segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Todos contra a Dilma

Todos contra a Dilma

  • EMIR SADER



O fenômeno tem se repetido – na Bolívia, na Argentina, no Equador, no Brasil. Setores que saem dos governos – ou que sempre tinham se oposto – supostamente pela esquerda, percorrem uma trajetória que os leva a se situarem como oposições de direita.

Evo Morales, Rafael Correa, os Kirchner, Lula e Dilma – teriam “traído”. E seriam piores que outros contendores, porque seguiriam fingindo que defendem as mesmas posições que os projetaram como grandes líderes nacionais. Por isso tem que ser frontalmente combatidos, derrotados, destruídos, sem o que os processos políticos seguiriam retrocedendo e não poderia avançar.

Foi assim que setores que eram parte integrante do governo de Evo Morales declararam que ele é o inimigo fundamental a combater, porque teria “traído” o movimento indígena. Daí a proposta de uma frente nacional contra ele, que incorporaria a todos os setores opositores, não importa quão de direita sejam. 

A mesma coisa com Rafael Correa. Teria “traído” a defesa da natureza e se passado a um modelo extrativista, tornando-se o inimigo fundamental a combater. Daí que setores que se reivindicam porta-vozes dos interesses dos movimentos indignas e ecologistas, se aliam expressamente à direita, para combater a Correa.

Na Argentina, os Kirchner teriam “traído” o peronismo, daí setores que faziam uma critica de esquerda ao governo – expressados, por exemplo, no peronista Pino Solanas – se aliam a setores de direita – como Elisa Carrió, entre outros -, para combater ao governo de Cristina Kirchner.

Poderíamos seguir com a Venezuela, com o Uruguai, porque o fenômeno se repete. Para poder operar essa transição de uma oposição de esquerda a uma de direita, é preciso demonizar os lideres desses processos, que seriam, piores do que a direita, daí a liberação para alianças com esses setores contra os governos. 

No Brasil o fenômeno se deu, inicialmente, com o PSol e Heloisa Helena, que abertamente fizeram aliança com toda a oposição contra o governo Lula. Com a Globo, com os tucanos, com todos os candidatos opositores, na ação desenfreada e desesperada para tentar impedir a reeleição do Lula. 

Abandonaram as críticas de esquerda – sobre o modelo econômico e outros aspectos do governo – para se somarem à ofensiva do “mensalão”, sem diferenciar-se do tom da campanha da direita.

O fenômeno teve continuidade com a Marina, que repetiu de forma mecânica a trajetória da Heloisa Helena na volúpia contra o governo Lula e a Dilma, quatro anos mais tarde. O destempero faz parte do processo de diabolização, que se caracteriza sempre, também, pela ausência de qualquer tipo de critica à direita – à mídia monopolista, ao sistema bancário, aos tucanos, aos EUA.

A relação desses setores com a direita tradicional é explicita: a essa ausência de criticas à direita corresponde uma promoção explícita dos candidatos que se dispõem a esse papel: Heloisa Helena, Marina, agora Eduardo Campos.
Todos contra o Evo, todos contra o Rafael Correa, todos contra a Cristina, e assim por diante. Aqui, agora, todos contra a Dilma.

Não há nenhuma duvida que o campo opositor está composto pelas candidaturas do Aecio, do Eduardo Campos, ao que se soma agora a Marina. As reuniões de Eduardo Campos com Aecio, a entrada do Bornhausen, do Heraclito Fortes, entre outros, para o PSB e o discurso “anti-chavista” da Marina, completam o quadro. Vale tudo para tentar impedir que o PT siga apropriando-se do Estado brasileiro para seus fins particulares, impedindo que o Brasil se desenvolva livremente.

Nenhuma palavra sobre o tipo de modelo econômico e social que desenvolveria caso ganhassem. Nenhuma palavra sobre o tipo de inserção internacional do Brasil. Nada sobre o papel do Estado. Silêncio sobre tudo o que é essencial, porque do que se trata é de tentar derrotar a Dilma.

