quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Dez grandes mitos econômicos



rothbard.jpgEstamos cercados por um grande número de mitos econômicos, mitos que distorcem a noção do público a respeito de problemas importantes e nos levam a aceitar políticas governamentais perigosas e frágeis. Aqui estão dez dos mais perigosos desses mitos e uma análise do que há de errado neles.
Mito 1: Déficits são a causa da inflação; déficits não têm nada a ver com a inflação.
Nas décadas recentes, sempre temos tido déficits federais. A reação invariável do partido fora do poder, qualquer que seja ele, é denunciar esses déficits como sendo a causa da inflação perpétua. E a reação invariável de qualquer que seja o partido no poder tem sido de alegar que déficits não têm nada a ver com a inflação. Ambas as declarações antagônicas são mitos.
Déficits significam que o governo federal está gastando mais do que está recolhendo em impostos. Esses déficits podem ser financiados de duas maneiras. Se eles são financiados pela venda de títulos do Tesouro ao público, então os déficits não são inflacionários. Nenhum dinheiro novo está sendo criado; o público e as instituições simplesmente tiram dinheiro de seus depósitos bancários para pagar pelos títulos, e o Tesouro, então, gasta esse dinheiro. O dinheiro simplesmente foi transferido do público para o Tesouro, que então gastará esse dinheiro com outros membros do público.
Por outro lado, o déficit pode ser financiado pela venda de títulos ao sistema bancário. Quando isso ocorre, os bancos criam novo dinheiro ao criar novos depósitos bancários e usá-los para comprar os títulos. O novo dinheiro, na forma de depósitos bancários, é então gasto pelo Tesouro, e entra, portanto, permanentemente na corrente de gastos da economia, aumentando preços e causando inflação. Através de um processo complexo, o Banco Central possibilita que os bancos criem esse novo dinheiro permitindo que eles gerem reservas bancárias de um décimo daquela quantidade. Assim, se os bancos forem comprar $100 bilhões de novos títulos para financiar o déficit, o Banco Central compra aproximadamente $10 bilhões de títulos velhos do Tesouro. Essa compra aumenta as reservas bancárias em $10 bilhões, permitindo que os bancos, através do multiplicador monetário, criem novos depósitos bancários — ou seja, dinheiro é criado do nada — em uma quantia 10 vezes maior que essa quantidade inicial de $10 bilhões. Em resumo, o governo e o sistema bancário que ele controla acabam, na prática, "imprimindo" dinheiro novo para pagar pelo déficit federal.
Assim, déficits são inflacionários quando são financiados pelo sistema bancário; eles não são inflacionários quando são financiados pelo público.
Alguns governantes apontam para o período de 1982-1983, quando o déficit estava se acelerando e a inflação estava se abatendo, como uma "prova" estatística de que déficits e inflação não têm relação mútua. Isso não é prova alguma. Mudanças de preços gerais são determinadas por dois fatores: a oferta de, e a demanda por, dinheiro. Durante o período de 1982-1983, o Banco Central americano criou dinheiro novo a uma taxa muito alta, a aproximadamente 15% ao ano. Muito desse dinheiro foi para financiar o déficit que estava em expansão. Maspor outro lado, a depressão severa daqueles dois anos aumentou a demanda por dinheiro (isto é, diminuiu o desejo de se gastar dinheiro em bens) como resposta às perdas severas dos negócios. Esse aumento temporário e compensatório na demanda por dinheiro não torna os déficits menos inflacionários. Na verdade, assim que começou a recuperação, o gasto aumentou e a demanda por dinheiro caiu, e o gasto do novo dinheiro acelerou a inflação.
Mito 2: Déficits não têm um efeito de crowding-out no investimento privado.
Em anos recentes tem havido uma compreensível preocupação a respeito da baixa taxa de poupança e investimento nos Estados Unidos. Uma preocupação é que o enorme déficit federal vai desviar poupança para gastos improdutivos do governo, levando a um crowding out do investimento produtivo, gerando dificuldades cada vez maiores para melhorar ou até mesmo para manter o padrão de vida do público, no longo prazo.
Alguns responsáveis por políticas econômicas mais uma vez tentaram refutar essa acusação com estatísticas. Eles declaram que em 1982-1983 os déficits foram altos e crescentes, ao passo que a taxa de juros caiu, indicando, portanto, que déficits não têm um efeito de crowding-out.
Esse argumento mais uma vez mostra a falácia de se tentar refutar a lógica com estatísticas. As taxas de juros caíram devido à queda dos empréstimos ao setor privado em função da recessão.  As taxas de juros "reais" (taxa de juros menos a taxa de inflação), porém, permaneceram em níveis altos como nunca antes visto — parcialmente devido ao fato de muitos de nós termos esperado inflação renovada, parcialmente devido ao efeito crowding-out. Em qualquer caso, a estatística não pode refutar a lógica; e a lógica nos diz que, se a poupança vai para os títulos do governo, vai haver necessariamente menos poupança disponível para o investimento produtivo, e as taxas de juros serão maiores do que seriam sem os déficits. Se os déficits são financiados pelo público, então esse desvio da poupança para projetos do governo será direto e palpável. Se os déficits são financiados por inflação bancária, então o desvio é indireto, e o novo dinheiro "impresso" pelo governo vai competir por recursos contra o dinheiro velho poupado pelo público. A tendência é que haja o crowding-out do dinheiro velho pelo dinheiro novo
Milton Friedman tenta refutar o efeito de crowding-out dos déficits, alegando que todo o gasto governamental, não apenas os déficits, provoca da mesma maneira o crowding-out da poupança privada e do investimento. É verdade que o dinheiro extraído por impostos poderiam ter ido para a poupança privada e para investimentos. Mas os déficits têm um efeito crowding-out bem maior que os gastos gerais, já que os déficits financiados pelo público alteram a poupança e a poupança somente, ao passo que impostos reduzem o consumo do público, assim como a poupança.
Dessa forma, qualquer que seja a forma com que você encare os déficits, eles causam graves problemas econômicos. Se eles são financiados pelo sistema bancário, eles são inflacionários. Mas mesmo se eles forem financiados pelo público, eles ainda causam severos efeitos de crowding-out, pois desviam a tão necessária poupança dos investimentos privados e produtivos para os desperdícios governamentais. E, mais ainda, quanto maiores os déficits, maior será a carga tributária incidente sobre a população para pagar os juros da dívida, um problema agravado pelas altas taxas de juros trazidas pelos déficits inflacionários.
Mito 3: Aumento de impostos é a cura para os déficits.
Aquelas pessoas que estão corretamente preocupadas com os déficits, infelizmente oferecem uma solução inaceitável: aumentar impostos. Curar os déficits através de aumento de impostos é o equivalente a curar a bronquite de alguém dando-lhe um tiro. A "cura" é bem pior do que a doença.
Uma razão, como muitos críticos já apontaram, é que aumentar impostos simplesmente dá mais dinheiro ao governo, e, dessa forma, políticos e burocratas irão provavelmente reagir aumentando os gastos ainda mais. Parkinson disse tudo em sua famosa "Lei": "Os gastos sobem de encontro à receita." Se o governo está disposto a ter, digamos, um déficit de 20%, ele vai pegar as altas receitas e vai simplesmente aumentar os gastos ainda mais para manter a mesma proporção do déficit.
Mas mesmo deixando-se de lado esse sutil juízo sobre psicologia política, pergunto: por que alguém deveria acreditar que um imposto é melhor que um aumento de preços? É verdade que a inflação é uma forma de taxação, na qual o governo e aqueles que recebem primeiramente o dinheiro novo estão aptos a expropriarem os outros membros do público, cuja renda nesse processo de inflação só aumenta depois. Mas, ao menos com inflação, as pessoas ainda estão colhendo alguns benefícios da troca. Se o preço do pão vai a $10, isso é lamentável, mas ao menos você ainda pode comer o pão. Mas se os impostos sobem, seu dinheiro é expropriado para os benefícios de políticos e burocratas, e você é deixado de lado, sem receber nenhum serviço ou benefício. O único resultado é que o dinheiro do produtor é confiscado para o benefício de uma burocracia que vai usar parte desse dinheiro confiscado para benefício de seus apaniguados, piorando a situação.
Não, a única cura eficiente para os déficits é simples, porém quase nunca mencionada: cortar o orçamento federal. Como e onde? Em qualquer lugar e em todo o lugar.
Mito 4: Sempre que o Banco Central aperta a oferta monetária, as taxas de juros sobem (ou caem); sempre que o Banco Central expande a oferta monetária, as taxas de juros sobem (ou caem).
O jornalismo financeiro agora entende de economia o suficiente para ficar observando semanalmente, como falcões, os números da oferta monetária; mas ele inevitavelmente interpreta esses números de uma forma caótica. Se a oferta monetária aumenta, isso é interpretado como uma queda dos juros e, logo, inflacionário; isto também é interpretado, frequentemente no mesmo artigo, como um aumento nos juros. E vice versa: se o Banco Central contrai o crescimento de dinheiro, isto é interpretado tanto como um aumento dos juros quanto como uma queda nos juros. Algumas vezes, parece que todas as ações do Banco Central, não importa o quão contraditórias sejam, devem resultar em aumento da taxa de juros. Claramente algo está muito errado aqui.
O problema é que, assim como no caso do nível de preços, existem vários fatores causais operando nas taxas de juros, e em direções diferentes. Se o Banco Central expande a oferta monetária, ele faz isso gerando mais reservas bancárias, expandindo assim a oferta de créditos bancários e depósitos bancários. A expansão do crédito necessariamente significa um aumento da oferta no mercado de crédito e, logo, uma queda no preço do crédito, ou da taxa de juros. Por outro lado, se o Banco Central restringe a oferta de crédito e o aumento da oferta monetária, isso significa que a oferta no mercado de crédito declina, o que leva a um aumento da taxa de juros.
