domingo, 21 de julho de 2013

Com muito orgulho

ZUENIR VENTURA


Quando o gigante acorda — seja nas ruas, seja num estádio de futebol — também desperta na gente um pouco daquele conde Afonso Celso que temos dentro de nós. Quem não sentiu pelo menos uma vez vontade de afirmar "por que me ufano de meu país"? Se eu tivesse ido ao Maracanã domingo, teria deixado de lado o pudor da pieguice cívica para participar do coro que cantou o Hino Nacional à capela ou entoou o "Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" — eu e mais de 70 mil pessoas. Assistindo ao jogo com a Espanha pela TV, em casa, sozinho, me arrepiei várias vezes, enxuguei lágrimas, dei pulos com o punho cerrado, fiz enfim tudo aquilo que em geral acho ridículo nos torcedores fanáticos: a vibração histérica e a emoção barata. Nunca pensei que fôssemos reeditar aquele espetáculo de 63 anos atrás, quando o velho Maraca cantou "Touradas de Madri", enquanto dava um olé de 6x1 nos avós de Iniesta e Xavi.
Só que desta vez foi melhor, porque fomos campeões, não morremos na praia do Uruguai, sem falar que o jogo foi mais dramático, com lances épicos eletrizantes, como aquele de David Luiz, com o nariz quebrado, deslizando em alta velocidade até a linha do gol para realizar o impossível: jogar a bola para o alto e por cima do travessão. Não é todo dia que se vê um milagre desses. E o gol de Fred deitado, ele, que no jogo anterior já tinha marcado com a canela? Tão original quanto a proeza foi o comentário do autor: "Fiz tanta coisa boa deitado, faltava um gol." E Neymar, que começou o torneio carregado de dúvidas e terminou empunhando três taças só para ele? Porém, advertem as estatísticas, quem ganha essa competição não ganha a Copa do Mundo. Ótimo, porque pelo visto esse time gosta de contrariar expectativas pessimistas.
Não só em campo o Brasil costuma ser imprevisível. Assim como a Seleção deu a volta por cima, revertendo as piores previsões, também o cenário político mudou de um dia para o outro, desarrumando os prognósticos eleitorais para o ano que vem. Quem poderia prever que a popularidade de Dilma iria despencar de 57% para 30%? E a de Alckmin, de Haddad, de Cabral e de Eduardo Paes? O mais divertido é que não dá para partido algum comemorar. Todos perderam. Ainda bem. Ninguém pode cantar de galo e tripudiar: "Eu não disse?" Mais uma vez ficou provado também que todos nós — jornalistas, institutos de opinião, sociólogos, analistas políticos — não falhamos: acertamos sempre o que passou, nunca o por vir. Somos profetas do passado.
Assistindo ao jogo em casa pela TV, sozinho, fiz tudo aquilo que, em geral , acho ridículo nos torcedores fanáticos: a vibração histérica e a emoção barata.
Publicado no Globo 

O Brado Da Juventude!!!

