segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Explicando a recessão europeia

Explicando a recessão europeia

indignados-madrid.jpgO economista americano Steve Hanke, professor de economia aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA, considerado uma sumidade em assuntos monetários (foi ele quem acabou com todas as hiperinflações das ex-repúblicas soviéticas no Leste Europeu, da Bósnia e da Argentina), cunhou uma frase da qual todo cidadão comum jamais deveria se esquecer.  Hanke a rotulou de 'regra dos 95%': "noventa e cinco por cento de tudo que é escrito sobre economia ou está errado ou é irrelevante."
Tal regra é perfeitamente aplicável para as análises feitas sobre o atual estado das economias europeias.  Segundo os especialistas, o problema está na tal 'austeridade', a qual estaria sendo imposta a todo o continente pelos malvados alemães por motivos puramente sádicos, e estaria sacrificando os pobres gregos, espanhóis e portugueses.  Culpar a austeridade é uma postura que gera aplauso fácil porque significa condenar cortes nos sagrados programas assistencialistas europeus, os quais todos os economistas convencionais sonham ver serem adotados universalmente em todos os países do Ocidente — adoção essa que requereria a supervisão destes economistas, é claro.
Muito embora a "austeridade" europeia esteja sendo feita não por meio exclusivo da redução de gastos, mas sim por uma combinação entre redução de gastos e elevação de impostos — e, como mostrou Philipp Bagus, os déficits orçamentários continuaram intocados —, ela não é a causa precípua da prolongada recessão do continente.
Qual é então o problema? 
Como tudo começou
Durante a década de 2000, os países europeus, e mais acentuadamente Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda, vivenciaram tão explicitamente todas as etapas de um ciclo econômico descrito pela Escola Austríaca, que tal exemplo deveria doravante figurar em todos os escritos sobre o tema ciclos econômicos.  O ciclo econômico vivenciado por estes quatro países está sendo tão completo, que é difícil imaginar algum outro exemplo prático que melhor ilustre aquilo que é descrito pela teoria austríaca.
A crise econômica e financeira europeia começou da mesma maneira que se iniciam todos os ciclos econômicos: por um processo de enorme expansão do crédito orquestrado pelo Banco Central Europeu em conjunto com o sistema bancário de reservas fracionárias dos quatro países citados.  Tal processo de expansão do crédito consiste meramente em um processo de criação de dinheiro do nada.  E é assim em todo o mundo atual. 
Sempre que uma empresa ou um indivíduo qualquer vão a um banco e pedem um empréstimo, o banco cria do nada dinheiro eletrônico na conta-corrente deste tomador de empréstimo.  O dinheiro não foi retirado de nenhuma outra conta.  Ele simplesmente foi criado.  O bancário apertou algumas teclas no computador e dígitos eletrônicos surgiram na conta-corrente do mutuário.  É assim que o dinheiro entra na economia no sistema monetário atual e é assim que a quantidade de dinheiro em uma economia aumenta.  O sistema bancário destes países europeus, atuando sob a proteção e estímulo do Banco Central Europeu, literalmente criou bilhões de euros para serem emprestados para empreendedores e consumidores.
Veja a evolução do crédito na Espanha, de janeiro de 2002 (ano da introdução do euro) até janeiro de 2009, ano do início da crise.
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Observe que o crédito concedido mais do que triplicou em apenas 7 anos, indo de 600 bilhões de euros para mais de 1,8 trilhão de euros.
Todo este processo de concessão de crédito gerou quase que o mesmo efeito na oferta monetária do país, que neste mesmo período saiu de 400 bilhões para 1 trilhão.[1]
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O mesmo fenômeno ocorreu na Irlanda.  O crédito triplicou...
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... e a oferta monetária duplicou.
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E, finalmente, na Grécia.  O crédito mais que dobrou...
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... assim como a oferta monetária.
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Qual foi a consequência de toda esta expansão creditícia e monetária?
Empreendedores, ao tomarem como empréstimo este dinheiro criado do nada pelo sistema bancário, passaram a investir naqueles projetos que mais estavam sob demanda.  Nos casos específicos da Espanha e da Irlanda, no setor imobiliário.  Os consumidores destes países, por sua vez, estavam recorrendo aos bancos justamente para obter financiamento para comprar imóveis.  Esta súbita demanda por imóveis foi possibilitada pelo fato de que a expansão creditícia feita pelo sistema bancário de reservas fracionárias e orquestrada pelo Banco Central Europeu gerou uma forte queda nos juros.
Uma expansão creditícia e monetária é sempre um fenômeno extremamente perigoso porque funciona como uma droga.  Quando o dinheiro recém-criado é injetado na economia pelos bancos, todo o sistema econômico passa a reagir de maneira expansionista.  As pessoas ficam animadas.  Empreendedores recebem financiamento barato para praticamente qualquer investimento que queiram fazer, não importa o quão irracional tal investimento seria em outras circunstâncias.  Ao mesmo tempo, trabalhadores e sindicatos percebem que a demanda por seus serviços aumentou, pois há mais dinheiro na economia.  Bens de consumo também passam a ser demandados com mais intensidade.  A renda das pessoas cresce anualmente.  Todo mundo fica feliz, principalmente porque tal arranjo faz parecer ser possível aumentar a riqueza sem qualquer sacrifício na forma de poupança e trabalho duro.  Forma-se uma bolha. 
Este aparente ciclo virtuoso da nova economia ludibria todos os agentes econômicos: investidores estão muito contentes ao verem que suas ações crescem diariamente; as indústrias de bens de consumo conseguem vender tudo que põem no mercado e a preços crescentes; restaurantes estão sempre cheios e com longas listas de espera apenas para arrumarem uma mesa; trabalhadores e seus sindicatos veem o quão desesperadoramente empresários estão demandando seus serviços em um ambiente de pleno emprego, aumentos salariais e (nos países mais ricos) imigração; líderes políticos se beneficiam daquilo que parece ser uma economia excepcionalmente boa, a qual eles venderão ao eleitorado como resultado direto de sua liderança e de suas boas políticas econômicas; burocratas responsáveis pelo orçamento do governo ficam impressionados ao descobrir que, a cada ano, a receita está aumentando em cifras de dois dígitos.
Porém, tal arranjo não pode durar.  Há um enorme descoordenação entre o comportamento dos consumidores e dos investidores.  Os consumidores seguem consumindo sem a necessidade de poupar, pois a quantidade de dinheiro na economia aumenta continuamente, o que torna desnecessário qualquer abstenção do consumo.  E os investidores seguem aumentando seus investimentos, os quais são totalmente financiados pela criação artificial de dinheiro virtual feita pelos bancos e não pela poupança genuína dos cidadãos.  Tal arranjo é completamente instável.  Trata-se apenas de uma ilusão de que todos podem obter o que quiserem sem qualquer sacrifício prévio.
Com o tempo, tamanha demanda gerada pela criação de dinheiro leva a um inevitável aumento dos preços.  Ato contínuo, o Banco Central eleva a taxa básica de juros da economia e os bancos, além de reduzirem o volume de empréstimos concedidos, também começam a cobrar juros maiores.  Afinal, se os bancos não aumentassem os juros cobrados, eles simplesmente receberiam — no momento da quitação do empréstimo — um dinheiro com um poder de compra menor do que o que esperavam receber quando concederam o empréstimo.
Essa nova postura dos bancos leva a uma redução da taxa de crescimento da quantidade de dinheiro na economia.  E tal redução na taxa de crescimento da oferta monetária é exatamente o que põe um fim na euforia e gera o início da recessão.
A recessão
Durante a fase da expansão econômica artificial, os indivíduos intensificaram seu endividamento para poder consumir, na crença de que a expansão do crédito continuaria farta e que sua renda futura continuaria aumentando, o que facilitaria a quitação destas dívidas.  Já as empresas embarcaram em investimentos de longo prazo levadas tanto pela redução artificial dos juros criada pela expansão do crédito (o que faz com que os investimentos se tornassem mais financeiramente viáveis) quanto pela expectativa de que o aumento futuro da renda possibilitaria o consumo dos produtos criados pelos seus investimentos.
No entanto, a redução da expansão monetária — que não pode se perpetuar para sempre — traz a realidade à tona.  O aumento esperado da renda não se concretiza, o que faz com que as dívidas se tornem mais difíceis de serem quitadas.  Isso faz com que todos aqueles investimentos que foram estimulados pela expansão artificial do crédito entrem em colapso, pois nunca houve uma demanda genuína por eles.  Como os consumidores estão mais endividados e o nível geral de preços da economia aumentou — mas a oferta monetária se estabilizou —, a demanda cai (não cairia caso os investimentos houvessem sido financiados por poupança genuína, isto é, pela real abstenção do consumo dos indivíduos). 
Todos aqueles empreendimentos que até então pareciam lucrativos — como o setor imobiliário — se revelam um grande desperdício. A realidade é que simplesmente não havia demanda para tais projetos, pois tudo era baseado numa ilusão de prosperidade, aditivada pela expansão monetária e do crédito.
