segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Quem ganha e quem perde com os acordos da Síria

Quem ganha e quem perde com os acordos da Síria


Quando um não quer, dois não brigam. E quando nenhum quer briga, aí sim que não há briga.

Por razões distintas, ninguém – salvo os opositores internos – queriam os bombardeios prometidos pelos EUA sobre a Síria. O governo sírio, pelos danos incalculáveis que os bombardeios – mesmo se prometidos como de curta duração e pouco alcance – poderia ter. A Rússia, porque colocaria um dilema difícil de responder e se envolver diretamente em um conflito com os EUA ou assisti-lo e se desmoralizar. Os EUA, porque o governo Obama não tinha apoio nem da Grã Bretanha, nem da ONU, nem do Congresso, nem da opinião publica e nem dos militares.

Dois deslizes verbais condicionavam o conflito. O da “linha vermelha” de Obama, há um ano, marcando o limite do uso de armas de gás, que levaria os EUA a intervir, caso fosse ultrapassado. E a afirmação recente de John Kerry de que a única alternativa aos bombardeios seria se o governo da Síria submetesse seus armamentos de gás a uma inspeção internacional.

O primeiro obrigava Obama a agir, senão se desmoralizaria, até porque seu governo, o da Grã Bretanha e o da França, embora não exibindo, diziam ter provas insofismáveis que esse tipo de armamento tinha sido utilizado pelo governo de Assad. Não havia, portanto, alternativa senão atacar, salvo que o faria sem apoios políticos mínimos.

O segundo deslize foi tomado ao pé da letra pelo governo da Rússia, que imediatamente consultou o governo sírio e formulou as bases de um plano de paz. A proposta veio a calhar para o impasse em que se encontrava o governo Obama, e este aceitou, mesmo se tentando disfarçar o recuo, alegando que a proposta fora possível pelas suas ameaças de bombardeios.

Mas, concretamente, não haveria punição à Síria, nem tentativa de dissuasão de que voltasse a usar as mesmas armas. Algumas bravatas continuaram a pairar nas declarações, para dissimular que os EUA recuavam de suas posições.

Do acordo, todos saem contentes, menos os opositores internos, que contavam com o enfraquecimento do governo de Assad para tentar reverter uma situação de guerra em que claramente estão sendo derrotados. Alguns aliados da região – como a Turquia, a Arábia Saudita, o Kuait – também não viram com bons olhos, mas não têm autonomia para agir por conta própria, dependem em tudo do que façam os EUA.

Das negociações sai fortalecida a Rússia – que aparece não apenas como o grande pacificador, como também como o grande operador diplomático, que tem diálogo com todos os agentes do conflito, especialmente Síria e EUA. Sai ganhando também o governo da Síria, que não apenas evita os bombardeios, como pode dar continuidade ao conflito interno, em que vai claramente levando vantagem.

Sai fortalecido também o novo Papa, que se jogou numa campanha contra a guerra – incluindo denúncia da indústria bélica, que seria a grande vitoriosa de um novo conflito.

O governo Obama sai chamuscado, não conseguiu gerar as condições políticas – internas e externas – para usar sua superioridade militar. As ambiguidades e contradições das declarações de Obama e Kerry demonstram como a vontade de exercer seu papel de “polícia do mundo” não conta com simpatia nem no povo norte-americano, nem de seus tradicionais aliados.
 Emir Sader 

A linha do Equador

A linha do Equador



O Equador não existia para nós. No máximo a linha – imaginária – do Equador, que nós nem assimilávamos bem a um pais. E na pergunta reiterada nas provas do colégio:

- Quais os dois países da America do Sul que não tem fronteira com o Brasil?

Pergunta que por si só buscava reduzir a importância desses dois "paisinhos" que sequer fronteira tinham com um país continente como o nosso.

Às vezes algum time de futebol, algum jogador que se destacava por um tempo. Nada mais do que isso era o Equador para nós.

Nem a pintura extraordinária de Guayasamin era conhecida por nós, nem a literatura, nem a música. O Equador era um espaço em branco na nossas cabeça. Ninguem vinha ao Equador. Se fosse perguntado sobre o país, no máximo saberiamos o nome da sua capital.

Hoje a personagem equatoriana mais conhecida no mundo – a ponto de nós também sermos obrigados a conhece-lo – é Rafael Correa, o presidente e líder do formidável processo de transformações que o Equador vive já por seis anos e que seguirá, dado que Correa foi eleito no primeiro turno, com uma enorme maioria de votos este ano, para seguir dirigindo o país.

Não sabíamos que o Equador é um país muito bonito, que Quito, com seu centro belamente restaurado, é uma das cidades mais bonitas da América Latina. Que o Guayasamin é um dos pintores mais importantes do continente.