PSICANÁLISE DA VIDA COTIDIANA


CARLOS VIEIRA
Meu personagem de hoje é nascido nas décadas finais do século XX. Veio ao mundo perto da margem de um Lago, numa mansão opulenta, num espaço perto de dez mil metros. Família sagrada, de missa dominical, de atos compulsivos de filantropia, talvez para saldar as dívidas da culpa inconsciente de um modo de ser baseado no canibalismo capitalista selvagem. Poderia ser filho de um empresário, de um político, de um jurista ou mesmo de alguém da classe privilegiada desse país que traz em seu patrimônio existencial – a alienação da consciência política e social. 
O filho educado em um bom colégio, mas um colégio que execra a formação cultural e foca sua especialidade em preparar para “vestibular”. É desprezível ter cultura, é importante ultrapassar um vestibular, fazer uma faculdade, não por opção vocacional, mas para garantir um futuro “maravilhoso”, uma aposentadoria perfeita! Meu personagem, por exemplo, é advogado. Poderia ser médico, engenheiro ou funcionário público. O que chama atenção, é que vive uma vida profissional meio autômata, sente-se sem objetivo, cumpre horários, bate ponto eletrônico, ganha um belo salário, mas não consegue saber porque é depressivo, vazio e indiferente a uma vida afetiva. 
Esse é um protótipo de uma juventude que de repente parou, pensou, sentiu-se esvaziada, desrespeitada e sem futuro. Desacreditado, descrente na justiça, nas organizações governamentais, na ética, na família, nos vínculos afetivos, e principalmente agora, cientes de que a ilusão chegou no limite - a ilusão de uma vida melhor. Esse mesmo personagem é aquela pessoa que olha para o lado e vê o pai montar esquemas de corrupção; dar um passo a frente e enxerga o desrespeito pelas condições básicas de habitação, educação, justiça, alimentação e civilidade. Enxerga um caos que, sendo eleitor, seus eleitos estão mais preocupados com enriquecimento e poder pessoal do que usar recursos para programas sociais e que atentem para o futuro do nosso país. Governa-se no Brasil, ainda e somente pensando no presente, na oligarquia dos partidos, na preservação no Poder, fato curiosamente difundido na América Latina. 
Outros personagens da vida cotidiana trabalham, dão duro, pagam seus três meses de salário para os impostos abusivos. São até felizes (?), mas intuem que algo está se quebrando e é preciso fazer algo antes do Apocalipse.! Mas meu personagem, agrupado com outros, resolveu sair às ruas para clamar um “brado retumbante” e pedir justiça social. Não aumentos de centavos, mas, mais do que isso: conscientizar à população, da situação na qual vivemos; que a cada dia parece, mesmo travestida de “crescimento sustentável” e mais perto do filme que a geração dos seus pais viveram, que estamos numa antecâmara da “agonia social sem saída(?). 
Reforma política; reforma tributária, reforma talvez na composição do legislativo, reforma ética e da justiça. As “bolsas da vida”, expediente necessário, mas transitório, parece apontar para a manutenção de “eleitores de cabresto”. Dezenas de ministérios, para quê? O brado da juventude é para acordar também os “adultos crescidos”, alienados e conformados com suas aposentadorias ou empanturrados de riqueza pessoal em detrimento de falta de recursos. 
Não convence pensar em direita, esquerda, golpes fantasiosos, liderança de partidos querendo tirar proveito do movimento sábio e um pouco ingênuo da juventude. A nova ordem exige novos vértice de pensamento que não se encaixam mais nas pobres ideias dos nossos políticos e de profissionais em conluio com o poder perverso! É doloroso ver investimentos de bilhões em eventos esportivos como se nossa saúde pública humana estivesse boa e como se ganhar campeonatos confederados ou mundias assegurasse o nosso futuro.
Curiosamente, reporto o leitor a um homem, visionário, “louco”, místico, verdadeiro e um tanto profeta - William Blake (1757-1827). Nascido na Inglaterra, poeta, desenhista, pintor, gravador, impressor e até compositor. Viveu sua vida preocupado e denunciando as consequências desumanas da era industrial. Reporto ao leitor, nesse momento “blakeano” de uma nova ordem na vida dos brasileiros, um de seus poemas que toca fundo as questões do mundo contemporâneo. 
“O Limpador de Chaminés” 
“ Quando mamãe morreu eu era moleque,/ E ao vender-me meu pai, minha língua a custo é que/ gritava arre, arre, arre, arre-dor:/ Durmo em fuligem, das chaminés sou varredor. 
O pequeno Tom Dacre chorou ao ser raspado/ seu cabelo, tal qual um cordeiro, anelado/Eu disse. Calma, Tom, deixa, sem os cabelos/ ao menos a fuligem não poderá tê-los. 
Se acalmou, & naquela mesma noite então,/ Quando ele adormeceu, surgiu-lhe uma visão,/ Dick, Joe, Ned, Jack, e milhares de varredores,/ Em negros ataúdes trancados, sem dores. 
Com chave luminosa um anjo apareceu/ E abriu-os, livrando cada menino do seu./ Riam e saltitavam, desciam o vale,/ Para lavar-se num rio e ao sol brilharem. 
Então, nus, brancos, todas as bolsas deixadas,/ Subiram para as nuvens, brincaram nas vagas/ Do vento. E o Anjo disse ao Tom: Se fores bom/ Menino, terás Deus por pai & alegria por dom. 
Tom acordou e no escuro nos levantamos/ Pegou bolsas e escovas do nosso ramo./ Tom se foi na manhã fria, alegre e aquecido./ Não há nada a temer, se o dever é cumprido.”
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.