Até aqui, a narração acima em nada se distingue do atual momento brasileiro.  A mecânica inicial de um ciclo econômico, seja no Brasil, seja na Europa ou nos EUA, é a mesma, variando apenas qual será o setor que receberá a maior parte dos investimentos estimulados pelo crédito fácil.  O que tornou a recessão europeia especialmente dolorosa foi o que aconteceu com seu sistema bancário.
O que ocorreu na Europa — especialmente na Espanha e na Irlanda — é que o processo de expansão creditícia foi direcionado majoritariamente para o setor imobiliário.  E em gigantesca escala.  A bolha imobiliária espanhola foi muito maior que a americana — ao ponto de existirem hoje na Espanha, segundo Jesús Huerta de Soto, mais de um milhão de casas vazias, o que representa um incalculável desperdício de recursos escassos.
Sendo assim, quando a expansão creditícia foi interrompida e os juros foram elevados, não apenas a demanda por imóveis foi estancada, como também, e principalmente, as pessoas que estavam pagando hipotecas simplesmente começaram a dar o calote nos bancos.  Como as construtoras que haviam tomado empréstimos também não mais estavam conseguindo vender seus imóveis, elas também começar a dar calote nos bancos.  Acrescente a isso o aumento no desemprego em decorrência do mecanismo explicado acima, e você terá um ideia de quão volumosos foram os calotes nos bancos.
Ato contínuo, os bancos perceberam que seus empréstimos imobiliários — tanto para construtoras quanto para pessoas físicas — não mais seriam quitados aos valores originalmente esperados.  Como os empréstimos fazem parte do ativo dos bancos, a consequência é que os ativos bancários passaram a valer muito menos do que imaginavam. 
Essa queda no valor dos ativos gerou um enorme problema nos balancetes dos bancos: o valor dos ativos despencou, mas o valor dos passivos (todos os depósitos de seus clientes) permaneceu o mesmo.  Em termos contábeis, se há uma forte redução nos ativos e os passivos permanecem os mesmo, então há uma redução no patrimônio líquido (capital).  Os bancos se tornaram insolventes
Quando um banco se torna contabilmente insolvente, ele pode fazer duas coisas: ou ele aumenta seus ativos (sem que tenha de aumentar seus passivos), ou ele reduz seus passivos. 
Aumentar ativos em um cenário de recessão é praticamente impossível.  Ele teria de vender papeis em troca de dinheiro para aumentar suas reservas.  Porém, além de as pessoas não estarem em condições de comprar papeis dos bancos, o próprio ato desesperado de venda de papeis já forçaria para baixo os preços dos mesmos, pois tal medida deixaria explícita a péssima situação do banco.  O valor de seus ativos poderia cair ainda mais. 
Logo, a única solução plausível foi reduzir os passivos.  E como os bancos reduzem passivos?  Deixando de conceder empréstimos.  Cobrando empréstimos pendentes (cuja quitação aumenta seus ativos), e não concedendo novos empréstimos.  Essa era a única maneira de sanear seus balancetes.
E a consequência desta postura está perfeitamente ilustrada nos gráficos abaixo. 
Na Espanha, o volume de crédito concedido está em queda.
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Assim como a oferta monetária, que está apresentando deflação.
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O mesmo é válido para a Irlanda.
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E é ainda mais intenso para a Grécia, cujo volume de crédito e oferta monetária recuaram para níveis de sete anos atrás.
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A encrenca
Olhando o gráfico, fica fácil entender por que a situação grega é tão calamitosa.  Além da inevitável contração do crédito, que por si só reduz a quantidade de dinheiro na economia, também está havendo uma fuga de euros daquele país para os bancos alemães, mais seguros.  Espanha e Irlanda também vivenciam o mesmo problema, embora com intensidade um pouco menor.
Enquanto o mundo vivia seu período glorioso de expansão monetária (2003-2008), o governo grego aproveitou essa bonança para aumentar os gastos, inchar o funcionalismo e a folha de pagamento.  E fez tudo isso sem precisar aumentar impostos.  Como foi possível?  Como o crédito vinha de fora, e era abundante e barato, o governo percebeu que era mais vantajoso se endividar (em vez de tributar) para aumentar os gastos — e, depois, apenas rolar a dívida, pagando juros bastante camaradas. 
É lógico que tal arranjo grego seria insustentável no longo prazo, mesmo que os juros continuassem baixos.  É como se você fosse a um restaurante e, em vez de pagar a conta inteira, pagasse só a metade, e prometesse pagar o resto e mais juros no dia seguinte.  Porém, quando chegasse o dia seguinte, você faria um acordo com o dono do restaurante e, novamente, pagaria apenas a metade da conta daquele dia e empurraria todo o resto acumulado para o dia seguinte.  E assim você iria fazendo todos os dias.  Quando chegasse o fim do mês, o dono, desconfiado de que você iria dar o calote, simplesmente lhe apresentaria a conta total, com principal e juros acumulados, e exigiria o pagamento, não dando chances para mais rolamentos de dívida.  É aí que você teria o infarto.
No caso da Grécia, a crise financeira internacional, com a contração do crédito, acelerou esse processo de cobrança da dívida — logo, os juros exigidos para a rolagem da dívida subiram.  A farra grega acabou e, temerosos de um calote, as pessoas começaram retirar seu dinheiro do país, o que deixou os bancos em situação extremamente delicada.
Em um cenário de deflação monetária como esse que está acometendo estes países, a última coisa que os governos deveriam pensar em fazer seria aumentar impostos.  Mas foi exatamente isso que os governos desses três países fizeram e prometem continuar fazendo.  Não é à toa que a cada trimestre a imprensa noticia com fanfarra que o PIB destes países segue encolhendo.  Óbvio.  Deflação monetária com aumento de impostos é um coquetel mortífero.  Dado que há uma grande rigidez nos preços e nos salários nestes países (se os sindicatos não aceitam reduções salariais, os empresários não irão reduzir preços, pois seus balancetes iriam para o vermelho total), o resultado inevitável é uma disparada no desemprego.
Veja a evolução do desemprego em cada país clicando em seus respectivos nomes:  EspanhaIrlandaGrécia.
Para complicar ainda mais a situação, há a imposição de Basileia III, que exige o aumento do capital dos bancos.  Como explicado, na atual situação, a única maneira de os bancos aumentarem seu capital é cobrando a quitação de empréstimos pendentes, restringindo a concessão de novos empréstimos e contraindo ainda mais a oferta monetária.  Para Espanha e Grécia, que possuem economias amarradas, sindicatos fortes, altos impostos, e uma alta quantidade de regulamentações, esta nova rodada de deflação, a qual dificilmente será acompanhada de uma redução de preços e salários, poderá ser fatal para o desemprego.  A Irlanda, por ter uma economia mais dinâmica, tem mais chances de sofrer menos. 
Conclusão
Todo processo de expansão creditícia, cedo ou tarde, se transforma em um processo de restrição ou contração do crédito.  A intensidade da recessão tende a ser proporcional à intensidade da exuberância econômica que o país vivenciou.
Durante uma recessão, os consumidores estão mais pobres do que antes justamente por causa de todos os investimentos errôneos e insustentáveis que foram empreendidos em decorrência da expansão artificial do crédito, investimentos estes que imobilizaram capital e recursos escassos para seus projetos, recursos estes que agora não mais estão disponíveis para serem utilizados em outros setores da economia.  No geral, a economia está agora com menos capital e menos recursos escassos disponíveis.  Na Espanha, como dito, há hoje um milhão de casas vazias, sem compradores.  Capitais e recursos escassos foram desperdiçados na construção destes imóveis, capitais e recursos que poderiam estar hoje sendo aplicados em outros setores da economia espanhola.
Adicionalmente, é fácil entender por que o atual problema destas economias não é de 'demanda'.  Crises e recessões não são um problema de demanda.  Crises e recessões são causadas por investimentos errôneos e insustentáveis — em decorrência da expansão do crédito bancário e pela distorção das taxas de juros —, para os quais nunca houve demanda legítima.  Não se trata de um problema de demanda agregada, mas sim de um problema de capital que foi desviado para aplicações que não eram genuinamente demandadas pelo público.
Sendo assim, de nada adianta os governos — e principalmente os malvados alemães — incorrerem em déficits, aumentar os gastos e o Banco Central Europeu imprimir mais dinheiro, imaginando que tudo magicamente seria resolvido.  O fato é que recursos escassos foram aplicados em investimentos para os quais não havia demanda. Este capital se encontra agora destruído (ou com um valor extremamente reduzido).  A recessão nada mais é do que o período de reajuste desta estrutura de produção que foi distorcida pela expansão do crédito bancário e pela distorção das taxas de juros.
Portanto, para acabar com uma recessão, é preciso fazer com que este capital mal investido seja liquidado e que os investimentos sejam voltados para áreas em que haja genuína demanda dos consumidores.  O governo fazer políticas que estimulem a demanda agregada, de modo a não permitir que haja essa reestruturação do capital, irá apenas prolongar a recessão.  O governo elevar impostos e incorrer em déficits irá apenas retirar poupança do setor privado, justamente em um momento em que ele mais necessita dela. 
É exatamente isso que os governos europeus estão fazendo, e é exatamente isso que está prolongando a recessão.   A culpa não é dos alemães, que foram bastante frugais nos últimos treze anos.