Mas agora saber do Equador, conhecer o país, acompanhar o processo que, junto com o boliviano, é o que de mais avançado temos hoje na America Latina. 

A linha do Equador agora deixa de ser imaginária para nós. Vai dando o compasso de como se constrói alternativas conscretas ao neoliberalismo, enfrentando a feroz oposição da direita – em torno da velha mídia – e da ultra esquerda – derrotados fragorosamente nas eleições -, com Rafael Correa com apoio superior a 70%.
 Emir Sader

Todos contra a Dilma

Todos contra a Dilma

  • EMIR SADER



O fenômeno tem se repetido – na Bolívia, na Argentina, no Equador, no Brasil. Setores que saem dos governos – ou que sempre tinham se oposto – supostamente pela esquerda, percorrem uma trajetória que os leva a se situarem como oposições de direita.

Evo Morales, Rafael Correa, os Kirchner, Lula e Dilma – teriam “traído”. E seriam piores que outros contendores, porque seguiriam fingindo que defendem as mesmas posições que os projetaram como grandes líderes nacionais. Por isso tem que ser frontalmente combatidos, derrotados, destruídos, sem o que os processos políticos seguiriam retrocedendo e não poderia avançar.

Foi assim que setores que eram parte integrante do governo de Evo Morales declararam que ele é o inimigo fundamental a combater, porque teria “traído” o movimento indígena. Daí a proposta de uma frente nacional contra ele, que incorporaria a todos os setores opositores, não importa quão de direita sejam. 

A mesma coisa com Rafael Correa. Teria “traído” a defesa da natureza e se passado a um modelo extrativista, tornando-se o inimigo fundamental a combater. Daí que setores que se reivindicam porta-vozes dos interesses dos movimentos indignas e ecologistas, se aliam expressamente à direita, para combater a Correa.

Na Argentina, os Kirchner teriam “traído” o peronismo, daí setores que faziam uma critica de esquerda ao governo – expressados, por exemplo, no peronista Pino Solanas – se aliam a setores de direita – como Elisa Carrió, entre outros -, para combater ao governo de Cristina Kirchner.

Poderíamos seguir com a Venezuela, com o Uruguai, porque o fenômeno se repete. Para poder operar essa transição de uma oposição de esquerda a uma de direita, é preciso demonizar os lideres desses processos, que seriam, piores do que a direita, daí a liberação para alianças com esses setores contra os governos. 

No Brasil o fenômeno se deu, inicialmente, com o PSol e Heloisa Helena, que abertamente fizeram aliança com toda a oposição contra o governo Lula. Com a Globo, com os tucanos, com todos os candidatos opositores, na ação desenfreada e desesperada para tentar impedir a reeleição do Lula. 

Abandonaram as críticas de esquerda – sobre o modelo econômico e outros aspectos do governo – para se somarem à ofensiva do “mensalão”, sem diferenciar-se do tom da campanha da direita.

O fenômeno teve continuidade com a Marina, que repetiu de forma mecânica a trajetória da Heloisa Helena na volúpia contra o governo Lula e a Dilma, quatro anos mais tarde. O destempero faz parte do processo de diabolização, que se caracteriza sempre, também, pela ausência de qualquer tipo de critica à direita – à mídia monopolista, ao sistema bancário, aos tucanos, aos EUA.

A relação desses setores com a direita tradicional é explicita: a essa ausência de criticas à direita corresponde uma promoção explícita dos candidatos que se dispõem a esse papel: Heloisa Helena, Marina, agora Eduardo Campos.
Todos contra o Evo, todos contra o Rafael Correa, todos contra a Cristina, e assim por diante. Aqui, agora, todos contra a Dilma.

Não há nenhuma duvida que o campo opositor está composto pelas candidaturas do Aecio, do Eduardo Campos, ao que se soma agora a Marina. As reuniões de Eduardo Campos com Aecio, a entrada do Bornhausen, do Heraclito Fortes, entre outros, para o PSB e o discurso “anti-chavista” da Marina, completam o quadro. Vale tudo para tentar impedir que o PT siga apropriando-se do Estado brasileiro para seus fins particulares, impedindo que o Brasil se desenvolva livremente.

Nenhuma palavra sobre o tipo de modelo econômico e social que desenvolveria caso ganhassem. Nenhuma palavra sobre o tipo de inserção internacional do Brasil. Nada sobre o papel do Estado. Silêncio sobre tudo o que é essencial, porque do que se trata é de tentar derrotar a Dilma.

