quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Os 10 transtornos mentais mais estranhos


transtorno-mental
Apesar de Sigmund Freud, de Carl Gustav Jung e de tantos outros cientistas que dedicaram suas vidas a estudar o funcionamento da mente humana, a verdade é que muito pouco se sabe a respeito deste assunto. Os transtornos mentais, por exemplo, continuam sendo um mistério mal desvendado para os psiquiatras, psicanalistas e psicólogos. Quase nada se sabe de concreto, por exemplo, a respeito da psicopatia. Os psicopatas continuam a desafiar o conhecimento científico.
Não são loucos nem sadios. O que são, então? Existem várias opiniões, muitas polêmicas, mas ninguém sabe exatamente. A seguir estão listados 10 dos transtornos mentais mais bizarros que a mente humana pode apresentar. O que será que acontece na mente de pessoas que deles padecem?
  • 1 – Paramnésia reduplicativa: os portadores deste distúrbio acham que determinados lugares foram duplicados e que existem em outros locais. Por exemplo, um paciente internado no Hospital São José (nome fictício), na cidade de Campinas, Estado de São Paulo, pode achar que está internada na Clínica Pinel de Fortaleza, no Ceará, que é exatamente igual (mas essa clínica nem existe). Eu, hein?!…
  • 2 – Delírio de Cotard: os pacientes acreditam que estão mortos, apodrecendo no túmulo ou que perderam todo o sangue e os órgãos do corpo. Às vezes, pelo contrário, dizem-se imortais. Vai entender…
  • 3 – Delírio de Capgras: desordem mental mediante a qual alguém crê que uma pessoa bem conhecida sua (um cônjuge ou um parente próximo) foi substituído por um sósia idêntico (clone). Que coisa!…
  • 4 – Delírio de Fregoli: é o oposto do Delírio de Capgras. O paciente acha que um completo estranho é um velho conhecido que mudou de aparência ou está disfarçado para enganá-lo. Que piração, meu!
  • 5 – Síndrome de Jerusalém: é um grupo de transtornos mentais que envolvem obsessões sobre religião relativas à cidade de Jerusalém. Pode afetar tanto judeus quanto cristãos. Como é que pode?
  • 6 – Síndrome de Stendhal: doença psicossomática com sintomas como taquicardia, tonturas, confusão mental e alucinações, que se manifestam em pessoas que se expõem aobras de arte. Muito louco, não?
  •  7 – Síndrome de Paris: é uma desordem estranhíssima que, não se sabe por que, afeta exclusivamente japoneses, que têm alucinações quando visitam a capital francesa. Todos os anos, dúzias de turistas japoneses apresentam os sintomas e têm que ser recambiados para o Japão. Japonês tem cada uma!…
  • 8 – Síndrome de Diógenes: Diógenes foi um grande filósofo grego tão maluco que morava dentro de um tonel e andava pelado pelas ruas de Atenas com uma lanterna na mão, segundo ele, procurando um homem honesto (nunca encontrou, diga-se de passagem…). Os sintomas são tendência ao isolamento, negligência com a higiene, roupas, desinteresse etc.; Afeta mais pessoas de idade avançada. Coitados…
  • 9 – Síndrome de Estocolmo: ocorre com pessoas sequestradas que, depois de passado o episódio, sentem forte simpatia pelos sequestradores. Existem também casos entre mulheres que apanham dos maridos, são estupradas ou entre crianças que sofrem abuso sexual. Esta desordem ganhou seu nome depois de um assalto a banco em Estocolmo, na Suécia, no qual os reféns, apesar de passarem 5 dias sob domínio dos bandidos, pediam que a polícia os libertasse e se recusavam a testemunhar contra. Não dá pra entender.
  • 10 – Síndrome de Lima: é o inverso da Síndrome de Estocolmo, ou seja, os bandidos é que sentem simpatia e compaixão pelas vítimas. Ganhou este nome após a crise na embaixada japonesa em Lima, no Peru, entre 26 de dezembro de 1996 e 22 de abril de 1997. Os membros da organização terrorista Tupac Amaru tomaram como reféns os convidados de uma festa promovida na casa do embaixador japonês na capital peruana. Entre os reféns encontravam-se diplomatas, membros do governo e militares. Bandido bonzinho é ótimo, não?