[1] O motivo de toda a criação de crédito não se traduzir em idêntica expansão da oferta monetária se deve a dois fatos:
1) Importações.  Na zona do euro, parte desse dinheiro é exportada para outros países em troca de bens importados.
2) Recapitalização dos bancos.  Quando um banco quer aumentar seu capital, ele vende um papel.  A pessoa ou empresa que comprar este papel irá transferir dinheiro da sua conta-corrente para este banco.  O banco pegará este dinheiro (totalmente eletrônico) e irá contabilizá-lo como 'reservas bancárias', que é um ativo em seu balancete.  Ao final do processo, houve uma redução da quantidade de dinheiro na economia e um aumento das reservas bancárias, que é um dinheiro que não está na economia.  Exatamente o mesmo procedimento ocorre quando um banco vende dólares em sua carteira para algum cliente.  Ou seja, embora bancos criem dinheiro concedendo crédito, eles também destroem dinheiro quando vendem algum papel para se recapitalizar.

Facebook produz efeito inverso, dizem cientistas


Facebook produz efeito inverso, dizem cientistas


“Quanto mais se utiliza Facebook menos bem se sentem as pessoas”
Em vez de melhorar o bem-estar das pessoas, oFacebook produz o efeito inverso” – constatou Ethan Kross, psicólogo da Universidade de Michigan e principal autor de um estudo publicado pelo jornal científico PLOS.“

A notícia é do matutino parisiense “Le Monde”.

Os pesquisadores analisaram 82 jovens comsmartphones e contas noFacebook, no intuito de avaliar se eles se sentiam melhor enviando textos cinco vezes por dia durante duas semanas, além de calcular o número de seus acessos à rede social.

Os resultados apontaram que “quanto mais se utiliza o Facebook, menos as pessoas se sentem bem. (...) Quanto mais o utilizam, mais declina seu nível de satisfação”.

Em sentido contrário, o relacionamento real com as pessoas contribui para melhorar o bem-estar pessoal.

Estes são resultados da mais alta importância, pois tocam no próprio cerne de influência que as redes sociais podem exercer na vida das pessoas”, sublinhou John Jonides, especialista em neurociências da Universidade de Michigan e coautor do estudo. Os cientistas notaram que as pessoas recorrem mais à rede social quando se sentem privadas do relacionamento normal.

O estudo foi publicado uma semana depois de sair um inquérito de pesquisadores britânicos sobre a postagem frequente de fotos no Facebook como motivo de deterioração das relações humanas na vida real.
 Luis Dufaur

Irlanda versus Islândia - quem se saiu melhor após a crise financeira de 2008

Irlanda versus Islândia - quem se saiu melhor após a crise financeira de 2008
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IrelandIceland460.jpgAo longo dos últimos cinco anos, é difícil encontrar outros dois países cujas políticas adotadas em resposta à crise financeira de 2008 tenham sido tão divergentes e, por isso mesmo, tenham polarizado tanto os comentaristas econômicos.  Estes dois países são a Irlanda e a Islândia.
Ambos foram talvez os dois países mais afetados pelo congelamento da liquidez ocorrido em 2008. 
Uma conclusão bastante recorrente nos meios econômicos afirma que um destes países fez tudo certo e que o outro fez tudo errado.  Qual país fez tudo certo e qual fez tudo errado vai depender inteiramente da ideologia do economista.  Sendo assim, meu objetivo aqui é fazer uma abordagem mais pragmática.  Há aspectos positivos em ambos os casos, assim como também há aspectos negativos.
Sempre correndo o risco de estar simplificando em demasia a situação de ambos, eis as principais diferenças nas políticas econômicas adotadas:
1. O governo da Islândia permitiu que fatias substanciais do seu setor financeiro fossem à bancarrota (majoritariamente sucursais de bancos domiciliados no estrangeiro), sem dar nenhum socorro.  Já a Irlanda utilizou dinheiro de impostos para socorrer seus bancos e, com isso, manter seu setor financeiro solvente.
2. O governo da Islândia inflacionou substancialmente sua moeda, a coroa, em uma tentativa de desvalorizar sua taxa de câmbio e, com isso, dar alguma competitividade ao seu setor exportador.  Já a Irlanda, por estar presa ao euro, não pôde trilhar um caminho semelhante.  Em vez de recorrer à desvalorização da moeda, a Irlanda tentou se tornar mais atraente aos investidores estrangeiros por meio de uma redução em seus preços domésticos.  (Nesta monografia, há explicações mais detalhadas sobre como a baixa sindicalização dos irlandeses e um setor estatal mais enxuto permitiram que preços caíssem em até mais de 6%, sem enfrentar grandes resistências).
3. A Islândia adotou controle de capitais para impedir que houvesse uma fuga de capitais e para impedir que o capital estrangeiro saísse do país, desta forma mantendo os investimentos presos dentro de suas fronteiras.  Já a Irlanda, por fazer parte da União Europeia, teve de manter seu compromisso com uma livre mobilidade de capitais, e os investidores puderam continuar entrando e saindo do país a seu bel-prazer.
No que diz respeito a qual conjunto de soluções foi mais eficaz, as evidências são mistas.  À primeira vista, a Islândia parece ter conseguido suavizar melhor o impacto imediato de sua recessão, mas o atual crescimento da Irlanda é mais sólido, como veremos mais abaixo.  De maneira similar, o desemprego na Islândia foi menor e ainda permanece mais baixo atualmente.
Para os propósitos deste artigo, irei me concentrar apenas nos efeitos das respectivas políticas monetárias de ambos os países, e em como os ganhos de curto prazo gerados pela reação inflacionária da Islândia são hoje pequenos em comparação à reação mais branda da Irlanda.
O gráfico abaixo mostra a evolução do PIB nominal de ambos os países, isto é, o PIB que desconsidera a inflação de preços.  A Irlanda está de verde e a Islândia, de azul.
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Gráfico 1: PIB Nominal (2008 = 100) Fonte: Federal Reserve Bank of St. Louis
O gráfico 1 mostra aquilo que o senso comum prevê.  A política inflacionista da Islândia estimulou as exportações, ocultou o alto endividamento da população e das empresas, e permitiu que o país saísse da tempestade de forma aparentemente ilesa.  Já a Irlanda, por outro lado, segue presa a um baixo crescimento e, cinco anos depois do início da crise, a renda nominal do país ainda é 10% menor do que o pico alcançado antes da crise.
Mas esta análise, no entanto, ignora completamente os efeitos da inflação sobre a economia da Islândia.  A política inflacionista da Islândia aumentou a oferta monetária em quase 20% apenas em 2008, e levou a umimediato e acentuado aumento nos preços.
O gráfico abaixo mostra a evolução do PIB real, isto é, o PIB que leva em conta a inflação de preços.  A Irlanda está de verde e a Islândia, de azul.
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Gráfico 2: PIB Real (2008 = 100) Fonte: Federal Reserve Bank of St. Louis
O gráfico 2 mostra uma realidade mais acurada da situação vivenciada pelo islandês e pelo irlandês comum.  Quando o Banco Central da Islândia inflacionou a oferta monetária do país e depreciou o câmbio, a inflação de preços disparou para quase 20%.  À medida que o poder de compra dos cidadãos da Islândia diminuía, eles sentiam que sua segurança financeira estava piorando.  Mas isso não era aparente para o resto do mundo, cujos observadores estavam fixados nos indicadores nominais da economia da Islândia.  Em seu ponto mais baixo, alcançado no quarto trimestre de 2010, a renda da Islândia ajustada pela inflação de preços havia caído 35%.
Já na Irlanda, este declínio foi sensivelmente mitigado pela deflação de preços de 6% ocorrida.  À medida que os preços domésticos caíam, foi se tornando mais fácil para os cidadãos da Irlanda continuar sobrevivendo com uma renda nominal declinante.  Em seu pior momento, a economia da Irlanda caiu 10% em termos reais.
Isso parece sugerir que a Irlanda recorreu a uma solução melhor ao não implantar uma política monetária inflacionista.  Já outros irão notar, no entanto, que a recuperação da Islândia desde 2010 tem sido bastante robusta.
Com efeito, se analisarmos a queda na taxa de emprego (atenção: taxa de emprego e não de desemprego) em ambos os países, é natural que sintamos mais comiseração pelas massas de desempregados irlandeses.
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 Gráfico 3: Taxa de Emprego (2008 = 100) Fonte: Federal Reserve Bank of St. Louis
Porém, se analisarmos mais profundamente, as coisas não são exatamente como o gráfico acima sugere.  Por causa da inflação de preços maior, vários cidadãos da Islândia têm de trabalhar em dois empregos para chegar até o fim do mês.  Este efeito foi se tornando cada vez mais pronunciado ao longo da recessão à medida que a inflação de preços ia tornando mais difícil a sobrevivência com apenas um salário.  Como consequência, vários islandeses que perderam um de seus dois empregos durante a recessão não aparecem nas estatísticas de desemprego, pois eles mantiveram o outro emprego. 
Já na Irlanda, a situação é outra.  E mais confortável.  Além do fato de um emprego por pessoa continuar sendo a norma, a deflação de preços tornou mais fácil para uma pessoa empregada manter seu padrão de vida à medida que a recessão continuava.
Uma maneira mais acurada de mensurar a situação do emprego em ambos os países é analisar a evolução das horas trabalhadas em um ano.
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Gráfico 4: Horas anuais trabalhadas (2008 = 100) Fonte: Federal Reserve Bank of St. Louis
Este gráfico permite ver como a situação se inverte.  No auge da recessão, em 2010, o número de horas trabalhadas pelo cidadão da Islândia havia caído 6%, ao passo que, na Irlanda, a queda foi de apenas 3,5% — quase a metade.
Conclusão
Ambos os países ainda têm problemas.  Os controles de capital adotados pela Islândia notavelmente estão afetando os investimentos, que são extremamente necessários.  Já a Irlanda está sufocada por uma enorme dívida pública gerada pelo socorro dado pelo governo aos bancos.  O fardo da dívida está impedindo sua recuperação.  Uma coisa, no entanto, é clara: os efeitos da política monetária são nítidos e os supostos benefícios da política inflacionária adotada pela Islândia foram contrabalançados pela inflação de preços que ela causou.
Jamais deixe que uma crise passe em branco; aprenda algo com ela.  Como a história destes dois países demonstra, inflacionar uma moeda pode dar a aparência de recuperação, mas a realidade é bem menos rósea do que supõem os inflacionistas.
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Utopistas prometem um mundo perfeito; defensores da liberdade querem apenas um mundo correto

