segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Brasileiro Roberto Azevêdo assume direção-geral da OMC

ECONOMIA


G1
O brasileiro Roberto Azevêdo (foto abaixo) assumiu neste domingo (1º) a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o órgão máximo do comércio internacional. Ele é o sexto diretor-geral da organização e ficará no cargo por quatro anos. Ele foi escolhido para a função em maio deste ano.
O principal desafio de Azevêdo será desbloquear as negociações da Rodada do Desenvolvimento de Doha para liberalizar o comércio mundial, lançadas em 2001 e estagnadas há anos.
De acordo com comunicado da OMC, o conselho geral da organização fará um encontro especial no dia 9 de setembro para dar as boas-vindas a Azevêdo e ouvir ao seu discurso inaugural.

 O brasileiro Roberto Azevêdo assumiu neste domingo (1º) a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o órgão máximo do comércio internacional. Ele é o sexto diretor-geral da organização e ficará no cargo por quatro anos. Ele foi escolhido para a função em maio deste ano.
O principal desafio de Azevêdo será desbloquear as negociações da Rodada do Desenvolvimento de Doha para liberalizar o comércio mundial, lançadas em 2001 e estagnadas há anos.
De acordo com comunicado da OMC, o conselho geral da organização fará um encontro especial no dia 9 de setembro para dar as boas-vindas a Azevêdo e ouvir ao seu discurso inaugural. 
A primeira aparição internacional de Azevêdo como diretor-geral da OMC será na reunião dos líderes do G20 em São Petersburgo, entre 5 e 7 de setembro, diz a organização.

Ao final do evento, será anunciada a intensificação dos trabalhos preparativos para a próxima reunião ministerial, que será realizada em Bali de 3 a 6 de dezembro, e é vista como decisiva para o futuro da OMC. “Um encontro de sucesso em Bali proporcionará um tiro no braço necessário para a economia global e para a OMC”, disse Azevêdo, em sua mensagem de boas-vindas.

“Eu acredito que um acordo pode ser alcançado, apesar do pouco tempo que temos entre hoje e Bali. Eu farei tudo o que posso para que o acordo seja alcançado. Mas não existe tal coisa como uma coisa certa, e uma grande quantidade de trabalho e compromisso são necessários nas próximas semanas, se quisermos ter sucesso”, afirmou.

Diplomata de carreira, Azevêdo tem 55 anos, Azevêdo nasceu em Salvador e é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Brasília (UNB). Ele trabalhava no Itamaraty desde 1983. Especialista em comércio internacional, desde 2008 ele era o representante do Brasil na OMC e atuava como "negociador-chave".
Antes, ocupou diversos cargos relacionados a assuntos econômicos no Ministério das Relações Exteriores, tendo atuado em contenciosos como os casos de Subsídios ao Algodão (iniciado pelo Brasil contra os Estados Unidos), Subsídios à Exportação de Açúcar (iniciado pelo Brasil contra as Comunidades Europeias) e Medidas que Afetam a Importação de Pneus Reformados (litígio iniciado pelas Comunidades Europeias), além de chefiar a delegação brasileira na Rodada Doha.
Boa parte de seus argumentos de campanha se basearam em seu profundo conhecimento da organização, de seus mecanismos, potencialidades e de conhecer por dentro os delicados 'equilíbrios de poder' da OMC.

Documentos da NSA apontam Dilma Rousseff como alvo de espionagem G1


Documentos classificados como ultrassecretos, que fazem parte de uma apresentação interna da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, obtidos com exclusividade pelo Fantástico, mostram a presidente Dilma Roussef, e o que seriam seus principais assessores, como alvo direto de espionagem da NSA. Um código indica isso.
O jornalista Glenn Greenwald, coautor desta reportagem, foi quem recebeu os papéis das mãos de Edward Snowden - o ex-analista da NSA que deixou os EUA com documentos da agência com a intenção de divulgar o sistema de espionagem americano no mundo. Glenn afirmou que recebeu o documento na primeira semana de junho, quando esteve com Snowden em Hong Kong. “Ele me deu esses documentos com todos os outros documentos no pacote original.”