20 movimentos para resolver o Cubo Mágico


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Pesquisadores usaram os computadores da Google para fazer os cálculos, todas as configurações possíveis do Cubo Mágico podem ser resolvidas em 20 movimentos ou menos.
Se você não sabe, o Cubo Mágico pode ter 43,252,003,274,489,856,000 posições e cada uma delas, em teoria, poderia ser resolvida com 20 “vira aqui, ali, sobe esse…!”
Os cientistas já chamaram o número de movimentos para resolver o Cubo Mágico de “Número Divino”.
Em 1981 o boato era que o número mínimo de movimentos era 52, em 2005, o número caiu para 28, agora um computador consegue resolver, em 20 segundos, qualquer configuração do cubo com, no máximo, 20 movimentos.
Para os aficionados por matemática, o algorismo usado pelo computador para fazer os cálculos é incrível. Para o resto de nós, mortais, resta saber que mexemos no Cubo umas 400 vezes a mais do que o computador sem nem completar um lado inteiro.
Detalhe: os pesquisadores citados usaram o equivalente a 35 anos de cálculos de CPU.
Fonte: Gizmodo

Por que é importante dominar a teoria



shutterstock_105432542.jpgI.
O provérbio que diz que as coisas podem funcionar bem na teoria mas não necessariamente funcionam na prática é bem conhecido.[1]  A intenção normalmente é a de menosprezar a importância da teoria, sugerindo que ela pode ser bonita mas pode estar muito distante das exigências práticas, sendo de pouca valia para ajudar a resolver o problema em questão.
O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724—1804), em seu ensaio de 1793, "On the Popular Judgment: 'This May Be True in Theory, But It Does Not Apply in Practice" (Sobre o Juízo Popular: 'Isso Pode Ser Verdade Na Teoria, Mas Não Se Aplica à Prática'), respondeu a esta crítica.  Com efeito, ele respondeu com este seu ensaio à crítica feita à sua teoria ética pelo filósofo Christian Garve (1742—1798).
Kant argumentou que a teoria fornece "princípios de natureza suficientemente geral", ou seja, ela fornece regras gerais.  No entanto, a teoria não diz ao homem como ela deve ser aplicada, diz Kant.  Para isso, faz-se necessário o ato do discernimento próprio:
O conceito da compreensão, o qual pertence à regra geral, tem de ser complementado por um ato de discernimento, por meio do qual o adepto distingue exemplos em que a regra se aplica daqueles em que ela não aplica.[2]
O filósofo prussiano, de maneira efetiva, afirma que qualquer indivíduo atuante tem de respeitar o papel exercido pela teoria:
Aquele que finge ser versado em um determinado ramo do conhecimento e ainda assim trata a teoria com escárnio irá inevitavelmente se expor como um ignorante em sua área.[3]
Em sua obra metodológica, Ludwig von Mises (1881—1973) enfatizou, em seu nível mais fundamental, a importância da teoria para o indivíduo que age, observando que a teoria e a ação humana são inseparáveis. Escreveu Mises:
O pensamento precede a ação. Pensar é deliberar sobre a ação antes de agir, e refletir em seguida sobre a ação efetuada. Pensar e agir são inseparáveis. Toda ação está sempre baseada em uma ideia específica sobre relações causais. Quem pensa uma relação causal, pensa um teorema. Ação sem pensamento e prática sem teoria são inimagináveis. O raciocínio pode ser falso e a teoria incorreta; mas o pensamento e a teoria estão presentes em toda ação. Por outro lado, pensar implica sempre imaginar uma futura ação. Mesmo quem pensa sobre uma teoria pura pressupõe que a teoria é correta, isto é, que uma ação efetuada de acordo com o seu conteúdo teria por resultado um efeito compatível com seus ensinamentos. Para a lógica, o fato de esta ação ser factível ou não é irrelevante.
Com a teoria sendo inseparável da ação humana, a questão crucial passa a ser: Qual é a teoria correta?  Por motivos óbvios, o indivíduo que age estará interessado na teoria correta: "Não importa como ela seja vista, simplesmente não há como uma teoria falsa ter maior serventia a um indivíduo, a uma classe ou a toda a humanidade do que uma teoria correta."[4]
II.
Na versão da ciência econômica que hoje é a dominante, o real valor de uma teoria é definido por meio de testes que seguem a hipótese do "se-então".  Por exemplo, economistas testam se um aumento na oferta monetária leva a um aumento nos preços, ou se um aumento na oferta monetária causa elevação nos preços — ou se o inverso é verdadeiro.
Tal procedimento é típico do positivismo-empiricismo-falsificacionismo — uma abordagem metodológica que, na ciência econômica, não apenas deve ser rejeitada como sendo confusão intelectual[5], como também tem de ser criticada por ser propensa a abusos demagógicos.
Afinal, se alguém é adepto da ideia de que nada pode ser conhecido (com certeza) sem ser testado, então tal pessoa, por definição, tem de colocar em prática todas as suas ideias.  E é aí que jaz o perigo.
Tão logo uma teoria passa a ser vista como boa ou benevolente — tal como a teoria que diz que um aumento na oferta monetária gera prosperidade para todos, ou a teoria que diz que déficits orçamentais criam novos empregos —, as pessoas irão adorar vê-la em prática.
O que é pior, sob o atual reinado do positivismo-empiricismo-falsificacionismo, existem enormes incentivos econômicos para se difundir teorias politicamente eficazes que, obviamente, visam apenas ao bem de políticos — mesmo que tais teorias sejam falsas.  Aqueles que fornecem uma convincente legitimação científica para ações perseguidas pelo governo podem previsivelmente esperar altas recompensas dos burocratas.
