciente dos órgãos e células do organismo, para o nosso ego, é um dado como qualquer outro do mundo exterior.  O homem, ao agir, tem de levar tudo em conta: tanto o que se passa no seu próprio corpo quanto outros dados externos, como por exemplo, as condições meteorológicas ou as atitudes de seus vizinhos.
Na medida em que estas condições são sobrepujadas pela ação (como, por exemplo, a supressão de reflexos), os seres humanos estão na realidade ampliando seu escopo de ação propositada: "Se um homem se abstém de controlar reações involuntárias de suas células e centros nervosos, embora pudesse fazê-lo, seu comportamento, do nosso ponto de vista, é propositado."
(3) Seria possível determinar uma linha divisória exata entre ação propositada e ação não propositada?  Um feto humano, um humano adormecido, ou uma pessoa sob a influência de drogas podem apresentar uma ação que parece ser — para um observador comum — não propositada ao invés de propositada.
Entretanto, o observador não está em posição de chegar à conclusão de que uma pessoa não está agindo propositadamente, não importa o quão não propositada, sem sentido, inexpressiva ou absurda possa lhe parecer a atitude dessa pessoa.  Até mesmo uma pessoa insana ou sob a influência de drogas pesadas age — e, por conseguinte, tem o objetivo de alcançar determinados fins.[2]
Escreve Mises,
As pessoas têm uma tendência para acreditar que as fronteiras entre comportamento consciente e a reação involuntária das forças que operam no corpo humano são mais ou menos indefinidas.  Isto é correto apenas na medida em que, às vezes, não é fácil estabelecer se um determinado comportamento deve ser considerado voluntário ou involuntário.  Entretanto, a distinção entre consciência e inconsciência é bastante nítida e pode ser claramente determinada.
(4) Por último, é válido ressaltar as consequências que uma negação da afirmação verdadeira de que a ação humana é ação propositada implicaria.
A negação de que há propósitos nas atitudes do homem é algo que somente pode ser aceito se for assumido que a escolha dos fins e dos meios é algo apenas aparente; que o comportamento humano é, em última instância, determinado por eventos fisiológicos que podem ser completamente descritos na terminologia da física e da química.
Mesmo os mais fanáticos defensores da "Unidade da Ciência" [dogma central do positivismo lógico], os quais formam uma seita, evitam propagandear inequivocamente essa formulação rude e grosseira de sua tese fundamental.  E há boas razões para essa reticência.  Enquanto não for descoberta uma relação clara e distinta entre ideias e eventos físicos ou químicos — dos quais as ideias seriam a consequência lógica —, a tese positivista permanecerá sendo apenas um postulado epistemológico originado não da experiência cientificamente estabelecida, mas de uma visão metafísica do mundo...
Mas é evidente que tal proposição metafísica não pode de maneira alguma invalidar os resultados obtidos pelo raciocínio discursivo das ciências da ação humana.  Os positivistas, por motivos emocionais, não gostam das conclusões que o indivíduo atuante — isto é, o indivíduo que age — irá necessariamente obter dos estudos econômicos.  Como os positivistas são incapazes de encontrar qualquer falha tanto no raciocínio econômico quanto nas inferências dele derivadas, eles recorrem a esquemas metafísicos com o intuito de desacreditar os fundamentos epistemológicos e a abordagem metodológica da ciência econômica.
III.
Para concluir, Mises demonstrou que a ação humana é ação propositada: a tentativa propositada de remover um desconforto ou de substituir uma situação menos satisfatória por uma mais satisfatória.  Isto advém de maneira lógica do axioma da ação humana.
Saber que a ação humana é uma ação propositada nada tem a ver com a psicologia.  Declarar que ação humana é ação propositada é algo que não requer suposições quanto às motivações concretas do agente homem.
O comportamento não propositado deve, no que concerne à praxeologia, ser classificado como um dado externo, parte do ambiente geral sob o qual a ação humana ocorre.  Está fora do escopo da praxeologia.
Embora uma linha divisória possa ser traçada entre a ação propositada e a não propositada em um nível meramente conceitual, tal distinção necessariamente não pode ser detectada por um observador externo mediante sua simples observação — e isso não invalida a distinção traçada por Mises.
Ação humana é ação propositada.  Esse conhecimento é derivado de maneira lógica do irrefutavelmente verdadeiro axioma da ação humana, o qual é o núcleo da praxeologia.

Inflação dá um alívio com ajuda de alimentos e passagens

Enviado por Míriam Leitão 
NA CBN


A boa notícia que saiu hoje é que a inflação ficou em zero em julho. É o resultado mais baixo desde julho de 2010. Os alimentos chegaram a registrar deflação, de 0,33%, o que não acontecia há dois anos. Os produtos que mais perturbaram a inflação e o bolso do consumidor no começo do ano, como o tomate, tiveram quedas expressivas. 
Outro dado positivo é que o INPC, que mede a inflação dos mais pobres, teve deflação de 0,13%.
A desaceleração dos alimentos e a revogação do aumento das passagens, consequência dos movimentos de junho, contribuíram para que a inflação ficasse em zero.
Para que essa redução das tarifas seja sustentável, o governo tem que abrir a caixa preta da formação dos preços das tarifas de ônibus, há pouca informação sobre isso. Tenho certeza de que é possível aperfeiçoar a fórmula de cálculá-las. É possível que alguns componentes do custo estejam mais altos do que deveriam estar. Mas se não houver nada, essa revogação do aumento apenas adia o problema para mais adiante ou o subsídio governamental acaba aumentando - nenhuma dessas opções é boa.
Em relação aos alimentos, os preços sobem no começo do ano e caem no fim, mas políticas públicas podem atenuar essa volatilidade. Alguma coisa pode ser feita para mitigá-la.
A queda da inflação em julho, puxada pelos alimentos, é um momento de alívio.

Em 12 meses, o IPCA desacelerou de 6,7% para 6,27%, mas continua muito alto

Não é o consumo que cria a prosperidade



overconsumption.jpgQuando eu era estudante de economia, uma das tarefas mais difíceis sempre foi a de entender a relação exata entre gastos com consumo, poupança e prosperidade.  Ainda na graduação, fui alimentado com a teoria padrão fornecida pelas curvas IS/LM, que diz que o consumo é a força motriz da produção.  Essa teoria padrão pode ser resumida em algumas frases curtas, utilizando alguns "fatos" óbvios sobre o funcionamento do sistema econômico.
1. Empresas irão contratar trabalhadores e produzir coisas se, e somente se, elas esperarem com isso poder gerar receitas de venda suficientes para a) cobrir seus custos operacionais e b) obter alguma taxa de lucro.
2. As indústrias produtoras de bens decapital irão ajustar seus planos de produção de acordo com a demanda vivenciada pelas indústrias de bens de consumo.  Caso a demanda por bens de consumo diminua, qualquer que seja o motivo, as empresas irão reduzir sua produção e demitir empregados.
3. Durante períodos de crise econômica, diz-se que uma redução dos salários não será benéfica para o sistema econômico como um todo porque salários menores significam menores gastos com bens de consumo, o que agravaria ainda mais a crise.
4. A cura para tudo, diz-se, deve advir do aumento dos gastos públicos.  Tal aumento deve ser financiado por déficits orçamentários em conjunto com o aumento da oferta monetária e da expansão do crédito.