E isso é precisamente o que acontece na primeira década, ou em duas, de inflação crônica.  Uma expansão do Banco Central diminui as taxas de juros; uma contração do Banco Central as aumenta. Mas após esse período, o público e o mercado começam a perceber o que está acontecendo. Eles começam a perceber que a inflação é crônica devido à expansão sistêmica da oferta monetária. Quando eles perceberem esse fato, eles também vão perceber que a inflação prejudica o credor em benefício do devedor. Assim, se alguém arruma um empréstimo a 5% ao ano, e a inflação é de 7% para aquele ano, o credor perde com isso, ao invés de ganhar. Ele perde 2%, já que ele é pago de volta com dólares que agora têm 7% menos de poder de compra. Dessa maneira, é o devedor quem ganha com a inflação. Assim que os credores começam a perceber as coisas, eles colocam um prêmio de inflação na taxa de juros, e os devedores estarão dispostos a pagá-lo. Assim, no longo prazo, qualquer coisa que alimente as expectativas de inflação irá aumentar os prêmios de inflação nas taxas de juros; e qualquer coisa que arrefeça essas expectativas irá diminuir esses prêmios. Portanto, uma contração do Banco Central tenderá agora a arrefecer as expectativas inflacionárias e diminuir as taxas de juros; uma expansão do Banco Central vai estimular essas expectativas novamente e aumentar os juros. Portanto, existem duas correntes opostas em ação que causam essas reações. E, assim, a expansão ou a contração do Banco Central podem tanto aumentar quanto diminuir as taxas de juros, dependendo de qual corrente é a mais forte.
E qual delas será a mais forte? Não há maneira de saber ao certo. Nas primeiras décadas de inflação, não haverá prêmio de inflação; mas nas últimas décadas, como nessa na qual estamos, haverá. A força relativa e o tempo de reação dependem das expectativas subjetivas do público, e essas não podem ser previstas de maneira exata. E essa é uma razão pela qual previsões econômicas jamais podem ser feitas corretamente.
Mito 5: Economistas, usando gráficos ou modelos computacionais avançados, podem acuradamente prever o futuro.
O problema de prever as taxas de juros ilustra as armadilhas de se fazer previsões em geral. As pessoas são criaturas contraditórias cujos comportamentos, ainda bem, não podem ser previstos antecipadamente. Suas valorações, idéias, expectativas e conhecimentos mudam a todo momento, e mudam de maneira imprevisível. Qual economista, por exemplo, poderia ter previsto (ou realmente previu) a febre do Cabbage Patch Kid[1] no natal de 1983? Cada quantia econômica, cada preço, compra, ou renda são números que englobam milhares, até mesmo milhões, de escolhas imprevistas feitas por indivíduos.
Muitos estudos, formais e informais, têm sido feitos sobre a capacidade de previsão dos economistas, e os resultados são desanimadores. Esses previsores alegam que eles poderiam acertar sempre, desde que as tendências atuais continuassem indefinidamente; o que eles têm dificuldades em fazer é justamente perceber essas mudanças de tendência. Mas é claro que não há nada de especial em extrapolar tendências atuais para o futuro próximo. Você não precisa de modelos computacionais sofisticados para isso; você pode fazer melhor e bem mais barato usando simplesmente uma régua de cálculo. O grande lance está em precisamente prever quando e como as tendências vão mudar, e os previsores têm sido notoriamente ruins nisso. Nenhum economista previu a seriedade da depressão de 1981-1982, e nenhum previu a força do boom de 1983.
Da próxima vez que você for influenciado pelo jargão ou pela aparente perícia de um previsor econômico, faça uma pergunta a si próprio: se ele realmente pode prever o futuro tão bem, por que ele está perdendo tempo divulgando circulares ou fazendo consultoria quando ele próprio poderia estar ganhando trilhões de dólares nos mercados financeiro e de commodities?
Mito 6: Há um tradeoff entre desemprego e inflação.
Sempre que alguém pede que o governo abandone suas políticas inflacionistas, políticos e economistas pró-establishment alertam que o resultado inevitavelmente será um severo desemprego. Estamos, portanto, presos em jogo entre inflação versus alto desemprego — e ficamos persuadidos de que temos que aceitar um dos dois.
Essa doutrina é um refúgio para keynesianos. Originalmente, os keynesianos nos prometeram que, ao manipular os déficits e gastos governamentais, fazendo uma sintonia-fina neles, eles poderiam e iriam nos trazer prosperidade permanente e pleno emprego sem inflação. Então, quando a inflação se tornou crônica e cada vez maior, eles mudaram o tom e passaram a alertar sobre o alegado tradeoff, de modo a enfraquecer qualquer possível pressão feita com o intuito de pedir que o governo parasse sua criação inflacionária de dinheiro.
A doutrina do tradeoff é baseada na "Curva de Phillips," uma curva inventada muitos anos atrás pelo economista britânico A.W. Phillips. Phillips correlacionou aumento nos salários com desemprego, e alegou que os dois se moviam inversamente: quanto maior o aumento nos salários, menor o desemprego. De cara, essa é uma doutrina peculiar, já que vai de encontro à lógica teórica e ao senso comum. A teoria nos diz que quanto maior os salários, maior o desemprego, e vice versa. Se todos fossem aos seus empregadores amanhã e insistissem em dobrar ou triplicar os salários, muitos ficariam imediatamente sem emprego. Ainda assim, esse achado bizarro foi aceito como um evangelho pelo establishment econômico keynesiano.
Hoje, já deveria estar claro que esse achado estatístico viola os fatos, bem como a teoria lógica. Durante a década de 1950, a inflação foi de apenas um ou dois por cento, e o desemprego flutuou entre três e quatro por cento. Depois, o desemprego atingiu entre oito e 11%, e a inflação entre cinco e 13%. Nas últimas duas ou três décadas, em resumo, ambos o desemprego e a inflação aumentaram abrupta e severamente. Se houve algo, nós tivemos foi uma curva de Phillips reversa. Houve qualquer coisa, menos um tradeoff entre inflação e desemprego.
Mas ideólogos raramente encaram os fatos, mesmo que eles continuamente aleguem "testar" suas teorias com fatos. Para salvar o conceito, eles simplesmente concluíram que a curva de Phillips ainda permanece um tradeoff entre inflação e desemprego, exceto que agora a curva inexplicavelmente se "moveu" para um novo arranjo de alegados tradeoffs. Sob esse tipo de argumentação, é claro, ninguém poderia jamais refutar qualquer teoria.
De fato, a inflação corrente, mesmo que ela reduza o desemprego no curto prazo ao fazer com que os preços aumentem bem mais que os salários (portanto reduzindo os salários reais), vai apenas criar mais desemprego no longo prazo. Em algum momento, os salários vão passar a subir junto com a inflação — e toda inflação inevitavelmente traz recessão e desemprego em seu rastro. Depois de mais de duas décadas de inflação, estamos agora vivendo esse "longo prazo."
Mito 7: Deflação — queda de preços — é impensável, e causaria uma catastrófica depressão.
A memória do público é curta. Esquecemos que, do início da Revolução Industrial, em meados do século XVIII, até o início da Segunda Guerra Mundial, os preços geralmente caíram, ano após ano. Isso porque um contínuo aumento da produtividade e da produção de bens, gerado pelo livre mercado, levou a uma queda nos preços. Não houve depressão, no entanto, já que os custos caíram junto com os preços de venda. Em geral, os salários permaneceram constantes, enquanto que o custo de vida caiu — de tal forma que os salários "reais", ou o padrão de vida de todos, aumentou constantemente.
Praticamente a única época em que os preços subiram, naqueles dois séculos, foi em períodos de guerra (Guerra de 1812, Guerra Civil, Primeira Guerra Mundial). Os governos em guerra inflaram descontroladamente a oferta monetária para pagar pela guerra, de modo que essa inflação foi bem maior do que os ganhos em produtividade — o que levou ao aumento dos preços.
Podemos ver como o capitalismo de livre mercado — quando não oprimido por inflação do governo ou de um banco central — funciona se olharmos para o que tem acontecido nos últimos anos com o preço dos computadores. Mesmo um simples computador costumava ser enorme, custando milhões de dólares. Agora, com o incrível surto de produtividade trazido pela revolução do microchip, os preços dos computadores estão caindo nesse mesmo momento em que escrevo. A indústria computacional tem tido sucesso apesar da queda dos preços porque seus custos têm caído, e a produtividade, subido. Na verdade, essa queda de custos e de preços permitiu a ela produzir para uma variada massa de consumidores, uma característica do crescimento dinâmico do capitalismo de livre mercado. A "deflação" não trouxe nenhum desastre para a indústria.
O mesmo ocorre para outras indústrias com alto crescimento, como a de calculadoras eletrônicas, aparelhos de TV, e videocassetes. Deflação, longe de trazer uma catástrofe, é a marca tradicional de um crescimento econômico sadio e dinâmico.[2]
Mito 8: O melhor imposto é o imposto de renda "flat" (de alíquota única), proporcional à renda para todos os segmentos, sem isenções ou deduções.
Geralmente os proponentes do imposto "flat" acrescentam que, eliminando tais isenções, o governo federal poderia diminuir substancialmente a alíquota corrente.
Mas essa visão, pra começar, assume que as deduções atuais do imposto de renda são subsídios imorais ou "meios de evasão" (loopholes) que devem ser extintos pelo bem de todos. Uma dedução ou isenção somente é um "meio de evasão" se você assumir que o governo é dono de 100% da renda de uma pessoa — e que permitir que parte daquela renda permaneça isenta de taxação constitui um irritante "meio de evasão." Permitir que uma pessoa mantenha parte de sua própria renda não é nem um "meio de evasão" nem um subsídio. Diminuir a carga tributária total abolindo deduções para gastos com saúde, pagamento de juros, ou perdas que não estavam seguradas, é simplesmente baixar os impostos para um grupo de pessoas (aqueles que têm poucos gastos com saúde, ou poucos juros à pagar, ou pequenas perdas sem seguro) às custas de aumentá-los para aqueles incorreram em tais gastos.
Não há também nenhuma garantia, nem mesmo probabilidade, de que, uma vez que as isenções e deduções estiverem seguramente fora do caminho, o governo vá manter sua carga tributária nesse nível mais baixo. Vendo os antecedentes de governos, antigos e atuais, há toda razão para pressupor que mais do nosso dinheiro seria levado pelo governo assim que ele aumentasse a alíquota de volta (no mínimo) ao nível anterior, consequentemente sugando uma maior quantidade de recursos dos produtores para a burocracia.