Para a plateia

LUIZ GARCIA


Mesmo se for oportunismo do PMDB, seu novo discurso pode dar certo entre os que condenam o gigantismo da máquina do governo 
Arecente agitação nas ruas, apesar do mau comportamento de uma minoria — o que parece ser infelizmente inevitável —, despertou nos políticos brasileiros, cujo instinto de sobrevivência é reconhecidamente notável, o desejo de convencerem a opinião pública de que, como ela, também se preocupam em melhorar o desempenho da administração pública. 
Isso explica a recente crítica do PMDB ao governo federal. Na última terça-feira, a Executiva Nacional do partido, depois de três horas de discussão, divulgou uma nota com críticas tão pesadas quanto surpreendentes à administração da presidente Dilma Rousseff. 
O PMDB chegou a sugerir que ela reduza o número de ministérios, para enxugar a máquina do governo e reduzir os seus gastos. O vice-presidente Michel Temer participou da reunião e se esforçou, sem êxito algum, para baixar o tom das críticas à administração de Dilma. 
Outros aliados do governo, como Amauri Teixeira, vice-líder do PT na Câmara dos Deputados, acusaram o PMDB do feio pecado de adotar o discurso da oposição. O senador petista Jorge Viana, por exemplo, reconheceu que existe um gigantismo no governo — mas acrescentou que "muitos jogam para a plateia". 
Na verdade, muitos observadores diriam, com razão, que a plateia realmente preferiria menos ministérios e mais ações concretas de verdadeiro interesse público. O PMDB pode estar agindo de forma oportunista, mas certamente procura, pelo menos, ter o aplauso da opinião pública — inclusive dos eleitores que não costumam votar nele. O novo — alguns diriam novíssimo — discurso do partido vai ao encontro do que pensa a fatia do eleitorado que não costuma votar em candidatos aliados do PT. 
Pode dar certo com essa guinada, principalmente — talvez exclusivamente — junto aos cidadãos que enxergam no gigantismo da máquina do governo um dos seus defeitos, talvez o mais grave deles. 
Mas a nova atitude do partido pode também ser vista como puro oportunismo. A resposta da opinião pública talvez tenha essa opinião, concordando com os petistas que acusam o PMDB de "jogar para a plateia". Em geral, como provam diversos episódios da história política do país, o eleitor brasileiro costuma saber a diferença entre posições políticas sinceras e guinadas que têm cheiro de manobras, supostamente sinceras, quando, na verdade, não passam de tentativas de ir ao encontro do que pensa a maioria do eleitorado.
Publicado no Globo

Os Jovens do Restelo

NELSON MOTTA


Há quase um mês, a presidente Dilma comparava os que criticavam o governo ao Velho do Restelo, de Camões, como símbolo do derrotista agourento. Hoje a rainha está nua. E ninguém ousa lhe contar. O mito da grande gestora ruiu: como mostrou a reportagem de José Casado, seu governo não conseguiu gastar em 2012 nem metade das verbas do orçamento para Saúde, Educação e Transporte — o que desmoraliza qualquer gestão. E também é a prova cabal de que não falta dinheiro para investir, mas capacidade de usá-lo em benefício da população. 
Com os assessores e aliados que tem, que se borram de medo dela, a presidente não tem pior adversário do que seu temperamento autoritário, mesmo sendo uma democrata. Um exemplo é a recente sugestão, crítica jamais, do ministro Gilberto Carvalho à presidente, em reunião ministerial para aplacar os protestos: "Temos que estar mais juntos dos movimentos sociais. Esta meninada que está nas ruas antigamente estava com a gente. Não está mais." 
Por que será? rsrsrs 
Uma pista: 74% dos petistas consultados pelo Datafolha são a favor da prisão imediata dos mensaleiros condenados. Eles também se sentem traídos. Como estar mais junto de movimentos sociais espontâneos, sem lideranças nem manadas domesticadas, que não podem ser cooptados com verbas e cargos? Será que ele não entendeu que as jovens multidões estão contra os privilégios, a corrupção e a incompetência dos governos, do PT e dos demais partidos? Ou tem medo de dizer e a rainha gritar "cortem-lhe a cabeça"? 
Na mesma reunião, a ministra Maria do Rosário diagnosticou que "houve um afastamento do governo das demandas dos movimentos sociais. O governo está longe do PT antigo". 
Mas os movimentos sociais da ministra estão longe das ruas, não estão demandando nada além do de sempre, se contentam com verbas e afagos do ministro Gilberto. A UNE, os sindicatos amestrados e os movimentos sociais estatizados não estavam na rua. Quem estava eram os Jovens do Restelo, a classe média, a antiga e a nova, que paga a conta. Para eles, do PT antigo de Zé Dirceu, João Paulo e Genoino, quanto mais longe, melhor.
Publicado no Globo 

Yankees, go home!