O propósito desse artigo é mostrar a exata relação entre gastos com consumo, poupança, acumulação de capital e prosperidade.  Será mostrado que o consumo em termos reais, bem como gastos com consumo expressos em termos monetários, não são a causa, mas, sim, um efeito de uma maior poupança e de uma maior acumulação de capital.
Demanda por bens não é demanda por mão-de-obra
Com o intuito de reconhecer a falácia da teoria padrão da maneira mais clara possível, é preciso antes estabelecermos uma conexão correta entre a demanda por bens de consumo e todas as outras atividades econômicas, particularmente, é claro, a demanda por mão-de-obra.
O primeiro passo nessa análise é entender a seguinte e simples observação: esses dois fenômenos, a saber, a compra de bens de consumo e a demanda por mão-de-obra, representam dois eventos fisicamente separados. Isto é, quando alguém compra um bem de consumo, essa pessoa não está comprando simultaneamente mais nada além do bem de consumo em questão.  Em particular, não se está comprando ao mesmo tempo mão-de-obra ou bens de capital.  A pessoa está comprando apenas um bem de consumo.  É importante, nessa etapa da análise, deixar de lado todas as outras possíveis consequências futuras dessa compra inicial, e manter o foco no simples fato de que a demanda por bens de consumo e, aqui, a demanda por mão-de-obra, constituem dois eventos separados.  Dizer que a demanda por bens de consumo deve ser vista e analisada separadamente não é o mesmo que de alguma forma desconsiderar o papel do consumidor ou da demanda do consumidor.  Ninguém nega o fato de que a compra de bens de consumo tenha consequências econômicas importantes para o processo de produção em questão.  Porém, com o intuito de se chegar a uma fotografia nítida das relações funcionais presentes nesse processo, é indispensável levar em consideração a separação lógica dos dois eventos.
Ademais, também é importante entender que quando alguém demanda bens de consumo, no sentido de se gastar uma quantia definida de dinheiro nele, este algum está reduzindo sua capacidade de demandar, digamos, serviços de mão-de-obra.  Este, obviamente, é um claro exemplo de escassez.  Se eu gastar toda a minha renda mensal em, por exemplo, jogos, eu não terei como comprar outras coisas.  O mesmo tipo de escassez se aplica com igual intensidade a um sistema econômico complexo, com a única diferença sendo que, o fator restringente nesse sistema econômico como um todo será a quantidade de dinheiro e o volume de gastos.
Mesmo em um sistema monetário em que a quantidade de dinheiro pode ser expandida rapidamente, a lógica da escassez se aplica com a mesma intensidade.  O ato de ter de se decidir entre demanda por bens e demanda por serviços de mão-de-obra já pressupõe a existência de escassez, independentemente de quão rapidamente a oferta monetária possa aumentar.
À luz da simples análise acima, é possível tirarmos conclusões importantes.  Afirmar, por exemplo, que a causa do problema do desemprego — e, consequentemente, sua solução — é uma insuficiente demanda por bens de consumo, significa cometer uma falácia lógica elementar.  Mais ainda: significa estar afirmando que a demanda por bens de consumo de certa forma incorpora a demanda por mão-de-obra; que, no exato momento em que alguém compra um bem de consumo, esse alguém está também comprando serviços de mão-de-obra.  Ou, colocando mais precisamente, tudo isso significa dizer que a demanda por bens de consumo envolve mais do que apenas isso, o que seria uma impossibilidade lógica.
O conceito do gasto produtivo
A existência de demandas distintas por bens de consumo, bens de capital e serviços de mão-de-obra, respectivamente, nos permite fazer uma distinção estrita entre os dois tipos de gasto que existem na economia de mercado.  O primeiro tipo pode ser chamado de gastos com consumo, e está relacionado à demanda por bens de consumo.  O segundo tipo pode ser chamado de gastos produtivos, e está relacionado aos gastos feitos por empresas e indústrias com a compra de bens de capital e serviços de mão-de-obra.  Uma característica distinta dos gastos produtivos é que eles, obviamente, devem ser feitos com fundos que foram anteriormente poupados — isto é, que não foram gastos na compra de bens de consumo.
Observe — e este é outro ponto importante — a diferença crucial entre os dois tipos de gastos.  Do ponto de vista do consumidor, o dinheiro que ele gasta na compra de bens de consumo vai embora, e os bens de consumo que foram comprados, tão logo eles estejam fisicamente extintos ou de alguma forma deixem de ter serventia ao consumidor, devem ser novamente adquiridos.  Para que possa comprar os bens e serviços de que necessita, o consumidor deve ter uma fonte de renda monetária.  Esta é uma característica distinta dos gastos com consumo: eles dependem de fontes externas.
Já os gastos produtivos, por outro lado, são feitos por indústrias e empresas com o propósito específico de trazerem subsequentes receitas de venda, as quais normalmente superam os custos monetários incorridos no processo de produção.  Do ponto de vista de um empreendedor, os gastos produtivos constituem um meio para se obter uma quantia de dinheiro maior do que aquela que foi gasta.
A poupança e os gastos produtivos, e não os gastos com consumo, são os dois fatores que constituem a demanda por mão-de-obra e por bens de capital.  São eles que permitem alargar e sustentar os processos de produção capitalista, os quais, por sua vez, possibilitam às empresas e indústrias aumentarem sua produção e, como consequência, cortar os custos de seus produtos.
Quanto maior for a poupança e os gastos produtivos dos empreendedores e dos capitalistas, maior será a demanda por mão-de-obra e por bens de capital em relação à demanda por bens de consumo, e maiores serão os salários e a produtividade da mão-de-obra — essa última por causa da produção e do emprego de mais bens de capital por trabalhador.
O surgimento de assalariados em conjunto com uma abundância de bens de consumo a preços baixos gerou, pela primeira vez na história da humanidade, o fenômeno do mercado de massas e do consumo em massa.  E, como a palavra "massa" sugere, a esmagadora maioria dos consumidores, e a vasta significância econômica que eles possuem, representa a recém-criada classe de assalariados.  Como já deve estar ficando claro, o consumo em massa é, na realidade, o efeito, e não a causa, da maior produtividade e prosperidade — contrariamente ao que pensam os defensores da teoria de que um baixo nível de consumo é a causa dos males econômicos.
oferta cria sua própria demanda, e não o contrário.  E, principalmente durante períodos de crise econômica — os quais sempre foram exclusivamente produto de uma política governamental de inflação monetária e expansão do crédito —, a medida mais perniciosa que pode ser tomada é aumentar os gastos do governo em detrimento da poupança e do gasto produtivo.
Isso significa que principalmente a tributação dos lucros corporativos, das heranças e da distribuição de dividendos irá confiscar fundos que de outra forma seriam utilizados para a demanda de bens de capital e mão-de-obra, e desviá-los para gastos com consumo do governo.  Assim, todos os tipos de gastos públicos elevados desta forma, incluindo-se aí os projetos com um caráter aparentemente benéfico, como obras públicas, construção de infraestrutura na forma de rodovias ou meios de comunicação, gastos para educação e escolas etc., podem apenas contribuir para o aumento do desemprego. 
E se o gasto governamental for elevado por meio da criação de mais dinheiro, a única maneira como isso poderá aumentar a demanda por mão-de-obra e bens de capital não será em decorrência de sua mera existência, mas somente se as adicionais receitas de venda resultantes desse aumento monetário forem poupadas e produtivamente gastas por seus recebedores.