Supõe-se que o sistema tributário deveria ser análogo àquele de preços ou rendimentos no mercado. Mas a precificação no mercado não é proporcional às rendas. Seria um mundo peculiar se, por exemplo, Rockefeller fosse forçado a pagar $1,000 por um pedaço de pão — isto é, um pagamento proporcional à sua renda em relação ao homem comum. Isso significaria um mundo no qual a igualdade de renda seria forçada de uma maneira particularmente bizarra e ineficiente. Se um imposto fosse aplicado como um preço de mercado, ele seria igualpara todo "consumidor," e não proporcional à renda de cada consumidor.
Mito 9: Um corte no imposto de renda ajuda a todos; não apenas o contribuinte, mas também o governo vai se beneficiar, já que as receitas vão aumentar quando a taxa for cortada.
Esta é a chamada "curva de Laffer," criada pelo economista californiano Arthur Laffer. Ela foi promovida como um meio de permitir que políticos pudessem fazer o impossível: cortar impostos, manter os gastos em níveis correntes, e equilibrar o orçamento. Tudo ao mesmo tempo. Dessa maneira, o público iria desfrutar de um corte de impostos, se deliciaria com um orçamento equilibrado, e ainda receberia o mesmo nível de subsídios do governo.
É verdade que se as alíquotas de imposto fossem de 99%, e daí fossem cortadas para 95%, as receitas iriam aumentar. Mas não há nenhuma razão para crer em tais simples conexões em outras situações.  Na verdade, essa relação funciona bem melhor para um imposto sobre o consumo em nível local do que para um imposto de renda nacional. Alguns anos atrás, o governo do Distrito de Columbia decidiu aumentar a receita simplesmente aumentando severamente o imposto sobre a gasolina. Não funcionou, pois os motoristas podiam simplesmente atravessar a fronteira com a Virginia ou com Maryland e encher o tanque a um preço bem menor. As receitas do imposto sobre a gasolina em D.C. caíram e, para grande vexame e assombro dos burocratas de D.C, eles tiveram que revogar o imposto.
Mas não é provável que isso aconteça com o imposto de renda. As pessoas não vão parar de trabalhar ou deixar o país por causa de um relativamente pequeno aumento de impostos, ou fazer o inverso por causa de um corte de impostos.
Há outros problemas com a curva de Laffer. A quantidade de tempo que se deve esperar para que o efeito Laffer ocorra nunca é especificada. Mas ainda mais importante: Laffer supõe que o que todos nós queremos é maximizar a receita de impostos para o governo. Se — e um grande se — nós estamos realmente na metade de cima da Curva de Laffer, todos nós deveríamos então querer ajustar as alíquotas de impostos para aquele ponto "ótimo." Mas por quê? Por que deveria ser o objetivo de cada um de nós maximizar a receita do governo? Por que, em resumo, estaríamos interessados em elevar ao máximo a fatia do produto privado que é canalizado para as atividades do governo? Eu penso que estaríamos mais interessados em minimizar a receita do governo derrubando as alíquotas de impostos para em nível muito, muito abaixo de qualquer que seja o nível de Ótimo de Laffer.

Mito 10: Importação de países onde a mão-de-obra é barata provoca desemprego nos Estados Unidos.
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             Fábrica da Nike no Vietnã           

Um dos vários problemas com essa doutrina é que ela ignora a seguinte questão: por que os salários são baixos em um país estrangeiro, e altos nos Estados Unidos? Começa-se imaginando que esses salários já são determinados, e não se ataca a questão de por que eles são o que eles são. Basicamente, eles são altos nos EUA porque a produtividade do trabalho é alta — porque nos EUA os trabalhadores são ajudados por grandes quantidades de equipamentos tecnologicamente avançados. Os salários são baixos em muitos países estrangeiros porque os equipamentos são pequenos e tecnologicamente primitivos. Sem a ajuda de bens de capital avançados, a produtividade do trabalhador é bem menor do que nos EUA. Os salários em cada país são determinados pela produtividade dos trabalhadores naquele país. Assim, altos salários nos EUA não são uma ameaça fixa à prosperidade americana; eles são o resultado dessa prosperidade.
Mas o que dizer de certas indústrias nos EUA que reclamam barulhenta e cronicamente sobre a "injusta" competição de produtos de países com mão-de-obra barata? Aqui, devemos ter em mente que os salários em cada país são interconectados entre uma indústria — sua ocupação e região — e outra. Todos os trabalhadores competem entre si, e se os salários na indústria A são bem menores que em outras indústrias, os trabalhadores — liderados por jovens trabalhadores começando suas carreiras — iriam sair da indústria A, ou se recusar a ir pra ela, e se dirigir para outras empresas ou indústrias onde o salário é maior.
Dessa forma, os salários nessas indústrias que estão reclamando estão altos devido à competição de todas as outras indústrias nos EUA. Se as indústrias siderúrgicas ou têxteis nos EUA acham difícil competir com suas concorrentes estrangeiras, não é porque as indústrias estrangeiras estão pagando baixos salários, mas porque outras indústrias americanas forçaram para cima os salários americanos a um nível tão alto que as siderúrgicas e as têxteis não estão conseguindo pagar. Em resumo, o que realmente está acontecendo é que siderúrgicas, têxteis e outras firmas do tipo estão usando mão-de-obra ineficientemente em comparação às outras indústrias americanas. Tarifas ou cotas de importação para manter empresas ineficientes ou indústrias em operação são ruins para todo mundo — em cada país — que não está naquela indústria. Elas prejudicam todos os consumidores do país, pois mantêm os preços altos, a qualidade e a concorrência baixas, e distorcem a produção. Uma tarifa ou uma cota de importação é o equivalente a fatiar uma estrada de ferro ou destruir uma companhia aérea, já que a idéia é fazer com que o transporte internacional seja artificialmente caro.
Tarifas e cotas de importação também prejudicam outras indústrias eficientes, pois restringem recursos que de outra forma iriam para usos mais eficientes. E, no longo prazo, tarifas e cotas, como qualquer tipo de privilégio monopolista garantido pelo governo, não garantem lucros nem para as empresas que estão sendo protegidas e subsidiadas, pois, como já vimos nos casos das estradas de ferro e das companhias aéreas, indústrias que gozam de monopólios garantidos pelo governo (sejam através de tarifas ou regulamentações) acabam se tornando tão ineficiente que elas perdem dinheiro de qualquer jeito, e acabam limitadas a ficar somente clamando por mais e mais ajuda do governo, por uma proteção privilegiada, perpétua e sempre em expansão contra a livre concorrência.


[1] Marca de bonecas de grande sucesso nos EUA, que chegava a gerar brigas entre clientes que disputavam, às vezes no tapa, seus raros estoques nas lojas. Ver mais detalhes aqui. (N. do T.)
[2] E atualmente, o mesmo ocorre com a indústria de DVDs, iPods, celulares, máquinas fotógraficas, notebooks, etc. O princípio segue o mesmo: em setores onde o governo se intromete pouco, seja com regulamentações, subsídios, ou impostos, a tendência é que a produtividade aumente e os preços caiam. Como essa deflação pode ser recessiva? (N. do T.)

Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies. 

Albo lapillo notare diem: eis a revista do IMB!



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Os romanos, em acontecimentos importantes e felizes, costumavam dizer:albo lapillo notare diem, significando que aquela data seria marcada com uma pedra branca, para realçar sua importância. Isto porque, nos hábitos e costumes de Roma, o branco era símbolo de felicidade e o preto de desgraça. Pois hoje a equipe do Instituto Mises Brasil e todos os simpatizantes da Escola Austríaca de Economia estão já com uma pedrinha cuja alvura marca o lançamento de nosso periódico acadêmico, MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia, publicação científica interdisciplinar do IMB, estritamente acadêmica e com periodicidade semestral com o objetivo de divulgar e debater a tradição da Escola Austríaca que, no âmbito do pensamento econômico atual, certamente é a que mais vem crescendo, se multiplicando e se revigorando, especialmente a partir das últimas três décadas e, com ainda maior intensidade, desde 2008.
A revista, além de ser a realização de um antigo sonho, vem para mostrar definitivamente que a Escola Austríaca não pode e nem deve ficar restrita a duas ou três aulas da disciplina de História do Pensamento Econômico (e, quase que invariavelmente, é deturpada por professores de índole keynesiana ou marxista). Somos a mais tradicional das escolas econômicas, pois remontamos aos pós-escolásticos, especialmente os de Salamanca, nos séculos XV e XVI; se ainda somos a menor em termos de adeptos, seguramente somos a que mais vem crescendo nos últimos anos, especialmente quando a crise econômica mundial negou todas as teorias convencionais, tanto as keynesianas, como as monetaristas e de expectativas racionais.
"A Escola Austríaca de Economia na vanguarda" é o título do Editorial que escrevi para o primeiro número de nossa revista, para tirar de uma vez por todas da cabeça de jovens mal informados por seus professores que a Escola Austríaca "acabou", ou que "está ultrapassada", ou que, como não utiliza modelos matemáticos de previsão, "é coisa dos antigos". Nada mais equivocado do que acreditar nessas concepções erradas! Por isso, ostaff da revista procurou com esmero um design que, ao mesmo tempo em que mostrasse a longa tradição da Escola, sugerisse também visualmente ao leitor que seus ensinamentos são inteiramente aplicáveis aos nossos dias. E, mais do que serem, devem ser aplicados, devido à falência manifesta da mainstream economics que o mundo vem experimentando com o fracasso das receitas keynesianas e monetaristas para debelar a crise que explodiu em 2008, mas que os economistas austríacos já previam desde o final dos anos 90.
Mas a EA é ainda praticamente desconhecida na maioria das instituições de ensino brasileiras. Nesse sentido, a principal missão de nosso periódico será introduzir no debate acadêmico, em linguagem apropriada, técnica, científica e jamais panfletária, as importantes reflexões dos autores que seguem a tradição de Carl Menger, considerado o fundador da Escola. A revista também pretende garantir que seja publicada a produção intelectual de professores e pesquisadores brasileiros estudiosos da Escola Austríaca. Contudo, o periódico não assumirá uma posição apologética, contrária ao verdadeiro diálogo acadêmico, publicando apenas textos divulgando e defendendo as ideias desses autores, visto que estaremos abertos para receber e publicar artigos – desde que sejam científicos - criticando o pensamento austríaco, possibilitando o início de um verdadeiro debate intelectual de que nossa comunidade acadêmica tanto carece.