Utopistas prometem um mundo perfeito; defensores da liberdade querem apenas um mundo correto

utopia1.jpgPor que visões utópicas e irrealistas são tão atraentes e inspiradoras para muitas pessoas ao passo que a simples promessa de liberdade — o que de fato permitiria que a sociedade se tornasse muito mais aprimorada — é tão frequentemente desconsiderada? 
Um dos mais prolíficos defensores da liberdade no século XX, o escritor americano Leonard Read, tentou responder a esta questão.
Em seu livro Let Freedom Reign (Deixe a Liberdade Reinar), Read argumenta que a incapacidade das ideias pró-liberdade de arregimentar mais seguidores do que o estatismo utópico decorre em grande medida do fato de que são os fins idealizados, e não os meios considerados, o que frequentemente motiva as pessoas.  Ao contrário das visões utópicas, a filosofia da liberdade reconhece que um sistema de livre mercado é um "servo amoral" que não irá gerar apenas resultados perfeitos e inquestionáveis.  Já o estatismo utópico, ao contrário, promete um mundo perfeito, sem dificuldades, sem a necessidade de esforço, e sem máculas.  Por essa razão, as ideias pró-liberdade já lidam desde o início com uma desvantagem em termos motivacionais.
Uma boa ilustração da "vantagem" da utopia estatista sobre a liberdade é a afirmação utopista de que tal arranjo irá gerar uma igualdade de resultados (igualdade essa que, supõe-se, irá ocorrer em um alto nível de prosperidade).  Esta motivação, por sua vez, leva à criação de todo um conjunto de justificativas para se restringir cada vez mais a liberdade.  Mas a realidade, ao contrário da quimera estatista, é que algumas formas dedesigualdade são as principais geradoras de surpreendentes benefícios sociais.  Apenas pense nos maciços ganhos oriundos da divisão do trabalho, em que a especialização entre as pessoas com capacidades distintas e desiguais — tudo coordenado por meio de arranjos voluntários de mercado — gera um enorme aumento da produtividade e da prosperidade.
Em vez de deplorar toda e qualquer desigualdade de resultados, seria muito mais sensato dizer que, enquanto houver liberdade, "a desigualdade irá existir, felizmente!".  Como disse o próprio Read,
Liberdade e igualdade são mutuamente antagônicas.  A ideia de igualdade se baseia na antítese da liberdade: coerção pura.  É impossível ser livre quando a igualdade é politicamente manipulada.
Não são as nossas semelhanças, mas sim nossas diferenças que dão origem à divisão do trabalho e aos complexos processos de produção e comercialização que ocorrem no mercado.  É vantajoso nos especializarmos e comercializarmos com outros especialistas.  Ao servirmos aos outros — e aos nos tornarmos cada vez mais capacitados e aprimorados (desiguais) no processo —, estamos servindo aos nossos próprios interesses.
A desigualdade entre indivíduos é um fato inquestionável, e a liberdade de incorrer em arranjos voluntários permite aos indivíduos de uma sociedade alcançar de maneira mais efetiva seus desejos.  Justamente por isso, atribuir resultados indesejados — tais como todos os possíveis desvios em relação a uma igualdade idealizada — a arranjos voluntários denota uma incompreensão da realidade.  Estes possíveis desvios ocorrem justamente porque vivemos em uma realidade que os utopistas simplesmente não aceitam. 
E a realidade é que vivemos em um mundo de escassez.  Se vivêssemos em um mundo de plena abundância, haveria de tudo para todos.  Mas como não vivemos no Jardim do Éden, temos de aprender a nos virar da melhor maneira possível.  A divisão do trabalho e o sistema de mercado são uma das melhores maneiras de sobrepujar os problemas gerados pela escassez.  Por isso, restringir arranjos voluntários — exceto aqueles que envolvam fraude e violência contra inocentes — é uma atitude incapaz de solucionar os reais problemas gerados pelo incontornável fato de que vivemos em um mundo de escassez.  Quaisquer tentativas de se restringir arranjos voluntários irão apenas afetar a capacidade do mercado de coordenar os planos produtivos de pessoas que possuem habilidades profundamente distintas.  Esta tentativa equivocada de se alcançar uma utopia impraticável irá apenas causar estragos.
Os defensores da liberdade têm de lidar com o fato de que os mercados são servos amorais que capacitam as pessoas a fazer aquilo que mais querem.  Não se deve crer de maneira inabalável que os mercados irão efetuar apenas coisas boas e inspiradoras.  No entanto, vale enfatizar que, sempre que eles fizerem coisas ruins, eles estarão apenas refletindo os desejos de indivíduos.  Com efeito, se o ser humano fosse completamente "reformado", os mercados não teriam como fazer mal nenhum.  Mas essa é a própria definição da utopia. "Reformar" o ser humano de maneira coerciva, por meio de decretos, felizmente é impossível e ainda assim não eliminaria as causas de tais malefícios.  Ademais, as restrições aos mercados que ocorreriam neste processo iriam justamente abolir este servo amoral que nos permite alcançar um arranjo muito mais benéfico e satisfatório do que aquele alcançável por quaisquer outros meios.
Há uma distinção crucial entre os fins utópicos e "inspiradores" e os meios que tais fins necessariamente envolvem.  Os meios coletivistas que as utopias requerem dependem da coerção; por isso, são imorais.  Consequentemente, é impossível que tais utopias sejam moralmente defensáveis.
Como escreveu Read,
Examine cuidadosamente os meios empregados em termos de certo e errado, e a moralidade dos fins revelar-se-á por si só.
Por mais sublimes e grandiosos que sejam os objetivos, se os meios empregados são depravados, o resultado final necessariamente será um reflexo dessa depravação.
Os meios utilizados para se alcançar objetivos individualistas servem como um poderoso impulso rumo ao florescimento material, intelectual, moral e espiritual do indivíduo.  Aqueles que formam a sociedade são os beneficiários secundários.  Se vamos nos ajudar uns aos outros, vamos primeiro nos ajudar a nós mesmos utilizando aqueles meios que se qualificam como moralmente corretos.
Fins visionários ou utópicos inspiram algumas pessoas a implantar fracassos estatizantes, sacrificando a liberdade em prol de inúmeras "boas causas".  Concentrar-se na moralidade dos meios (voluntários versus coercivos) e não nos objetivos declarados tem de ser a postura correta.  Uma vez que os meios utilizados pelas "soluções" estatizantes são imorais, tais sistemas são moralmente inferiores a arranjos voluntários.
A liberdade produz arranjos voluntários que evoluem e prosperam tão logo os direitos do indivíduo sobre si próprio e sobre sua propriedade são protegidos.  A liberdade fornece os meios para se alcançar tudo que há de melhor e que é realmente alcançável em uma sociedade.  À medida que prosperamos, cada um de nós tem mais a oferecer aos outros, sem a necessidade de atos imorais.  E tudo aquilo que a liberdade historicamente já alcançou — que está muito além da capacidade de visualização de qualquer pessoa, e que abre um amplo leque de possibilidades ainda desconhecidas — nos fornece amplos motivos para confiarmos nela em detrimento de todas as alternativas coercivas.
Defender a liberdade é uma atitude que requer a capacidade de "ver" todo aquele bem despercebido (e frequentemente inimaginável) que só pode ser alcançado quando se libera a capacidade das pessoas de criar e inovar de maneira pacífica.  É necessário também ser capaz de "ver", entender e articular os inerentes fracassos dos meios coercivos e imorais empregados com o intuito de se alcançar objetivos utópicos, os quais são inalcançáveis, não obstante o uso de tais meios.  Com esta visão, a liberdade pode ser reconhecida e entendida como algo muito mais inspirador do que qualquer alternativa coerciva e estatizante.