ZUENIR VENTURA


Será que Barack Obama vai continuar em silêncio diante da indignação de Dilma Rousseff, que ameaça recorrer à ONU contra a "interferência" da Agência de Segurança Nacional, a NSA americana? Será que ele, tão politicamente correto, não vai fazer nada contra a "violação da nossa soberania e dos direitos humanos"? Como disse o professor de Direito Constitucional Pedro Serrano, é "um ato de agressão".
Essa verdadeira invasão de privacidade revolta não apenas nossas autoridades, mas também os cidadãos em geral, porque é um atentado à individualidade de todos e de cada um de nós. Aliás, já pedi ao José Casado — que teve acesso aos documentos vazados e produziu, com Roberto Kaz e Glenn Greenwald, um extraordinário furo de reportagem — para procurar entre os milhões de mensagens de brasileiros monitoradas pelos EUA os telefonemas e e-mails começando pela letra "Z". Fico imaginando aqueles burocratas fuçando minha intimidade.
É claro que se trata de mania de grandeza, uma herança paranoica da época de nossa ditadura militar, quando a prática do grampo era disseminada entre políticos, jornalistas, artistas, intelectuais em geral (Ziraldo e eu ficamos presos durante meses por causa de uma conversa gravada, tida como perigosamente subversiva). Até há pouco tempo, me surpreendia interrompendo o interlocutor do outro lado da linha: "Isso a gente fala pessoalmente, por telefone é perigoso." Mas aqueles eram tempos de generais e de censura aqui, e de Nixon e guerra do Vietnam lá. Hoje, porém, não será pior? Há pelo menos mais sofisticação, com o advento da globalização, da internet e da revolução da tecnologia da informação. Antigamente, a operação de escuta era demorada: instalação do microfone, gravação, transcrição da fita. Agora, o volume de informações monitoradas é gigantesco. "Só no mês de janeiro deste ano", informa a reportagem, "a NSA rastreou 2,3 bilhões de dados nos EUA", e o Brasil ficou pouco atrás, sendo o país mais espionado da América Latina, e isso sem ser base de terrorismo, só de corrupção.
Em tempos de passeatas e cartazes, não surpreende que desenterrem uma palavra de ordem ao mesmo tempo fora de moda e muito atual: "Yankees, go home."
Honra ao mérito desse jovem D. Quixote, herói real num mundo virtual: o ex-técnico da NSA Edward Snowden, que está vivendo em trânsito, atualmente no aeroporto de Moscou, fugindo dos americanos como um criminoso por ter denunciado essa diabólica rede de espionagem eletrônica.
Essa verdadeira invasão de privacidade revolta não apenas nossas autoridades, mas também os cidadãos em geral.
Publicado no Globo

Homenagem a Graciliano Ramos!

PSICANÁLISE DA VIDA COTIDIANA


CARLOS VIEIRA
A Feira Literária de Parati fez uma homenagem nesse ano a Graciliano Ramos (1892-1953). O “Velho Graça” completaria 150 de existência. Graciliano nasceu na pequena cidade de Quebrangulo, na zona da mata do Estado de Alagoas. Romancista, cronista, contista, jornalista, político e funcionário público. 
Seus romances, Caetés(1925); São Bernardo(1934); Angústia publicado em 1936; Vidas Secas(1938); Infância publicado em 1945; Insônia, publicado em 1947 e Memórias de um cárcere, publicado postumamente, deixaram um acervo literário que canta em prosa as vicissitudes da realidade social do nordeste brasileiro.. Escreve também, um livro belíssimo de Carta de amor à Heloísa, sua esposa, publicado em 1922. Graciliano teve incursão na política, tendo sido Prefeito de Palmeira dos Índios; Secretário de Educação do Governo de Alagoas e Inspetor Federal de Ensino Secundário do Rio de Janeiro. 
Muitos outros dados biográficos poderiam informar mais sobre o nosso escritor, mas o que desejo enfatizar hoje é um aspecto atualíssimo desse nosso ícone da Literatura Brasileira. 
Em seu livro – Linhas Tortas- lançado pela Editora Record, Rio de Janeiro-São Paulo em 2005 ( 21ª.Edição ) , nova edição baseada na primeira, em 1962 pela Editora Martins Fontes, encontram-se belas crônicas. Quero me referir à crônica que nomeia seu livro, “Linhas Tortas”. 
Preocupado com a reforma da Constituição Brasileira, Graciliano desfila uma denúncia por demais atual, uma denúncia ao Poder Político. Tomo a liberdade de citar fragmentos dessa escrita, uma vez que lendo, pareceu-me que o Alagoano já tinha consciência de fatos que até hoje existem em nosso país. 
“A constituição da república tem um buraco. É possível que tenha muitos, mas sou pouco exigente e satisfaço-me com referir-me a um só. 
Possuímos, segundo dizem os entendidos, três poderes – o executivo, que é o dono da casa, o legislativo e o judiciário, moços de recados, gente assalariada para o patrão fazer figura e deitar empáfia diante das visitas. Resta ainda um quarto poder, coisa vaga, imponderável mas que é tacitamente considerado o sumário dos três 
...Aí está o rombo na constituição, rombo a ser preenchido quando ela for revista, metendo-se nele a figura interessante do chefe político, que é a única força de verdade. O resto é lorota... Todos eles são mais ou menos chefes. Não se sabe bem de que, mas é certo que o são. Graúdos, risonhos, nutridos, polidos, escovados, envernizados, lá estão inchando, inchando. São os grossos batráquios da lagoa republicana. 
Muito menos volumosos, coaxam pelos cantos chefitos incolores, numerosos, em chusma, minúsculas pererecas de poças d’água... São, a um tempo, intendentes ou prefeitos, juízes, promotores, advogados e jurados, conselheiros municipais, comissários de polícia e inspetores de quarteirão. Realizam a pluralidade na unidade! 
E ainda há quem duvide do mistério da Santíssima Trindade... 
Ponha-se, pois, o chefe político no galarim e mande-se à fava o resto. Metam-no, honestamente, em letra de forma. Entre ele, triunfante, com armas e bagagens, em nosso magno estatuto. 
Peguemos o chefe político, agitemo-lo no ar e berremos o estribilho com que a imprensa, há tempos, nos anda a amolar – A constituição da república precisa de uma rescisão. In Jornal de Alagoas – Maceió, AL, março de 1915.”
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.