Conclusão
O erro básico dos defensores da teoria de que um baixo nível de consumo é a causa dos males econômicos está na crença de que a prosperidade está correlacionada direta e positivamente aos gastos com consumo; na crença de que, ao demandar bens de consumo, um indivíduo estará, de alguma forma, demandando serviços de mão-de-obra em conjunto com bens intermediários que contribuem para a produção do bem final.  O erro advém da incapacidade de identificar as forças que na realidade são as responsáveis pelo consumo em massa e pelo aumento da prosperidade em termos reais.  Tais forças são a poupança e os gastos produtivos feitos pelas empresas e indústrias.
Com relação à teoria econômica, é muito importante entender que uma compreensão correta da relação funcional entre consumo, poupança, gastos produtivos e prosperidade não pode ser adquirido por meio da ciência econômica contemporânea, uma vez que esta consegue confundir coisas básicas em tal grau que a torna praticamente inútil.

Em defesa do utilitarismo de Mises



Mises1.jpgEstudiosos do liberalismo clássico e da Escola Austríaca de Economia podem se deparar com uma curiosa inconsistência relacionada à doutrina do utilitarismo na literatura austro-liberal.
De um lado, você irá encontrar vigorosas tentativas de refutar a doutrina, ou denúncias de sua suposta impropriedade.  Especialmente entre os modernos escritores libertários, "utilitarismo" pode soar como uma palavra suja, figurando lá embaixo junto ao positivismo e ao keynesianismo como doutrinas contrárias ao moderno pensamento austro-liberal.
De outro lado, você pode encontrar nos escritos de Ludwig von Mises, a principal origem do austro-liberalismo, uma completa adoção do utilitarismo.
Um dos motivos desta inconsistência é puramente semântico.  O que muitos libertários têm em mente quando denunciam o "utilitarismo" é essencialmente diferente daquilo que Mises queria expressar ao utilizar o termo.  Por exemplo, há uma corrente do utilitarismo que tenta "mensurar" a utilidade das coisas, e utiliza essas mensurações de utilidade para decidir sobre questões éticas e políticas.  Muitos libertários mencionam a falácia dessa abordagem quando tentam refutar o "utilitarismo".
Porém, nada poderia estar mais longe do utilitarismo de Mises do que esta doutrina.  Com efeito, o próprio Mises sempre esteve, desde muito cedo em sua carreira, na vanguarda dos argumentos que refutavam por completo toda a noção de utilidade mensurável.  Utilidade, demonstrou ele, era uma questão de classificação puramente ordinal de preferências, algo que jamais poderia ter uma magnitude cardinal.
Era de se imaginar que os estudiosos de Mises, ao se referirem ao termo "utilitarismo", prestariam a devida homenagem àquilo que o próprio Mises (bem como outros austríacos utilitaristas, como Henry Hazlitt e Leland Yeager) queria dizer quando falava da doutrina.  No entanto, muitos se referem unicamente às falaciosas formulações de utilitarismo que Mises jamais endossou.
Mas a principal razão para a supracitada inconsistência é que houve uma revolução na ética do austro-liberalismo.  O maior pupilo de Mises, Murray Rothbard, considerava o utilitarismo algo inadequado, criticando-o com seu vigor característico e propondo sua própria alternativa: uma doutrina ética libertária baseada nos "direitos naturais".
A crítica de Rothbard ao utilitarismo foi amplamente aceita pelos austro-liberais, que ou aceitam integralmente sua doutrina ética, ou a utilizam como trampolim para o desenvolvimento de sua própria doutrina ética não-utilitária (por exemplo, a "ética da argumentação" de Hans-Hermann Hoppe e o neoeudemonismo de Roderick Long).
Rothbard também se tornou o intelectual que seguiu mais fielmente a economia de Mises.  Ao passo os seguidores do outro aluno de Mises, F.A. Hayek, levaram a economia austríaca para caminhos divergentes, foram os economistas rothbardianos que se mantiveram mais fieis à visão econômica da Mises.
Esses dois fenômenos levaram ao atual e pungente estado de coisas: embora Mises tenha sido enormemente influente por meio de seus alunos Rothbard e Hayek, existem poucos intelectuais integralmente misesianos atualmente, no sentido de terem Mises como sua influência primária em termos de filosofia social geral.  Os únicos economistas completamente misesianos são os rothbardianos, e os rothbardianos abandonaram toda a abordagem de Mises sobre o "porquê" de se adotar liberalismo.
Afirmo que esse fenômeno representou uma guinada pra pior, e que o moderno austro-liberalismo ganharia solidez, clareza e poder caso se voltasse para Mises nesse aspecto.  Neste ensaio, abordarei várias objeções ao liberalismo utilitarista de Mises.[1]
Utilitarismo e análises sem juízo de valor
O utilitarismo é frequentemente associado ao filósofo inglês Jeremy Bentham, que, fazendo eco a Joseph Priestly, escreveu: "a felicidade máxima do maior número de pessoas é a base de toda a moral".[2]
Tal afirmação é frequentemente interpretada como sendo um postulado científico ditando como as coisas devemser: no caso, trata-se de uma declaração que afirma ser um fato objetivo que os indivíduos devem orientar-se para a máxima felicidade do maior número de pessoas.  Críticos podem contestar dizendo se tratar de uma concepção sem fundamento.
Todas as contestações deste tipo estariam atacando algo que Mises jamais defendeu e que jamais esteve presente em seu utilitarismo.  Mises não acreditava em um científico "tem de ser".  Muito pelo contrário, ele afirmava que toda ciência necessariamente não deve fazer juízo de valor — wertfrei, em alemão.  Ele, em concordância com o filósofo David Hume, acreditava ser inútil tentar inferir um "tem de ser" de um "é".  Ele sustentava que "não existe algo como um científico "tem de ser",[3] e, "não existe algo como uma ciência normativa, uma ciência que faça juízo de valor ditando o que tem de ser feito"[4].  Mises acreditava que não existe algo como um "valor objetivo", seja no mercado de trocas voluntárias, seja não conduta humana em geral.
Roderick Long explicou como o utilitarismo de Mises não envolve declarações de valor objetivo.
Você pode pensar que, se alguém diz que a ciência econômica implica utilitarismo, ele está querendo dizer que a ciência econômica implica uma teoria ética positiva — pois normalmente pensamos o utilitarismo como uma teoria ética particular, uma teoria que diz que certas coisas são objetivamente boas.  As versões padrões do utilitarismo, como a versão de John Stuart Mill, afirmam que um determinado objetivo — bem-estar humano, felicidade, prazer, satisfação — é intrinsecamente valioso e digno de ser buscado, de maneira objetiva.  E então nossa tarefa passa a ser a de buscá-lo.
Claramente, Mises não pode estar defendendo isso.  Dado que Mises crê não existirem valores objetivos, quando Mises adota o utilitarismo ele não pode estar aceitando a visão de que o bem-estar humano é um valor objetivo.  O que Mises quer dizer com "utilitarismo" é um pouco diferente do tipo de utilitarismo que pessoas como John Stuart Mill defendem.  Por "utilitarismo", Mises se refere a algo como simplesmente dar às pessoas conselhos sobre como alcançar os objetivos que elas já possuem.  Logo, você não está necessariamente endossando os objetivos delas.  O utilitarismo diz que a única função real de qualquer tipo de avaliação é simplesmente falar sobre os melhores meios para se alcançar determinados fins, pois você não pode avaliar os fins.[5]
A caracterização feita por Long sobre o utilitarismo sem juízo de valor de Mises mostra-se acurada quando se observa a seguinte declaração de Mises: "O utilitarismo, por outro lado, não lida de modo algum com objetivo finais e julgamentos de valor.  Ele invariavelmente se refere somente aos meios."[6]
O fenômeno social da moralidade
A caracterização de Long é um corretivo útil, e é fundamentalmente sólida, mas ainda assim pode levar a uma má interpretação.  Quando Long diz que o utilitarismo é sobre "dar às pessoas conselhos sobre como alcançar os objetivos que elas já possuem", isso pode levar alguém a pensar que a função do filósofo social utilitarista é oferecer conselhos a indivíduos que estão enfrentando determinados dilemas de conduta interpessoal. 