Fornecendo uma ilustração metafórica: para fazer com que o roubo seja algo socialmente aceitável, o ladrão estará disposto a dividir uma fatia do seu esbulho com aqueles que estão ajudando a fazer com que, do ponto de vista das vítimas, o crime seja aceitável.  Em suma, o ladrão tem todo o interesse em premiar o intelectual que justifica "cientificamente" seu roubo.
No que concerne a teorias econômicas aparentemente benevolentes, considere os seguintes exemplos:
  • O estado é indispensável para a paz e a prosperidade; sem o estado haveria caos social, agressões impiedosas aos mais fracos e miséria dantesca.[6]
  • A produção e a oferta de dinheiro têm de ser monopolizadas pelo estado, pois simplesmente não há outra maneira de se obter dinheiro de forma confiável.
  • Foi uma boa ideia substituir o dinheiro metálico (ouro e prata) pelo papel-moeda fiduciário de curso forçado, pois apenas esse tipo de dinheiro permite um contínuo e adequado aumento na oferta monetária — aumento este que, por sua vez, é indispensável para que haja crescimento da economia e do emprego.
  • O capitalismo explora a classe trabalhadora e gera um aumento exacerbado da pobreza, guerras e imperialismo; já o socialismo irá manter a paz e elevar o padrão de vida de todos.
  • A democracia (a escolha da maioria) é a única forma de organização política que respeita a liberdade individual e os direitos de propriedade, e que gera cooperação pacífica e prosperidade.
Estes exemplos são suficientes para o meu ponto: tão logo algumas teorias passam a ser consideradas benevolentes, pode-se ter a certeza de que elas serão colocadas em ação.  Quanto mais benevolente uma teoria, maior a possibilidade de ocorrer experimentos sociais.
No entanto, praticar experimentos sociais com o suposto propósito de se estar testando verdades é algo que possui um preço muito alto — às vezes, um preço proibitivamente alto, como deixou evidente o experimento socialista em vários países.
III.
No campo da ciência econômica, no entanto, é possível decidir se determinadas teorias são corretas ou incorretas sem que haja a necessidade de se recorrer a experimentos e testes.
Mises reconstruiu a ciência econômica como sendo uma das áreas da 'lógica da ação humana', que ele chamou depraxeologia (práxis = ação; a lógica da ação).  Sendo uma teoria apriorística, a praxeologia permite a dedução de verdades irrefutáveis — ou apodícticas — partindo-se do irrefutavelmente verdadeiro axioma da ação humana.
Nas palavras de Mises,
A praxeologia não é uma ciência histórica, mas uma ciência teórica e sistemática. Seu escopo é a ação humana como tal, independentemente de quaisquer circunstâncias ambientais, acidentais ou individuais que possam influir nas ações efetivamente realizadas. Sua percepção é meramente formal e geral, e não se refere ao conteúdo material nem às características particulares de cada ação. Seu objetivo é o conhecimento válido para todas as situações onde as condições correspondam exatamente àquelas indicadas nas suas hipóteses e inferências. Suas afirmativas e proposições não derivam da experiência. São apriorísticas, como a lógica e a matemática. Não estão sujeitas a verificação com base na experiência e nos fatos.
A praxeologia fornece uma metodologia que permite separar teorias econômicas corretas de teorias econômicas falsas, tudo em bases apriorísticas — isto é, sem ter de recorrer a experimentos sociais.
Em vista da ilustração dada acima (e sem se aprofundar extensivamente no argumento), podemos saber com toda a certeza que o estado não é a solução, mas sim a raiz dos mais severos conflitos sociais.  (Ver aqui, aqui, aqui).
Utilizando a praxeologia, também podemos saber com certeza que o dinheiro é uma criação do livre mercado; que o dinheiro-commodity — a escolha lógica das ações incorridas no livre mercado — é a moeda forte; e que o monopólio estatal da produção de dinheiro irá gerar uma moeda fraca e continuamente depreciada. (Ver aqui,aqui e aqui).
Também sabemos com certeza que um aumento na oferta monetária não torna uma economia mais rica; tal aumento irá beneficiar exclusivamente aqueles que primeiro receberem este dinheiro recém-criado, pois terão uma maior renda a preços ainda inalterados.  Seu poder de compra irá aumentar.  Quem perde são todos aqueles que irão receber o dinheiro mais tarde (ou que sequer irão recebê-lo), quando os preços já estarão maiores.  O poder de compra destes foi diminuído.  (Ver aqui, aqui e aqui).
Também se pode deduzir da praxeologia que o socialismo leva a uma grande miséria, pois se trata de uma forma de organização social que não tem como funcionar.  Qualquer experimento genuinamente socialista está fadado ao fracasso, sendo o capitalismo a única forma economicamente viável de organização social. (Ver aqui e aqui).
Finalmente, pode-se mostrar com base na praxeologia que a democracia é incompatível com a preservação das liberdades individuais, dos direitos de propriedade e, consequentemente, da prosperidade e da cooperação pacífica. (Ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui)
O poder de se desmascarar e desmistificar falsas teorias econômicas utilizando um raciocínio apriorístico — ou seja, sem ter de recorrer a experimentos sociais — é certamente um dos mais fascinantes aspectos da Escola Austríaca de economia.
Em sua introdução à Crítica da Razão Pura (1787), Kant intitula o capítulo 3 como "A Filosofia Necessita de uma Ciência que Determine a Possibilidade, os Princípios e a Extensão de Todos os Conhecimentos "A Priori"".  Para a ciência econômica, Mises fez exatamente isso.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cartas de Londres: Cenas do metrô de Londres, por Beatriz Portugal