O Oscar da Flip

VERISSIMO


Há dias reclamei aqui da pouca atenção dada ao futebol do Oscar, em contraste com a exaltação de outros jogadores da seleção. Os elogios a Neymar etc. não eram descabidos, mas a importância de Oscar não foi reconhecida como, na minha opinião, merecia. Entre parênteses: no texto sobre o Oscar usei, como exemplo de jogador altruísta que joga mais para o time do que para a torcida, o Servílio, acrescentando que não me lembrava qual era seu time, na sua melhor fase. Claro que choveu ajuda para meu cérebro combalido. Servílio foi daquele Palmeiras chamado de "Academia" de tão bom que era, e formava com Tupanzinho uma dupla que rivalizava com a de Pelé e Coutinho no Santos. Fecha parênteses. Coisa parecida com o reconhecimento insuficiente do Oscar aconteceu na Flip deste ano. Sem dúvida a figura mais importante da festa era o Roberto Calasso, mas nem na promoção prévia dos convidados ou no noticiário do evento se deu o devido destaque à sua presença. Calasso foi o Oscar da Flip.
Ele é um daqueles italianos da linha do Umberto Eco (mas bem melhor do que o protótipo), comentaristas culturais que combinam erudição cornucópica com pensamento original e proporcionam uma leitura fascinante para quem tiver paciência com alguns trechos obscuros, quando a erudição e a criatividade se tornam um pouco demais — pelo menos para este cérebro combalido. O romancista e ensaísta Italo Calvino e o crítico literário Franco Moretti são do mesmo time. A obra de Calasso (para ficar só nos livros traduzidos para o português, todos, acho eu, pela Companhia das Letras) incluem "As núpcias de Camdus e Harmonia", um estudo da mitologia grega; "Ka", sobre a mitologia hindu; "K", sobre o Kafka; "As ruínas de Kasch", um longo ensaio sobre a Europa dos séculos dezoito e dezenove concentrado na figura do estadista francês Talleyrand, que conseguiu servir à revolução francesa, a Napoleão e à restauração dos Bourbons sem perder a cabeça ou o prestígio; "Os quarenta e nove degraus" e "Literatura e os deuses". É de Calasso um texto chamado "A loucura que vem das ninfas" que inclui o melhor comentário sobre o "Lolita" do Nabokov já publicado.
Enfim, foi um dos melhores intelectuais que já pisou nas pedras de Paraty sem chamar muita atenção, embora, como Oscar, merecesse todas. A mesa dele foi mediada pelo excelente Manuel da Costa Pinto. Este sabia com quem estava falando.
A figura mais importante da festa era o Roberto Calasso, mas nem na promoção prévia dos convidados ou no noticiário do evento se deu o devido destaque à sua presença.
Publicado no Globo