Papéis 'ultrassecretos' foram obtidos com exclusividade pelo Fantástico.
Ministro diz que Brasil vai cobrar explicações formais dos Estados Unidos.


Documentos classificados como ultrassecretos, que fazem parte de uma apresentação interna da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, obtidos com exclusividade pelo Fantástico, mostram a presidente Dilma Rousseff, e o que seriam seus principais assessores, como alvo direto de espionagem da NSA. Um código indica isso. O presidente do México, Enrique Peña Nieto, também foi um alvo, segundo os documentos.
A revelação foi feita em reportagem exclusiva exibida no Fantástico deste domingo, 1º (veja no vídeo acima).  Passo a passo, a reportagem de Sônia Bridi e Glenn Greenwald  mostra como o maior sistema de espionagem do mundo está de olho no Brasil e como a NSA consegue monitorar as comunicações no centro do poder, em Brasília, inclusive da presidente Dilma Rousseff.

O jornalista Glenn Greenwald foi quem recebeu os papéis das mãos de Edward Snowden - o ex-analista da NSA que deixou os EUA com documentos da agência com a intenção de divulgar o sistema de espionagem americano no mundo.
Glenn afirmou que recebeu o documento na primeira semana de junho, quando esteve com Snowden em Hong Kong. “Ele me deu esses documentos com todos os outros documentos no pacote original.”

O pacote tinha milhares de documento secretos. Glenn analisou esses papéis com Snowden durante uma semana em Hong Kong. Pouco depois, Snowden fugiu para a Rússia, onde passou 38 dias na área de trânsito do aeroporto de Moscou, até ter seu pedido de asilo aceito no país.

Durante a produção, a reportagem conversou com Snowden por um programa de bate-papo protegido contra espionagem. Escondido em algum ponto do território russo, ele disse que por exigência do governo local não pode comentar o conteúdo dos papéis, mas disse que acompanha a repercussão que os documentos estão tendo pelo mundo, inclusive no Brasil.

Fantástico: como é que a gente pode avaliar o documento e saber se foram operações que foram consumadas, e não apenas projetos?

“Ficou muito claro, com esses documentos, que a espionagem já foi feita, porque eles não estão discutindo isso só como alguma coisa que eles estão planejando. Eles estão festejando o sucesso da espionagem”, afirmou Glenn.

Os documentos mostram que foi feita espionagem de comunicações da presidente Dilma com seus principais assessores. Também é espionada a comunicação dos assessores entre eles e com terceiros.
A apresentação secreta se chama "filtragem inteligente de dados: estudo de caso México e Brasil." Segundo a apresentação, o programa possibilita encontrar, sempre que quiser, uma "agulha no palheiro."

O palheiro, no caso, é o volume imenso de dados a que a espionagem americana tem acesso todos os dias, espionando as redes de telefonia, internet, servidores de e-mail e redes sociais. A agulha é quem eles escolherem.

No documento, de junho de 2012, são dois alvos: o presidente do México, Enrique Peña Nieto, então candidato líder nas pesquisas para a presidência, e a presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

Como funciona
Selecionado o alvo, são monitorados os números de telefone, os e-mails e o IP (a identificação do computador). É feito o mesmo para os interlocutores escolhidos - no caso, assessores.

O que eles chamam de um “pulo” é toda a comunicação entre o alvo e os assessores. Um “pulo e meio” é quando os assessores conversam entre eles. “Dois pulos” é quando eles conversam com outras pessoas.
Investigação de Peña Nieto
Para espionar o então candidato mexicano Peña Nieto, o serviço de segurança internacional da NSA para América Latina - fez uma ação intensiva. Para isso, usou dois programas - um deles é chamado "Mainway" e serve para coletar o grande volume de informações que passa pelas redes de comunicação.

As mensagens de texto por telefone do candidato também foram interceptadas, usando o programa "Association", que pega as informações que circulam nas redes sociais. Daí, as mensagens vão para outro filtro - o "Dishfire" - que busca por determinadas palavras-chave.
Sob o título "mensagens interessantes", está a prova de que o conteúdo das mensagens foi acessado. Dois trechos são citados. Num deles, Peña Nieto conta quem seriam alguns de seus ministros - que só tomariam posse seis meses depois da eleição.