Éramos os dois únicos passageiros no vagão. Ele sentava à minha frente e comia um sanduíche no vão entre as pernas, com os braços apoiados nos joelhos. A atenção ia da comida ao jornal aberto no banco ao lado. Ele parecia adivinhar que eu espiava o jornal dele e virava a página exatamente quando eu terminava de ler. Só faltou comentar as manchetes gritantes que falavam da derrota vexatória do primeiro ministro em votação parlamentar sobre ação militar do Reino Unido na Síria.
Mas não trocamos palavras, pois aqui a regra tácita é manter a distância. As pessoas se evitam ao máximo, enfurnadas em livros e jornais ou nas telas de seus celulares. De vez em quando olhares se cruzam por um milésimo de segundo, mas a vergonha sempre vence. O que sobra é testemunhar pedaços da vida alheia, como daquele homem que seja lá por que comia com tanta pressa antes de chegar ao seu destino.
Tudo isso faz parte do charme do metrô londrino mas mais do que uma atração, o metrô é parte essencial da capital britânica. Alem de ser um excelente meio de transporte, é um microcosmo de Londres.
Do pedinte ao milionário, estão todos ali, ombro a ombro sofrendo igualitariamente no calor com a falta de ar condicionado e sempre atentos à malas ou pacotes que possam estar abandonados, prontos para avisar o policial mais próximo.
A primeira linha foi inaugurada há 150 anos, o que faz do metrô londrino o mais antigo do mundo. São mais de três milhões de passageiros por dia passando por suas 270 estações. Os trens percorrem a distancia equivalente a 1.735 voltas ao redor do mundo (ou 90 viagens de ida e volta até a lua). Não à toa, parece ter vida própria.


