sábado, 7 de setembro de 2013

PREPARE O BOLSO: COM DÓLAR ALTO, EMPRESAS PROMETEM REAJUSTE DE ATÉ 12%

PREPARE O BOLSO: COM DÓLAR ALTO, EMPRESAS PROMETEM REAJUSTE DE ATÉ 12%


POR DIEGO AMORIM E ROSANA HESSEL

O governo comemorou ontem os resultados da megaintervenção anunciada pelo Banco Central, que resultará na injeção de mais US$ 60 bilhões no mercado até o fim do ano. Depois de ter atingido R$ 2,45 na quarta-feira, a maior cotação desde 2008, a moeda norte-americana fechou a semana valendo R$ 2,353, registrando expressiva queda de 3,23%. Mas esforço algum será suficiente para impedir que o novo patamar da taxa de câmbio contamine os preços e prejudique o orçamento das famílias. A depender do segmento empresarial, as tabelas serão reajustadas em até 12%.

Grandes importadores do país não acreditam em recuos maiores do dólar até o fim do ano, e já renegociam as encomendas para o Natal. No caso dos alimentos e das bebidas, a arrancada da moeda norte-americana encarecerá os produtos entre 8% e 12% no início de setembro, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas (Abba), Adilson Carvalhal Júnior. O nível de importação das empresas, informou ele, caiu 10% desde junho.

Já no setor de eletroeletrônicos, bastante dependente de suprimentos importados, os preços devem subir de 7% a 12% no próximo mês. Computadores e, sobretudo, celulares, que têm quase 90% das peças trazidas de fora, custarão mais. “Não há escapatória. Portanto, quem puder antecipar as compras de Natal, que o faça, porque esses aparelhos estarão bem mais caros no fim do ano”, aconselhou o diretor de pesquisa da Consultoria IT Data, Ivair Rodrigues.

Diante dos sinais emitidos pelas empresas, o Ministério da Fazenda decidiu aumentar a vigilância da economia, para conter abusos. O entendimento do governo é de que, com a ação do Banco Central, que totalizará intervenções de US$ 105 bilhões, pois US$ 45 bilhões já foram despejados no mercado, é de que não há mais motivo para estresse ou especulação. A tendência, disseram integrantes da equipe econômica, é de que a divisa dos Estados Unidos se estabilize em um patamar mais próximo de R$ 2,30. “O importante é que haja previsibilidade. A economia não pode conviver com tantas incertezas, sendo o câmbio um fator importantíssimo para a formação dos preços da economia”, disse um técnico.

Falta de confiança

Quase tudo o que é vendido no Brasil está atrelado ao dólar de alguma forma. Para compensar as transações mais caras, as companhias se dizem obrigadas a reajustar os preços. “Desta vez, a variação cambial assusta mais, porque há um grave problema de descrédito com o país. A falta de confiança entre os empresários é muito alta”, sublinhou Carvalhal.

Uma das alternativas do governo para conter os repasses exagerados de preços é reduzir impostos sobre importados. Uma lista com centenas de produtos já foi divulgada neste mês, justamente para compensar a alta do dólar. “Sabemos que já está havendo repasses, mas em proporções pequenas, uma vez que a atividade está mais lenta que o desejado. Ou seja, os consumidores estão retraídos, com elevado endividamento, e não têm aceitado arcar com aumentos de preços fora do normal”, acrescentou outro integrante da equipe econômica.

Ele reconheceu que ainda é cedo para acreditar que os resultados das intervenções do BC são para valer. Mas admitiu que a presidente Dilma Rousseff deposita muita confiança na medida, como forma de manter a inflação sob controle e de evitar que o Comitê de Política Monetária (Copom), que se reunirá na próxima semana, seja obrigado a elevar tanto os juros. A expectativa dos analista é de que, na quarta-feira, quando o BC baterá o martelo, a taxa básica (Selic) passe dos atuais 8,50% para 9% ao ano. “O consenso dentro do governo é de que o aumento da Selic será de 0,5 ponto percentual, para acalmar os ânimos do mercado e reforçar a visão dos investidores de que se está trabalhando em todas as frentes para corrigir eventuais distorções”, frisou um assessor do Palácio do Planalto.

Estoque elevado

O Walmart é um dos grandes varejistas que começou a refazer o planejamento para o fim do ano, de acordo com o vice-presidente da marca no Brasil, Alain Benvenuti. A empresa reduziu em 15% o volume de importados para o Natal e intensificou as negociações com os fornecedores locais, na intenção de tentar absorver o impacto da escalada do dólar.

Como o consumo no país caiu nos últimos meses, os estoques do varejo estão acima da média, o que pode ser uma vantagem para os consumidores neste momento de forte desvalorização do real. “É possível encontrar produtos de linhas mais antigas, com preços 20% abaixo dos registrados nos “, destacou o diretor da Consultoria IT.

O impacto da mudança do câmbio, explicou o consultor, revela um problema estrutural no Brasil: as indústrias sem fumaça, que fabricam produtos com componentes basicamente vindos do exterior. “Celulares, por exemplo, são montados aqui com quase todas as peças importadas. A tela de um televisor de LCD, item que responde por 90% do custo total do produto, também vem de for a”, emendou.