Adotando esta visão, muitos libertários críticos do utilitarismo criam cenários em que as preferências de um indivíduo, mesmo com todas as consequências de longo prazo consideradas, não iriam se alinhar aos princípios liberais.[7]
Se o utilitarista que não faz juízo de valor não consegue dizer nada que seja convincente para fazer com que tais pessoas se convertam ao liberalismo, prossegue a crítica, então você necessita de outro argumento não-utilitarista (como um argumento baseado em direitos naturais ou na ética da argumentação, por exemplo) para fazer uma defesa da liberdade.
Tal raciocínio evidencia uma má interpretação acerca do fenômeno social da moralidade.  Para entender por quê, temos antes de considerar alguns princípios básicos.
Antes de tudo, é preciso entender que códigos morais são construções humanas.  Como escreveu Mises, "A noção de bem e mal é uma invenção do homem".[8]
Ademais, códigos morais, como todas as invenções humanas, têm um propósito:
Todas as regras morais e leis humanas são meios para realização de determinados fins.  Só examinando seriamente a sua utilidade para consecução dos objetivos que se pretende alcançar é que podem ser qualificadas de boas ou más.[9]
E os códigos morais são adotados com o objetivo de serem meios para a consecução de fins que somente são possíveis por meio da cooperação social.  É uma questão de utilidade social.  "A noção de bem e mal é ...  um preceito utilitário concebido para tornar possível a cooperação social sob o arranjo da divisão do trabalho."[10]
Um utilitarista sólido não diz que o propósito de um código moral tem de ser a utilidade social.  Mas sim que o propósito essencial dos códigos morais são e sempre foram a utilidade social.  Desta forma, o utilitarismo, estritamente falando, está mais para "meta-ética" do que para "ética".
Se os formadores de opinião compreendessem que, por exemplo, um código moral liberal (tanto em sua totalidade quanto em suas partes integrantes) é mais socialmente vantajoso do que códigos alternativos, e se eles convencessem a população geral quanto a este fato, essa revolução na opinião pública causaria uma revolução na moralidade vigente.
Quando um código moral é adotado na sociedade, aceitação e boa vontade para seguir o código, bem como reprovação e má vontade para violá-lo, tornam-se comuns.  Essa aceitação e reprovação também é geralmente internalizada, formando a consciência dos indivíduos.
Tradições morais podem adquirir uma vida própria, tornando-se assim quase fins em si mesmas.  Visando à sua transmissão e perpetuação, elas também podem ser escoradas em pronunciamentos divinos ou metafísicos, e adornada por rituais.  Porém, em última instância, todos os costumes representam meios humanos, e não fins divinos ou supremos.
Quando indivíduos tomam decisões baseando-se em um código moral, eles não ponderam sobre as supremas considerações utilitárias nas quais tal código é baseado.  Suas decisões são imediatamente determinadas por pressões sociais e por suas consciências.  No entanto, isso não altera o fato de que o princípio supremo para a adoção do código moral é utilitarista, e que a causa suprema e mediadora das ações morais é a utilidade social.
A função do filósofo social utilitarista não é cair de pára-quedas em dilemas éticos e instruir indivíduos sobre qual escolha está mais de acordo com seu interesse próprio.  Sua função é instruir os indivíduos em seus momentos de sóbria reflexão (quando eles não estão pressionados por uma crise urgente) sobre qual arranjo de regras gerais está mais de acordo com seu interesse próprio.[11]  Se o filósofo social for bem sucedido, tais regras gerais tornar-se-ão integradas ao código moral vigente.
Tão logo este código moral seja adotado, passa a ser função não dos filósofos sociais, mas sim dos pais, mentores, colegas, amigos e da própria consciência do indivíduo fazer com que a moralidade vigente torne-se efetiva no dia a dia.
Intervenção econômica e contenção moral
Vários críticos acusam os economistas utilitaristas de inserir juízos de valor em suas análises.  Mises clarificou a questão:
Embora haja muitas pessoas que condenam a economia por sua neutralidade em relação a julgamentos de valor, há também os que a condenam por sua suposta complacência em relação aos mesmos....
A confusão existente na discussão desses problemas é de natureza semântica e se deve à forma inadequada de muitos economistas empregarem certos termos.  Suponhamos que um economista investigue se uma medida pode produzir um resultado para cuja realização foi recomendada; e que chegue à conclusão de que não resultará em p, mas em g, um efeito que mesmo os que propõem a medida consideram indesejável.  Se esse economista enunciar o resultado de sua investigação dizendo que é uma medida "má", não estará formulando um juízo de valor.  Estará apenas dizendo que, do ponto de vista dos que desejam atingir o resultado p, a medida é inadequada.  É nesse sentido que os economistas que defendem o livre comércio condenam o protecionismo.  Eles demonstram que o protecionismo, ao contrário do que pensam os seus adeptos, diminui, em vez de aumentar, a quantidade total de produtos e que, portanto, é indesejável do ponto de vista dos que preferem que a oferta de produtos seja a maior possível.  Os economistas criticam as políticas em função dos resultados que pretendem atingir.  Quando, por exemplo, um economista diz que uma política de salários mínimos é má, o que está dizendo é que os seus efeitos contrariam os propósitos dos que a recomendam.
Nesse sentido, podemos dizer que a economia é apolítica ou não política, embora seja a base de todo tipo de ação política.  Podemos ainda dizer que a economia é perfeitamente neutra em relação a todos os julgamentos de valor, uma vez que ela se refere sempre aos meios e nunca à escolha dos objetivos últimos que o homem pretende atingir.[12]
O único tipo de "deve" que Mises aceita como sendo não-arbitrário é aquele do tipo "Se você quer obter Y, você deve fazer X", o qual pode ser reformulado de uma maneira menos ambígua e mais livre de juízo de valor como "Fazer X resulta em Y, que é o que você quer".
A caracterização feita acima por Mises, se considerada sem o devido cuidado, também pode ser enganosa.  Ela pode novamente evocar a imagem do "filósofo social pára-quedista" — no caso, a de um economista que heroicamente vai ao escritório de um lobista para convencê-lo de que a tarifa que ele quer que o governo imponha vai contra seu interesse próprio.
Mises reconhecia que, em tal situação, um lobista pode perfeitamente se beneficiar da tarifa, se ele considerar tal política isoladamente.  Porém, caso tal política seja considerada como um exemplo de uma mais ampla e generalizada política de tarifas protecionistas, a ciência econômica mostraria que todo o arranjo seria prejudicial para ele.
Mises deu o exemplo das sinecuras (a prática sindical de obrigar as empresas, por meio do governo, a contratar mais do que o número de pessoas necessárias para fazer algum serviço).[13]  Considerando-se tal política independentemente, ela pode parecer benéfica para um trabalhador que a defenda em sua própria área.  Mas o trabalhador, demonstrou Mises, "não pode impedir que a sinecura se torne uma prática generalizada"; e, se isso ocorrer, tal prática faria com que o trabalhador individual fosse prejudicado na condição de consumidor muito mais do que seria ajudado na condição de produtor.