Outro objetivo importante da revista é contribuir para resgatar a importância da interdisciplinaridade — como o próprio título da revista sugere — e do humanismo nas ciências sociais. Com efeito, a tradição iniciada por Carl Menger com a publicação, em 1871, de Grundsätze der Volkwirthschaftslehree (Princípios de Economia Política), é um vasto campo do conhecimento humano, que transcende a economia para abastecer-se sistematicamente no âmbito mais abrangente das ciências sociais, nutrir-se continuamente com a discussão filosófica e impregnar-se permanentemente da boa cultura humanista.
Os economistas, desde a segunda metade do século XIX, com o abandono da tradição humanista, ao mesmo tempo em que dominavam mais conhecimentos técnicos específicos, foram se tornando cada vez menos cultos, e hoje em dia são raros aqueles realmente eruditos, no sentido de dominarem conhecimentos que ultrapassem os contidos nos manuais de Microeconomia e de Macroeconomia.
Não foi por acaso que Friedrich August von Hayek, laureado com o Nobel de Economia em 1974, em seu discurso na Academia Sueca, afirmou que um economista que só enxerga dentro dos limites estritos da teoria econômica, por mais apurados que sejam seus conhecimentos técnicos, nunca poderá ser um economista completo. Para a tradição austríaca não basta que ele domine o estado das artes em sua ciência: é preciso ir muito mais além, é preciso ser, mais do que qualquer outra coisa, um humanista. No entanto, mesmo em se tratando de um campo muito abrangente do conhecimento humano, a Escola Austríaca guarda uma simplicidade que chega a impressionar, mas que se explica pela lógica irrepreensível de suas proposições e postulados. Como escreveu Ludwig von Mises, considerado por muitos como o maior expoente da Escola, good economics is basic economics!
Como salientado anteriormente, a Escola Austríaca é interdisciplinar. Assim sendo e a partir de seu núcleo básico (os conceitos de ação, tempo e conhecimento) e de seus elementos de propagação (as ferramentas da utilidade marginal, do subjetivismo e das ordens espontâneas), ela se estende, entre outros, aos campos da Filosofia, do Direito e da Epistemologia. Apenas para dar um exemplo, a Filosofia Política da Escola Austríaca é uma tentativa de compreender e explicar a história e as instituições sociais à luz dos limites naturais do conhecimento humano. Como escreveu o filósofo italiano Raimondo Cubeddu, professor da Universidade de Pisa, a história e as instituições sociais aparecem frequentemente como produtos das ações humanas individuais, voltadas para a consecução de fins subjetivos.
Menger, Mises, Hayek, Lachmann, Rothbard e outros austríacos não foram apenas economistas que mergulharam no mundo da política, ou sonhadores de um mundo melhor de cunho utópico, mas pensadores que elaboraram uma teoria do melhor regime baseada em uma concepção da ação humana e da natureza da sociedade. E osaustríacos atuais seguem rigorosamente essa linha.
Os grandes economistas austríacos do século XX — cujos nomes mais conhecidos foram Mises e Hayek — mesmo tendo vivido em uma época em que seus colegas faziam questão de se tornarem cada vez mais especializados em áreas crescentemente mais restritas da economia, não permitiram — em nenhum momento! —, que o modismo os fizesse abrir mão de serem generalistas, não no sentido mais vulgar que essa palavra vem adquirindo ultimamente, mas no de valorizarem a vasta cultura e o humanismo.
Os tempos difíceis — a era das pedras negras — vividos por Mises, Hayek e tantos outros austríacos, estão, gradualmente, porém de maneira clara e crescente, com os dias contados. Sem dúvida, a importância e o renascimento dos estudos sobre a Escola Austríaca é uma nova tendência internacional, nas áreas de Filosofia, Economia, Epistemologia, Política, Direito, Sociologia e Antropologia, bem como nas demais áreas em que se manifesta o princípio universal da Praxeologia ou estudo da ação humana, definida como escolhas individuais voluntárias que visam a passar de estados considerados insatisfatórios ou pouco satisfatórios para outros, tidos no momento das escolhas como satisfatórios, ou mais satisfatórios do que os presentes.
MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia manifesta, desde este primeiro número que ora lançamos, seu compromisso estritamente acadêmico, pretendendo ser um espaço de formação, de informação e de debate de ideias. Sendo assim, veiculará, além de textos clássicos dos grandes nomes da tradição austríaca, nunca publicados anteriormente em português, a produção contemporânea de pensadores do Brasil e do exterior que, como dissemos linhas atrás, vem crescendo de maneira sólida e consistente ao longo dos últimos anos.
Por se tratar de uma escola de pensamento marcadamente interdisciplinar, o diálogo com outras disciplinas, bem como com as outras correntes da ciência econômica torna-se algo natural e será uma das características de nosso periódico, que será, assim, além da primeira publicação referendada na Escola Austríaca no Brasil, uma revista aberta permanentemente ao debate intelectual de alto nível, publicando até mesmo críticas ao pensamento austríaco.
Cada uma das duas edições anuais regulares do periódico deverá conter artigos agrupados em cinco seções distintas: 1ª) Epistemologia e Ética, 2ª) Economia e Praxeologia, 3ª) História do Pensamento Econômico, 4ª)Sociedade, Legislação e Política; 5ª) Crítica Cultural. Parece claro que não é necessário discorrer extensivamente sobre a importância de cada uma dessas áreas dentro do pensamento austríaco. Distribuídos nessas cinco seções, este primeiro número enfeixa dezoito artigos.
A compreensão da visão de mundo da Escola Austríaca é caudatária do entendimento filosófico da Epistemologia e da Ética, temas abordados nos três artigos da primeira seção da revista. No primeiro artigo, Ludwig von Mises discute a Epistemologia relacionando-a ao conceito de ação e mostrando sua relevância para a Economia. Gabriel Zanotti ressalta um impasse epistemológico criado por não se levar até as últimas consequências hermenêuticas o próprio subjetivismo, propondo a retomada desse caminho, fundamentado nos elementos hermenêuticos que se encontravam em Mises e Hayek. Jesús Huerta de Soto critica o consequencialismo nas relações sociais e procura justificar o que seria uma ética voltada para a liberdade, além de desenvolver a importante contribuição do trabalho de Israel Kirzner nesse campo.
A relação entre Economia e Praxeologia é de grande relevância para a Escola Austríaca por definir o conceito deação humana e possibilitar a integração da Economia com outros ramos do conhecimento. Dedicada a essa temática, a segunda seção da revista apresenta alguns tópicos do debate econômico desenvolvido pela Escola Austríaca em cinco artigos.
No primeiro artigo dessa seção, também de autoria de Ludwig von Mises, é discutido o conceito de atividade econômica e se argumenta que a racionalidade é elemento indispensável para a ação humana no mundo real, além de se mostrar a inviabilidade do cálculo econômico sob o socialismo e se esclarecer o significado de "econômico".
Roderick T. Long mostra como a abstração é entendida na tradição aristotélica e usa a compreensão de Aristóteles (384-322 a.C.) sobre o tema para mostrar como o argumento de Milton Friedman pró-irrealismo é confuso, demonstrando, ainda, que tal crítica aristotélica ao pensamento friedmaniano está implícita na obra de Mises, apresentando a existência de um uso austríaco legítimo para modelos irreais, orem bem diferentes dos usados por Friedman, para, por fim, explicar como a crítica austro-aristotélica ao pensamento friedmanianocontribui para a controvérsia e para os debates austríacos sobre apriorismo metodológico.
Fabio Barbieri faz um estudo do desenvolvimento da teoria austríaca do intervencionismo, em que, depois de examinar a crítica original de Mises ao intervencionismo, analisa a construção da moderna teoria austríaca dos ciclos intervencionistas, que procura explicar os movimentos de expansão e contração do estado.
A partir da "curva de Laffer" e de outros exemplos econômicos e sociais, Walter E. Block discute as implicações do Princípio da Não-Agressão (PNA) do libertarianismo, à luz de exemplos hipotéticos e mostra que tal princípio não é universal e nem fácil de analisar e aplicar.
Finalmente, na segunda seção, Leonidas Zelmanovitz argumenta que nem os atuais sistemas monetários de moedas nacionais fiduciárias e de curso legal forçado e nem qualquer variação do padrão-ouro são arranjos monetários ideais.
Ainda que os pensadores da Escola Austríaca tenham sido os responsáveis pelo descrédito da Escola Historicista Alemã de Economia, eles reconhecem que a História do Pensamento Econômico, apesar de não ser a principal fonte para o estudo da ação humana e da economia, é uma fonte inexaurível de conhecimentos para todos os que se interessam pela Economia como ciência.
Assim, a terceira seção, dedicada à História do Pensamento Econômico, apresenta, na primeira edição, quatro textos. O primeiro artigo, de autoria de Murray N. Rothbard, relata o pensamento da Igreja na Idade Média, focalizando sua atenção nos aspectos da usura, da cobrança de juros e do "preço justo", mostrando como esse pensamento foi evoluindo ao longo do tempo (este texto é a primeira parte de um ensaio, cuja segunda parte será publicada na segunda edição).
Buscando resgatar o elo histórico entre a tradição proto-austríaca e o moderno pensamento austríaco, nosso periódico sempre publicará um documento histórico medieval ou moderno que contribua para o entendimento histórico do pensamento econômico. Tal missão no presente volume é executada por intermédio da publicação — pela primeira vez em Português —, em tradução direta do latim, de uma parte da Suma dos Decretos, escrita no século XII por Rufino de Bolonha, na qual o famoso canonista medieval comenta o Decretum Gratiani, parte importante do Direito Canônico que foi lei válida até 1917, abordando à luz da teologia moral diversos temas econômicos, tais como a propriedade, o lucro, os ganhos sem esforço e a usura.
O terceiro artigo da seção, de autoria de Itamar Flávio da Silveira e de Suelem Halim Nardo de Carvalho, descreve como José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, tratou a questão da industrialização nacional sob a ótica da Economia Política Clássica.
Por fim, Joseph Salerno mostra como a Escola Austríaca se desenvolveu, desde Menger até os dias atuais, analisa as divergências existentes entre os economistas austríacos e como a Escola Austríaca renasceu a partir dos trabalhos e da tenacidade de Murray Rothbard.