Antes de mexer na tabela, os atacadistas decidiram esperar um pouco mais. Mas aumentos podem surgir, também em setembro. “Vamos ter o pé no chão. Não é hora de aumentar preço. No entanto, se a situação do câmbio continuar assim, não teremos escolha”, ponderou o presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados (Abad), José do Egito Frota Lopes.

Sem escapatória

Mesmo que o impacto nos preços não existisse, o dólar descontrolado não é bom para o Brasil, acrescentou o presidente da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), Edmundo Klotz. Ele reforçou que, ao mesmo tempo em que potencializa as exportações, a desvalorização do real eleva os custos da produção interna, uma vez que boa parte dos insumos — no caso do agronegócio — tem cotação internacional. São commodities.

O BRASIL DO DESPERDÍCIO: A CADA ANO, PAÍS JOGA R$ 1 TRILHÃO NO LIXO



POR VICTOR MARTINS, DIEGO AMORIM E CAROLINA MANSUR

Todos os anos, cerca de R$ 1 trilhão, o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina, é desperdiçado no Brasil. Quase nada está imune à perda. Uma lista sem fim de problemas tem levado esses recursos e muito mais. De cada R$ 100 produzidos, quase R$ 25 somem em meio à ineficiência do Estado e do setor privado, a falhas de logística e de infraestrutura, ao excesso de burocracia, ao descaso, à corrupção e à falta de planejamento.

Além de dinheiro, que poderia ser investido em educação, saúde e transporte público, escorre pelo ralo muitas outras oportunidades. O Brasil deixou passar a bonança externa — entre 2003 e 2008, o mundo viveu a sua era de ouro, puxado pelo supercrescimento chinês — sem fazer as reformas estruturais necessárias à economia. Agora, se vê sem capacidade de colher os frutos do bônus demográfico, período único em que as nações usam a sua força de trabalho para se tornarem ricas. De farto e próspero, o país ganha cada vez mais a cara do desperdício.

Não à toa, o Brasil está tomando uma sova de desconfiança. O real, que ostentou, por anos, o status de moeda forte, é hoje a divisa no mundo que mais perde valor ante o dólar. Para piorar, o crescimento médio anual do PIB, de 1,8%, é o menor em 20 anos. A inflação se mantém sistematicamente próxima ao teto da meta, de 6,5%. Os investimentos produtivos minguam e a confiança das famílias está no chão. Mais uma vez, o futuro que nos parecia tão perto começa a tomar feições de miragem.

O período de forte crescimento global na década passada, quando havia grande fluxo de capitais e os nossos produtores agrícolas eram muito bem pagos para alimentar o planeta, deu a folga necessária para a administração pública aposentar a incompetência e a ineficiência e entrega serviços melhores, apesar da montanha de dinheiro que os brasileiros depositam todos os meses nos cofres da Receita Federal. Nada foi feito. “Infelizmente, fizemos a opção pelo atraso”, resume o economista Paulo Rabello de Castro, presidente do Instituto Atlântico e integrante do Movimento Brasil Eficiente.

Amarras

Nas últimas três semanas, o Correio vasculhou o país para ir além do que se habituou a chamar de Custo Brasil. O resultado encontrado é assustador. As manifestações que tomaram as ruas entre maio e junho surpreenderam muita gente. Mas o desperdício justifica o sentimento de basta. Não é mais aceitável que uma nação com tantos recursos naturais, apontada como o maior celeiro do mundo, jogue no lixo, todos os anos, o equivalente a quase um quarto do PIB nacional. Essa, ressalte-se, é a parte visível dos prejuízos, baseada em estimativas conservadoras, admitem os especialistas.

A falta de cultura de manutenção e de planejamento e um sistema político que facilita os desmandos e os malfeitos se transformaram em barreiras que impedem que tanto dinheiro seja revertido em benefícios à sociedade. Água, energia elétrica, comida — tudo vai fora. Por causa das amarras da burocracia, as firmas perdem 2,6 mil horas por ano. Em países desenvolvidos esse tempo é dez vezes menor. Tal fatura, se convertida em dinheiro, pode chegar a R$ 200 bilhões. “Há também o desperdício moral. Todos esses problemas desmoralizam a capacidade desse eu coletivo, que é a sociedade brasileira, de ter vontade de perseguir a eficiência, a produtividade e o comprometimento com o sucesso”, argumenta Rabello de Castro.

A pesada carga tributária é o veículo por meio do qual o governo suga os recursos que serviriam de energia vital para as empresas e para as famílias. Verbas que viram gastos estéreis, jogados em obras que não andam. A ineficiência do Estado, contudo, tem queimado mais que dinheiro, despreza as chances de brasileiros que amargam uma vida de pobreza, impede uma educação formal de qualidade, ceifa vidas em leitos de hospitais sem estrutura.

Um carimbo em tempo hábil pode ser a diferença entre viver e morrer, ao menos para quem depende da saúde pública no interior do país. Em Águas Lindas (GO), distante quase 40 quilômetros da sede do Ministério da Saúde, em Brasília, é comum os pacientes terem de se deslocar para a capital federal em busca de atendimento. Muitos morrem no meio do caminho.