Na verdade hoje a direita – seus segmentos empresariais, midiáticos, partidários – já se contentaria em conseguir que a Dilma não triunfasse no primeiro turno. O que vier depois disso, sera’ lucro. 

Em todos os países, esses setores tem sido derrotados fragorosamente. Suas operações politicas não tem dado resultados, por falta de plataforma, de lideranças e de apoio popular.

Aqui também tem acontecido isso. O PSol foi ferido de morte por suas atitues em 2006. Marina abandona a plataforma ecológica para assumir o anti-comunismo de hoje (o anti-chavismo) e se somar à politica mais tradicional, sem sequer ter conseguido as assinaturas para registrar seu partido.

Termina no Todos contra a Dilma, cada um do seu jeito, mas com o objetivo comum. Esse cenário politico tem Evo, Correa, Cristina, como teve a Lula e agora tem a Dilma, como referência central. Os outros são os outros, sem plataforma, sem lideranças e sem apoio popular.

Roda de Barâ

Roda de Barâ

 Mais uma feira para tras. Desta vez de frente ao mar, funcionou das 6 da tarde até a meia noite. Tivemos o dia todo disponível para o banho de mar nas águas cristalinas do mediterrâneo, passeios naturais e arqueológicos.

 Pátio Andaluz


 Oliveira de fronte ao Arco Romano do século I na antiga Via Ápia, Uma dos muitos caminhos que uniam o imenso império romano. Daí o provérbio. Todos os caminhos levam a Roma

A feira não foi das melhores mas o passeio imperdível

Cripta Güell

Cripta Güell

Aproveitando um pouco o mês de julho de poucas feiras, fazemos  turismo regional. Saimos cedo pela manhã e retornamos a tarde. Desta vez o caminho foi curto, uns 20 quilômetros em direção ao mar até a Colônia Güell. Ali está a cripta de uma igreja projetada por Gaudí. O mecenas Güell encomendou de Gaudí e outros arquitetos modernistas a construção de uma tecelagem industrial às margens do rio Llobregat. Junto da fábrica foram construídas casas para trabalhadores, escolas, cooperativas de consumo, consultório médico e uma igreja. Novidades sociais inovadoras para a época. A Gaudí coube a construção da Igreja. Por problemas econômicos a obra foi interrompida. A magnífica igreja ficou só na Cripta. Mesmo assim sua obra é espetacular, diferente das outras em muitos aspectos. Utilizou colunas do duríssimo basalto, unindo as partes com chumbo, como faziam os romanos. As colunas dão ao conjunto uma força primitiva, lembrando o mundo dos Flinstones
Na minha opinião o conjunto de peças mais incríveis são as pias de água benta e o batistério.
Ele conseguiu converter a rigidez de conchas gigantes da Ásia numa fluideza e leveza infinitas. Os braços de ferro forjado encaixados nas reentrâncias naturais da concha parecem sustentar uma peça que se derrete como  um pano de seda, ou como os relógios fluidos de Dali. Como dizem os catalães, "Una passada !". Não me canso de admirar suas propostas.


Os móveis também foram desenhados por ele.


Maquete suspensa do que seria a igreja se fosse construida até o final. A antiga cooperativa de  consumo foi convertida em museu.

Casas da colônia projetadas por outros arquitetos.

Escola e  residência do professor.

As casas dos trabalhadores abrigam jardins de suculentas e cactáceas incríveis.