É claro que a prática da sinecura aplicada para um único trabalhador é um fator ínfimo, não tendo o poder de transformar a sinecura em uma prática generalizada.  Sendo assim, um trabalhador pode perfeitamente julgar que os benefícios pessoais trazidos por uma única ocorrência de sinecura superam enormemente os custos de sua minúscula contribuição para a prática geral.
Mas a questão não é que cada trabalhador irá se abster de defender a sinecura tendo por base apenas essas considerações; a questão é que, se fosse amplamente compreendido que os efeitos sistêmicos das sinecuras são um empobrecimento geral da população, uma mentalidade anti-sinecuras iria se generalizar e tornar-se-ia parte do código moral vigente.  Sinecuras passariam a ser objeto de reprovação geral, e a consciência do indivíduo beneficiado iria recuar perante tal prática, pois, para ele, a reprovação e a hostilidade alheia, além do peso na sua própria consciência, seriam mensurados e vistos como aspectos tremendamente negativos da sinecura.
Dado que sinecuras têm a ver com propriedade, uma mentalidade anti-sinecura passaria a ser parte integrante também do código jurídico.  Em uma sociedade com uma mentalidade anti-sinecuras (criada pela percepção generalizada de sua desutilidade social), a pressão social e a consciência seriam suficientes para impedir a defesa das sinecuras na maioria dos casos.  Nos poucos casos em que isso não fosse verdade, sua concretização seria impedida pela força jurídica, a qual seria reflexo do conjunto da opinião pública.
Para os empresários, vale o mesmo que é válido para os trabalhadores.  Como escreveu Mises, "Sempre houve e sempre haverá empresários que clamam por privilégios, protecionismo e afins."[14]
Contudo, "A tarefa de fazer com que tal sistema de privilégios desapareça não é dos empresários, mas sim da opinião pública."[15]
Agora, o que certamente não impediria a adoção de tarifas, a criação de sinecuras e outros privilégios antiliberais seriam filósofos sociais indo atrás de lobistas e trabalhadores para alertá-los sobre "violações de direitos relativos à natureza do homem" (argumentos em prol dos direitos naturais) ou sobre as "contradições performativas" implícitas em suas políticas (a ética da argumentação).
Conflitos de castas e interesses de longo prazo
Mises escreveu de modo eloquente sobre a "harmonia de interesses".[16]  No entanto, ele normalmente fazia uma ressalva em suas declarações a respeito da "harmonia de interesses" dizendo que tal harmonia existe somente "no mercado".  Rothbard enfatizou essa ressalva:
É verdade que no livre mercado não há conflitos de classe ou conflitos de grupos de interesses; todos os participantes se beneficiam do mercado e, por conseguinte, todos os seus interesses estão em harmonia.
Porém, a questão muda drasticamente, apontou Mises, quando passamos a analisar as intervenções do governo.  Pois cada intervenção necessariamente cria um conflito entre aquelas classes de pessoas que são beneficiadas ou privilegiadas pelo governo e aquelas que são oprimidas por ele.  Estas classes conflitantes criadas unicamente pela intervenção estatal são chamadas por Mises de castas.  Como Mises afirma,
Portanto, prevalece uma solidariedade de interesses entre os membros de uma casta e um conflito de interesses entre as várias castas.  Cada casta privilegiada visa à obtenção de novos privilégios e à preservação daqueles que já possui.  Cada classe desprivilegiada visa à abolição de suas desqualificações.  Dentro de uma sociedade de castas há um irreconciliável antagonismo entre os interesses das várias castas.[17]
Rothbard imaginou que isso representasse um problema para o utilitarismo de Mises:
Mas Mises tem um grande problema; como um utilitarista ... ele tem de ser capaz de convencer a todos, até mesmo aqueles que ele considera fazerem parte das castas dominantes, de que eles estariam em melhor situação em um livre mercado e em uma sociedade livre.  Logo, ele tem de convencê-los de que eles também deveriam trabalhar para este fim.  Ele tenta fazer isso criando uma dicotomia entre os interesses de "curto-prazo" e os de "longo-prazo", sendo este último rotulado de 'interesses corretos'.  Mesmo aqueles que são beneficiados pelo estatismo no curto prazo, garante Mises, irão perder no longo prazo.  Como Mises coloca,
No curto-prazo, um indivíduo ou um grupo pode lucrar com a violação dos interesses de outros grupos ou indivíduos.  Porém, no longo-prazo, justamente por incorrerem continuamente em tais atos, eles prejudicam seus próprios interesses tanto quanto prejudicaram os interesses daquelas pessoas.  O sacrifício que um homem ou um grupo faz ao renunciar a alguns ganhos de curto-prazo — para não colocar em risco o funcionamento pacífico do aparato da cooperação social — é meramente temporário.  Equivale a abrir mão de um pequeno lucro imediato em troca de ganhos incomparavelmente maiores no longo-prazo.
O grande problema aqui é: por que imaginar que as pessoas irão sempre considerar seus interesses de longo-prazo em vez de seus interesses de curto-prazo?  Por que o longo prazo representa o "interesse correto"?  Ludwig von Mises, mais do que qualquer economista de sua época, trouxe para a ciência econômica a percepção da grande e imutável importância da preferência temporal na ação humana: a preferência em alcançar uma dada satisfação agora em vez de mais tarde.  Em suma, todos preferem o curto prazo ao longo prazo, alguns em graus diferentes de outros.
Como pode Mises, como utilitarista, determinar que uma preferência temporal mais baixa (isto é, mais voltada para o longo prazo) é "melhor" do que uma preferência temporal mais alta (mais imediatista) para os indivíduos no presente?[18]
Em primeiro lugar, vale lembrar que o mercado é tão produtivo e difuso em sua beneficência, que pouquíssimos da "casta" dominante não se beneficiariam do fato de ele, o mercado, ser deixado mais livre.  Como Mises afirmou, "O trabalhador americano médio desfruta de comodidades que fariam inveja a Cresus, Crasso, aos Médici e a Luís XIV".[19]
Tivesse Luís XIV estabelecido a liberdade econômica no início de seu reinado, a França capitalista teria despejado uma profusão muito maior de bens e serviços sobre sua cabeça, bens e serviços estes que não foram produzidos por causa de seus impostos paralisantes e de suas guerras imperialistas.
Seguindo a linha de raciocínio de Rothbard, Robert Murphy, em uma crítica ao utilitarismo, pergunta: "É realmente verdade que, por exemplo, Josef Stalin agiu contra seus próprios interesses, mesmo no longo prazo?"[20]
Talvez Stalin tenha feito parte da ínfima minoria de pessoas que prosperaram mais do que teriam prosperado sob um arranjo mais liberal.  Mas ele só o fez ex post.  Stalin foi extremamente sortudo: ele teve a boa ventura de terminar no topo da montanha de assassinados, e não em algum lugar do meio, como ocorreu com as milhões de vítimas de seus expurgos.  Ex ante, ele não tinha garantia nenhuma de que tudo iria ocorrer como ocorreu, e qualquer pessoa em uma similar posição ex ante poderia apenas, e muito sensatamente, esperar ser liquidada em uma idade muito jovem.  E são as tendências ex ante das regras gerais que importam na adoção de códigos de conduta interpessoal.