As integrações e inserções da Economia com o Direito e com a Ciência Política são fatores de grande importância para os pensadores austríacos, por compreenderem que a economia do mundo real é "ação humana ao longo do tempo em condições de incerteza genuína", sendo influenciada e influenciando, assim, os diferentes aspectos jurídicos e políticos das sociedades nas quais os indivíduos vivem. Por isso, a quarta seção da revista é dedicada ao tema Sociedade, Legislação e Política.
Na presente edição apresentamos quatro artigos sobre a temática. O primeiro, escrito por Friedrich Hayek, discute que tipo de conhecimento deve ser utilizado nas ciências sociais, especialmente na Economia e mostra que no mundo real o dito "conhecimento científico" falha na coordenação da atividade econômica e que o conhecimento "prático", ou "das circunstâncias de tempo e espaço", é o único relevante nas decisões dos agentes econômicos.
No segundo texto da seção, Hans-Hermann Hoppe, partindo de uma economia autista do tipo Robinson Crusoe, compara o sistema atual de monopólio do estado sobre as leis e a segurança dos indivíduos com uma sociedade em que tais serviços fossem produzidos sem o estado e sugere a superioridade desse segundo tipo de organização social sobre a primeira.
Rothbard, em um terceiro artigo da seção, discute quais devem ser as posições dos libertários em relação à defesa das liberdades individuais, às guerras, à intervenção de estados em outros estados e critica as guerras que exterminam inocentes, mostrando a total incompatibilidade entre o libertarianismo e as guerras.
Finalmente, o artigo de Bruno Garschagen discute, sob a perspectiva da Escola Austríaca, de que forma e por que a União Soviética e a Alemanha Nazista conduziram suas sociedades para a barbárie ao violarem sistematicamente os direitos de propriedade e provocarem uma elevada taxa de preferência temporal, impedindo com suas políticas econômicas a moderação dessa preferência, que tornaria possível o processo civilizacional.
As sociedades são compostas por três grandes sistemas: o econômico, o político e o moral-cultural. Cada um desses sistemas possuem ritmos diferentes de evolução e seguem normas distintas, sendo dotados de instituições especiais, bem como de métodos, disciplinas, padrões, propósitos, limites, atrações e repulsões distintos; contudo, há uma continua interação entre esses três sistemas, fator que reforça a advertência de Hayek, em sua Nobel lecture de 1974, afirmando que um economista que só enxerga dentro dos limites estritos da teoria econômica, por mais apurados que sejam seus conhecimentos técnicos, nunca será um economista completo.
Tendo em vista o objetivo de ampliar o campo de visão dos estudiosos da Escola Austríaca, a quinta seção de nosso periódico sempre veiculará ensaios de Crítica Cultural. Na presente edição incluímos dois artigos sobre temas culturais. No primeiro, Jeffrey Tucker e Llewellyn Rockwell Jr. descrevem o pensamento cultural de Mises em suas diversas nuances, abrangendo as concepções do notório economista austríaco sobre igualdade e desigualdade, sexualidade, casamento e amor-livre, feminismo, raça e etnia, multiculturalismo, literatura e artes. Por fim, Alex Catharino analisa a questão da Liberdade na saga O Senhor dos Anéis de Tolkien (1892-1973), tanto no plano filosófico quanto nos aspectos praxeológicos, a partir do conceito de Imaginação Moral de Russell Kirk (1918-1994) e segundo algumas perspectivas teóricas da Escola Austríaca de Economia, principalmente a de Mises, enfatizando, também, as principais características da obra literária tolkieniana.
As resenhas de livros de autores brasileiros que atualmente se dedicam ao estudo do pensamento austríaco em nosso país completam este primeiro número da revista.
Como Diretor Acadêmico do Instituto Mises Brasil e como Editor responsável desse novo periódico acadêmico, é com grande satisfação — e também grande esperança intelectual — que apresento o primeiro número de MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia. Espero que o leitor goste do material da edição inicial e que a revista venha a ser uma referência não apenas no que se refere a seu pioneirismo em termos de ser a primeira especializada na Escola Austríaca em língua portuguesa, mas, principalmente, como veículo acadêmico interdisciplinar de altíssimo nível e como espaço permanentemente aberto ao debate de ideias.
É também com bastante alegria que enfatizo a importância, para que o sonho de nossa revista se pudesse concretizar, das contribuições do presidente do IMB, Helio Beltrão; de Alex Catharino, gerente da revista; e, naturalmente, de toda a excelente equipe que compõe o board do Instituto.
Enfim, uma revista acadêmica austríaca no Brasil, a nossa revista, a revista dos que sabem que a liberdade é fundamental para que o homem se realize como tal; a revista dos que creem, como o novelista alemão Thomas Mann, que opiniões não podem sobreviver se ninguém tem chance de lutar por elas; a revista dos que sabem, como expressou Mises, que ideias são mais poderosas do que exércitos; e a revista, enfim, dos que possuem firmeza na convicção manifestada por Cícero, a de que para homens livres, ameaças são impotentes!  
Albo lapillo notare diem! Vida longa para a revista Mises!
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Como ocorreu a crise financeira americana


too-big-to-fail.jpgSegundo a imprensa mundial, este mês de setembro de 2013 marca o aniversário de 5 anos da crise financeira americana.  Mas a crise, no entanto, começou realmente um ano antes, em agosto de 2007, quando correntistas correram ao banco britânico Northern Rock para sacar seu dinheiro, levando o banco à falência.  Esta foi a primeira corrida bancária em grande escala ocorrida desde 1930.
São inúmeros os analistas, comentaristas e, principalmente, acadêmicos que já se aventuraram a dar seus vaticínios sobre a crise financeira americana.  No entanto, ausente de todos os comentários está aquele componente indispensável para toda e qualquer análise econômica minimamente séria e sensata: a imparcialidade.  E presente em todos os comentários está aquele componente do qual, hoje em dia, ninguém abre mão: a propaganda ideológica.
A melhor maneira de se entender corretamente e de modo fácil todas as nuanças da crise financeira americana é fazendo uma narração cronológica e desideologizada dos eventos.  Caberá ao leitor, no final, concluir qual dos dois lados tem razão: se aqueles que dizem que tudo foi causado por uma falta de regulamentação ou se aqueles que dizem que tudo foi causado por excesso de intervenção estatal.
A tempestade perfeita
A crise financeira americana — a qual foi gerada pelo estouro de uma grande bolha imobiliária — teve características grandiosas e espetaculares simplesmente porque ela apresentou uma combinação de elementos até então inédita na história de qualquer economia mundial.  Nem mesmo a colossal crise financeira japonesa do início da década de 1990 — que também foi gerada pelo estouro de uma bolha imobiliária — apresentou uma conjunção tão harmoniosa de elementos a ponto de produzir um estrago semelhante.
Comecemos nossa análise com um gráfico que mostra o histórico da evolução dos preços dos imóveis americanos.  Mais especificamente, o gráfico mostra a mediana dos preços de venda de imóveis novos.
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Gráfico 1: mediana dos preços de venda de imóveis novos
O gráfico traz vários detalhes interessantes.  Até o início da década de 1970, quando os EUA ainda viviam sob alguns resquícios de padrão-ouro, os preços dos imóveis permaneceram praticamente constantes.  Durante a década de 1970, os preços praticamente duplicaram, mas isso foi efeito da alta inflação monetária ocorrida naquela década (que ficou conhecida como a década perdida dos EUA), e não especificamente de uma bolha.  Já durante a década de 1980 houve um mini-bolha, a qual estourou no início da década de 1990 (aficionados por economia podem pesquisar sobre a retração do mercado imobiliário americano nesta época).
A partir de 1993, início do governo Clinton, os preços voltaram a subir continuamente.  E aceleraram vertiginosamente a partir de 2001 até entrarem em colapso em 2008.
Logo, partindo-se deste gráfico, dois eventos devem ser analisados:
1) O que gerou a ascensão de preços a partir de 1993?
2) O que gerou a súbita aceleração a partir de 2003?
A década de 1990
Foi na década de 1990 que duas políticas governamentais voltadas exclusivamente para o setor imobiliário — mais especificamente, para aumentar o número de proprietários de imóveis — foram intensificadas.  Digo "intensificadas" porque estas políticas já existiam desde a década de 1970, mas foi somente na década de 1990 que elas ganharam poder total.
Quais foram estas políticas?
Fannie Mae e Freddie Mac
De um lado, havia duas empresas nominalmente privadas, mas que atendiam exclusivamente aos desejos do governo federal.  Estas duas empresas se tornaram mundialmente conhecidas em 2008, quando houve a quebradeira: trata-se da Federal National Mortgage Association (popularmente conhecida como Fannie Mae) e a Federal Home Loan Mortgage Corporation (popularmente conhecida como Freddie Mac).
Essas duas empresas foram criadas pelo Congresso americano e são oficialmente conhecidas como "empresas apadrinhadas pelo governo", pois usufruem vários privilégios concedidos pelo governo.  Primeiro, vamos entender o que elas fazem; depois, veremos por que elas são assim conhecidas.
Fannie Mae e Freddie Mac são empresas voltadas exclusivamente para o mercado imobiliário.  Mais especificamente, elas são empresas que existem para garantir liquidez ao mercado de hipotecas.  Elas não emprestam dinheiro para compradores de imóveis; elas apenas compram estes empréstimos dos bancos
Funciona assim: um americano vai a um banco comercial qualquer e pede um empréstimo para comprar um imóvel.  Ato contínuo, o banco cria dinheiro eletrônico e acrescenta estes dígitos eletrônicos na conta do tomador de empréstimo, que agora utilizará este dinheiro para comprar um imóvel.  Por uma questão de regra contábil, sempre que um banco concede um empréstimo, ele está criando um ativo e um passivo: o ativo é o valor do empréstimo, o passivo é o dinheiro que ele deu ao tomador de empréstimo. 
Atenção, pois esta parte é crucial: se um banco concede um empréstimo, o valor do seu ativo aumenta.  Quanto mais empréstimos ele concede, maior o valor do seu ativo (e, consequentemente, do seu passivo).  Por uma questão de regulamentação bancária (tanto do Banco Central americano quanto do Banco da Basileia), há um limite para o crescimento destes ativos.  Em termos técnicos, os ativos têm de manter uma proporção máxima em relação ao patrimônio líquido do banco.  Portanto, um banco não pode sair concedendo empréstimos a rodo, pois ele rapidamente atingiria este limite determinado. 