Investigação da presidente Dilma
Na sequência, vem a explicação de como foi feita a espionagem da presidente Dilma. "Goal" é o objetivo da operação: "melhorar a compreensão dos métodos de comunicação e dos interlocutores da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e seus principais assessores".

O que eles chamam de "sementes" são os endereços eletrônicos e números de telefones monitorados.

Um dos programa usados pela NSA é chamado de "DNI selectors" - que segundo outro documento vazado por Snowden, captura tudo o que o usuário faz na internet, incluindo o conteúdo de e-mails e sites visitados.

Um gráfico mostra toda a rede de comunicações da presidente com seus assessores. No gráfico, cada bolinha representa uma pessoa.

A imagem ampliada mostra que legendas ou nomes de quem teve a comunicação interceptada foram apagados para a apresentação.

No documento, não há exemplos de mensagens ou ligações entre a presidente e seus ministros, como aconteceu quando o agora presidente do México foi mencionado.

Mas na última página o documento diz que o método de espionagem usado é "uma filtragem simples e eficiente que permite obter dados que não são disponíveis de outra forma. E que pode ser repetido." Se pode ser repetido, tudo indica que foi levado a cabo.

Conclui, ainda, dizendo que a união de dois setores da NSA teve sucesso contra alvos de alto escalão: Brasil e México. Alvos importantes, que sabem do perigo de espionagem e protegem sua comunicação. Novamente, se houve sucesso é porque foram exemplos reais.

Comunicações de brasileiros
No mês passado, uma reportagem do jornal “O Globo”, mostrada também no Fantástico, revelou, com documentos vazados por Snowden, que os EUA interceptam milhões de comunicações de brasileiros.

Na ocasião, o embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, negou que e-mails e telefonemas de cidadãos brasileiros estivessem sendo espionados. Admitiu apenas que eram acessados os chamados metadados (o total de conexões, que passavam pelo Brasil).

Falta de clareza
Não está claro se a interceptação das ligações da presidente Dilma foi feita apenas com acesso às redes de comunicação, ou se houve participação de espiões em território brasileiro.

James Bramford, especialista que escreveu três livros sobre a NSA, falou com o Fantástico, em Washington. Ele diz que a NSA tem espiões nas embaixadas e consulados americanos pelo mundo.

“Temos uma grande embaixada em Brasília e um consulado no Rio de Janeiro. A NSA opera nesses prédios”, afirmou. Antenas nas embaixadas podem interceptar sinais de microondas e telefones celulares, disse Bramford.

Ainda em Hong Kong, quando se encontrou com Glenn Greenwald, Edward Snowden comentou os documentos que envolvem a espionagem à presidente Dilma.

Ele disse o seguinte: "a tática do governo americano desde o 11 de setembro é dizer que tudo é justificado pelo terrorismo, assustando o povo para que aceite essas medidas como necessárias. Mas a maior parte da espionagem que eles fazem não tem nada a ver comsegurança nacional, é para obter vantagens injustas sobre outras nações em suas indústrias e comércio em acordos econômicos".

No mês passado a revista “Época” publicou com exclusividade um documento comprovando que a espionagem americana é também comercial.

Trata-se de uma carta escrita pelo atual embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, em 2009, quando ainda era subsecretário de estado.

Ele agradece à NSA pelas informações repassadas à diplomacia americana antes da 5ª Cúpula das Américas - um encontro entre os chefes de estado do continente para discutir assuntos comerciais e diplomáticos da região.

Na carta, Thomas Shannon escreveu: "mais de 100 relatórios que recebemos da agência nos deram uma compreensão profunda dos planos e intenções dos outros participantes da cúpula e permitiram que nossos diplomatas estivessem bem preparados para aconselhar o presidente Obama em como lidar com questões controversas".

“Em questões comerciais, saber o que os outros estão pensando antes das reuniões multilaterais é como jogar pôquer sabendo quais as cartas de todos na mesa”, disse Bramford.