O socorro não pode ocorrer no município porque um dos hospitais da cidade, que deveria ter quase 300 leitos, está abandonado. A licitação para a obra foi embargada devido à corrupção. “É preciso reconhecer que a forma como o Estado contemporâneo atua não é mais capaz de atender as necessidades da população”, observa Márcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo. Ele pondera que a forma de organização dos governos está ultrapassada, e encontrar maneiras de pensar e executar políticas públicas é um desafio não apenas do Brasil.

Diante de tanto descalabro, os especialistas são unânimes em um ponto: as ineficiências do Brasil são a maior fonte de riqueza e de oportunidade. Se todos os recursos desperdiçados fossem devidamente aproveitados, o país trocaria a cadeira de emergente por uma de desenvolvido. O PIB potencial, que é a taxa de crescimento possível sem gerar inflação e desequilíbrios, seria bem maior que os 2% ou 2,5% atuais. A população poderia ser beneficiada verdadeiramente com serviços públicos e privados eficientes.

O BRASIL DO DESPERDÍCIO: COMIDA JOGADA FORA ALIMENTARIA O MUNDO



POR DIEGO AMORIM

O Brasil esbanja recursos naturais. De tudo se perde. A cada ano, 26,3 milhões de toneladas de comida são jogadas fora: volume suficiente para distribuir 131,5 kg para cada brasileiro ou 3,76 kg para cada habitante do planeta. Toda essa comida alimentaria facilmente os 13 milhões de brasileiros que ainda passam fome, nas contas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Poderia ainda facilitar o trabalho do Banco Central no combate à inflação. Com uma oferta maior de produtos, os preços não subiriam tanto e o país poderia até mesmo diminuir a importação de feijão preto da China.

O desperdício de comida provoca mais do que prejuízos financeiros, gera revolta e inconformismo. Ainda assim, o Brasil pouco se mobiliza no sentido de mudar esse quadro aterrador. Desde 1998, a chamada Lei do Bom Samaritano, em alusão a uma passagem bíblica, tramita no Congresso Nacional, e não há previsão alguma para que seja votada. A intenção da proposta é isentar doadores de alimentos de responsabilidade civil e penal, se agirem de boa-fé, na distribuição de comida — semelhante ao que ocorre em países da Europa e nos Estados Unidos.

Enquanto essa lei não é aprovada, o Estado brasileiro pune severamente os doadores. A legislação atual prevê até cinco anos de prisão caso quem receba os alimentos sofra algum tipo de dano em decorrência da comida. Com isso, donos de restaurantes, por exemplo, se sentem obrigados a despejar no lixo as sobras diárias da produção. “É um crime”, define o diretor executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Gustavo Timo.

O ajuste na legislação, segundo Timo, poderia ajudar — e muito — o Brasil a conter o desperdício. “A regra em vigor é completamente inapropriada. Por parte do setor, não falta boa vontade”, insiste o representante da Abrasel, ressaltando que, em outros países, existem programas organizados de doações para evitar que toneladas de comida em bom estado acabem no lixo.

Entraves

Combater a assombrosa perda de alimentos, no entanto, é muito mais complexo. O pesquisador Antônio Gomes, do Centro de Agroindústria de Alimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), enumera outros entraves, como o manuseio inapropriado dos produtos no campo, as embalagens inadequadas utilizadas no transporte e o armazenamento ineficaz no atacado.

Aprimorar o escoamento da produção agrícola, sustenta Gomes, aumentaria a oferta de alimentos sem a necessidade de alterar a área plantada. Em determinados casos, como o da banana e o do morango, o desperdício no caminho entre a propriedade e a prateleira do supermercado chega a 40%. “Quem arca com esse prejuízo é o consumidor”, lembra o pesquisador da Embrapa, ao explicar que, no fim das contas, o produto que se perdeu no caminho se converte em aumento de preço.

O desperdício de que fala Gomes é facilmente percebido nas centrais de abastecimento. Por dia, os irmãos Berlândio e Ernandes da Silva jogam no lixo de 50 a 60 caixas de alimentos que, na avaliação deles, não poderiam ser aproveitados. “Às vezes, a comida já chega estragada. Ou então com uma aparência que a gente sabe que a dona de casa não vai comprar”, diz Ernandes.

Vida real

São muitos os brasileiros que, diariamente, ficam de prontidão nas Ceasas espalhadas pelo país, enquanto funcionários separam as frutas e verduras aceitáveis pelo mercado. “A gente fica sentido, porque, mesmo assim, a perda é muito grande. Tanta gente passando fome e nós aqui jogando essa comida no lixo”, desabafa Berlândio.

Desde que contraiu uma trombose na perna e perdeu o emprego de auxiliar de serviços gerais, Cilene de Sousa Rodrigues, 47 anos, vai à Ceasa de Brasília duas vezes por semana garantir os alimentos de casa, onde vive com seis pessoas. “Isso aqui é ouro”, afirma ela, segurando uma maçã retirada de uma caçamba de lixo. “Amanhã é dia de verdura”, avisava ela.