Nele há de tudo um pouco: cenas engraçadas, cenas tristes, cenas chocantes, cenas emocionantes. É lá que os londrinos muitas vezes mostram o que têm de melhor e de pior.
Foram nas idas e vindas no metrô que descobri que todo londrino que se preza acha um absurdo ter de esperar mais de três minutos por um trem. E também conheci o fenômeno tipicamente inglês de se concentrar nas portas ao invés de se espalhar pelo vagão. Já vi pombos que, sempre nas mesmas estações, sobem e descem de vagões como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Outro dia vi um moço que, na pressa de entrar, pisou em falso. Caiu de cara no chão, ficando com uma perna esticada na plataforma e a outra no vão entre plataforma e vagão. Duas pessoas se levantaram para ajudá-lo. Ele, muito sem graça, levantou e bateu nas coxas para tirar a sujeira. Entre perguntas se ele estava bem, o moço respondeu sério o que numa frase resume a beleza do humor britânico - contido, criativo e ao mesmo tempo irreverente, sempre usado para facilitar as interações sociais. Fazendo referencia ao constante anúncio de “mind the gap” (algo como, atenção ao vão), ele: “I didn’t mind the gap”.

A síndrome da censura, por Carlos Alberto Di Franco

GERAL


O mais recente caso de proibição judicial ao trabalho jornalístico — a proibição de que o jornal “Gazeta do Povo”, do Paraná, publique informações sobre investigações abertas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contra o presidente do Tribunal de Justiça do estado, Cleyton Camargo — reacende a síndrome da censura prévia no Brasil.
A liminar garantindo que as notícias sobre as denúncias não fossem publicadas no jornal foi concedida há um mês. O desembargador, no pedido, sustenta que “os fatos em notícia (...) vieram impregnados pelo ranço odioso da mais torpe mentira”. Pediu, ainda, que as reportagens sejam banidas do portal do jornal na internet. Quer dizer: censura prévia multiplataforma. Proíbe-se a sociedade de ter acesso a informação de indiscutível interesse público.
Sem prejuízo do meu sincero respeito pelas decisões do Judiciário, a censura prévia é uma bofetada na democracia. O controle ao jornal é mais um precedente gravíssimo. É importante que a sociedade reaja. Caso contrário, a violência judicial pode se transformar em rotina.
“Nada mais nocivo que a pretensão do Estado de regular a liberdade de expressão, pois o pensamento há de ser livre, essencialmente livre. Liberdade de imprensa concerne a todos e a cada cidadão. Esta garantia básica, que resulta da liberdade de expressão do pensamento, representa um dos pilares em que repousa a ordem democrática.” São palavras do decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso de Mello, um sensível defensor dos valores democráticos.


O que está em jogo, para além da garantia constitucional da liberdade de imprensa, é o direito que tem a sociedade de ser informada. É difícil imaginar que o Brasil possa superar a gravíssima crise ética, que transformou amplos setores do serviço público num exercício de cinismo e arrogância, sem ampla liberdade de imprensa e de expressão.
Além de inconstitucional, a liminar que censura o trabalho da “Gazeta do Povo” caminha na contramão do anseio de transparência no comportamento dos homens públicos que domina a sociedade brasileira. A experiência demonstra que a escassez de informação tem sido uma aliada da perpetuação da impunidade.

O Zorro e o Tonto, por Paulo Delgado

POLÍTICA


Paulo Delgado
Um senador polêmico, com vestígios de inimigo, entra porta adentro da Embaixada do Brasil pedindo socorro e é prontamente acolhido. Boa tradição diplomática, fonte de prazer para quem respeita nossa história.
Um jovem diplomata, sem saber que seria extravagante, se põe a recolher indícios para encontrar uma solução, e, sem muita barganha, empresta ao caso sua reputação. Bons sinais vindos de um funcionário do Estado que sabe que trabalhar com a consciência pesada leva à má reputação. Uma decisão que tira o Brasil do isolamento regional e o repõe no destino universal da diplomacia humanitária e pacifista.
O que espanta no caso é a iniciativa do governo e a sua afeição por um valor maior do que qualquer conveniência não serem defendidas por ninguém que o apoia. Menos o diplomata que deu sequência ao ato da presidente de 8 de junho de 2012 ao conceder, de pronto, asilo ao perseguido politico, o qual o Itamaraty não soube cumprir por pressão do governo interessado em marginalizar o asilado.