Na verdade hoje a direita – seus segmentos empresariais, midiáticos, partidários – já se contentaria em conseguir que a Dilma não triunfasse no primeiro turno. O que vier depois disso, sera’ lucro. 

Em todos os países, esses setores tem sido derrotados fragorosamente. Suas operações politicas não tem dado resultados, por falta de plataforma, de lideranças e de apoio popular.

Aqui também tem acontecido isso. O PSol foi ferido de morte por suas atitues em 2006. Marina abandona a plataforma ecológica para assumir o anti-comunismo de hoje (o anti-chavismo) e se somar à politica mais tradicional, sem sequer ter conseguido as assinaturas para registrar seu partido.

Termina no Todos contra a Dilma, cada um do seu jeito, mas com o objetivo comum. Esse cenário politico tem Evo, Correa, Cristina, como teve a Lula e agora tem a Dilma, como referência central. Os outros são os outros, sem plataforma, sem lideranças e sem apoio popular.

Roda de Barâ

Roda de Barâ

 Mais uma feira para tras. Desta vez de frente ao mar, funcionou das 6 da tarde até a meia noite. Tivemos o dia todo disponível para o banho de mar nas águas cristalinas do mediterrâneo, passeios naturais e arqueológicos.

 Pátio Andaluz


 Oliveira de fronte ao Arco Romano do século I na antiga Via Ápia, Uma dos muitos caminhos que uniam o imenso império romano. Daí o provérbio. Todos os caminhos levam a Roma

A feira não foi das melhores mas o passeio imperdível

Cripta Güell

Cripta Güell

Aproveitando um pouco o mês de julho de poucas feiras, fazemos  turismo regional. Saimos cedo pela manhã e retornamos a tarde. Desta vez o caminho foi curto, uns 20 quilômetros em direção ao mar até a Colônia Güell. Ali está a cripta de uma igreja projetada por Gaudí. O mecenas Güell encomendou de Gaudí e outros arquitetos modernistas a construção de uma tecelagem industrial às margens do rio Llobregat. Junto da fábrica foram construídas casas para trabalhadores, escolas, cooperativas de consumo, consultório médico e uma igreja. Novidades sociais inovadoras para a época. A Gaudí coube a construção da Igreja. Por problemas econômicos a obra foi interrompida. A magnífica igreja ficou só na Cripta. Mesmo assim sua obra é espetacular, diferente das outras em muitos aspectos. Utilizou colunas do duríssimo basalto, unindo as partes com chumbo, como faziam os romanos. As colunas dão ao conjunto uma força primitiva, lembrando o mundo dos Flinstones
Na minha opinião o conjunto de peças mais incríveis são as pias de água benta e o batistério.
Ele conseguiu converter a rigidez de conchas gigantes da Ásia numa fluideza e leveza infinitas. Os braços de ferro forjado encaixados nas reentrâncias naturais da concha parecem sustentar uma peça que se derrete como  um pano de seda, ou como os relógios fluidos de Dali. Como dizem os catalães, "Una passada !". Não me canso de admirar suas propostas.


Os móveis também foram desenhados por ele.


Maquete suspensa do que seria a igreja se fosse construida até o final. A antiga cooperativa de  consumo foi convertida em museu.

Casas da colônia projetadas por outros arquitetos.

Escola e  residência do professor.

As casas dos trabalhadores abrigam jardins de suculentas e cactáceas incríveis.