Caneca Aranha

Tassa Aranya - 





terça-feira, 1 de outubro de 2013

Honestidade e confiança

Honestidade e confiança
trust.jpgAtitudes como desonestidade, mentira e trapaça não são tratadas com a devida abjeção que merecem.  Para se compreender melhor a importância da honestidade e da confiança, apenas imagine como seria nossa rotina diária se não pudéssemos confiar em ninguém.  Quando compramos em uma farmácia um recipiente contendo 100 pequenas pílulas (como vidros de homeopatia, por exemplo), quantos de nós nos damos ao trabalho de realmente contar as pílulas?  E quando o remédio é líquido, quantos de nós conferimos se o volume divulgado no rótulo corresponde ao volume verdadeiro?  Quando abastecemos nosso carro no posto, como sabemos que os litros especificados na bomba realmente correspondem ao volume que entrou no tanque do carro?  Quando você vai ao supermercado e compra 1 quilo de carne, você por acaso verifica — por meios independentes — se realmente está levando um quilo de carne?  Em cada um desses casos, e em milhares de outros, nós simplesmente confiamos no vendedor.
Inversamente, há milhares de situações em que é o vendedor quem tem de confiar no comprador.  Após um mês de trabalho, o empregado confia que seu patrão irá lhe pagar o salário combinado.  Um comerciante vende um produto e recebe em troca um cheque, o qual ele confia que tenha fundo.  Um fornecedor entrega uma mercadoria para seu cliente e confia que este irá lhe pagar dali a 30 dias, como combinado.
Exemplos de honestidade e confiança são abundantes, mas imagine o custo e a inconveniência caso não pudéssemos confiar em ninguém.  Teríamos de andar sempre carregando instrumentos de medição para nos certificarmos de que realmente estamos recebendo o volume correto de gasolina e o quilo correto de carne.  Imagine a inconveniência de ter de contar o número de pílulas ou de mensurar o volume de um líquido dentro de um recipiente?
Se não pudéssemos confiar em ninguém, se a simples palavra do vendedor ou do comprador não tivesse valor nenhum, teríamos de arcar com o oneroso fardo de fazer contratos por escrito para toda e qualquer transação efetuada.  Teríamos de arcar com todos os custos de monitoramento que garantem que a outra parte irá fazer corretamente até mesmo às mais simples transações.  Podemos dizer com toda a certeza que tudo aquilo que solapa a honestidade e a confiança aumenta os custos de transação, reduz o real valor das trocas voluntárias e nos torna mais pobres.
Honestidade e confiança se manifestam de maneiras que poucos de nós sequer conseguimos imaginar.  Em determinadas vizinhanças, por exemplo, é comum que empresas de entrega deixem encomendas muitas vezes valiosas em frente à porta caso o morador não esteja em casa para recebê-la.  Não há necessidade de marcar horário para a entrega, o que é bom tanto para o morador quanto para a empresa.  Ambos ficam com suas agendas livres e aumentam sua produtividade.  Da mesma maneira, supermercados e demais estabelecimentos comerciais podem tranquilamente expor várias mercadorias perto das portas de entrada e saída do estabelecimento, ou até mesmo deixá-las do lado de fora do estabelecimento, sem se preocupar com roubos.
Já em vizinhanças notoriamente menos honestas, empresas de entrega que deixassem encomendas na porta de uma casa e estabelecimentos comerciais que expusessem mercadorias perto da rua estariam cometendo o equivalente a um suicídio econômico.
Desonestidade é algo oneroso.  Empresas de entrega não podem simplesmente deixar encomendas em frente à porta caso o morador não esteja em casa.  A empresa terá de arcar com os custos de fazer uma nova viagem em outro horário.  Ou terá de tentar agendar um horário.  Ou então o cliente terá de arcar com os custos de ter ele próprio de ir recolher o produto.  Se um estabelecimento comercial decidir exibir algumas de suas mercadorias do lado de fora, ele terá da arcar com os custos de contratar um auxiliar — isso se ele realmente puder se arriscar a deixar suas mercadorias do lado de fora.
A honestidade afeta os estabelecimentos comerciais de uma outra maneira.  Por exemplo, o objetivo de um gerente de supermercado é maximizar a taxa de vendas de mercadorias por metro quadrado de espaço alugado.  Quando os índices de criminalidade — como furto — são baixos, o gerente pode utilizar todo o espaço alugado, inclusive os espaços perto da porta de entrada e saída, aumentando desta forma seu potencial de lucro.  Esta oportunidade é negada aos supermercados e mercearias em localidades em que há menos honestidade.  Nestes locais, o espaço aproveitado é menor.  Em muitos casos, é preciso que haja espaços livres para que o dono da mercearia ou mesmo o gerente de um supermercado possa manter os olhos em seus clientes e funcionários para se certificar de que ninguém está furtando nada.  Isso, por sua vez, significa um maior custo para se empreender, o que se traduz em maiores preços, menores lucros e menos amenidades para os consumidores.
A criminalidade, a desconfiança e a desonestidade impõem enormes prejuízos que vão muito além daqueles sentidos diretamente.  Boa parte do custo da criminalidade e da desonestidade recai justamente sobre aquelas pessoas que menos podem se dar ao luxo de arcar com tudo isso: os mais pobres.  São os mais pobres que acabam tendo menos opções de escolha e pagando mais caro, ou tendo de arcar com os custos de se locomover para ir fazer compras em localidades melhores e mais distantes.  São aqueles pobres que moram em localidades de alta criminalidade que sequer conseguem receber uma pizza em casa.
O fato de honestidade e confiança serem tão vitais deveria nos fazer repensar a nossa tolerância com criminosos e pessoas desonestas — a começar por todos os criminosos que estão no poder e que gozam de impunidade.