Outro documento obtido com exclusividade pelo Fantástico diz que uma divisão inteira da NSA é dedicada à política internacional e atividades comerciais, com um setor encarregado de países da Europa Ocidental, Japão, México e Brasil.
Um terceiro documento ultrassecreto enumera os desafios geopolíticos dos Estados Unidospara os anos de 2014 a 2019. O surgimento do Brasil e da Turquia no cenário global é classificado como risco para a estabilidade regional.

E o Brasil aparece de novo, junto com outros países, como uma dúvida no cenário diplomático americano: nosso país seria amigo, inimigo ou problema? Também são citados Egito, Índia, Irã, Turquia, México.

“Quando o país fica mais independente, mais forte, como o Brasil está (...), competindo com os Estados Unidos, empresas americanas. E por causa disso, o governo americano está pensando diferente sobre o Brasil”, afirmou Glenn.

Fantástico: por que Edward Snowden torna públicos esses documentos?

“Ele me disse: olha, eu acho que a privacidade do norte-americano é muito importante, mas também eu acho que o privacidade dos estrangeiros, das pessoas na América Latina, dos brasileiros, é muito importante também. A importância é igual. E eu não quero proteger somente a privacidade do norte-americano. Eu quero proteger a de todas as pessoas.”

Nesta semana, o jornal americano "Washington Post" publicou o orçamento secreto dos serviços de espionagem americanos, o equivalente a R$ 126 bilhões.

Reação do governo brasileiro
Neste domingo (1º), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se reuniu com a presidente Dilma Rousseff para discutir a reação as novas revelações de espionagem do governo americano. O governo brasileiro decidiu tomar três medidas: o Ministério das Relações Exteriores vai chamar o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, para que ele dê novos esclarecimentos, vai cobrar explicações formais do governo dos Estados Unidos e vai ainda recorrer aos órgãos internacionais, como a ONU, para discutir a violação de direitos de autoridades e cidadãos brasileiros.
“Se forem comprovados esses fatos, nós estamos diante de uma situação que é inadmissível, inaceitável, por que eles qualificam uma clara violência à soberania do nosso país. O Brasil cumpre fielmente com suas obrigações e gostaria que todos os seus parceiros também as cumprissem e respeitassem aquilo que é muito caro para um país que é a sua soberania”, disse Cardozo.

O ministro esteve na semana passada nos Estados Unidos, onde se reuniu com o vice-presidente, Joe Biden. Ele levou a proposta de que as comunicações só sejam acessadas com autorização da Justiça e no caso de investigações criminais. A proposta não foi aceita.
Procuradas, as embaixadas dos Estados Unidos e do México não se manifestaram.

Falando francamente, por Fernando Henrique Cardoso

POLÍTICA


Não é preciso muita imaginação, nem entrar em pormenores, para nos darmos conta de que atravessamos uma fase difícil no Brasil. Mas comecemos pelo plano internacional.
Os acontecimentos abrem cada vez maiores espaços para a afirmação de influências regionais significativas.
O próprio “imbróglio” no Oriente Médio, do qual os Estados Unidos saem com cada vez menos influência na região, aumenta a capacidade de atuação das monarquias do Golfo, que têm dinheiro e querem preservar seu autoritarismo, assim como a do Irã, que lhes faz contraponto. A luta entre wahabitas, xiitas e sunitas está por trás de quase tudo. E a Turquia, por sua vez, encontra brechas para disputar hegemonias.
Enquanto isso, nós só fazemos perder espaços de influência na América do Sul. Nossa diplomacia, paralisada pela inegável simpatia do lulopetismo pelo “bolivarianismo”, ziguezagueia e tropeça.
Ora cedemos a pressões ilegítimas (como a recente da Bolívia, que não dava salvo-conduto a um asilado em nossa embaixada), ora nós próprios fazemos pressões indevidas, como no caso da retirada do Paraguai do Mercosul e da entrada da Venezuela.
Ao mesmo tempo fingimos não ver que o “Arco do Pacífico” é um contrapeso à inércia brasileira. Diplomacia e governo sem vontade clara de poder regional, funcionários atordoados e papelões por todo lado ─ é o balanço.
Na questão energética, que dizer? A expansão das usinas está atrasada e sem apoio real do setor privado, salvo para construir as obras. Os caixas das empresas elétricas quebradas, graças a regulamentações que, mesmo quando necessárias, se fazem atropeladamente e sem olhar para os interesses de longo prazo dos investidores e dos consumidores.