Se eu fosse presidente, nomeava o garoto chanceler pela sutil capacidade de perceber que o governo boliviano estava disposto a fechar os olhos para uma saída furtiva, como se deu, e o brasileiro desejava encerrar o asilo na Embaixada, como ocorreu.
Bastava aplicar a inteligência às relações oficiais entre Estados e confiar que a transbordante amizade entre governantes não tomasse conta do discernimento político entre nações. É claro que a ação astuta do subordinado, de um posto que nossa diplomacia fez mais importante do que Washington, assusta o superior submetido a outra cadeia de comando. Assim, 110 anos depois do Tratado de Petrópolis, a noção de fronteira entre Brasil e Bolívia, não é mais geográfica, política ou jurídica.

A importância das instituições para o progresso econômico



collaboration.jpgNo final dos anos 1980, quando o domínio do império soviético na Europa central começou a se esfacelar, surgiu uma premente questão política para a qual poucas pessoas até então haviam dado atenção: como transformar economias socialistas em economias de mercado plenamente operantes?  
Quanto mais esta discussão ganhava atenção, mais pavoroso era constatar o quão pouco os economistas profissionais eram capazes de contribuir.  Por exemplo, no encontro anual da American Economic Association, um considerável número de proeminentes economistas simplesmente admitiu não ter a mais mínima ideia de como criar a ordem institucional necessária para se estabelecer uma economia de mercado.
Na primeira metade do século XX, vários economistas se tornaram cada vez mais interessados em tentar fazer com que a economia se transformasse em uma disciplina "rigorosamente científica".  Do ponto de vista destes economistas, tal objetivo requeria a construção de modelos quantitativos, nos quais os indivíduos e suas ações eram reduzidos a meras "variáveis dependentes" dentro de uma série de equações matemáticas.  O indivíduo se tornava uma simples variável passiva, a qual "reagia" a várias "limitações" que existiam dentro da arena das trocas voluntárias.  Neste cenário, as instituições políticas, jurídicas e econômicas ao redor deste indivíduo eram simplesmente um "pano de fundo" que servia como base para uma análise quantitativa sobre como as pessoas fazem suas escolhas de acordo com as limitações existentes. 
Como estas instituições surgiram e se desenvolveram, e como as ideias e as ações dos indivíduos influenciaram e moldaram estas instituições ao longo do tempo, eram questões quase nunca discutidas.
No entanto, ao longo dos últimos 30 anos, desenvolveu-se um novo ramo da ciência econômica chamado de Nova Economia Institucional, cujo objetivo principal é investigar exatamente a interação entre o indivíduo e as instituições sociais.  Um dos principais contribuidores desta área é Douglass C. North, vencedor do Prêmio Nobel de economia em 1993 por seus trabalhos sobre a história econômica da Europa e dos EUA.  Em seu livroEntendendo o Processo de Mudança Econômica, North explica a importância das instituições para o aprimoramento das condições humanas, e mostra as dificuldades de se desenvolver teorias e implantar políticas voltadas para o melhoramento da sociedade.
North começa sua obra dando ênfase ao inquestionável fato de que o homem vive em um mundo repleto de incertezas e imprevisibilidades, realidade essa que, por si só, impossibilita toda e qualquer aplicação daqueles modelos matemáticos estáticos e deterministas que dominam a esmagadora maioria dos manuais de economia.  O "método científico" funciona maravilhosamente bem para permitir ao homem dominar as leis do mundo da física, mas possui severas limitações e falhas inerentes quando aplicado indiscriminadamente à condição humana e ao comportamento humano.
O homem possui qualidades exclusivas que são singularmente distintas das características inerentes aos objetos de estudo da física e da química: criatividade e objetividade.  O homem raciocina, imagina e planeja.  Isso introduz um elemento de imprevisibilidade que não está presente no estudo da natureza inanimada.  A ação humana simplesmente não está propensa a probabilidades estatísticas estáveis.
Adaptando alguns temas oriundos da psicologia cognitiva, North argumenta que o homem está mais para um descobridor racional de padrões do que para um solucionador lógico de problemas.  Em outras palavras, tudo indica que a mente humana evoluiu de tal maneira a estar sempre tentando observar uma ordem e uma relação entre coisas e eventos, mesmo quando tais fenômenos podem não estar lá.  Como resultado deste comportamento mental, o homem está continuamente tentando estabelecer padrões e relações neste mundo, sempre com o intuito de alcançar inteligibilidade e um grau de certeza previsível.