Walter Williams é professor honorário de economia da George Mason University e autor de sete livros.  Suas colunas semanais são publicadas em mais de 140 jornais americanos.

Tradução de Leandro Roque

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O diabo existe? A pedagogia do medo e a função civilizatória do sobrenatural


Em Os irmãos Karamázov, Dostoiévski elabora o seguinte diálogo:
− O diabo existe?
− Não, não existe.
− Tanto pior. Não sei o que eu teria feito ao primeiro fanático que inventou Deus. Enforcá-lo seria insuficiente.
− Sem essa invenção não haveria civilização*.
Ao retomar as minhas anotações sobre a leitura deste clássico da literatura universal, lembrei-me de outro trecho sobre a existência daquele cujos nomes são os mais diversos e inimagináveis. Trata-se de uma divertida conversa entre uma criança e sua mãe, escrita por Graciliano Ramos, em sua obra Infância, de inspiração autobiográfica. Vale a pena ler o trecho na íntegra:
Às vezes minha mãe perdia as arestas e a dureza, animava-se, quase se embelezava. Catorze ou quinze anos mais moço que ela, habituei-me, nessas tréguas curtas e valiosas, a julgá-la criança, uma companheira de gênio variável, que era necessário tratar cautelosamente. Sucedia desprecatar-me e enfadá-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre nós, alargavam-se de chofre – e causavam-me desgosto.
Um dia, em maré de conversa, na prensa de farinha do copiar, minha mãe tentava compor frases no vocabulário obscuro dos folhetos, Eu me deixava embalar pela música. E de quando em quando aventurava perguntas que ficavam sem respostas e perturbavam a narradora.
Súbito ouvi uma palavra doméstica e veio-me a idéia de procurar a significação exata dela. Tratava-se do inferno. Minha mãe estragou a curiosidade: impossível um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realmente eu possuía noções. O inferno era um nome feio, que não devíamos pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde pessoas mal-educadas mandavam outras, em discussões. E num lugar existem casas, árvores, açudes, igrejas, tanta coisa, tanta coisa que exigi uma descrição. Minha mãe condenou a exigência e quis permanecer nas generalidades. Não me conformei. Pedi esclarecimentos, apelei para a ciência dela. Por que não contava o negócio direitinho? Instada, condescendeu. Afirmou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, péssimos, torturados por demônios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que a de S. João e em tachas de breu derretido. Falou um pouco a respeito dessas criaturas.
Fogueiras de S. João eu conhecia. Tinha-se feito uma diante de casa. Eu andara à tardinha em redor do monte de lenha que o moleque José arrumava. Admirando os aprestos, espantava-me de haver nascido ali de supetão um mamoeiro carregado de frutos verdes. Á noite deitara-se na pilha uma garrafa de querosene, viera um tição. E eu ficara na calçada até dez horas, olhando as labaredas, que meu pai alimentava com aduelas e sarrafos. A gente da vila mexia-se, ria e cantava, iluminada por outros fogos. No dia seguinte as folhas do mamoeiro se torravam, pulverizavam. E na rua, desentulhada, apareciam grandes manchas negras.
Também conhecia o breu derretido. No armazém, barricas finas continham substância escura que, pisada, tirava a cor das moedas de vintém livres do azinhavre, raspadas no tijolo, molhadas e enxutas. Eu havia esfarelado um pedaço dessa maravilha, com um peso de meio quilo, junto à balança romana da loja. Tinha posto a massa dourada num cartucho de jornal, riscado um fósforo em cima e esperado o fenômeno. Uma lágrima correra no papel, alcançara-me o dedo anular, descera da unha a primeira falange. Largando a experiência, eu me desesperara, abafando os gritos, fora meter a mão num pote de água. Tinha sofrido em silêncio, receando que percebessem a traquinada e a queimadura.