A Petrobrás, agora entregue a mãos mais competentes, mergulhada numa incrível escassez de créditos para investir e com o caixa abalado pela contenção do preço da gasolina. O que fora estrepitosamente proclamado pelo presidente Lula, a autossuficiência em petróleo, se esfumou no aumento do déficit das importações de gasolina. Agora, com a revolução americana do gás de xisto, quem sabe onde irá parar o preço de equilíbrio do petróleo para ser extraído do pré-sal?
Na questão da infraestrutura, depois de uma década de atraso nos editais de concessão de estradas e aeroportos, além das tentativas mal feitas, o governo inovou: fazem-se privatizações, disfarçadas sob o nome de concessões, com oferta de crédito barato pelo governo às empresas privadas interessadas.
Dinheiro, diga-se, do BNDES (com juros subsidiados pelo contribuinte) e, ainda por cima, o governo se propõe a levar para a empreitada os bancos privados. Sabe-se lá que vantagens terão de lhes ser oferecidas para que entrem no ritmo do PAC, isto é, devagar e mal feito.

O tempo fora de tempo, por Carlos Brickmann

POLÍTICA


Carlos Brickmann
Diz o Eclesiastes, um dos livros da Bíblia, que há um tempo para tudo, um tempo para tudo o que ocorre. Há, pois, que ter o tempo como aliado; e saber quando a hora não chegou. E, quando não for o tempo, adiar o que se deseja.
É justo ou não o pedido do ministro Joaquim Barbosa de aumento de salários no STF? Pode ser; mas não é hora de elevar agora o salário do STF para mais de R$ 30 mil, quando o salário mínimo talvez vá para R$ 722, e só no ano que vem.
É correto manter o mandato do deputado federal Natan Donadon, do PMDB, preso por corrupção? Este colunista acha que não, a Câmara acha que sim; mas não é hora de criar a figura jurídica do deputado sem direitos políticos, que não pode votar nem ser votado, nem comparecer às sessões, mas continua deputado.


Não é o tempo certo para que a cúpula do país faça reivindicações, por justas que lhe pareçam. Multidões foram às ruas pedir seriedade na administração pública.
Não é o tempo certo para que o governador do Ceará, do PSB, compre quatro helicópteros sem licitação e contrate bufês suntuosos para servi-lo; nem para que o senador Cássio Cunha Lima, do PSDB, arranje emprego público para a namorada, a sogra e o cunhado; nem para que o governador gaúcho, do PT, gaste R$ 400 mil do Tesouro para avaliar se o jornal Zero Hora o trata com imparcialidade; nem para que o governador do Piauí, do PSB, queira pagar seu hidratante, xampu reparador e gel esfoliante com dinheiro público. Puro deboche.
Parafraseando o Eclesiastes, que proveito tirou o povo de suas manifestações?

A saúde como caos, por Ricardo Guedes


saúde hoje no Brasil chegou a um verdadeiro caos.
O SUS se dilacerou, os Planos de Saúde viraram SUS, e a consulta particular virou Plano de Saúde quanto ao tempo de espera da consulta.
Hoje não há quem se diga satisfeito com o atendimento médico no país, em todas as classes sociais, seja na classe baixa, média ou alta. Todos mal atendidos.
Há falta de médicos, devido à falta de planejamento e de investimento naformação profissional, o que não ocorreu nos últimos anos.
Ao invés de se implementar uma política de desenvolvimento para as universidades, a prioridade se deu para a criação de cotas no ensino superior, e agora na importação de médicos.
A vinda de médicos estrangeiros é meritória como medida emergencial, com restrições ao seu formato em relação aos cubanos.
Os cubanos chegam ao Brasil sem atender às normas da CLT, e sem a necessidade de validar o seu diploma para a atuação, mesmo que em área específica.
Com relação à CLT, é digno se notar a discreta manifestação do Ministério Público em relação ao assunto, já que boa parte do crescimento do emprego formal nos últimos 10 anos deveu-se à mais intensa fiscalização do Ministério do Trabalho sobre as pequenas e médias empresas, convertendo forçadamente empregos nitidamente temporários em contratos CLT, muitas vezes em desajuste com os interesses de empregadores e empregados, com sucessivas comemorações do aumento do emprego formal.