Hans F. Sennholz  (1922-2007) foi o primeiro aluno Ph.D de Mises nos Estados Unidos.  Ele lecionou economia no Grove City College, de 1956 a 1992, tendo sido contratado assim que chegou.  Após ter se aposentado, tornou-se presidente da Foundation for Economic Education, 1992-1997.  Foi um scholar adjunto do Mises Institute e, em outubro de 2004, ganhou prêmio Gary G. Schlarbaum por sua defesa vitalícia da liberdade.

Tradução de Leandro Roque

Cinco maneiras de se criar um monopólio

Cinco maneiras de se criar um monopólio

propr2.jpgÉ muito difícil manter um monopólio se você opera em um ambiente econômico genuinamente livre, no qual não há barreiras regulatórias, burocráticas e tributárias erguidas pelo estado contra o surgimento de concorrentes.
O problema é que este arranjo em que o estado permite a existência de uma genuína livre concorrência — e que, consequentemente, é formado por empresas cobrando preços baixos e continuamente colocando novos produtos no mercado — infelizmente é algo do passado.
No mundo atual, políticos estão sempre prontos para oferecer a qualquer magnata ávido por controlar toda uma indústria a chance de brilhar.  Tarifas de importação, agências reguladoras criadas para cartelizar mercados e proteger empresas favoritas, leis especiais, códigos tributários indecifráveis e impossíveis de serem cumpridos pelos pequenos empresários, burocracias ininteligíveis, e subsídios aos reis — estas são as maneiras mais garantidas de se criar monopólios e de garantir que nenhum grande empresário jamais tenha de passar aperto concorrendo no livre mercado.
A seguir, uma pequena lista contendo as cinco maneiras mais eficazes de se estabelecer um monopólio.  Todas essas medidas são alegremente defendidas pelas grandes empresas.
1. Regulamentações
Quando o custo de se empreender é alto, aumente-o ainda mais, e com isso aniquile a concorrência dos pequenos.  Pequenas empresas não conseguirão sobreviver às regulamentações impostas pelo governo, ao passo que as grandes empresas certamente serão capazes de arcar com este fardo, ao menos temporariamente.  Impostos, decretos, leis especiais e principalmente regulamentações específicas irão dizimar qualquer sombra de concorrência antes mesmo que estes coitados tenham tempo de perguntar o real significado das novas e indecifráveis leis.  As grandes empresas irão contratar lobistas para ir ao Congresso, e estes certamente serão capazes de convencer os burocratas de que aquele setor da economia em que tais empresas operam deve estar sujeito a normas mais rígidas e estritas.  Ao contrário do senso comum, agências reguladoras e grandes empresassão sólidas aliadas.
2. Subsídios
Não existe almoço grátis.  Porém, quando o governo está pagando o almoço, ele de fato tem sabor de gratuidade.  Subsídios governamentais permitem que empresas adquiram um status monopolista ao mesmo tempo em que supostamente mantêm um enfoque no consumidor.  Utilizar dinheiro do governo para aumentar suas receitas de maneira arbitrária permitirá a você reduzir acentuadamente seus preços, e ainda assim manter a sua lucratividade.  Você poderá agora dar gratuitamente um item que até então custava $10 e, com a ajuda do subsídio de $1 milhão gentilmente concedido pelo governo, continuar operando normalmente.  Seus concorrentes, por outro lado, terão de se virar dentro da crua realidade do mercado.  Ainda que eles de alguma forma consigam reduzir seus preços para $1,00 a unidade, qual consumidor irá abrir mão de um produto que está sendo literalmente dado de graça? 
Uma variante desse arranjo ocorre quando o governo utiliza agências estatais de fomento para conceder empréstimos subsidiados às suas empresas favoritas.  As consequências são idênticas.  Para os amigos do rei, as delícias dos juros artificialmente baixos; para os reles mortais, a dureza do mercado.
O subsídio não necessariamente tem de durar para sempre.  Levará apenas algumas semanas para que seus concorrentes comecem a perder receitas e a dar o calote em suas dívidas pendentes.
3. Nacionalização
Este é o método favorito dos políticos e burocratas.  A maneira mais fácil e mais direta de se criar um monopólio é simplesmente transformar o monopólio em lei.  O controle federal sobre toda uma indústria representa uma efetiva proibição à concorrência do setor privado.  Pense nos Correios e — em vários países — no setor petrolífero.  Quem estiver à procura de um pavoroso exemplo prático de ineficiência, déficits perpétuos e total falta de consideração pela qualidade dos serviços, apenas olhe para um monopólio estatal. 
Ainda assim, a defesa da nacionalização é onipresente: basta você dizer que um determinado setor deve ser monopolizado "para o bem do povo" e, em seguida, fazer perorações a respeito do papel de suma importância desempenhado pelo Ministério da Educação ou por outras burocracias estatais que as pessoas consideram sagradas e intocáveis, e sua argumentação será prontamente aceita.
4. Tarifas de importação
Estrangeiros podem ser um aborrecimento.  Alguns são barulhentos, outros são esquisitos.  Mas os piores são aqueles que competem conosco no mercado.  Por que permitir que eles vendam para nós os seus produtos?  Por exemplo, empresas chinesas produzem determinadas mercadorias a preços muito baixos e ainda têm a petulância de pensar que podem exportar seus produtos baratos para o nosso país.  Quem em sã consciência iria querer ter acesso a produtos baratos?
Se um chinês quer vender um pano a $2, mas a nossa indústria nacional não aceita vender por menos de $5, então o certo é proibir os chineses de satisfazer nossos consumidores.  Eles não podem simplesmente agir como se entendessem o real funcionamento do mercado.  É perigoso.  O certo é impor a eles tarifas de importação elevadas e desestimulantes.  Melhor ainda seria propor uma proibição total à venda de produtos estrangeiros dentro de um estado e dentro de uma cidade, de modo a isolar aquela localidade do resto do mundo.  Ato contínuo, ninguém poderá comprar nada de nenhum outro fornecedor que não seja o grande industrial nacional.  Esse é o caminho para a riqueza.  Para a riqueza dele, é claro.
6a00d8341c630a53ef00e54ff8d9eb8833-800wi.jpg5. Propriedade intelectual
Se você teve uma boa ideia, por que permitir que uma outra pessoa qualquer tenha a mesma ideia?  Pegue a sua ideia, escreva-a num papel com as letras mais garrafais possíveis, e peça sua imediata patente.  Ato contínuo, burocratas irão garantir a você o direito exclusivo de utilizar essa ideia.  E nem precisa se preocupar caso outra pessoa tenha essa mesma ideia apenas um dia depois, azar o dela.  Você preencheu a papelada antes.  Mesmo que outra pessoa do outro lado do globo tenha a mesma ideia, azar o dela.  Você aquiesceu com a burocracia antes.  Explore seu monopólio com júbilo.  Coloque um alto preço no produto e não mais se preocupe com a qualidade.  Você agora é livre para ignorá-la.  Afinal, o que os consumidores irão fazer: comprar seu produto exclusivo em outro lugar?