Quando minha mãe falou em breu derretido, examinei a cicatriz do dedo e balancei a cabeça, em dúvida. Se o pequeno torrão, esmagado com o peso de meio quilo, originara aquele desastre, como admitir que pessoas resistissem muitos anos a barricas cheias derramadas em tachas fundas, sobre fogueira de S. João?
- A senhora esteve lá?
Desprezou a interrogação inconveniente e prosseguiu com energia.
— Eu queria saber se a senhora tinha estado lá.
Não tinha estado, mas as coisas se passavam daquela forma e não podiam passar-se de forma diversa. Os padres ensinavam que era assim.
— Os padres estiveram lá?
A pergunta não significava desconfiança na autoridade. Eu nem pensava nisso. Desejava que me explicassem a região de hábitos curiosos. Não me satisfaziam as fogueiras, as tachas de breu, vítimas e demônios. Necessitava pormenores.
Minha mãe estragara a narração com uma incongruência. Assegurara que os diabos se davam bem na chama e na brasa. Desconhecia, porém, a resistência das almas supliciadas. Dissera que elas suportariam padecimentos eternos. Logo insinuara que, depois de estágio mais ou menos longo, se transformariam em diabos. Indispensável esclarecer esse ponto. Não busquei razões, bastavam-me afirmações. Achava-me disposto a crer, aceitaria os casos extraordinários sem esforço, contanto que não houvesse neles muitas incompatibilidades. Reclamava uma testemunha, alguém que tivesse visto diabos chifrudos, almas nadando em breu. Ainda não me havia capacitado de que se descrevem perfeitamente coisas nunca vistas.
− Os padres estivaram lá? — Tornei a perguntar.
Minha mãe irritou-se, achou-me leviano e estúpido. Não tinham estado, claro que não tinham estado, mas eram pessoas instruídas, aprendiam tudo no seminário, nos livros. Senti forte decepção: as chamas eternas e as caldeiras medonhas esfriaram. Começava a julgara história razoável, adivinhava por que motivo Padre João Inácio, poderoso e meio cego, furava os braços da gente, na vacina. Com certeza Padre João Inácio havia perdido um olho no inferno e de lá trouxera aquele mau costume. A resposta de minha mãe desiludiu-me, embaralhou-me as idéias. E pratiquei um ato de rebeldia:
— Não há nada disso.
Minha mãe esteve algum tempo analisando-me, de boca aberta, assombrada. E eu, numa indignação por se haverem dissipado as tachas de breu, os demônios, o prestígio de Padre João Inácio, repeti:
—Não há não. É conversa.
Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas. Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente. E vieram-me chineladas e outros castigos oportunos. **
A pedagogia do medo nos faz acreditar em coisas que nem imaginamos! O menino Graciliano é uma exceção que confirma a regra. De qualquer forma, convenhamos seu estilo é bem-humorado, sem perder de vista a seriedade da questão. Até porque, chineladas fazem doer!
Sim, o Diabo existe! Sem ele, é impensável a existência de Deus. Acreditar em Deus significa aceitar a existência do seu oposto; um necessita do outro para afirmarem-se perante a imaginação humana. Desconfio que foi o próprio Senhor que o criou. Ou terá sido a mente humana quem criou a ambos?!
Se o personagem dostoievskiano estiver certo, ambos são fatores que contribuem para a existência da civilização. Sem a adoração e o temor ao sobrenatural, o ser humano estaria livre de todas as amarras que o prendem à moral religiosa e só Deus – e o Diabo, é claro – sabem do que o humano, demasiado humano, é capaz! Eis que as forças que o oprimem o corpo, as leis e os instrumentos humanos criados para manter a ordem social são insuficientes. É necessário, ainda, controlar as mentes, aterrorizá-las e mantê-las pacificadas. Em outras palavras, é preciso garantir a submissão do espírito. Eis a função civilizadora da idéia de Deus e do Diabo. Não obstante, quantas barbaridades foram e são cometidas em Nome de Deus?!

* DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p. 105-106.
** RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1981, p. 77-79.

Durkheim: análise sociológica do suicídio


Émile Durkheim (1858-1917)
Seja o amor não correspondido, o apego ao trabalho ou outra causa qualquer, os exemplos literários apresentam-nos a morte voluntária como resultante de motivações individuais. E assim também se dá na vida real. A primeira dificuldade consiste em definir o suicídio. “Como saber que móbil determinou o agente, como saber se, ao tomar a sua resolução, desejava efetivamente a morte, ou tinha outro fim em vista? A intenção é algo demasiado íntimo para poder ser atingida do exterior, a não ser por aproximações grosseiras”, escreve Durkheim. (1983, p.166)
O jovem que se mata por amor; a jovem que deixa dúvidas se realmente tinha intenção de dar cabo à vida; o velho funcionário que pensa em suicidar-se; o indivíduo que se mata por vergonha diante da falência; o soldado que se sacrifica pelos demais; o samurai que se mata em nome da honra; a renúncia desesperada à vida, etc. São inúmeras as situações em que comumente se adota a designação de suicídio. Portanto, é preciso caracterizá-lo. Segundo Durkheim:
Chama-se suicídio todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo praticado pela própria vítima, ato que a vítima sabia produzir este resultado. A tentativa de suicídio é o ato assim definido, mas interrompido antes que a morte daí tenha resultado” (Id., p167).
Na literatura predomina o viés individual e psicologizante do suicídio; na vida real, também. É sandice negar os fatores individuais e psicológicos. Não obstante, não é sensato restringir-se ao indivíduo e ao psiquismo. Como observa Durkheim:
“Visto que o suicídio é um ato do indivíduo que apenas afeta o indivíduo, dir-se-ia que depende exclusivamente de fatores pessoais e que o estudo de tal fenômeno se situa no campo da psicologia. E, aliás, não é pelo temperamento do suicida, pelo seu caráter, pelos seus antecedentes, pelos acontecimentos da sua vida privada que normalmente este ato se explica? (Id., p.168)
Se os suicídios podem ser explicados apenas pelos fatores psicológicos, então, desresponsabilizamos a sociedade. No entanto, nem todos os que sofrem por amor, ou outro motivo qualquer, se matam. Por que outros resistem e não sucumbem ao ato suicida? A resposta está na própria sociedade. É isto que Durkheim demonstra em seu clássico estudo sobre o suicídio enquanto um fenômeno eminentemente social. Não que ele desconsidere a psicologia; ele apenas enfatiza os fatores sociais. “Cada sociedade tem portanto, em cada momento da sua história, uma aptidão definida para o suicídio”, afirma (Id., p.169). Ou seja, em cada sociedade há um número constante de suicidas, uma taxa de suicídio relacionada a cada grupo social, a qual “não se pode explicar nem através da constituição orgânico-psíquica dos indivíduos nem através da natureza do meio físico” (Id., p.177).
As causas do suicídio não estão, portanto, nos indivíduos – e no que eles declaram no momento desesperado em que abraçam a morte. Os indivíduos sucumbem à tendência suicidogênea disseminada na sociedade enquanto um estado geral, isto é, como um fator exterior aos indivíduos e independentes deles.[1]
“As razões com que se justificam o suicídio ou que o suicida arranja para si próprio para explicar o ato, não são, na maior parte das vezes, senão as causas aparentes. Não só não são senão as repercussões individuais de um estado geral, mas exprimem-no muito infielmente, dado que permanecem as mesmas e que ele difere. Estas razões marcam, por assim dizer, os pontos fracos do indivíduo, através dos quais a corrente que vem do exterior para incitá-lo a destruir-se se introduz mais facilmente” (Id., p.182).
Em cada sociedade há a tendência coletiva para o suicídio, uma força exterior aos indivíduos, mas que se manifesta através destes. Esta tendência está vinculada aos diferentes hábitos, costumes, idéias, etc. Sua intensidade é também determinada socialmente, isto é, a partir do contexto de cada sociedade específica. Observe-se que as sociedades não são compostas apenas por indivíduos, mas também por fatores físicos materiais independentes destes e que também influenciam a vida social. A intensidade com que se manifesta a tendência suicidogênea depende dos seguintes fatores:
“…primeiro, a natureza dos indivíduos que compõem a sociedade; segundo, a maneira como estão associados, ou seja, a natureza da organização social; terceiro, os acontecimentos passageiros que perturbam o funcionamento da vida coletiva, sem alterar no entanto a constituição anatômica desta, tais como as crises nacionais, econômicas etc.” (Id., p.199).