Ademais, não é verdade que os liberais utilitaristas precisam convencer literalmente todas as pessoas de que uma sociedade liberal seria a que melhor atenderia aos interesses delas.  Apenas a maioria precisa ser convencida.  Tal revolução na opinião pública iria necessariamente produzir uma revolução na moralidade vigente.  Contra essa moralidade vigente, até mesmo o mais ardoroso membro estatista da casta dominante seria incapaz de fazer qualquer progresso.
Nos trechos acima, Rothbard também interpreta erroneamente o que Mises quis dizer em sua discussão sobre a "harmonia dos interesses de longo prazo".  Mises não cometeria um erro tão elementar a ponto de dizer que uma preferência temporal mais baixa é de alguma forma objetivamente melhor do que uma mais alta.  Mises não estava dizendo que as pessoas deveriam, de acordo com algum padrão externamente imposto, considerar mais acentuadamente o interesse de longo prazo (evitar as armadilhas do intervencionismo) em vez de considerar o interesse de curto prazo (usufruir os benefícios do privilégio).
Mais exatamente, a questão é que os impactos de longo prazo de uma intervenção são mais difíceis de serem conhecidos do que os impactos de curto prazo, principalmente para quem não tem familiaridade com economia.  Mises concluiu, utilizando sua temologia (psicologia literária), que a maioria das pessoas preferiria evitar as armadilhas do longo prazo se ao menos soubessem sobre elas.  Quando Mises disse que os benefícios de longo prazo de se preservar a cooperação social são "incomparavelmente maiores", ele se referia ao julgamento própriode praticamente cada indivíduo (caso eles estivessem a par das consequências de longo prazo), e não de acordo com algum padrão externamente imposto.
O liberalismo utilitarista não diz "Você quer B, mas realmente deveria querer A".  Mais especificamente, ele diz "Você crê que B irá resultar em Y, que é o que você quer.  Mas não irá.  Em vez disso, irá resultar em X, que é o que você não quer.  No entanto, se você adotar A, obterá Z, algo de que você iria gostar muito mais, mas que sequer sabia que era possível."
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[David Gordon e Daniel Sanchez darão um curso on-line sobre a Ética Libertária, a partir de 27 de outubro de 2011]
E ele diz isso não em relação a escolhas particulares consideradas isoladamente, mas sim de acordo com as consequências sistemáticas a serem esperadas das regras gerais.  Ademais, ele diz isso não com o intuito de persuadir cada indivíduo a respeito de cada escolha concreta que ele faz em sua rotina diária, mas sim para efetivar uma revolução na opinião pública a respeito da vantagem social de tais medidas, algo que por sua vez irá necessariamente causar uma revolução no código moral vigente.
Existe de fato uma harmonia de interesses, mas não somente com relação a atos de trocas voluntárias dentro de uma sociedade liberal e de um livre mercado; existe também uma harmonia mais geral de interesses, a qual sempre persiste.  Mesmo dentro de uma sociedade não liberal e de um mercado fortemente regulado, o estabelecimento de uma sociedade liberal e de um livre mercado, por meio da adoção de um código moral liberal, é do interesse de virtualmente todos os indivíduos, desde a poderosa elite dominante até a plebe extremamente pobre.
Ao utilizar a praxeologia e a ciência econômica para expor e divulgar este fato, o liberalismo utilitarista pode transformar a sempre presente harmonia deinteresses em uma harmonia de efetivas preferências entre o público geral, pavimentando o caminho para uma ordem social liberal pacífica e próspera.
Nós liberais clássicos queremos mudar o mundo.  Mas não podemos mudar o mundo apresentando charadas para nossos céticos ouvintes, utilizando ingênuos argumentos filosóficos os quais eles podem, ali no momento, não ser capazes de refutar.  Para mudar o mundo, temos de falar não somente para a razão do homem, mas também para seus objetivos.

Por que o estado exige o poder de controlar a moeda



dinheiro.jpgImagine que você está no comando do estado, o qual é definido como uma instituição que possui o monopólio da jurisdição de seu território, sendo o tomador supremo de decisões judiciais para todos os casos de conflito, inclusive os conflitos envolvendo o estado e seus próprios funcionários.  Adicionalmente, e em consequência desta característica citada, você possui também o direito de tributar, isto é, de determinar de maneira unilateral o preço que seus súditos têm de lhe pagar para que você efetue essa tarefa de tomar decisões supremas.
Agir sob estas restrições — ou melhor, sob esta falta de restrições — é o que constitui a política e as ações políticas.  Consequentemente, já deveria estar claro desde o início que a política, por sua própria natureza, sempre significará transgressões, fraudes e delitos.  Não do seu ponto de vista, é claro, uma vez que você está no comando do estado; mas sim do ponto de vista daqueles que estão sujeitos ao seu jugo de juiz supremo.  Previsivelmente, você irá utilizar sua posição para se enriquecer à custa de todas as outras pessoas.
Mais especificamente, é perfeitamente possível prever quais serão suas atitudes e políticas específicas em relação à questão da moeda e do sistema bancário.
Suponha que você governe um território cuja economia já se desenvolveu além do estágio primitivo do escambo.  Ou seja, onde um meio comum de troca — isto é, o dinheiro — já está sendo utilizado.  De início, é fácil ver por que você estaria particularmente interessado no dinheiro utilizado e em questões monetárias em geral.  Como administrador do estado, você pode em princípio confiscar o que você desejar e proporcionar a si próprio uma renda imerecida, a qual foi obtida com o trabalho alheio.  Porém, em vez de confiscar vários bens de consumo ou bens de capital, você irá naturalmente preferir confiscar diretamente o dinheiro.  Pois o dinheiro, sendo o bem mais facilmente comercializável e mais amplamente aceito de todos, permite a você a maior liberdade possível para gastar sua renda como quiser, com a maior variedade possível de bens.  Por conseguinte, os tributos que você impuser sobre a sociedade serão tributos pagáveis em dinheiro, sejam eles impostos sobre a propriedade ou sobre a renda.  Seu desejo é maximizar suas receitas tributárias.
No entanto, ao tentar fazer isso você irá rapidamente encontrar algumas dificuldades bem espinhosas.  Com o tempo, suas tentativas de aumentar ainda mais sua renda tributária irão encontrar problemas: as maiores alíquotas de impostos não resultam em maiores receitas, mas sim em menores.  Sua renda — seu dinheiro para ser gasto — começa a declinar, pois os produtores, sobrecarregados com impostos cada vez mais altos, simplesmente passam a produzir menos.
Nesta situação, você tem apenas uma opção para aumentar ou pelo menos manter seu atual nível de gastos: pedir dinheiro emprestado.  E para isso você tem de ir aos bancos — daí o seu interesse especial também nos bancos e no setor bancário.  Se você pegar dinheiro emprestado dos bancos, estes bancos irão automaticamente ter um genuíno interesse no seu bem-estar futuro.  Eles farão de tudo para que você continue operante, isto é, eles irão querer que o estado dê continuidade às suas atividades espoliativas.  E dado que os bancos tendem a ser participantes essenciais de uma sociedade, tal apoio certamente é algo benéfico para você.  Por outro lado, e agora um lado negativo, se você pegar dinheiro emprestado dos bancos, eles não apenas irão querer que você quite o empréstimo, como também irão querer que você pague juros sobre o total emprestado.
Portanto, a questão que surge para você, o soberano, é: Como posso me livrar destas duas restrições, a saber, da resistência tributária que se manifesta na forma de receitas em queda e da necessidade de pegar dinheiro emprestado junto aos bancos e pagar juros para eles?