E é exatamente nesse ponto que Fannie e Freddie entram em cena.  A função destas empresas era comprar dos bancos comerciais exatamente estes empréstimos (títulos hipotecários) que eles concediam para compradores de imóveis
Ou seja: quando um banco comercial concedia um empréstimo imobiliário, ele colocava em seus ativos o valor total do empréstimo.  Mas se ele vendesse esse ativo (título hipotecário) para uma terceira parte, este ativo sairia de seus livros contábeis, ele receberia de volta a quantia que emprestou (na verdade, receberia um valor mais alto) e, em seguida, estaria livre para voltar a fazer novos empréstimos sem ultrapassar aquele limite entre ativos e patrimônio líquido estabelecido pelo Banco Central. 
Em resumo: Fannie e Freddie, ao comprarem as carteiras de empréstimos imobiliários dos bancos, permitiam que os bancos dessem continuidade aos seus empréstimos.  Em outras palavras, após um banco conceder um empréstimo para um comprador de imóveis, ele podia vender este empréstimo para Fannie ou Freddie.  Ato contínuo, este empréstimo não mais estaria nos livros contábeis do banco, o qual estaria agora livre para fazer novos empréstimos. 
Uma vez em posse dos títulos hipotecários, Fannie e Freddie agora eram as responsáveis pelos empréstimos.  A relação agora era entre elas e os tomadores de empréstimos imobiliários.  Enquanto estes continuassem pagando suas hipotecas, Fannie e Freddie continuariam tendo um fluxo de caixa.  Se os tomadores de empréstimos dessem o calote, Fannie e Freddie teriam enormes prejuízos.  Seus títulos hipotecários seriam remarcados para um valor zero e o patrimônio líquido de ambas seria severamente afetado.
Observe que os bancos que fizeram os empréstimos originais estão fora da jogada.  Eles não mais são os responsáveis pelo empréstimo e não mais lidam com o tomador do empréstimo.  Eles estão livres para voltar ao mercado imobiliário e conceder novos empréstimos.  Era uma espécie de moto-perpétuo.
Fannie e Freddie tinhas duas opções: elas podiam manter em suas carteiras os empréstimos que compraram dos bancos (e, assim, aufeririam as receitas) ou podiam empacotar esses empréstimos e vender para investidores ao redor do mundo.  Esses empréstimos imobiliários vendidos por Fannie e Freddie para os investidores ao redor do mundo ficaram conhecidos como "títulos lastreados em hipotecas" (as famosas mortgage-backed securities).
Tradicionalmente, quando uma pessoa pega um empréstimo para comprar um imóvel, cria-se uma dívida entre ela e o banco.  Se a pessoa irá honrar sua dívida ou não, é problema do banco.  No cenário americano, Freddie e Fannie fizeram com que os bancos não mais se preocupassem com nada disso, pois eles sabiam que, tão logo concedessem um empréstimo imobiliário, Fannie e Freddie estavam lá para comprar este empréstimo a um valor acima do montante concedido. 
Desnecessário dizer que todo este processo — ao facilitar enormemente a compra de imóveis — gerou muito mais empréstimos imobiliários do que normalmente ocorreria.  Este direcionamento artificial de recursos para o mercado imobiliário aditivou os preços dos imóveis.
Freddie e Fannie usufruíam uma linha especial de crédito junto ao Tesouro americano, no valor de US$2,25 bilhões.  Esta garantia implícita de proteção conseguiu atrair um contínuo financiamento de investidores — que investiam dinheiro nestas empresas e compravam seus títulos lastreados em hipotecas —, pois estes investidores sabiam que, caso a coisa degringolasse, Fannie e Freddie seriam socorridas pelo governo americano. 
(Para se ter uma ideia da amplitude destas empresas, em setembro de 2008, quando o governo americano efetivamente nacionalizou ambas as empresas, elas detinham metade das hipotecas do país e praticamente 75% das hipotecas recém-concedidas.)
Por fim, vale ressaltar que Fannie e Freddie estavam profundamente envolvidas em politicagem.  A Fannie, mais especificamente, foi utilizada por políticos democratas que queriam diminuir as exigências que a empresa impunha para conceder empréstimos a pessoas de mais baixa renda.  Tudo em nome de estar ajudando os "necessitados".  Em setembro de 1999, ninguém menos que o próprio The New York Times publicou uma reportagem dizendo que a Fannie Mae estava afrouxando as exigências de crédito para as hipotecas que ela comprava dos bancos.  Segundo o próprio Times, a iniciativa era perigosa porque iria
estender hipotecas para indivíduos cujo histórico de crédito não são bons o suficiente para se qualificarem para empréstimos convencionais. [...]  A Fannie Mae tem estado sob intensa pressão do governo Clinton para dar sustentação a hipotecas de pessoas de renda baixa e moderada. [...] [Embora] as novas hipotecas sejam estendidas para todos os potenciais tomadores de empréstimos, [um dos objetivos do programa é] aumentar o número de proprietários de imóveis entre as minorias e os indivíduos de baixa renda, os quais tendem a apresentar um histórico de crédito pior que os dos brancos não-hispânicos. 
Ao se aventurar, mesmo que temporariamente, nesta nova área de empréstimos, a Fannie Mae está assumindo riscos consideráveis.  [...] Esta corporação subsidiada pelo governo pode vir a enfrentar problemas caso haja uma recessão econômica, o que levará o governo a socorrê-la.
Ou seja, até mesmo o The New York Times já havia percebido o risco envolvido nessa nova empreitada.
Não é o intuito deste artigo entrar em detalhes sobre o funcionamento de Freddie e Fannie, pois isso tomaria o espaço de um livro.  Há uma ampla literatura dedicada exclusivamente ao assunto (neste site há inclusive um artigo dedicado exclusivamente a estas empresas) e nada do que foi dito aqui é controverso.  Políticos democratas utilizaram estas agências para garantir que minorias e pessoas de baixa renda, sem nenhum histórico de crédito, conseguissem empréstimos para comprar a casa própria.  Estas seriam as mesmas pessoas que, como veremos mais abaixo, começaram a dar calotes nos empréstimos.
CRA e ações afirmativas
Mas apenas Fannie e Freddie não seriam capazes de estimular todo o mercado imobiliário, e muito menos o mercado subprime (subprime se refere a tomadores de empréstimo com histórico de crédito ruim).  É aí que entra em cena a segunda política governamental: ação afirmativa para empréstimos.
Fannie e Freddie não eram as únicas entidades utilizadas para reduzir os padrões de empréstimos.  Agências governamentais de vários tipos começaram a pressionar os bancos a fazerem empréstimos mais arriscados, e tudo em nome da "igualdade racial".  Caso se recusassem a assumir este comportamento temerário, os bancos poderiam ser legalmente processados por discriminação e racismo.
Em 1992, um estudo feito pela sucursal do Federal Reserve de Boston afirmou ter encontrado claras evidências de que, mesmo levando-se em conta as diferenças na capacidade creditícia de cada indivíduo, as minorias recebiam menos empréstimos do que os brancos.  Tal estudo foi considerado como definitivo por aqueles já dispostos a acreditar em sua conclusão: a saber, que os bancos americanos discriminavam negros e hispânicos — mas, curiosamente, não discriminavam os asiáticos, que recebiam ainda mais empréstimos do que os brancos.
Este estudo ressuscitou uma lei conhecida Community Reinvestment Act.  Trata-se de uma lei criada ainda no governo de Jimmy Carter, no final da década de 1970, e que foi plenamente revigorada no governo Clinton.  Esta lei deixou os bancos à mercê de processos por discriminação caso eles não emprestassem para minorias em um volume suficientemente alto, que satisfizesse as autoridades.
De acordo com as regras do Community Reinvestment Act (CRA), se um banco quisesse fazer qualquer alteração em suas operações comerciais — fusão, abertura de uma filial, entrada em uma nova linha de negócios —, ele deveria primeiro provar aos reguladores que ele, o banco, já fez uma quantidade "suficiente" de empréstimos aos mutuários preferidos do governo — no caso, minorias e pessoas de baixa renda.  
E, a partir de 1995, o governo americano passou a pressionar os bancos para que fizessem empréstimos sem que pudessem verificar critérios minimamente prudentes, como histórico de crédito do tomador de empréstimo, seu histórico de poupança e a magnitude do pagamento da hipoteca em relação à sua renda.  Os bancos não podiam nem sequer verificar a renda do mutuário.  Adicionalmente, o Banco Central americano havia dito aos bancos que a simples participação deste mutuário em programas de aconselhamento de crédito, muitos dos quais são financiados com fundos federais, poderia ser usada como "prova" da capacidade desse mutuário de baixa renda honrar seus pagamentos hipotecários.  Em outras palavras, os reguladores bancários federais exigiram que os bancos fizessem empréstimos ruins baseando-se em padrões de crédito inexistentes.
Vale novamente enfatizar que nada do que foi escrito até agora é matéria de controvérsia ou de dúvidas.  Toda a literatura a respeito do CRA e das políticas de ação afirmativa impostas por este decreto são de conhecimento público.  Para detalhes mais profundos sobre o tema, recomendo este artigo, bem como todas as suas referências bibliográficas.
A década de 2000 — a intensificação de tudo
Até aqui, falamos apenas sobre duas políticas governamentais voltadas para estimular a aquisição de imóveis: as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, e o decreto CRA.
Estas duas políticas governamentais ajudam a explicar por que houve uma bolha imobiliária, mas elas por si sós não justificam toda a amplitude da bolha imobiliária.  Adicionalmente, como mostrado no gráfico 1, foi só a partir da década de 2000 que os preços dos imóveis realmente dispararam.  Por quê?
Incentivos à especulação
Em primeiro lugar, é crucial entender a questão dos incentivos.  A partir do momento em que os critérios exigidos para se conceder empréstimos imobiliários foram artificialmente relaxados por imposição do governo americano, e a partir do momento em que o próprio governo adotou políticas que estimulavam a aquisição de imóveis, foi apenas uma questão de tempo para que o setor imobiliário se tornasse um território propício à especulação.  