Em suma, são as condições sociais que explicam, por exemplo, que o fenômeno suicida se manifeste diferentemente nas diversas sociedades. Isto explica também porque o número de mortos voluntários e a sua distribuição entre as diversas faixas etárias e grupos sociais se mantém constante em cada sociedade específica e que só se modifique este quadro quando mudam as condições sobre as quais se sustenta a sociedade.
A relação entre o indivíduo e a sociedade determina as correntes suicidogêneas. Assim, quanto menos o individuo se encontra integrado à sociedade, maior a possibilidade do suicídio egoísta se manifestar:
“Quanto mais se enfraqueçam os grupos sociais a que ele (indivíduo) pertence, menos ele dependerá deles, e cada vez mais, por conseguinte, dependerá apenas de si mesmo para reconhecer como regras de conduta tão-somente as que se calquem nos seus interesses particulares. Se, pois, concordarmos em chamar de egoísmo essa situação em que o eu individual se afirma com excesso diante do eu social e em detrimento deste último, podemos designar de egoísta o tipo particular de suicídio que resulta de uma individuação descomedida” (Durkheim, O Suicídio, apud NUNES, 1998).
Por outro lado, quanto maior a integração do indivíduo à sociedade, maior a manifestação de outro tipo de suicídio: o altruísta. Se o individualismo excessivo pode induzir ao suicídio, a absorção do indivíduo pela coletividade pode ter o mesmo efeito. “Quando desligado da sociedade, o homem se mata facilmente, e se mata também quando está por demais integrado nela”, afirma Durkheim. (Id.)
Há outro tipo de suicídio analisado por Durkheim: o anômico. Este resulta de desequilíbrios sociais ocasionados por crises econômicas e políticas que modificam as condições sociais sob as quais se amparavam os indivíduos. Nestas circunstâncias, rompe-se a autoridade sustentada nas normas tradicionais e os indivíduos ficam sem referências. A crise produz deslocamentos financeiros, gera falências e processos de enriquecimento que fazem surgir os novos ricos. De um lado, a dificuldade em aceitar a situação material inferior; de outro, a cobiça diante da nova riqueza. E, em meio à crise, a moral não mais se sustenta e os indivíduos são obrigados a se educarem numa nova moral adaptada à nova situação. Este processo é doloroso e coloca em movimento a tendência suicidogênea anômica.
Durkheim esclarece que, em condições normais, as correntes suicidogêneas (egoísta, altruísta e anômica) “se compensam mutuamente”. Assim, o indivíduo se encontra num “estado de equilíbrio que o preserva de qualquer idéia de suicídio. Mas, se uma delas ultrapassar um certo grau de intensidade em prejuízo das outras, tornar-se-á, ao individualizar-se e pelas razões expostas, suicidogênea” (DURKHEIM, 1983, p.199).[2]
A sociedade é real, a morte também não é uma abstração. Se aceitarmos e compreendemos esta realidade, podemos viver melhor e nos resignarmos à certeza da finitude. Dessa forma, é possível superar os tabus e o moralismo que envolvem temas como o suicídio.
O mérito de Durkheim está em demonstrar que o suicídio é um fenômeno social e que é possível estudá-lo e compreendê-lo a partir da compreensão da sociedade. O suicídio é um fenômeno presente em todas as sociedades humanas, mas sob as condições da modernidade ele assume uma intensidade nunca vista. A responsabilidade é social e não apenas individual. As diversas áreas do conhecimento podem contribuir, mas é necessário que se respeite as suas especificidades e limites, sem que, por isso, neguem-se mutuamente.
Referências
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social; As regras do método sociológico; O suicídio; As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores).
NUNES, Everardo Duarte. Durkheim’s Suicide: reassessment of a classic from 19th-century sociological literatureCad. Saúde Pública. [online]. Jan./Mar. 1998, vol.14, no.1 [cited 24 December 2004], p.7-34. Available from World Wide Web: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X1998000100002&lng=en&nrm=iso>
UENO, Kayoko. O suicídio é o maior produto de exportação do Japão? Notas sobre a cultura de suicídio no Japão. In: REA, nº 44, janeiro de 2005 [Tradução: Eva Paulino Bueno]. Disponível emhttp://www.espacoacademico.com.br/044/44eueno.htm
ZWAHR-CASTRO, Jennifer. O suicídio entre adolescentes americanos. In: REA, nº 44, janeiro de 2005 [Tradução: Eva Paulino Bueno]. Disponível emhttp://www.espacoacademico.com.br/044/44ecastro.htm.