Cilene diz que “muita coisa boa” vai para o lixo. As maçãs descartadas na Ceasa, por exemplo, ela usa para fazer doces e geleias. E ainda distribui o que sobra para vizinhos e o motorista do ônibus que a leva de volta para casa. “Teria vergonha se estivesse roubando ou fazendo coisa errada. Pegar comida do lixo é algo honesto”, comenta a moradora do Recanto das Emas, na periferia da capital federal.

Todos os dias, milhares de pessoas também desperdiçam comida nos restaurantes. Além de não consumirem tudo o que foi produzido pelos estabelecimentos, deixam comida no prato. No restaurante self-service João Rosa, em Belo Horizonte, onde cerca de 350 refeições são servidas por dia — uma média de 120 quilos de comida —, a perda chega a 16% do total produzido, cerca de 20 quilos por dia. Em dinheiro, o prejuízo diário varia entre R$ 600 e R$ 800. No mês, considerando 20 dias úteis, pode chegar a R$ 16 mil.

Além da comida que sobra no buffet e vai para o lixo, em função das normas da vigilância sanitária que não permitem o reaproveitamento, a sócia-proprietária Catarina das Graças Artur, conta que parte do seu faturamento vai embora com aqueles que colocam a comida no prato, mas não comem. “Cerca de 30% não consomem tudo o que retiram dos recipientes”, afirma.

DESCRÉDITO TOTAL

 - POR VICENTE


O governo não cansa de reclamar do que considera um pessimismo exagerado em relação à economia. Mas bem que poderia dar uma boa ajuda — real, sem maquiagens — para tentar reverter parte da desconfiança que tomou conta da sociedade e está condenando o país a registrar, na administração Dilma Rousseff, a menor taxa de crescimento em 20 anos.

Até a próxima sexta-feira, o Ministério do Planejamento terá de encaminhar ao Congresso a proposta orçamentária de 2014. Não é segredo para ninguém que esse instrumento sempre foi uma peça de ficção. Contudo, seria de bom grado se o governo, desta vez, explicasse direitinho como será cumprida a meta fiscal do ano que vem, independentemente se de 1%, 2,3% ou 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Boa parte do mau humor dos agentes econômicos com o governo tem como base a farra nas contas públicas. Nos últimos três anos, foi vergonhoso ver a forma, descarada, com que o Tesouro Nacional recorreu a truques, malabarismo, artimanhas, para atingir a meta de superavit primário. Portanto, se ao menos, agora, houvesse sinais claros, consistentes, de que a transparência prevalecerá, talvez os investidores dessem um voto de confiança ao Palácio do Planalto.

Dado o histórico do governo Dilma, é difícil acreditar. Desde a desastrosa era Collor de Mello, apeada do poder por corrupção, não se via uma administração tão ruim. A qualquer pessoa que se pergunte hoje qual o grande legado da primeira mulher a ocupar o Palácio do Planalto, ninguém conseguirá responder. Mesmo depois de muito esforço da memória e da boa vontade de quem estiver sendo questionado.

Na verdade, quando se avalia a administração Dilma, o que se constata é um governo perdido, que recuou em quase todas as medidas que anunciou como conquistas para o Brasil. A mais notória delas, a queda da taxa básica de juros (Selic) para o menor patamar da história, de 7,25% ao ano, em outubro de 2012. Isso, mesmo com a inflação em alta, encostando no teto da meta perseguida pelo Banco Central, de 6,5%.

Depois de ter brincado com a inflação, que solapou o poder de compra das famílias e tirou a previsibilidade das empresas, em abril último, o Planalto autorizou o Comitê de Política Monetária (Copom) a elevar a Selic. A taxa saltou para 8,50% e deve passar a 9% ao ano na quarta-feira. Com um discurso ainda titubeante, o presidente do BC, Alexandre Tombini, avisou que os juros subirão ao nível que for necessário para que o custo de vida volte ao controle e se situe mais próximo de 4,5%, o centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Esse arrocho, porém, não seria necessário em uma economia que está crescendo abaixo de 2% se a taxa Selic não estivesse atrelada aos interesses da presidente Dilma de se reeleger em 2014. Também o país não estaria pagando um preço tão alto neste momento, com a disparada do dólar. Está evidente que parcela importante da desvalorização do real — de 20% apenas nos últimos três meses — decorre da perda de credibilidade da política econômica.

Nu e de joelhos

Com os investidores mais seletivos, voltando a direcionar recursos para os países ricos, em especial os Estados Unidos, ficou claro o quanto o Brasil estava nu. Além de não fazer nenhuma das reformas estruturais para modernizar o ambiente de negócios, o governo adotou uma postura intervencionista cuja principal meta foi represar a inflação. Reduziu à força as tarifas de energia, adiou o quanto pode o reajuste das passagens de ônibus e trens — aumento derrubado pelos protestos das ruas — e vem corrigindo, a conta-gotas, os preços dos combustíveis.

Mesmo com essa política ultrapassada, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) jamais ficou abaixo de 6% em 12 meses ao longo deste ano. Os especialistas garantem que a inflação real do Brasil estaria girando hoje entre 8% e 10% — um escândalo para um país que pagou um preço tão alto para alcançar a estabilidade agora ameaçada.