O aumento na demanda por imóveis — estimulado pelo acesso artificialmente facilitado aos financiamentos — gerou um inevitável e contínuo aumento nos preços dos imóveis.  Este aumento contínuo, por sua vez, produziu o "inesperado" efeito de atrair especuladores para o mercado imobiliário.  Tornou-se extremamente comum um indivíduo adquirir um empréstimo, comprar uma casa, fazer alguns aprimoramentos nesta casa e, apenas um ano depois, revendê-la a um preço muito maior, entregando a hipoteca para o novo comprador que, seis meses depois, faria a mesma coisa que seu antecessor.  Ou seja, comprar um imóvel havia virado um investimento altamente rentável e de ganho certo. 
Aqueles que não compravam com a intenção de revender passaram a utilizar suas casas como um caixa eletrônico: sempre que o imóvel se valorizava, o indivíduo ia ao banco e, utilizando o novo valor da sua casa como colateral, negociava um novo empréstimo para gastar em bens de consumo, como carros e televisores de plasma.
Um arranjo como este perdura enquanto os preços dos imóveis estiverem em ascensão.  Se os preços começarem a cair, duas coisas ocorrerão: a revenda do imóvel passará a dar prejuízo e o valor da hipoteca será maior do que o valor do imóvel, o que impedirá qualquer tipo de renegociação com os bancos e deixará o mutuário com um patrimônio negativo.  Em suma, todo o esquema especulativo virá abaixo.  E não apenas isso: dar o calote e abandonar o imóvel passará a ser a opção mais racional (e, como veremos mais abaixo, foi isso o que ocorreu no final da década.)
Agências de classificação de risco
Mas o que tornou possível essa contínua especulação?  O que fez com que Fannie e Freddie fossem capazes de comprar e revender títulos lastreados em hipotecas ininterruptamente?  Como dito acima, em setembro de 2008, ambas as empresas detinham metade das hipotecas do país e praticamente 75% das hipotecas recém-concedidas.  De onde vieram os fundos que permitiram isso?  Resposta: de duas fontes.
Em primeiro lugar, não se pode de modo algum ignorar a função deletéria exercida pelas agências de classificação de risco, como Moody's, Fitch e Standard & Poor's.  Sem elas, a bolha imobiliária certamente teria sido menor.  Qual foi o estrago que elas fizeram? 
Para entender, voltemos àquele exemplo prático dado logo no início do artigo.  Um americano típico, John Smith, vai a um banco qualquer e consegue um empréstimo para comprar um imóvel.  Ato contínuo, este banco irá revender este empréstimo (que é um ativo) para Fannie e Freddie.  Ambas terão a opção de ou manter este ativo ou revender este ativo.  Na maioria das vezes, como mostram os números do parágrafo acima, elas mantinham este ativo em suas carteiras.  Porém, em vários casos, elas empacotavam estes ativos e revendiam para investidores de todo o mundo, em sua esmagadora maioria grandes conglomerados financeiros e grandes bancos de investimento. 
Bear Stearns, Lehman Brothers, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Merril Lynch, Morgan Stanley, Citibank, Bank of America eram os compradores americanos mais famosos, ao passo que Barclays, Royal Bank of Scotland e Northern Rock (Reino Unido), BNP Paribas e Société Générale (França), Credit Suisse e UBS (Suíça), e Deutsche Bank (Alemanha) eram os mais famosos compradores da Europa.
Esta prática de empacotar ativos e revendê-los é chamada de securitização.  O principal problema com esta securitização é que ela misturava ativos bons (mutuários com bom histórico de crédito) com ativos ruins (mutuários sem nenhum histórico de crédito) no mesmo pacote.  Logo, quem comprava um pacote contendo ativos bons também acabava por tabela adquirindo ativos ruins.  Qualquer calote dos ativos ruins afetaria sobremaneira os balancetes destas instituições.
Portanto, a pergunta inevitável é: como estes grandes bancos foram seduzidos a comprar estes ativos (tecnicamente chamados de derivativos de crédito) contaminados?  Resposta: porque agências de classificação de risco, como Moody's, Fitch e Standard & Poor's, deram classificação máxima (AAA) para estes ativos. 
O que nos leva à próxima pergunta: por que estas agências cometeram erros tão crassos?  As respostas variam.  Há quem diga que, como durante todo o período os preços dos imóveis só faziam subir e os títulos lastreados em hipotecas estavam gerando grandes retornos, com pouquíssimos calotes, as agências optaram pela decisão superficial de classificá-los de maneira extremamente favorável.  Há também quem diga que todos os departamentos do governo federal americano que possuíam ligações com o setor imobiliário e que estavam incentivando políticas de compra de imóveis fizeram pressão neste sentido.  Neste caso, as agências de classificação de risco simplesmente não quiseram se opor a iniciativas politicamente populares.
O que realmente se sabe é que estas três agências de classificação de risco são um cartel estritamente regulado pela SEC (a CVM americana).  É a SEC quem permite a existência destas três agências, e é ela quem regulamenta e decide quem pode e quem não pode entrar neste mercado.

Na prática, isso significa que não pode surgir concorrência externa, pois o governo não deixa. Quem vai ter cacife para bancar uma agência de classificação de risco que seja genuinamente independente neste cenário altamente regulamentado?  Há um longo e extenuante processo burocrático-regulatório, de modo que é impossível surgir uma agência para confrontar as classificações destas três grandes.
Portanto, é perfeitamente plausível imaginar que estas três agências não iriam querer criar turbulência política e se indispor com o governo americano rebaixando a classificação dos títulos hipotecários.  Isso poderia colocar em risco seu privilegiado cartel (totalmente protegido pelo governo americano) e, consequentemente, afetar seus portentosos lucros.  O fato é que estas agências merecem toda a culpa que lhes foi atribuída.  Elas estavam apenas fazendo o que o governo lhes mandava.
O principal culpado de tudo
No entanto — e este é o tema desta seção — absolutamente nada disso teria sido possível caso não houvesse uma entidade com o poder legal de criar dinheiro do nada e injetar este dinheiro no setor bancário para que os bancos pudessem continuamente criar mais empréstimos.  Sem uma entidade alimentando todo este sistema com dinheiro criado do nada, não teria sido possível que (1) os empréstimos bancários para a aquisição de imóveis aumentassem continuamente por 15 anos; (2) que os preços dos imóveis disparassem, alimentando todos os tipos de atividades especulativas; (3) que Fannie Mae e Freddie Mac fossem capazes de atrair um volume cada vez maior de dinheiro de investidores por contarem com a proteção implícita do governo; (4) que o decreto CRA fosse bem-sucedido em obrigar os bancos a continuamente fazer empréstimos para pessoas com histórico de crédito duvidoso.
Em suma: sem um Banco Central criando dinheiro e dando este dinheiro aos bancos para que estes concedessem empréstimos — e, com isso, fizessem com que a quantidade de dinheiro na economia americana aumentasse continuamente —, não teria como haver uma bolha imobiliária.  Certamente, não uma bolha destas proporções. 
Todo este novo dinheiro criado pelo Banco Central americano (Fed) e multiplicado pelo sistema bancário por meio do processo de reservas fracionárias foi majoritariamente canalizado para o setor imobiliário.  E, para intensificar ainda mais as distorções, os critérios excessivamente frouxos para a concessão de empréstimos — critérios estes gerados por políticas governamentais criadas exatamente com este propósito — fizeram com que especulações e compras imobiliárias excessivas parecessem investimentos geniais. 
Portanto, eis o resumo: as medidas governamentais visando à redução dos padrões de empréstimos em conjunto com os privilégios usufruídos pelas para-estatais Fannie Mae e Freddie Mac desviaram para o setor imobiliário uma fatia extremamente volumosa de todo o dinheiro que o Banco Central e o sistema bancário do EUA estavam criando.  Para tornar a tempestade ainda mais perfeita, as agências de classificação de risco contribuíram para a bagunça concedendo classificação máxima para todos os títulos imobiliários oriundos deste arranjo, principalmente aqueles títulos de emprestadores sem nenhum histórico de crédito.  Isso fez com que os grandes bancos americanos, e também os grandes bancos estrangeiros, comprassem títulos hipotecários em quantias volumosas, permitindo que Fannie e Freddie continuassem dando liquidez ao mercado imobiliário, perpetuando a bolha.
Mas foi o Fed, em última instância, quem tornou possível todo o boom artificial do setor imobiliário, e foi todo o dinheiro por ele criado quem forneceu o principal estímulo à subida estrondosa dos preços dos imóveis vista na década de 2000.
Anatomia do colapso
Tendo em mente todo este arranjo, e sabendo como tudo funcionava, podemos agora ver como tudo ocorreu. 
A bonança
Todo o processo começou a ser desencadeado no final do ano 2000, quando houve o estouro da bolha das empresas de tecnologia.  Temendo uma iminente recessão, o Fed aumentou suas injeções de dinheiro no sistema bancário para gerar uma redução nos juros.  Estas injeções de dinheiro foram intensificadas logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.  Durante este período, a taxa básica de juros da economia americana caiu de 6,5% para 1%.  E assim ficou até meados de 2004.
O gráfico abaixo ilustra este período.  A linha azul, eixo da esquerda, mostra a evolução da taxa básica de juros da economia americana.  A linha vermelha, eixo da direita, mostra a evolução da base monetária, que é uma variável sob total controle do Banco Central, e que representa todo o criado pelo Banco Central.  Observe a aceleração ocorrida a partir de 2001.
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Gráfico 2: evolução da taxa básica de juros (linha azul, eixo da esquerda) e evolução da base monetária (linha vermelha, eixo da direita).
Este aumento na base monetária deixou os bancos repletos de dinheiro para ser emprestado.  E emprestar foi o que eles fizeram, e majoritariamente para o setor imobiliário. 
O gráfico abaixo mostra os empréstimos totais feitos pelo setor bancário (linha azul).  E mostra também os empréstimos exclusivamente voltados para a aquisição de imóveis (linha vermelha).  Observe a evolução desde 1980, e a grande aceleração ocorrida na década de 2000.
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Gráfico 3: evolução do crédito total concedido pelo setor bancário (linha azul) e evolução do crédito total concedido à compra de imóveis (linha vermelha).
Vale observar que, de 2000 a 2008, o crédito total aumenta incríveis 100%, de US$3,5 para US$7 trilhões.  Isso significa que o sistema bancário, estimulado pelo Fed, jogou US$3,5 trilhões na economia americana em apenas 8 anos.  Para a aquisição de imóveis foram direcionados "módicos" US$2 trilhões (de US$1,5 trilhão para US$3,5 trilhões).