A falta de exigência da validação dos diplomas é outra afronta aos Conselhos de Medicina do país, órgãos reguladores do exercício da profissão, resguardando-se o governo na forma jurídica de contratação de consultoria do exterior. É legal, mas não é ético.
Quanto às cotas nas universidades, em pesquisa realizada com professores, técnicos e estudantes da UFRJ em 2005, 86% concordam que o melhor seria o governo investir em áreas pobres para o desenvolvimento social do que criar cotas nas universidades, contra 6% que apoiam a medida do governo; 55% acham que não é justa a criação de cotas nas universidades, contra 24% que acham que sim; e 58% acreditam que o sistema de cotas irá aumentar a descriminação social e racial no país, contra 32% que não.
Hoje, boa parte dos estudantes que entraram no ensino universitário de ponta através de cotas não conclui o ensino superior, tendo desempenhado um papel político atribuído e impedido a formação de mais um profissional qualificado para o mercado.
Quão longe estão as cotas dos ideais de excelência da Faculdade de Medicina da USP e de Zeferino Vaz na Escola de Medicina de Ribeirão Preto, na geração da capacidade hoje existente no Sírio Libanês, Albert Einstein, Beneficência Portuguesa, Hospital do Coração, Hospital das Clínicas de São Paulo, e tantos outros, para onde correm a classe política e a elite brasileira no caso de necessidade e emergência.
Urge uma política educacional de formação de qualidade para o país.

Ricardo Guedes, Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago, é Diretor-Presidente do Instituto de Pesquisa Sensus.