Dependência

Mas não é só. Ao insistir em estímulos ao consumo, o Planalto provocou um desequilíbrio perigoso nas contas externas. Com o aumento desenfreado das importações, já que a indústria nacional não teve condições de atender a demanda crescente, as transações correntes do país com o exterior saíram de um superavit (sobra de recursos) de 1,25% do PIB, em 2006, para um rombo de 3,4% em julho último.

Para fechar essa conta, o governo está tendo de recorrer a capitais especulativos, que deixam qualquer nação de joelhos ao menor sinal de estresse. São justamente os países mais dependentes desses recursos — Brasil, Índia e Turquia — que apresentam as moedas mais desvalorizadas.

Quando havia o tsunami cambial criticado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, os investidores pouco ligavam para as fragilidades dessas economias emergentes. Bastaram, contudo, os Estados Unidos avisarem que a enxurrada de dólares no mundo promovida pelo Federal Reserve (Fed) está chegando ao fim, para que a bolha estourasse.

Incompetência

Apesar das evidências claras dos estragos provocados na economia pelas escolhas erradas de Dilma, o Planalto já mandou preparar os tambores para tocarem na sexta-feira, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o PIB do segundo trimestre. O crescimento, ante os primeiros três meses do ano, deverá ficar entre 0,9% e 1,1%. Para o governo, será o sinal de que a atividade retomou o fôlego.

Para os que preferem lidar com a realidade, sem rodeios, será o retrato de uma economia que esboçou alguma reação, mas não conseguiu resistir à incompetência de quem dirige o país. Melhor será olhar para a frente e enxergar, com humildade, o que ainda pode ser feito rapidamente para que a situação não degringole de vez.

DESCASO COM A INFLAÇÃO LEVA JUROS A 9% AO ANO HOJE



POR DECO BANCILLON

Quando os diretores que integram o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central baterem hoje o martelo e elevarem a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto percentual, para 9% ao ano, conforme preveem os especialistas, eles estão assumindo o erro de cálculo da própria instituição, que, por um bom período, optou por abrir mão de fundamentos técnicos para atender os apelos políticos da presidente Dilma Rousseff.

Há dois anos, quando, sob pressão do Palácio do Planalto, o BC iniciou o processo de derrubada da Selic para o menor patamar da história, 7,25% ao ano, o presidente da instituição, Alexandre Tombini, justificou a medida como uma forma de proteger o país dos riscos que a recessão nas principais economias do mundo poderia provocar sobre a recuperação da atividade econômica no Brasil. Na prática, pregava que o menor crescimento externo ajudaria a reduzir a pressão sobre os preços de produtos e serviços no Brasil, o que não aconteceu. Muito pelo contrário.

Já naquele momento, a inflação no país vinha em uma espiral de alta, que culminou nos 6,5% acumulados em dezembro de 2011, teto da meta perseguida pelo BC. Tombini escapou de ser obrigado a emitir uma carta à Nação explicando os motivos de não ter cumprido a missão de manter o custo de vida no limite da tolerância. Nos meses seguintes, porém, foram frequentes o estouro da meta, mesmo com o ritmo da atividade desabando. A situação ficou tão complicada que, mesmo o BC tomando coragem para subir os juros a partir de abril, em nenhum momento deste ano o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou abaixo de 6%.

No entender dos especialistas, a crença do governo de que um pouquinho mais de inflação ajudaria a estimular o cambaleante Produto Interno Bruto (PIB) mostrou-se um equívoco, que minou tanto a confiança das famílias quanto do empresariado. Segundo o economista Juan Jensen, sócio da Consultoria Tendências, houve erros generalizados na condução da política econômica do governo Dilma. “A redução da taxa de juros promovida pelo BC foi uma medida que tinha como objetivo salvar o crescimento econômico, e não trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5%”, criticou.

Agora, acrescentou Jensen, mesmo que a Selic seja elevada dos atuais 8,5% para até 10% ao ano, como preveem as instituições que mais acertam nas pesquisas semanais realizadas pelo BC, a ação do Copom não será suficiente para levar o reajustes de preços para o centro da meta. “O governo está muito confortável com uma inflação de 6% ao ano”, disse.

Caso o BC realmente estivesse comprometido em levar a inflação para próximo de 4,5%, afirmou Alexandre Schwartsman , doutor em economia pela Universidade da Califórnia, os juros básicos teria de ir além de 12% ao ano. “Mas isso não vai acontecer, justamente porque 2014 é um ano de eleições, e o governo não quer correr o risco de prejudicar a candidatura da presidente Dilma Rousseff”, ponderou.

Para ele, a atual elevação da Selic é um esforço do BC em tentar reescrever a história. “Há uma tentativa (do BC) em tentar em mostrar que foi traído, que a culpa por a inflação ter fugido do controle foram os erros da política fiscal frouxa (do Ministério da Fazenda). Mas isso é uma tremenda história para boi dormir”, criticou. “O BC errou porque abandonou o compromisso de levar a inflação para o centro da meta.”