Não é muito difícil ver qual é a solução derradeira para o seu problema.
Você pode conquistar a sua desejada independência em relação aos pagadores de impostos e aos bancos apenas se você se estabelecer como o detentor do monopólio territorial da produção de dinheiro.  No seu território, somente você pode produzir dinheiro.  Mas isso ainda não é suficiente.  Pois enquanto o dinheiro for um bem cuja produção é dispendiosa (como no caso do ouro, por exemplo), você terá apenas despesas adicionais caso decida assumir sua produção.  De maior importância, portanto, é você se fazer valer de sua posição monopolista para reduzir os custos de produção e a qualidade do dinheiro para o mais próximo possível de zero.  Em vez de dinheiro de qualidade dispendiosa, como ouro ou prata, você deve procurar fazer com que pedaços de papel sem nenhum valor, e que podem ser produzidos a custo praticamente zero, se transformem em dinheiro.  (Normalmente, ninguém aceitaria pedaços de papel sem nenhum valor como forma de pagamento.  Pedaços de papel são aceitáveis como pagamento somente quando representam títulos de reivindicação sobre outra coisa — por exemplo, títulos de propriedade.  Em outras palavras, você terá de substituir pedaços de papel que representam títulos de propriedade sobre dinheiro genuíno por pedaços de papel que não representam titularidade sobre absolutamente nada.)
Sob condições concorrenciais, isto é, se todo mundo fosse livre para produzir dinheiro, uma moeda que pudesse ser produzida a custo praticamente zero seria produzida até uma quantidade em que a receita marginal se igualasse ao custo marginal; e dado que o custo marginal é zero, a receita marginal — isto é, o poder de compra deste dinheiro — também seria zero.  Daí a necessidade de se monopolizar a produção do dinheiro de papel: para restringir sua oferta e, com isso, evitar condições hiperinflacionárias e o consequente abandono total do dinheiro em troca de "ativos reais" — o que faria com que todo o experimento não trouxesse vantagem alguma para você.
Uma vez monopolizada a produção de dinheiro de papel, você terá alcançado uma façanha que todos os alquimistas e seus patronos sempre sonharam alcançar: extrair algo valioso (dinheiro com poder de compra) de algo praticamente sem nenhum valor.  Que façanha!  É algo que não lhe custa praticamente nada para ser fabricado, mas que você pode utilizar para adquirir coisas genuinamente valiosas, como uma casa ou uma Mercedes.  E você pode realizar essas maravilhas não apenas para você próprio, mas também para seus amigos e conhecidos, os quais você repentinamente descobrirá serem muito mais numerosos do que você imaginava (dentre eles vários economistas, os quais diligentemente irão explicar ao público por que o seu monopólio é na verdade algo fabuloso para todos.)
Quais serão os efeitos?  Primeiramente, uma maior quantidade de dinheiro de papel não afeta de maneira alguma a quantidade ou a qualidade de todos os outros bens não-monetários que existem na economia.  Existem tantos bens agora quanto existiam antes da sua façanha.  Isto imediatamente refuta a noção — aparentemente abraçada pela maioria dos economistas convencionais, se não por todos — de que "mais" dinheiro pode de alguma forma aumentar a "riqueza social".  Acreditar nisso, como o fazem todos aqueles que propõem uma política de crédito fácil como forma eficiente e "socialmente responsável" de acabar com os problemas econômicos, é acreditar em mágica; é acreditar que pedras — ou melhor, tiras de papel — podem ser transformadas em pães.
Ao contrário, esse dinheiro adicional que você imprimiu irá afetar a economia de duas maneiras.  De um lado, os preços dos bens e serviços serão maiores do que seriam sem essa sua mágica, e consequentemente o poder de compra por unidade de dinheiro será menor.  Em uma só palavra, o resultado será inflação.  E ainda mais importante: ao passo que essa maior quantidade de dinheiro não aumenta (ou não diminui) a quantidade total da riqueza social que existe atualmente (a quantidade total de todos os bens na sociedade), ela gera uma redistribuição da riqueza existente em favor de si próprio e de seus amigos e conhecidos — isto é, daqueles que recebem esse seu dinheiro antes de todo o resto da sociedade.  Você e seus amigos tornaram-se relativamente mais ricos (detêm agora uma fatia maior da riqueza social total) à custa do empobrecimento de todos os outros (os quais, consequentemente, agora têm menos).
O problema, para você e seus amigos, em relação a este arranjo institucional não é que ele não funciona.  Ele funciona perfeitamente, sempre em benefício seu (e de seus amigos) e sempre em detrimento de todo o resto.  Tudo o que você precisa fazer é evitar a hiperinflação.  Pois, neste caso, as pessoas abandonariam o seu dinheiro e passariam a utilizar ativos reais, desta forma privando você de utilizar sua varinha mágica.  O problema com o seu monopólio do dinheiro de papel, se é que há algum, é apenas o fato de que tal esquema será imediatamente percebido por terceiros e denunciado como a grande e criminosa extorsão que ele de fato é.
Mas este problema também pode ser superado se, além de monopolizar a produção do dinheiro, você também se tornar um banqueiro e entrar no ramo bancário criando um banco central.
Dado que você pode criar dinheiro de papel do nada, você também pode criar crédito do nada.  Com efeito, como você pode criar crédito do nada (sem a necessidade de ter antes de poupar), você pode oferecer empréstimos a taxas mais baixas que as oferecidas por quaisquer outras pessoas, até mesmo a juros zero (ou até mesmo a uma taxa negativa).  Com esta capacidade, não somente a sua dependência em relação aos bancos e ao sistema bancário é eliminada, como também você poderá tornar os bancos dependentes do seu arranjo e, por conseguinte, poderá formar uma aliança e uma cumplicidade permanente entre bancos e estado.  Você nem mesmo precisa se envolver no ramo da concessão de crédito.  Tal tarefa, e o risco que ela traz, pode perfeitamente ser deixada para os bancos.
O que você — o seu banco central — terá de fazer é simplesmente o seguinte: você vai criar crédito do nada e vai emprestar esse dinheiro, a juros abaixo de mercado, aos bancos.  Ao invés de você pagar juros aos bancos, agora são os bancos que irão pagar juros a você.  E os bancos, por sua vez, irão emprestar seu dinheiro recém-criado para seus amigos favoritos a juros um pouco maiores, porém ainda abaixo dos de mercado (lucrando sobre este diferencial).  Adicionalmente, para fazer com que os bancos fiquem especialmente entusiasmados para trabalhar com você, você poderá permitir que eles criem uma quantidade de crédito (na forma de depósitos em conta-corrente) maior do que o total que você já havia criado para eles (sistema bancário de reservas fracionárias).
Quais as consequências desta política monetária?  Em grande parte, são as mesmas que as de uma política de crédito fácil e barato: primeiro, uma política de crédito fácil também é inflacionária.  Mais dinheiro é colocado em circulação, os preços aumentam e o poder de compra do dinheiro se torna menor do que seria caso não tivesse ocorrido tal expansão creditícia.  Segundo, a expansão do crédito também não tem efeito algum sobre a quantidade ou a qualidade de todos os bens atualmente existentes na economia.  Ela não aumenta nem diminui a quantidade deles.  Mais dinheiro é apenas isso: mais papel.  Mais dinheiro não pode e nem vai aumentar a riqueza social.  Terceiro, crédito fácil também gera uma sistemática redistribuição de riqueza social em favor de si próprio — o banco central — e dos bancos que participam do seu cartel.  Você recebe juros sobre um dinheiro que você criou do nada a custo praticamente zero (em vez de um dinheiro que foi arduamente poupado).  Os bancos fazem o mesmo: cobram juros adicionais sobre o dinheiro que você emprestou para eles a um custo negligente.  Desta forma, tanto você quanto seus amigos banqueiros adquirem uma "renda imerecida".  Você e os bancos enriquecem à custa de todos os "genuínos" poupadores (os quais recebem juros menores do que receberiam caso não tivesse havido essa injeção de crédito barato sua e dos bancos no mercado de crédito).