Caneca Aranha

Tassa Aranya - 





terça-feira, 1 de outubro de 2013

Honestidade e confiança

Honestidade e confiança
trust.jpgAtitudes como desonestidade, mentira e trapaça não são tratadas com a devida abjeção que merecem.  Para se compreender melhor a importância da honestidade e da confiança, apenas imagine como seria nossa rotina diária se não pudéssemos confiar em ninguém.  Quando compramos em uma farmácia um recipiente contendo 100 pequenas pílulas (como vidros de homeopatia, por exemplo), quantos de nós nos damos ao trabalho de realmente contar as pílulas?  E quando o remédio é líquido, quantos de nós conferimos se o volume divulgado no rótulo corresponde ao volume verdadeiro?  Quando abastecemos nosso carro no posto, como sabemos que os litros especificados na bomba realmente correspondem ao volume que entrou no tanque do carro?  Quando você vai ao supermercado e compra 1 quilo de carne, você por acaso verifica — por meios independentes — se realmente está levando um quilo de carne?  Em cada um desses casos, e em milhares de outros, nós simplesmente confiamos no vendedor.
Inversamente, há milhares de situações em que é o vendedor quem tem de confiar no comprador.  Após um mês de trabalho, o empregado confia que seu patrão irá lhe pagar o salário combinado.  Um comerciante vende um produto e recebe em troca um cheque, o qual ele confia que tenha fundo.  Um fornecedor entrega uma mercadoria para seu cliente e confia que este irá lhe pagar dali a 30 dias, como combinado.
Exemplos de honestidade e confiança são abundantes, mas imagine o custo e a inconveniência caso não pudéssemos confiar em ninguém.  Teríamos de andar sempre carregando instrumentos de medição para nos certificarmos de que realmente estamos recebendo o volume correto de gasolina e o quilo correto de carne.  Imagine a inconveniência de ter de contar o número de pílulas ou de mensurar o volume de um líquido dentro de um recipiente?
Se não pudéssemos confiar em ninguém, se a simples palavra do vendedor ou do comprador não tivesse valor nenhum, teríamos de arcar com o oneroso fardo de fazer contratos por escrito para toda e qualquer transação efetuada.  Teríamos de arcar com todos os custos de monitoramento que garantem que a outra parte irá fazer corretamente até mesmo às mais simples transações.  Podemos dizer com toda a certeza que tudo aquilo que solapa a honestidade e a confiança aumenta os custos de transação, reduz o real valor das trocas voluntárias e nos torna mais pobres.
Honestidade e confiança se manifestam de maneiras que poucos de nós sequer conseguimos imaginar.  Em determinadas vizinhanças, por exemplo, é comum que empresas de entrega deixem encomendas muitas vezes valiosas em frente à porta caso o morador não esteja em casa para recebê-la.  Não há necessidade de marcar horário para a entrega, o que é bom tanto para o morador quanto para a empresa.  Ambos ficam com suas agendas livres e aumentam sua produtividade.  Da mesma maneira, supermercados e demais estabelecimentos comerciais podem tranquilamente expor várias mercadorias perto das portas de entrada e saída do estabelecimento, ou até mesmo deixá-las do lado de fora do estabelecimento, sem se preocupar com roubos.
Já em vizinhanças notoriamente menos honestas, empresas de entrega que deixassem encomendas na porta de uma casa e estabelecimentos comerciais que expusessem mercadorias perto da rua estariam cometendo o equivalente a um suicídio econômico.
Desonestidade é algo oneroso.  Empresas de entrega não podem simplesmente deixar encomendas em frente à porta caso o morador não esteja em casa.  A empresa terá de arcar com os custos de fazer uma nova viagem em outro horário.  Ou terá de tentar agendar um horário.  Ou então o cliente terá de arcar com os custos de ter ele próprio de ir recolher o produto.  Se um estabelecimento comercial decidir exibir algumas de suas mercadorias do lado de fora, ele terá da arcar com os custos de contratar um auxiliar — isso se ele realmente puder se arriscar a deixar suas mercadorias do lado de fora.
A honestidade afeta os estabelecimentos comerciais de uma outra maneira.  Por exemplo, o objetivo de um gerente de supermercado é maximizar a taxa de vendas de mercadorias por metro quadrado de espaço alugado.  Quando os índices de criminalidade — como furto — são baixos, o gerente pode utilizar todo o espaço alugado, inclusive os espaços perto da porta de entrada e saída, aumentando desta forma seu potencial de lucro.  Esta oportunidade é negada aos supermercados e mercearias em localidades em que há menos honestidade.  Nestes locais, o espaço aproveitado é menor.  Em muitos casos, é preciso que haja espaços livres para que o dono da mercearia ou mesmo o gerente de um supermercado possa manter os olhos em seus clientes e funcionários para se certificar de que ninguém está furtando nada.  Isso, por sua vez, significa um maior custo para se empreender, o que se traduz em maiores preços, menores lucros e menos amenidades para os consumidores.
A criminalidade, a desconfiança e a desonestidade impõem enormes prejuízos que vão muito além daqueles sentidos diretamente.  Boa parte do custo da criminalidade e da desonestidade recai justamente sobre aquelas pessoas que menos podem se dar ao luxo de arcar com tudo isso: os mais pobres.  São os mais pobres que acabam tendo menos opções de escolha e pagando mais caro, ou tendo de arcar com os custos de se locomover para ir fazer compras em localidades melhores e mais distantes.  São aqueles pobres que moram em localidades de alta criminalidade que sequer conseguem receber uma pizza em casa.
O fato de honestidade e confiança serem tão vitais deveria nos fazer repensar a nossa tolerância com criminosos e pessoas desonestas — a começar por todos os criminosos que estão no poder e que gozam de impunidade.

Walter Williams é professor honorário de economia da George Mason University e autor de sete livros.  Suas colunas semanais são publicadas em mais de 140 jornais americanos.

Tradução de Leandro Roque