INDÚSTRIA SEM GÁS



POR ANTONIO MACHADO

Num dia tomado de simbolismos sobre o significado para os rumos da indústria e da tecnologia no mundo, motivado pela compra da divisão de telefonia celular da Nokia pela Microsoft, o IBGE jogou um balde de água fria ao divulgar que a produção industrial recuou em julho, repetindo o movimento em ziguezague que vem desde meados de 2012.

Os sinais de rearticulação das cadeias produtivas globais começam a ficar visíveis com o desentesouramento dos caixas bilionários das grandes multinacionais da indústria e de serviços no momento em que o mercado financeiro vive sobressaltado pela expectativa do fim do laxismo monetário do Federal Reserve, já antecipada pelo aumento da taxa de juros dos treasuries dos EUA. Há algo além desse viés.

O movimento previsível, pela ótica financista, tenderia a reforçar o empoçamento no mercado de papéis dos EUA dos lucros retidos pelas grandes corporações. A Microsoft fez o contrário, ao sacar US$ 7,2 bilhões de seu caixa gigantesco para comprar à vista e em dinheiro a operação completa de celular da Nokia, incluindo as patentes, e, assim, incorporar à sua atividade principal, basicamente a produção de softwares, também um braço industrial.

A empresa fundada por Bill Gates e Paul Allen e conhecida pelo seu programa mais famoso, o Windows, segue o Google, que pagou US$ 12,5 bilhões em agosto de 2011 pelo controle da Motorola, ambas, por sua vez, reconhecendo o sucesso do modelo da Apple, que sempre fez tudo no mundo da tecnologia da informação, TI, simplesmente — do sistema operacional ao aparelho (embora com fabricação terceirizada), sejam celulares, smartphones, consoles de games, tablets e notebooks.

Trata-se de uma transformação aparentemente maior do que a simples aquisição de uma empresa por outra. Falaremos disso noutro dia. Por ora, importa atentar para os movimentos cruzados entre produtores de “inteligência” na direção da indústria física e vice-versa.

O Google não desmente rumores de que pode considerar uma incursão no setor automotivo como passo seguinte ao seu sistema de piloto automático, que dispensa o motorista. Também se fala da aproximação de montadoras como Ford, GM e Toyota do mundo criativo e glamouroso dos startups do Vale do Silício. É a chamada “internet das coisas”, que traz a funcionalidade do smartphone a fogões e automóveis, por exemplo, que começa a tomar forma. E nada lhe escapa na indústria.

A reação dos mastodontes

A decisão estratégica da Microsoft pode revelar-se um tiro n’água, já que a projeção da Nokia no mercado de celular é um espectro do que foi. De dominante, com 40% do mercado global em 2007, sucedendo à liderança da Motorola, hoje lhe resta 15%, e é um pigmeu no ramo de smartphone, com 3%. Mas o potencial transformador pode ser maior — se bem-sucedida —, que a outra operação gigante um dia antes.

A Verizon, uma das grandes telcos dos EUA, comprou a fatia de 45% da inglesa Vodafone na empresa criada por ambas em 2000 no mercado americano, a Verizon Wireless. Foi um negócio de US$ 130 bilhões, o terceiro maior da história, sendo US$ 58,9 bilhões em dinheiro e o restante em ações. O tamanho do cheque à vista sugere duas visões.

Uma delas é a expectativa de retomada da economia real. Outra, a “desfinanceirização” relativa dos negócios — a sequela dos tempos da desregulamentação do mercado financeiro, que levou à hegemonia da banca nos EUA e depois em escala global, culminando com o caos dos derivativos de recebíveis e o estouro da bolha das hipotecas.

Distante das tendências

E a nossa indústria em meio a esse frenesi? É expectadora, além de consumidora potencial de tecnologias e processos que um dia baterão em nosso mercado. A industrial brasileira está atrasada a tudo isso e inova pouco, apesar dos programas oficiais de suporte à inovação, com subvenção, financiamento barato e subsídios fiscais.

Sem grandes diferenciais competitivos, sujeita-se às oscilações da economia, como dos juros e da taxa cambial. Ela já usufruiu o que poderia da valorização do mercado doméstico. Parou no teto por não ter condições competitivas num cenário de economia aberta.

Passo lento e relutante

É o que explica a evolução errática da produção — estar no limite, influenciada por qualquer aragem da economia. Cresceu 2,1% em junho e recuou 2% em julho, tanto quanto o aumento em relação a igual mês de 2012. Mas piorou. Ao contrário de junho, quando só uma entre as quatro categorias de uso teve queda, agora todas recuaram, até bens de capital, que informam sobre o ritmo do investimento, com redução de 3,3%, contra aumento de 6,5% no mês anterior.

A indústria caminha para frente, mas a passo lento e relutante, o que empaca o aumento acumulado em 12 meses, apenas 0,6% até julho. Os dados antecedentes de produção de agosto indicam outro mês ruim, desfazendo o bom momento do PIB no segundo trimestre.