O pensamento de Jean-Baptiste Say sobre as principais questões da economia



Este artigo é a parte final deste artigo

SayEntrepreneur.jpg4. Empreendedorismo, capital e juros
Adam Smith excluiu do pensamento econômico a importante figura do empreendedor, mas Say , por estar sempre preocupado com o mundo real e não com situações de equilíbrio de longo prazo, trouxe-a de volta ao palco. Não tão fortemente quanto Cantillon e Turgot, mas o suficiente para que continuasse, embora de modo irregular, no pensamento econômico continental, porém ainda ausente do mainstream dominante do classicismo britânico.
O que esses empresários fazem, na visão de Say? A resposta é que usam  sua "indústria", ou, em linguagem moderna, "trabalho", para organizar e dirigir os fatores de produção, de modo a alcançar a satisfação de necessidades dos consumidores.  Mas não são meros gerentes, são previsores, avaliadores de projetos e que se arriscam voluntariamente.  Say usa a palavra  "capital" um tanto confusamente, com duplo sentido, para significar, segundo o contexto exige : (a) de bens de capital, que são parte integrante da produção de novos bens finais, tal como na abordagem austríaca, ou (b) o capital financeiro, visto como o funding da empresaOs primeiros são o resultado de algum processo de produção mais indireto e, quando combinados com a indústria do empreendedor, geram lucros ou prejuízos, ou seja, na linguagem austríaca, a "estrutura de capital"  da economia. O segundo é o resultado de poupar uma parte da renda da atividade produtiva ganha no passado e gerar recebimentos de juros.
Say era favorável ao empreendedorismo como força motriz das alocações e ajustamentos da economia de mercado. Ele resumiu suas ideias sobre o mercado afirmando que os desejos dos consumidores determinam o que será produzido: 
O produto mais procurado é de maior demanda, e o que tem maior demanda gera o maior lucro para a indústria, capital e terra, que portanto, são empregados na obtenção deste produto em particular, de preferência, e vice-versa, quando um produto experimenta queda em sua demanda, há uma queda no lucro para a indústria, capital e terra e isso pode levar o produto a deixar de ser fabricado.
A partir de sua análise do capital, empreendedorismo e mercado, Say concluiu ser o laissez faire o melhor sistema econômico:
Os próprios produtores são os únicos juízes competentes da transformação, exportação e importação desses vários produtos e matérias-primas e cada governo que interfere, cada sistema calculado para influenciar a produção, só pode fazer o mal.
A análise de Say das taxas de juros é, em muitos aspectos, notoriamente austríaca. Primeiro, porque ele percebe que a taxa de juros não é o preço do dinheiro, mas o preço do crédito, ou "capital emprestado", o que torna  falso afirmar que a abundância ou escassez de dinheiro regulam a taxa de juros.  Naturalmente, ele pensava na taxa de juros real e não na taxa nominal ou de mercado. Ele também viu claramente que as taxas de juros devem incluir algum prêmio de risco, como uma espécie de seguro para proteger de perdas devidas adefaults. Esse prêmio de risco será muito grande quando, por exemplo, são impostas leis para que os credores não tenham nenhum recurso legal contra devedore caloteiros. Além disso, Say identifica o fato de que há diferenças de risco político entre as nações, que levam a uma ordem internacional de taxas juros nominais. Em termos de política pública, Say adota a mesma postura no que diz respeito aos mercados de crédito,  ou seja : o Estado não deve se intrometer. A taxa de juros não deveria ser controlada pelo Estado, ou determinada por lei, tais como os preços do vinho, do linho, ou de qualquer outro produto.
5. Valor e utilidade
Para Say, o valor é fundamentado na utilidade, que é a propriedade que um bem ou serviço possui para satisfazer algum desejo humano. Esses desejos e as preferências, expectativas e costumes que estão por trás deles devem ser tomados como dados  pelo analista. A tarefa do economista é raciocinar sobre tais dados. Say é mais enfático em negar as alegações de Adam Smith, David Ricardo, Malthus e outros de que a base de valor é o trabalho.Outro componente austríaco de sua obra!
As duas categorias de valor para Say são "valor de troca" e "valor de uso".  O valor de troca encontra-se no domínio da economia, porque é uma medida do que é preciso dar-se a fim de adquirir um bem no mercado. Em termos econômicos, o único critério justo do valor de um objeto é a quantidade de outras commodities em geral, que podem ser facilmente obtidas por ele em troca. Tais bens que possuem "valor de troca" hoje seriam chamados de "bens econômicos", mas Say os denomina de "riqueza social". Em contraste, algumas coisas, como o ar, a água e a luz do sol possuem apenas "valor de uso", pois eles estão presentes em abundância, de maneira  que não podem possuir um preço. Estes bens são modernamente conhecidos como "bens livres", mas Say os denominava de "riqueza natural".
Infelizmente, aderindo a essa taxonomia de valores, Say incorre em um erro, ao concluir que, como a medida do valor econômico de um bem é, literalmente e precisamente, o seu preço de mercado, então todas as transações de mercado devem envolver a troca de valores iguais e isso, é claro, implicar que nem compradores nem vendedores ganhem. Ou, em outras palavras, todas as transações de mercado são um "jogo de soma zero".  "Quando o vinho espanhol é comprado em Paris, igual valor é realmente dado para igual valor: a prata paga, e o vinho recebido, são dignos um do outro. Os austríacos são inflexíveis em sustentar que os intercâmbios, enquanto são voluntários, devem ser mutuamente benéficos em termos de utilidades esperadas por cada um, o comprador e o vendedor. Se não for esse o caso, então por que o comprador e o vendedor concordariam em negociar?