[1] Isto está relacionado á concepção que Durkheim tem do fato social. Para ele, o fato social, isto é, aquilo do que deve se ocupar a sociologia, se caracteriza por: 1) a coerção social exercida sobre os indivíduos; 2) sua exterioridade em relação aos indivíduos; e, 3) a generalidade. Durkheim mostra que os fatos sociais têm existência própria e independem do que pensam ou da ação dos indivíduos considerados isoladamente. Embora tenhamos personalidade individual, o modo como nos comportamos e agimos obedece a um padrão de condutas e de idéias, valores morais e hábitos, determinados pela sociedade. Esta desenvolve um conjunto de crenças e de sentimentos comuns: a consciência coletiva. Esta consciência não é a simples soma das consciências individuais ou de grupos específicos. Ela é partilhada, em maior ou menor grau, por todos os indivíduos e expressa o tipo psíquico da sociedade, o qual é imperativo e sobrevive às gerações.
[2] O Suicídio foi publicado em 1897. A tipologia durkheimiana permanece atual. Jennifer Zwahr-Castro, ao analisar este fenômeno na sociedade norte-americana, utiliza a sociologia de Durkheim e conclui que, entre os jovens norte-americanos, o mais comum é o suicídio egoístico. (Ver: O suicídio entre adolescentes americanos). Também a socióloga Kayoko Ueno nota que as hipóteses durkeimianas “podem ser ainda relevantes no Japão contemporâneo”. (Ver: O suicídio é o maior produto de exportação do Japão? Notas sobre a cultura de suicídio no Japão).