Mediocridade não é sina

O desempenho pífio da indústria, que se salva pela perspectiva um pouco mais alentadora do investimento, pode ser revertido, mas com outra abordagem. A política de apoio à inovação, por exemplo, terá de buscar a criação de indústrias capazes de competir, aqui e fora, sem aditivos como protecionismo tarifário. Satisfazer-se apenas com a produção no país, sem domínio sobre partes da cadeia produtiva no mundo, também não cria vantagens comparativas nem emprego de ponta.

Uma política industrial que ignore o peso majoritário do capital estrangeiro no setor de transformação leva a desperdiçar esforços (e dinheiro) sem contrapartida da instalação de centros de decisão no país. As multis operam assim na China — condição para merecer o tratamento de empresa chinesa. Seria como dar o incentivo do IPI ao setor automotivo não sobre o preço de venda de carros, mas a partes da cadeia produtiva que tomem o país como plataforma de exportação global. O que se quer da indústria? A resposta define a política.

UM PAÍS DO MAIS OU MENOS

UM PAÍS DO MAIS OU MENOS


POR EDISON LUIZ BASTOS BARBOSA (*)

O Brasil como o país de maior miscigenação racial, e com razoável grau de coesão, é constituído de indígenas, brancos, negros, mamelucos e mulatos. Assim, sem negar as origens, estamos empreendendo nossa caminhada, como civilização, baseada na experiência européia, a partir de Portugal.

O “Velho Continente”, enfrentando inúmeras guerras, além de um brutal regime absolutista, evoluiu com muito sofrimento, para democracias, hoje, totalmente consolidadas .

Depois de 1917, utilizando-se de democracias fracas, parlamentarismo ou regimes autoritários, ocorreram diversas tentativas de “tomada do poder”, com a mentira do socialismo como “ponte” para alcançar a ilusão da “sociedade comunista do futuro”.

Fracassaram na Alemanha, Polônia, Hungria, Estônia e Bulgária (entre 1921/3), no Brasil em 1935, e novamente, em 1961 e na Nicarágua em 1979.

Obtiveram êxito na Itália, em 1922 (através do fascismo), na China, em 1927 (com o maoismo), na Alemanha, em 1933 (com o fanatismo do nazismo), na Checoslováquia,  em 1946, e, em Cuba, em 1958.

Nossa sociedade, apesar de estar desapontada com políticos e autoridades em geral, é marcadamente amigável e solidária, tendo suas bases culturais alicerçadas a aquele continente e, coerentemente, com o que nos ensinou Humberto Eco, não nega sua origem, em qualquer dos seus aspectos, pois “o passado não se apaga”.

Na minha concepção a Suécia é um dos exemplos mais bem sucedidos do aprendizado da democracia, por sua sociedade, dentre a maior parte de seus vizinhos. É claro que devemos observar outras experiências.

Os contribuintes suecos são os que pagam a maior carga tributaria do mundo. Em contrapartida, exigem serviços públicos avançados, cobrando seus direitos (não favores ...) Poucos anos atrás protestaram pelo excessivo gasto com o casamento da filha da família real (não foram convidados e tiveram que pagar a conta...).

Outro aspecto daquele país escandinavo que merece ser elucidado é que seu sistema econômico sempre foi amplamente capitalista, ao contrario do que continua sendo apregoado, como “socialismo”(o qual é inteiramente utópico). De outra parte, seu regime político (a democracia) é conduzido, segundo a opção da sociedade, por meio do “welfare state”  (Estado do bem-estar). O fato dos governantes, em número expressivo, serem filiados a partidos socialistas não determina que o sistema econômico  seja o socialismo.

Ao contrário, a economia sueca jamais foi orientada pelo “socialismo”, o qual tem como características fundamentais:

1 – A inexistência da livre iniciativa.
2 –  A propriedade estatal dos meios de produção e do seu uso; e
3 – O atingimento da eficiência do sistema, através da planificação global.

Na organização política e econômica do welfare state, o Estado é o agente regulamentador de toda a vida e a saúde social, em parceria com o sindicatos e empresas privadas em níveis diferentes ,  de acordo com o país em questão. Cabe ao Estado do Bem-Estar Social garantir serviços públicos e proteção à população. 

Originou-se na Grande Depressão de 1929 e se desenvolveu ainda mais com a ampliação do conceito de cidadania , com o fim dos governos totalitários da Europa Ocidental e posterior hegemonia dos governos sociais–democratas e, secundariamente, das correntes eurocomunista,  com base na concepção de que existem direitos sociais indissociáveis à existência de qualquer cidadão .

O sociólogo e economista sueco Karl Gunnar Myrdal (Prêmio Nobel de Economia), assegurou “que modernas políticas sociais diferiam totalmente das antigas políticas de auxílio à pobreza, uma vez que” eram investimentos e nãocustos ”.

Também jamais acreditei que o “dito comunismo” ruiria, como ocorreu na ex-União Soviética, sobretudo da maneira como se processou (não, pelo “ dito igualitarismo ”), tão propagado, mas, sim, pelo enorme poder bélico e aparelhamento do Estado extremamente repressivo.

O “dito” “socialismo marxista–Leninista” tem como características:

1 – Propriedades estatal dos meios de produção e do seu uso;
2 – Inexistência da livre iniciativa; e
3 – Eficiência através da planificação global.