Ou seja, dos US$3,5 trilhões jogados na economia, US$2 trilhões foram para o setor imobiliário.  Acrescente a isso todas as medidas governamentais citadas ao longo deste artigo, e realmente não há absolutamente nenhum motivo para se estranhar a bolha imobiliária que foi formada.
Isso explica toda aquela elevação de preços observada no gráfico 1.  De 1993 a 2006, os preços dos imóveis se apreciaram acentuadamente.  Em alguns mercados específicos, até mesmo os preços das moradias mais simples se tornaram astronomicamente altos.  Esta subida nos preços estimulava novos investimentos em mais construções de imóveis, o que gerava um aumento na oferta de imóveis.  E este aumento na oferta de imóveis viria, mais à frente, a exercer uma pressão baixista nos preços dos imóveis.
O colapso
A partir de meados de 2004, com a economia americana já recuperada da recessão de 2001, o Fed começou a reduzir o ritmo de injeções de dinheiro no sistema bancário.  Consequentemente, os juros começaram a subir.
O gráfico abaixo mostra esta correlação entre desaceleração do crescimento da base monetária e aumento da taxa básica de juros.
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Gráfico 4: evolução da taxa básica de juros (linha azul, eixo da esquerda) e evolução da base monetária (linha vermelha, eixo da direita).
Este aumento da taxa básica de juros de 1% para 5,25% afetou as taxas de juros dos empréstimos imobiliários.  Os juros das hipotecas com taxas ajustáveis (linha vermelha) saem de uma mínima de 3,5% no início de 2004 e vão para quase 6% em meados de 2006.  Já os juros das hipotecas convencionais, de 30 anos (linha azul), vão de 5,5% para quase 7% neste mesmo período.
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Gráfico 5: evolução das taxas de juros das hipotecas com taxas ajustáveis (linha vermelha) e evolução das taxas de juros das hipotecas convencionais, de 30 anos (linha azul)
Este aumento dos juros esfriou a demanda por imóveis.  Uma redução na demanda por imóveis em conjunto com um acentuado aumento na oferta de imóveis gerou o inevitável: no final de 2006, os preços começaram a cair.
A queda nos preços — na realidade, a percepção de que os preços não mais iriam aumentar — arrefeceu toda a atividade especulativa.  Pessoas que haviam comprado imóveis para especular viram que a festa havia acabado.  O que elas fizeram?  Simplesmente pararam de pagar suas hipotecas.  Deram o calote.  Por quê?  Porque elas haviam pegado empréstimos extremamente generosos, que não exigiam absolutamente nenhum pagamento de entrada.  Elas simplesmente abandonaram seus imóveis.  Não perderam nada.
Já outras pessoas pararam de pagar suas hipotecas simplesmente porque o aumento dos juros havia tornado impossível continuar honrando suas prestações.
A combinação destes dois fatores fez com que os calotes totais nos empréstimos imobiliários disparassem.  Começou timidamente em 2006.  Disparou em 2007.  Foi para a estratosfera em 2008. 
De 2005 até o final de 2008, os calotes pularam de US$20 bilhões para US$170 bilhões.  Um aumento de 750% em 4 anos.
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Gráfico 6: Inadimplência total dos empréstimos garantidos por imóveis
A partir daí, o resto é história.  O aumento nos calotes fez com que todos os bancos de investimento que haviam comprados títulos lastreados em hipotecas repentinamente não mais auferissem essa receita.  O valor destes ativos caiu para zero.  Uma redução nos ativos sem uma concomitante redução nos passivos fez com que vários destes bancos sofressem uma brutal redução em seu capital (patrimônio líquido).  Com o capital afetado, os bancos simplesmente pararam de conceder novos empréstimos, inclusive entre eles próprios no mercado interbancário.  Isso gerou o famoso problema do congelamento do mercado de crédito. (Veja no gráfico 3 como a linha azul se torna plana no primeiro semestre de 2008).  Consequentemente, vários bancos começaram a enfrentar sérios problemas de liquidez.
Essa crise começou a se tornar mundialmente visível em agosto de 2007.  No dia 9 daquele mês, o banco francês BNP Paribas anunciou que estava suspendendo saques em dois dos seus fundos que haviam investido volumosamente em títulos lastreados em hipotecas americanas.  Isso afetou o banco britânico Northern Rock, que dependia exatamente destes fundos de investimento para conseguir liquidez.  Incapaz de conseguir um empréstimo de curto prazo no mercado bancário, o Northern Rock recorreu ao Banco Central da Inglaterra para pedir um empréstimo de 3 bilhões de libras.  Tudo parecia estar indo bem, exceto por um detalhe: um informantedentro do Banco da Inglaterra alertou a BBC sobre a operação no dia 13 de setembro de 2007.  A notícia de que o banco estava insolvente se espalhou como fogo na pólvora e, na manhã seguinte, houve uma corrida bancária ao Northern Rock, com correntistas ávidos para sacar seu dinheiro.  Foi a primeira corrida bancária em larga escala desde 1930.  O governo britânico anunciou que iria garantir todos os depósitos do banco.  No dia 17 de fevereiro de 2008, após o governo recusar várias ofertas de aquisição pelos outros bancos, o Northern Rock foi nacionalizado.
bank-run-04.gifDaí por diante, todo o castelo de cartas começou a desabar. 
O banco de investimentos Bear Stearns se tornou insolvente em março de 2008.  O Tesouro americano orquestrou sua aquisição pelo JP Morgan. 
No dia 7 de setembro, Fannie Mae e Freddie Mac foram nacionalizadas completamente. 
Na semana seguinte, o Fed orquestrou a aquisição do Merril Lynch pelo Bank of America. 
No dia 15 de setembro, o Lehman Brothers anunciou sua falência.  Não houve socorro. 
No dia seguinte, a seguradora AIG, de alcance global, também anunciou que estava sem dinheiro.  O caso da AIG é interessante.  Ela repentinamente se descobriu sem dinheiro não porque havia investido em títulos lastreados em hipotecas, mas sim porque havia emitidos seguros contra o calote de hipotecas (os chamados "credit default swaps").  Sempre que uma instituição era caloteada por algum devedor, ela recorria à AIG, que havia emitido apólices contra esses calotes hipotecários.  Com a súbita disparada nos calotes, a AIG repentinamente foi para o vermelho.
E por que a AIG havia emitido tantas apólices de seguro contra calotes de hipotecas?  Porque ela havia sido informada pelo governo de que os preços dos imóveis jamais cairiam, e havia também sido informada pelas três agências de classificação de risco e que os títulos lastreados em hipotecas eram AAA — isto é, extremamente confiáveis e seguros.  Ou seja, em troca desta segurança prometida, a AIG emitiu várias apólices e coletou uma boa soma em anuidades.  Até que tudo se reverteu, e todos os bancos foram correndo resgatar seus prêmios.
No total, até o fim do ano de 2008, o Fed viria a emprestar US$125 bilhões para a AIG em troca de 80% da empresa.  Segundo o The New York Times, esta foi "a mais radical intervenção no setor privado em toda a história do Banco Central".
Após todas estas intervenções, o Fed assumiu uma postura totalmente inaudita em toda a sua história: ele simplesmente passou a comprar todos os títulos hipotecários em posse dos bancos.  Ou seja, ele passou a imprimir dinheiro e dar aos bancos em troca dos títulos hipotecários em posse destes bancos.  Isso limpou o balancete dos bancos e fez com que a base monetária explodisse.  No entanto, e felizmente, todo este aumento da base monetária não se converteu em expansão do crédito.  Ou seja, os bancos não jogaram este dinheiro na economia.  A quase totalidade do aumento da base monetária transformou-se em "reservas em excesso".  "Reservas em excesso" são as reservas que os bancos mantêm voluntariamente depositadas junto ao Fed, além do volume determinado pelo compulsório. 
O gráfico abaixo mostra a evolução da base monetária (linha azul) e das reservas em excesso (linha vermelha), que representa o dinheiro que os bancos não emprestaram ao público porque preferriam mantê-lo voluntariamente depositado junto ao Fed, que está pagando juros de 0,25% ao ano sobre este montante.
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Gráfico 7: evolução da base monetária (linha azul) e evolução das reservas em excesso (linha vermelha)
Toda esta nova política adotada pelo Fed resultou em um generoso e gratuito subsídio para o sistema bancário.  No final, não apenas seus lucros dos tempos da bonança foram mantidos, como os prejuízos ainda foram socializados.  Atualmente, os bancos de Wall Street operam em um regime de risco quase nulo: eles fazem empréstimos hipotecários, revendem os títulos das hipotecas para o Fed, recebem o dinheiro de volta (com um lucro), e ainda deixam boa parte deste dinheiro recebido do Fed depositado no próprio Fed, que está pagando 0,25% ao ano sobre este montante.
Por causa de toda a intervenção governamental, toda a lambança acabou valendo a pena para os bancos.
Conclusão
Não é o escopo deste artigo fazer digressões sobre como o governo americano e seu Banco Central deveriam ter atuado durante a crise.  Crises bancárias é um assunto vasto e complexo, e merece um artigo à parte (um esboço pode ser visto aqui e um mais completo aqui).  Tampouco houve o intuito de fazer algum juízo de valor.  A única intenção foi mostrar, sem ideologias ou partidarismos, como realmente se desenrolou todo o processo que levou à formação de uma bolha imobiliária, como se deu seu estouro e como isso afetou todo o sistema bancário.
De posse de todas as informações aqui contidas, o leitor deve se fazer as três seguintes perguntas:
1) Todo este arranjo apresentado configura um sistema totalmente desregulamentado, um genuíno laissez-faire, ou, ao contrário, representa um sistema fortemente intervencionista, no qual políticos, burocratas e reguladores determinavam regras e agitavam em prol de suas conveniências?
2) Um sistema bancário que goza de uma garantia implícita dada pelo governo — de que haverá socorro caso as coisas deem erradas — tende a apresentar comportamentos mais temerários ou mais prudentes?
3) Sem um Banco Central criando dinheiro e permitindo aos bancos manterem suas expansões creditícias de modo crescente, será que tudo isso teria sido possível?
As respostas a estas perguntas têm de estar claras antes de se iniciar qualquer debate a respeito da crise.

Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.