Esta é a origem das crenças e ideias humanas a respeito de "como as coisas funcionam", desde superstições primitivas até as mais complexas teorias sobre a natureza e o funcionamento da ordem social.  Este sistema de crenças e ideias é transmitido de geração para geração, e vai sendo solidificado nos costumes, nas tradições e em outras instituições culturais.  Consequentemente, a ordem institucional é o resultado cumulativo de gerações de mentes que interagiram entre si.
As regras sob as quais os homens vivem, argumenta North, foram geradas pelos esforços do próprio homem em tentar reduzir suas incertezas sociais.  Ao voluntariamente restringir suas próprias ações e as de seus conterrâneos por meio de normas, valores e procedimentos interativos que definem e determinam os códigos de conduta — bem como os fundamentos da legitimidade e da obediência —, o homem introduz graus de previsibilidade aos processos sociais e econômicos.
Algumas destas regras institucionais foram formalmente criadas por meio de códigos jurídicos e políticos.  Mas a grande maioria, se não a quase totalidade, é de regras informais que foram aprendidas e absorvidas em decorrência do simples fato de se nascer e viver dentro de uma determinada sociedade — regras estas que frequentemente não são explicitamente enunciadas.
A grande transformação observada na evolução sociocultural do homem, explica North, ocorreu quando as relações de troca evoluíram do pessoal para o impessoal: ou seja, quando evoluíram da pequena tribo e suas relações face a face para um amplo mercado no qual homens separados pelo tempo e pelo espaço, e sem qualquer parentesco entre si, se tornaram crescentemente interligados por meio de transações monetárias.
Crenças e ideias sobre o que era justo, moral e correto começaram a se desenvolver de uma maneira que tornou possível o desenvolvimento, ao longo dos séculos, das instituições hoje presentes nas modernas economias de mercado.  North lista uma série destas mudanças históricas ocorridas na Europa Ocidental, especialmente no sistema bancário, nos mecanismos de crédito (como notas promissórias, duplicatas ou letras de câmbio) e nos contratos comerciais, os quais prepararam o terreno para o crescimento econômico e o contínuo aumento da prosperidade no mundo ocidental observados nos últimos cinco séculos.  Um maior respeito pela propriedade privada, a aceitação de uma relativamente irrestrita concorrência de mercado, um maior apreço pelas liberdades individuais sob os auspícios de leis imparciais, e a imposição de mais limites sobre o poder tributário e regulatório dos governos fizeram com que as energias criativas dos homens em geral e dos empreendedores em particular fossem totalmente liberadas.
No entanto, o fenômeno oposto também pode ocorrer, e North mostra toda a rigidez e corrupção que surgem quando crenças e ideias errôneas geram instituições que concedem poderes crescentes ao estado — seja em sua forma extrema, como na União Soviética, seja em sua forma mais suave, mas não menos danosa, como no moderno estado intervencionista, protecionista e assistencialista.
O dilema é que estas experiências históricas não garantem que as "lições" corretas serão aprendidas.  Como argumenta North, é comum haver muito "ruído" nos processos históricos; nem sempre fica claro quais causas (mudanças institucionais ou políticas) geraram quais efeitos (mudanças no bem-estar econômico, inclusive em graus de liberdade).  Adicionalmente, boa parte da informação e da interpretação sobre mudanças institucionais e políticas chega até a nós por meio de intermediários intelectuais que possuem suas próprias agendas e ideologias, e que não compreendem o real funcionamento de determinados processos socioculturais.
O real perigo de tudo isso, alerta North, não está apenas no fato de que os vários países que jamais desenvolveram as corretas instituições de mercado possam fracassar neste objetivo; está também, e principalmente, no fato de que a liberdade e a prosperidade nunca estão garantidas para sempre em nenhuma sociedade.  Em outras palavras, mesmo as sociedades mais bem sucedidas podem sofrer um retrocesso e se desintegrar, degenerando-se na estagnação econômica e na tirania política — e tudo em decorrência da aceitação de ideias e crenças erradas, que geram mudanças institucionais fatais. 
A correta compreensão do poder e da importância das instituições é essencial tanto para aquela população que queira evitar tragédias quanto para aquela que queira reverter várias políticas perigosas que estejam em curso.

Richard Ebeling 
leciona economia no Hillsdale College em Michigan, é um scholar adjunto do Mises Institute e trabalha no departamento de pesquisa do American Institute for Economic Research.
 Tradução de Leandro Roque