As, ”ditas” “economia socialista do futuro”  e a “sociedade sem classes” não foram praticadas em qualquer lugar da terra.

A China, tão enaltecida, e com sua cultura milenar, não conseguiu avançar com o “dito comunismo” ( mais um ...), sua economia, também “dita de mercado”, vem “ crescendo ” e não se “ desenvolvendo ” a despeito das cifras significativas. O governo de partido único (uma ditadura cruel) conduz a economia com “mão de ferro”, comprimindo o consumo de seus habitante (1,3 bilhão), e transfere parte dos recursos para investimentos que assegurem o aumento do poder do Estado e não da nação (todo mundo acredita que agora é uma democracia – capitalista...).

No meu entendimento o melhor regime de organização de qualquer sociedade é a democracia ( não perfeito ), e o melhor sistema econômico é o capitalismo moderno ( igualmente imperfeito ), por ser o único que, verdadeiramente,  funciona e, assim, não é  utópico. Como enfatizou Karl Popper, “é o mais duradouro e o único adequado a uma “sociedade aberta”.

A assertiva de Câmara  Cascudo, de que “o melhor que tem no Brasil é o seu povo”, está completamente comprovada com o crescente participação do povo na vida nacional. O pobre “planta bananeira” para sobreviver e “só vai para a frente, dando topada”, ou estudando .

Entre inúmeros exemplos da extraordinária flexibilidade do brasileiro, podemos citar:

1 – a rápida adaptação dos consumidores aos novos procedimentos econômicos do “Plano Real”, determinante no sucesso do mesmo; e
2 – a tenacidade e paciência de nossa sociedade com a “ empreitada ” da “Ficha Limpa”.

Nossos irmãos já têm perfeita noção de que o governo (sejam quais forem seus partidos) não criam recursos, somente os transfere de mãos  e de que é nesse circuito que se “opera” a corrupção .

Outra falácia já “digerida” é a de que “ não existe almoço grátis ” (expressão cunhada por Milton Friedman – Prêmio Nobel de Economia), pois tudo tem um custo a ser coberto por recursos privados ou públicos (os que tem fome comem o “camarão”, que é incomum, e guardam o resto para uma falta do dia seguinte, esta comum).

Os contribuintes brasileiros suportando carga tributária de país europeu (ou seja, de 36% do PIB), são desrespeitados, pelos serviços públicos apresentados em contrapartida.

A renda nacional é o PIB, vista pelo lado das receitas, e é constituída, num país capitalista como o Brasil ( que bom ), entre outros de: salários, juros, aluguéis, lucro da iniciativa privada e da parcela da arrecadação de impostos, que é transferida para as empresas. Esse montante de recursos realmente criados são destinados para financiar o nosso desenvolvimento.

O Brasil não tem qualquer entrave ao desenvolvimento, e o nosso povo deseja atingir padrão de vida compatível com a nossa imensa riqueza e tem perfeita consciência de que podemos e devemos deixar de ser (“Um País do Mais ou Menos”).

O capitalismo moderno tem como base:

1 – Livre iniciativa e intervenção parcial do Estado;
2 – Propriedade de uso dos meios de  produção divididos pelas esferas privadas e públicas; e
3 – Concorrência empresarial orientada e estimulada pelos instrumentos de política econômica.

Esse sistema compatível com a democracia funciona de forma bem razoável  nos países com aparato judicial mais eficaz (contendo seus excessos).

Estou empolgado com a oportunidade “providencial” oferecida à sociedade brasileira, com a antecipação da campanha eleitoral, de encaminhar, uma verdadeira proposta de reforma política, utilizando-se de instrumentos democráticos, e, conseqüentemente, pacíficos.

Ao Congresso, “felizmente” ( para nós ), só restará a alternativa de aprovar a reforma proposta, porque, ao nãos se dispor a ter mais esse ( árduo ...) trabalho, preocupados apenas com a própria “estabilidade”, comentará “suicídio eleitoral coletivo”, como acentuou a jornalista Tereza Cruvinel.

Que adultos e jovens “ sem cordéis ” continuem com suas inteligências “iluminadas” para manter o tema em discussão, estimulando cada brasileiro a participar da elaboração desse arcabouço (que extraordinária lição de DEMOCRACIA...).

A sociedade tem moral para exigir o estabelecimento de regras seguras queimpeçam retrocessos e, assim, não permitir a derrocada desse regime político que estamos apreendendo a reconhecer como o  melhor.

Na Alemanha, a entidade mais respeitada é o Supremo Tribunal (deles). Até nisso, já estamos “copiando”....

Dois temas básicos para grande parcela dos eleitores brasileiros são o controle da inflação e a vigilância  para que a verdadeira democracia se aperfeiçoe.

Uma última lembrança, especialmente aos jovens, para que não tenham pressa, mesmo que a proposta de reforma não tenha vigência em 2014, mas que seja aprovada no ano vindouro (pois a lição que será dada terá reflexos nas urnas constituindo extraordinário aprendizado para nossa sociedade). 

(*) Economista aposentado do IPEA e ex-professor da EBAP/FGV e da ESG