A todos aqueles que conseguiram se encaixar em uma das categorias acima, usufruam gostosamente seus privilégios.  Vocês merecem.

Brian LaSorsa é colunista do Huffington Post e contribui esporadicamente para o jornal Washington Examiner e para a revista The American Conservative

O mercado é um processo dinâmico, e não apresenta “equilíbrio”



mercado.jpgUm aspecto característico da abordagem austríaca da teoria econômica é sua ênfase de que o mercado é um processo, e não apenas uma configuração de preços, qualidades e quantidades que são consistentes entre si de modo a produzir uma situação de mercado em equilíbrio.[1]  Esse aspecto da economia austríaca está intimamente associado ao descontentamento com o uso generalizado do conceito de concorrência perfeita. 
É interessante notar que, mesmo entre economistas de convicções bastante divergentes dentro da tradição austríaca, todos demonstram um desencanto característico com a ênfase ortodoxa dada tanto em relação ao equilíbrio como também em relação à concorrência perfeita.  Assim, a bem conhecida posição de Joseph A. Schumpeter sobre essas questões é notavelmente próxima da de Ludwig von Mises.[2]  Oskar Morgenstern, em um importante artigo sobre teoria econômica contemporânea, expressou as mesmas críticas austríacas à moderna teoria econômica.[3]
EQUILÍBRIO E PROCESSO
Ludwig. M. Lachmann revelou que sua insatisfação com a noção de equilíbrio envolve essencialmente o uso da construção do equilíbrio geral walrasiano em detrimento da utilização do simples equilíbrio parcial marshalliano.[4]  Mas é precisamente utilizando a construção de um mercado simples, com apenas um tipo de bem e no curto prazo, que demonstrarei algumas das deficiências da abordagem do equilíbrio.
Em nossas salas de aula, desenhamos a interseção marshalliana para descrever uma situação de oferta e demanda competitiva, e depois prosseguimos explicando como o mercado entra em equilíbrio apenas quando se atinge o preço correspondente à interseção das curvas.
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Normalmente, a explicação sobre a determinação do preço de mercado pára por aí — praticamente concluindo que o único preço possível é o preço de equilíbrio de mercado.  Algumas vezes tratamos da questão de como podemos estar certos de que há realmente uma tendência de que o preço de interseção será atingido.  Nesse caso, a discussão prosseguirá em termos da versão walrasiana do processo de equilíbrio.  Suponha — costumamos dizer — que o preço esteja acima do preço de interseção.  Sendo assim, a quantidade do bem que as pessoas estão preparadas para ofertar é, no agregado, maior do que a quantidade total que as pessoas estão preparadas para comprar.  Haverá estoques não vendidos, o que fará o preço diminuir.  Por outro lado, se o preço estiver abaixo do preço de interseção, haverá um excesso de demanda, "forçando" o preço para cima.  Assim — costumamos explicar — haverá uma tendência para que o preço gravite em direção ao ponto de equilíbrio no qual a quantidade demandada se iguala à quantidade ofertada.
Essa explicação tem um apelo simples, porém eficaz.  Entretanto, quando o preço é descrito como estando acima ou abaixo do equilíbrio, entende-se que apenas um único preço prevalece no mercado.  Uma pergunta incômoda, então, seria: como sabemos qual é esse preço único antes de termos atingido o equilíbrio?  Pois certamente um preço único somente pode ser estipulado como resultado do processo de equilíbrio em si.  Ao menos neste quesito, a explicação walrasiana sobre a determinação do preço de equilíbrio é nula.
Novamente: a explicação walrasiana normalmente pressupõe concorrência perfeita, onde todos os participantes do mercado são tomadores de preço.  Mas se há apenas tomadores de preço participando do processo, não está claro como que os estoques não vendidos ou a demanda não atendida provocam mudanças no preço.  Se ninguém pode influir no preço, como os preços sobem ou descem?
A explicação marshalliana do processo de equilíbrio — normalmente não apresentada nas discussões em sala de aula — é similar à walrasiana, porém utiliza quantidade em vez de preço como a principal variável de decisão.[5]  Em vez de desenhar linhas horizontais de preços no diagrama de oferta e demanda para mostrar um excesso de oferta ou uma demanda não atendida, o procedimento marshalliano utiliza linhas verticais para delimitar os preços de demanda e os preços de oferta para determinadas quantidades.  Nesse procedimento, a ordenada de um ponto sobre a curva de demanda indica o preço máximo em que uma quantidade (representada pela abscissa do ponto) será vendida.  Se esse preço for maior do que o correspondente preço de oferta (o preço ao qual a mesma quantidade será oferecida para venda), quantidades maiores serão colocadas à venda.  O contrário ocorre quando o preço de oferta excede o preço de demanda.  E assim, a existência de uma tendência em direção ao equilíbrio foi supostamente demonstrada.
Esse procedimento também faz muitas pressuposições.  Ele toma como certo que o mercado já sabe quando o preço de demanda da quantidade disponível está excedendo seu preço de oferta.  Ora, mas o desequilíbrio ocorre precisamente porque os participantes de mercado não sabem qual é o preço de equilíbrio.  Em uma situação de desequilíbrio, normalmente não se sabe qual é "a" quantidade e nem qual é o preço mais alto (mais baixo) pelo qual essa quantidade pode ser vendida (pechinchada dos ofertantes).  Assim, não está claro como que o fato de a quantidade de bens no mercado ser menor do que a quantidade de equilíbrio irá garantir que as decisões dos participantes de mercado sejam modificadas de modo a aumentar essa quantidade.
Claramente nenhuma dessas explicações sobre como se dá o alcance do equilíbrio é satisfatória.  Pela perspectiva austríaca, que enfatiza o papel do conhecimento e das expectativas, as explicações acima pressupõem tacitamente muitas coisas.  O que precisamos é de uma teoria sobre o processo de mercado que leve explicitamente em conta as alterações sistemáticas nas informações e nas expectativas sobre as quais os participantes de mercado atuam, e que explique como essas alterações irão levar os participantes em direção à "solução" de equilíbrio.  E, de fato, o ponto de vista austríaco nos ajuda a conceber tal teoria.
ALOCAÇÃO ROBBINSIANA E A AÇÃO MISESIANA
Ao desenvolver uma teoria viável para o processo de mercado devemos levar em conta o papel — muito negligenciado — do empreendedorismo.  A omissão do empreendedorismo na análise econômica moderna é uma consequência direta de preocupação geral com a situação final de equilíbrio.  Para podermos entender a distinção entre uma teoria baseada no processo de mercado — a qual faz referência ao empreendedorismo — e uma teoria baseada no equilíbrio de mercado — a qual ignora o empreendedorismo —, será útil compararmos o conceito misesiano de ação humana com o conceito econômico utilizado por Lord Robbins, a saber, o processo de decisão de alocações.
Devemo-nos recordar que Lord Robbins definiu a economia como a ciência que lida com o aspecto alocativo das relações humanas, isto é, as consequências advindas do fato de que os homens direcionam e alocam seus limitados recursos para fins múltiplos e concorrenciais.[6]  Mises, por outro lado, enfatizou a noção mais ampla da ação humana intencional, abrangendo os esforços deliberados por meio dos quais os homens tentam melhorar sua situação.[7]  Ambos os conceitos, é válido notar, são consistentes com o individualismo metodológico e incorporam a constatação de que os fenômenos de mercado são gerados pela interação de decisões individuais.[8]  Porém, ambas as construções diferem significativamente.
O método robbinsiano afirma que os indivíduos irão utilizar os recursos disponíveis e conhecidos da maneira mais eficiente possível, de modo a atingir certos propósitos.  Isso requer a implementação do princípio equimarginal, isto é, a criação de um arranjo alocativo no qual é impossível transferir uma unidade de recurso de um uso para outro uso e, com isso, ganhar um benefício líquido.  Para Robbins, o processo econômico consiste apenas em rearranjar os recursos disponíveis de modo a garantir a utilização mais eficiente de insumos conhecidos considerando-se uma dada hierarquia de objetivos.  É a interação no mercado dos esforços alocativos de vários indivíduos que gera todos os fenômenos que a economia moderna procura explicar.
A dificuldade com uma teoria de mercado baseada exclusivamente em termos robbinsianos é que, no desequilíbrio, vários dos planos dos agentes robbinsianos estão fadados a não se realizar.  O desequilíbrio é uma situação na qual nem todos os planos podem ser realizados conjuntamente; ele reflete erros na informação de preços sobre os quais os planos do indivíduo são feitos.  Uma experiência de mercado malsucedida — que gerará escassez ou excedente de bens a serem vendidos — revela que as expectativas em relação ao preço original estavam incorretas.  Embora a estrutura robbinsiana sugira que os planos malsucedidos serão descartados ou revisados, não é possível ir muito além disso.  A ideia de um plano robbinsiano assume que a informação não só é dada como também é conhecida pelos indivíduos atuantes no mercado.  Na ausência dessa informação, os participantes de mercado ficam bloqueados de toda a atividade robbinsiana.  
Sem qualquer pista sobre quais serão as novas expectativas que virão após as frustrações no mercado, somos incapazes de postular qualquer sequência de decisões.  Tudo o que podemos dizer é: se todas as decisões robbinsianas forem harmônicas, teremos um equilíbrio; se não forem harmônicas, teremos um desequilíbrio.  Dentro desse arranjo, não temos justificativas para afirmar, por exemplo, que estoques não vendidos irão deprimir os preços; podemos apenas dizer que, se houver uma errada expectativa de que os preços são mais altos do que de fato são, os tomadores de decisão robbinsianos irão gerar estoques não vendidos.  Como tomadores de decisão, eles não podem aumentar ou diminuir preços; eles são estritamente tomadores de preços, fazendo alocações de acordo com o ambiente em que os preços são dados.  Se todos os participantes são tomadores de preços, como então os preços de mercado poderão aumentar ou diminuir?  Por meio de qual processo isso irá ocorrer, se ocorrer?
Para que os estoques não vendidos comprimam os preços, aqueles participantes de mercado que possuem bens não vendidos precisariam entender que os preços anteriormente praticados estavam muito altos.  Os participantes precisariam modificar suas expectativas referentes ao entusiasmo dos outros participantes em comprar seus produtos.  Mas para fazermos essas afirmações precisamos transcender os limites estreitos da estrutura robbinsiana.  Precisamos de um conceito de tomadas de decisão que seja abrangente o suficiente para abarcar o elemento empreendedorismo, de modo a considerar a maneira como os participantes de mercadoalteram seus planos.  É aqui que a noção misesiana acerca da ação humana vem ao nosso socorro.