Por outro lado, também existe uma diferença fundamental entre uma política de "imprimir e gastar" e uma política de "imprimir e emprestar".
Pra começar, uma política de crédito fácil altera a estrutura de produção — o que é produzido e por quem — de uma maneira extremamente significativa.
Você, o chefe do banco central, pode criar crédito do nada.  Você não precisa primeiro poupar dinheiro — isto é, reduzir seus próprios gastos se abstendo de comprar determinados bens não-monetários (como toda pessoa normal tem de fazer caso ela conceda empréstimos a alguém).  Você pode apenas ligar a impressora e, consequentemente, sobrepujar qualquer taxa de juros que esteja sendo cobrada pelos poupadores (fornecedores de crédito) em qualquer lugar do mercado.  Conceder crédito não exige nenhum sacrifício de sua parte (e é por isso que essa instituição é tão "legal").  Se as coisas derem certo, você receberá juros positivos sobre o seu investimento de papel; e se elas não derem certo — bem, na condição de produtor monopolista de dinheiro, você sempre poderá compensar suas perdas muito mais facilmente do que qualquer outra pessoa: basta cobrir os prejuízos imprimindo ainda mais dinheiro de papel.
Sem custos e sem nenhum genuíno risco pessoal de prejuízos, você pode conceder crédito de maneira essencialmente indiscriminada para qualquer pessoa e para qualquer propósito, sem se preocupar com a capacidade creditícia do devedor ou com a racionalidade de seu plano empreendedorial.  Por causa desta sua política de crédito "fácil", certas pessoas (em particular, bancos de investimento) que de outra forma não seriam consideradas suficientemente dignas de crédito, e certos projetos (em particular, de bancos e seus principais clientes) que não seriam considerados lucrativos mas sim imprevidentes ou excessivamente arriscados, acabam conseguindo crédito e sendo financiados.
Essencialmente, a mesma relação ocorre entre os bancos comerciais que fazem parte do cartel bancário.  Por causa do relacionamento especial entre você e eles, na condição de primeiros recebedores de seu crédito barato, os bancos também podem oferecer empréstimos a outros emprestadores a juros abaixo dos de mercado — e se as coisas derem certo, todos se dão bem; se as coisas derem errado, eles podem contar com a sua prestimosa ajuda — na condição de produtor monopolista de dinheiro — para socorrê-los, da mesma maneira que você socorre a si próprio sempre que há problemas financeiros: imprimindo dinheiro.  Correspondentemente, os bancos também serão menos discriminadores na seleção de seus clientes e de seus planos empreendedoriais, e serão mais tendentes a financiar pessoas "erradas" e projetos "errados".
E há uma segunda e significativa diferença entre uma política de "imprimir e gastar" e uma política de "imprimir e emprestar", e essa diferença explica por que a distribuição de renda e de riqueza em favor de si próprio e de seus amigos banqueiros, a qual é desencadeada por políticas de crédito fácil, assume a forma específica de um ciclo econômico temporal — isto é, de uma fase inicial de aparente prosperidade geral (na qual se espera aumentos na renda e na riqueza futuras) seguida por uma fase de amplo empobrecimento (quando a prosperidade do período do boom revela-se uma ampla e dispersa ilusão).
Este ciclo econômico é a consequência lógica — e fisicamente necessária — do crédito criado do nada, do crédito sem nenhum lastro em poupança, do crédito fiduciário (ou seja lá como você queira rotulá-lo) e do fato de que todo investimento demora a maturar — sendo que, somente mais tarde, em algum ponto futuro, é que ele irá se comprovar bem sucedido ou não.
A razão de haver ciclos econômicos é tão elementar quanto é fundamental.  Robinson Crusoé pode emprestar um peixe (o qual ele não consumiu) para Sexta-Feira.  Sexta-Feira pode converter essa poupança em uma rede de pesca (ele pode comer o peixe enquanto constrói a rede), e então, com a ajuda da rede, Sexta-Feira, em princípio, torna-se capaz de pagar seu empréstimo junto a Robinson, mais juros, e ainda obter lucro na forma de um peixe adicional para ele próprio.  Porém, isso seria fisicamente impossível caso o empréstimo de Robinson fosse apenas um pedaço de papel, denominado em peixes, mas não lastreado por uma genuína poupança de peixes — isto é, caso Robinson não possua nenhum peixe porque ele já consumiu todos.
Consequentemente, e necessariamente, Sexta-Feira irá fracassar em seu esforço empreendedorial.  É claro que, em uma simples economia de escambo, tal trapaça se torna imediatamente aparente.  Pra começar, Sexta-Feira não aceitará o crédito de papel fornecido por Robinson (ele aceitará somente o crédito real, uma mercadoria); e, justamente por causa disso, o ciclo econômico nem sequer começará.  Mas em uma complexa economia monetária, o fato de o crédito ter sido criado do nada, sem lastro algum, não é algo perceptível: cada nota de crédito se parece com todas as outras, e, por causa disso, as notas são normalmente aceitas pelos tomadores de crédito.
Isso não altera a fundamental realidade de que nada pode ser produzido do nada e que investimentos empreendidos sem um financiamento real (poupança) irão necessariamente falir; mas explica como um período de boom econômico — um aumento no nível de investimento acompanhado de uma expectativa de maiores renda e riqueza futuras — pode ser iniciado (Sexta-Feira aceita a nota em vez de imediatamente recusá-la).  E explica por que demora algum tempo para que a realidade física se reafirme e revele que todas essas expectativas eram ilusórias.
Mas qual o problema de uma pequena crise para você?  Mesmo que o seu caminho seja permeado por repetidas crises, todas elas criadas pelo seu regime baseado em dinheiro de papel e políticas do banco central, do seu ponto de vista — do ponto de vista do chefe de estado e presidente do banco central — essa forma de redistribuição de riqueza (via políticas de "imprimir e emprestar") em favor de si próprio e de seus amigos banqueiros, embora traga resultados menos imediatos do que aqueles conseguidos com uma simples política de "imprimir e gastar", ainda é muito mais preferível, pois é bem mais difícil de ser percebida e de ser reconhecida por aquilo que realmente é.  Ao invés de ser visto como uma fraude e um parasita, você, nessa incessante busca por novas políticas de crédito fácil, pode até mesmo fingir que está engajado na altruísta tarefa de "investir no futuro" (e não de gastar em frivolidades) e de "curar" crises econômicas (e não de gerá-las).
Que mundo esse em que vivemos!

Hans-Hermann Hoppe é um membro sênior do Ludwig von Mises Institute, fundador e presidente da Property and Freedom Society e co-editor do periódico Review of Austrian Economics. Ele recebeu seu Ph.D e fez seu pós-doutorado na Goethe University em Frankfurt, Alemanha. Ele é o autor, entre outros trabalhos, de Uma Teoria sobre Socialismo e Capitalismo eThe Economics and Ethics of Private Property.