O conceito de Mises acerca da ação humana envolve um insight, um discernimento, sobre a natureza humana que está completamente ausente em um mundo de agentes robbinsianos.  Esse discernimento reconhece que os homens não apenas são agentes calculistas, como também são atentos às oportunidades.  A teoria robbinsiana somente é válida após uma pessoa já ter sido confrontada por certas oportunidades; ela não explica como aquela pessoa aprende sobre essas oportunidades.  Já a teoria misesiana sobre a ação humana concebe o indivíduo como um agente que tem seus olhos e ouvidos abertos para oportunidades que estão "logo ali".  Ele está alerta, esperando, continuamente receptivo a alguma coisa que possa surgir.  E quando o preço vigente não equilibra o mercado, os participantes de mercado percebem que eles precisam revisar suas estimativas de preços a fim de evitar novos desapontamentos. 
Esse estado de alerta e prontidão é o elemento empreendedorial da ação humana, um conceito ausente nas análises feitas em termos exclusivamente robbinsianos.  Ao mesmo tempo em que transforma o ato de decisão em uma visão realista da ação humana, o empreendedorismo transforma a teoria de equilíbrio de mercado em uma teoria de processo de mercado.
O PAPEL DO EMPREENDEDORISMO
É verdade que há outras definições da função empreendedorial.  As principais visões sobre o assunto têm sido aquelas de Schumpeter, Frank H. Knight e Mises.  Entretanto, como já argumentei, todas essas definições alternativas têm em comum o elemento do alerta às oportunidades.[9]  Este alerta deve ser cuidadosamente distinguido da mera possessão do conhecimento.  E é a distinção entre estar alerta e possuir conhecimento que nos ajuda a entender como o processo empreendedorial de mercado sistematicamente detecta e ajuda a eliminar erros.
Uma pessoa que possui conhecimento não é — apenas por esse critério — um empreendedor.  Mesmo quando um empregador contrata um especialista por causa do conhecimento deste, é o empregador — e não o empregado — quem é o empreendedor.  O empregador pode não ter toda a informação que o empregado possui; no entanto, o empregador está mais bem "informado" do que todos os outros concorrentes — ele sabe onde o conhecimento pode ser obtido e como ele pode ser proveitosamente empregado. 
O especialista contratado aparentemente não sabe como seu conhecimento pode ser proveitosamente empregado, uma vez que ele não está preparado para agir como seu próprio empregador.  Ele não percebe a oportunidade fornecida pela posse de tal informação.  O empregador, por outro lado, percebe.  O conhecimento empreendedorial é um tipo de conhecimento refinado e abstrato — o conhecimento sobre onde obter informação (ou outros recursos) e como colocá-lo em prática.
Esse alerta empreendedorial é crucial para o processo de mercado.  O desequilíbrio representa uma situação de ampla ignorância sobre as reais condições do mercado.  Essa ignorância é responsável pelo surgimento de oportunidades lucrativas.  O alerta empreendedorial explora estas oportunidades enquanto outros a ignoram. 
Lachmann e G.L.S. Shackle enfatizaram a imprevisibilidade do conhecimento humano, e de fato não entendemos claramente como os empreendedores obtêm esse lampejo de presciência superior à dos concorrentes.  Não sabemos explicar como alguns homens descobrem determinadas oportunidades antes de outros.  Podemos certamente explicar por que os homens exploram petróleo de modo a estarem sempre ponderando maneiras alternativas de gastar uma quantia limitada de recursos; porém, somos incapazes de explicar como um empreendedor presciente percebe antes dos outros que uma busca por petróleo pode ser recompensadora. 
Em termos empíricos, entretanto, sabemos que as oportunidades tendem a ser percebidas e exploradas.  E é sobre essa tendência observada que se assenta nossa crença na existência de um determinado processo de mercado.
A PUBLICIDADE COMO UM ASPECTO DO PROCESSO COMPETITIVO
A caracterização do processo de mercado como um processo de descoberta empreendedorial clarifica várias ambiguidades sobre o mercado e dissipa vários mal-entendidos sobre como ele funciona.  A propaganda fornece um excelente exemplo sobre o qual podemos basear nossa discussão.
A publicidade, uma característica dominante da economia de mercado, é amplamente incompreendida e frequentemente condenada como dispendiosa, desperdiçadora, ineficiente, inimiga da concorrência e geralmente destruidora da soberania do consumidor.  Houve, nos anos recentes, alguma reabilitação do assunto na literatura econômica, dentro do modelo da economia da informação.  De acordo com essa visão, mensagens publicitárias voltadas para potenciais consumidores representam quantidades de conhecimento necessárias, pelas quais eles estão dispostos a pagar um preço.  A quantidade certa de informação é produzida e entregue pela indústria publicitária em resposta aos desejos do consumidor. 
Por razões ligadas a custos, é mais eficiente que essa informação seja produzida por aqueles que possuem mais facilidade para tal, a saber, os produtores dos produtos sobre os quais são desejadas informações.  Essa abordagem tem seu valor e explica muito da economia da propaganda, porém não explica tudo.  A abordagem sob a ótica da economia da informação tenta explicar os fenômenos da publicidade totalmente em termos da oferta e demanda de conhecimento não empreendedorial, informações que podem ser compradas, vendidas e até mesmo empacotadas.  Porém tal abordagem não vai além de um mundo de maximizadores robbinsianos, e é incapaz de compreender a real função da publicidade no processo de mercado.
Consideremos o produtor do bem anunciado.  Em sua função empreendedorial, o produtor antecipa os desejos dos consumidores e observa a disponibilidade dos recursos necessários para um produto satisfazer os desejos dos consumidores.  Essa função pode parecer cumprida assim que o produtor produzir o produto e torná-lo disponível para a compra.  Em outras palavras, pode parecer que a função do empreendedor foi cumprida assim que ele transformou uma oportunidade de produzir um determinado produto em uma oportunidade para que o consumidor compre o produto finalizado.  Os próprios consumidores não estavam cientes das oportunidades que esse processo de produção representa; foi o alerta mais arguto do empreendedor que o possibilitou cumprir essa tarefa. 
Não é suficiente, entretanto, apenas disponibilizar o produto; os consumidores precisam saber de sua existência.  Se a oportunidade de comprá-lo não for percebida pelo consumidor, será como se a oportunidade de produzi-lo não tivesse sido notada pelo empreendedor.
Não basta apenas cultivar alimentos os quais o consumidor não sabe obter; os consumidores precisam saber que o alimento foi de fato cultivado.  Fornecer informações aos consumidores não é o suficiente.  É essencial que as oportunidades disponíveis ao consumidor atraiam sua atenção, não importa qual seja o seu grau de alerta.  Não basta ao empreendedor-produtor canalizar recursos para atender os desejos do consumidor; ele também deve garantir que o consumidor não deixe passar despercebido o que já foi produzido.  Para esse propósito, a publicidade é um instrumento claramente indispensável.
Ao vermos a publicidade como um instrumento empreendedorial, podemos entender por que a distinção feita por Edward Chamberlin entre custos de fabricação e custos de venda é inválida.[10]  Os custos de fabricação (ou produção) supostamente ocorrem durante a produção do produto, em contraposição aos custos de venda, que ocorrem quando se tenta convencer os consumidores a comprar o produto.  Os custos de venda supostamente deslocam a curva de demanda pelo produto, ao passo que os custos de fabricação (produção) afetam apenas a curva de oferta.  A distinção feita por Chamberlim foi criticada com base no fato de que os custos de venda são na verdade custos de fabricação disfarçados, de um tipo ou de outro.[11] 
Nossa abordagem nos possibilita ver essa questão através de um contexto mais geral, que incorpora a percepção de que todos os custos de fabricação são, ao mesmo tempo, custos de venda.  Por exemplo, se o produtor tivesse um mercado garantido no qual pudesse vender todos os seus produtos a um determinado preço, então seu custo de fabricação total seria apenas os próprios custos de fabricação.  Ele não teria de incorrer em gastos adicionais para tentar convencer o consumidor a comprar o produto.  Mas a realidade é que nunca há um mercado garantido.  As decisões do produtor sobre qual produto produzir e com que qualidade serão, invariavelmente, um reflexo daquilo que ele acredita ser capaz de vender a um preço vantajoso.  Trata-se de uma escolha puramente empreendedorial.  Os custos nos quais ele incorre são aqueles que, em suas estimativas, são necessários para que ele possa vender seu produto ao preço que ele anteviu.  Cada melhora no produto é feita para torná-lo mais atraente para os consumidores, e certamente o produto em si foi produzido exatamente com esse intuito.  Todos os custos são, em última análise, custos de venda.
LUCROS E O PROCESSO COMPETITIVO
O conceito austríaco da função empreendedorial enfatiza o lucro como sendo o objetivo fundamental do processo de mercado.  Como tal, o lucro tem implicações importantes para a análise do empreendedorismo em contextos que não sejam de mercado (tais como dentro de empresas, ou em um regime socialista ou em burocracias em geral).  Como já observei, não sabemos precisamente como ocorre a presciência superior de alguns empreendedores em relação a outros, porém sabemos que, ao menos de modo geral, o alerta empreendedorial é estimulado pela existência de lucros potenciais.  O alerta a uma oportunidade depende da atratividade desta oportunidade e, obviamente, do fato de ela ter sido percebida e agarrada.
CAPA_Competicao.jpgEsse incentivo é diferente dos incentivos presentes em um mundo robbinsiano.  No contexto não empreendedorial, o incentivo é constituído pelas satisfações alcançáveis à custa de sacrifícios relevantes.  Os incentivos robbinsianos são transmitidos aos agentes quando o arranjo do sistema demonstra que as satisfações oferecidas são mais significantes (do ponto de vista deles) do que os sacrifícios demandados deles.  O incentivo é, portanto, fornecido pela comparação entre alternativas conhecidas.  No entanto, no contexto empreendedorial, o incentivo a estar alerta a uma oportunidade empreendedorial é bem diferente do incentivo a se fazer uma troca entre oportunidades já conhecidas; com efeito, não tem nada a ver com a comparação de alternativas.  Para se perceber uma oportunidade à espera de ser descoberta, não é preciso ter feito alguma escolha anterior.  O incentivo é tentar obter alguma coisa em troca de nada — caso o empreendedor ao menos seja capaz de saber o que pode ser feito.
Incentivos robbinsianos podem ser oferecidos em contextos que não sejam de mercado.  Por exemplo, um burocrata ou um empregador oferecer um bônus pelo maior esforço.  Por outro lado, para que incentivos empreendedoriais funcionem, é necessário que aqueles que percebam oportunidades de fato ganhem algo por descobri-las.  Uma característica notável do sistema de mercado é que ele fornece esse tipo de incentivo.  É somente pela análise do processo de mercado que esse aspecto empreendedorial extremamente importante da economia de mercado é percebido. 
Os reais problemas econômicos de qualquer sociedade surgem do fenômeno das oportunidades não-percebidas.  A maneira como uma sociedade de mercado lida com esse fenômeno não pode ser compreendida utilizando-se exclusivamente uma teoria de equilíbrio de mercado.  Os arranjos institucionais mais propícios para a descoberta de oportunidades devem ser estudados e respeitados. 


[1] Para uma melhor elaboração sobre as várias questões abordadas nesse artigo, ver Israel M. Kirzner, Competição e Atividade Empresarial.
[2] Joseph A. Schumpeter, Capitalismo, Socialismo e Democracia (New York: Harper & Row, 1942), pp. 81-106.
[3] Oskar Morgenstern, "Thirteen Critical Points in Contemporary Economic Theory: An Interpretation," Journal of Economic Literature 10 (Dezembro de 1972): 1163-89.
[4] Ludwig M. Lachmann, "Methodological Individualism and the Market Economy," in Roads to Freedom: Essays in Honour of Friedrich A. von Hayek, ed. Erich Streissler et al. (London: Routledge & Kegan Paul, 1969), p. 89.
[5] Alfred Marshall, Princípios de Economia Política, ed. C. W. Guillebaud, 2 vols. (London: Macmillan & Co., 1961), 1:345-48; Marshall algumas vezes utilizava a abordagem walrasiana (ibid., pp. 333-36).
[6] Lionel Robbins, An Essay on the Nature and Significance of Economic Science (London: Macmillan & Co., 1962), pp. 1-23.
[7] Ludwig von Mises, Ação Humana (New Haven: Yale University Press, 1949), pp. 11-142; para uma comparação entre as noções misesianas e robbinsianas, ver Israel M. Kirzner, The Economic Point of View (Princeton: D. Van Nostrand, 1960), pp. 108-85.
[8] No prefácio da primeira edição deste livro, Robbins reconhece sua dívida para com Mises (On the Nature, pp. xv-xvi).
[9] Kirzner, Competição, pp. 75-87.
[10] Edward Hastings Chamberlin, The Theory of Monopolistic Competition, 7ª ed. (Cambridge: Harvard University Press, 1962), pp. 123-29.
[11] Ver a literatura citada em Kirzner, Competição, pp. 141-69.

Israel M. Kirzner  é professor emérito de economia da New York University, um líder da geração de austríacos após Mises e Hayek, e um scholar adjunto do Mises Institute.  Ele escreveu sua tese de doutoramento sob a orientação de Mises, mais tarde publicada como o livro The Economic Point of View (1960).  Depois, abriu novos caminhos teóricos com seu livroCompetição e Atividade Empresarial (1973).  Kirzner também é o autor de mais sete livros e dúzias artigos, incluindo vários na Austrian Economics Newsletter e também na The Review of Austrian Economics.  Ele atualmente é um dos mais notáveis acadêmicos a se dedicar ao contínuo desenvolvimento da teoria econômica da Escola Austríaca.