6. Tributação
Em nenhum outro ponto o radicalismo de Say é mais evidente do que em sua crítica da intervenção do governo na economia. Sucintamente, ele declara que o auto-interesse e a busca de lucros é que empurram os empresários em relação à satisfação da demanda do consumidor. "A natureza dos produtos é sempre regulada pelas necessidades da sociedade", portanto, "a interferência legislativa é completamente supérflua". Que economistaaustríaco pode discordar dessas afirmações?
Seus comentários sobre uma série especial de atos legislativos são muito instrutivos. O primeiro dos atos de navegação britânicos foi aprovado em 1581 e foram reforçados em 1651 e 1660 e o último não foi revogado até 1849. Seu propósito era reservar o comércio internacional exclusivamente para os proprietários de navios da marinha mercante britânica. Say argumenta então que tal monopolização do transporte comercial diminui a riqueza nacional (da própria Grã-Bretanha), porque muitas vezes reduz os lucros dos mercadores que transportam seus produtos ao mercado.
Hoje, há muitos escritores que insistem em que as altas taxas de impostos e os altos níveis concomitantes de gastos do governo, de alguma forma fazem com que uma sociedade seja mais próspera. Naturalmente, Say sabia que isso é falso, apesar do fato de que, do ponto de vista estatístico, a prosperidade e a tributação podem ser correlacionados positivamente, já que os governos arrecadam mais quando os negócios privados vão bem. Ele, porém, com lógica irretocável, explica que tais afirmações cometem o erro de inverter causa e efeito. Ou seja,  o homem não é rico porque ele paga muitos tributos, mas sim ele é capaz de pagá-los, em grande parte, porque ele é rico.
Say não hesita em identificar os gastos do governo como consumo improdutivo e a excessiva tributação como uma espécie de suicídio. Outro elemento austríaco.
É verdade que Say ou negligenciou ou interpretou mal determinados pontos da teoria dos economistas austríacos: ele não acredita que as trocas de mercado representam ganhos de utilidade para o comprador e o vendedor, ele não vê a relação entre taxas de juros e preferência temporal, ele não oferece nenhuma teoria dos ciclos de negócios. Mas, por outro lado, ele está ciente das limitações de investigações estatísticas, é muito favorável à moeda-commodity e ao free banking, sabe que os empresários e a acumulação de capital são essenciais para o avanço econômico, identifica corretamente tanto regulamentação governamental e tributação como ameaças à prosperidade e, na verdade, até mesmo como uma ameaça à própria sociedade civil.
Rothbard [pág. 40] observa que, ao contrário de quase todos os outros economistas, Say tinha uma visão espantosamente perspicaz sobre a verdadeira natureza do Estado e de sua tributação. Em sua obra não há busca mística para algum estado verdadeiramente voluntário, nem qualquer ponto de vista de que o Estado pode ser como uma organização semiempresarial e prestadora benigna de serviços a um público grato por seus inúmeros "benefícios". Pelo contrário, Say viu claramente que os serviços governamentais são usados indubitavelmente para si mesmo e para os seus favoritos e que todos os gastos do governo são, portanto, gastos de consumo pelos políticos e pela burocracia. Ele também viu que os recursos fiscais para os gastos públicos são extraídos por meio da coerção, em detrimento do público pagador de impostos. Nisto, além de antecipar o insight austríaco, ele também antecipou as análises de James Buchanan e dos demais teóricos da Public Choice!
Say tem muito a oferecer a qualquer leitor, seja austríaco ou não, seja economista ou não. Ele viu muitos imporem verdades importantes com clareza e escreveu a respeito deles com paixão e lucidez. Certa vez referiu-se à economia como "esta bela e, acima de tudo, útil ciência".  E sem dúvida deixou a economia mais bela e mais útil do que aquela que tinha encontrado.
7. Direitos de propriedade
Sobre este tema, Say foi extremamente austríaco :
Não há segurança de propriedade onde uma autoridade despótica pode apropriar-se da propriedade do objeto contra o seu consentimento. Também não há tal segurança onde o consentimento é meramente nominal e ilusório.
 E mais :
A propriedade que um homem tem sobre sua própria indústria (trabalho) é violada sempre que é proibido o livre exercício de suas faculdades ou talentos, exceto até um ponto em que eles iriam interferir nos direitos de terceiros.
Para Say, resumindo, a propriedade privada e as liberdades individuais são fatos reconhecidos, irrefutáveis e dados, que a ciência da economia política deve supor e sem a qual a economia do mundo real não pode funcionar. Essa posição do economista francês é que deve ter irritado profundamente Marx, a ponto deste, para contestá-la, substituir a lógica dos argumentos pela ilógica dos xingamentos, no intuito de desmoralizá-la. Tal como muitos de seus adoradores nossos contemporâneos, o que Marx fez, ao invés de procurar refutar a Lei de Say cientificamente, foi apelar para recursos em tudo similares às palavras de ordem que se tornaram tão comuns em manifestações públicas e até em universidades.
8. As controvérsias: Sismondi, Ricardo, Malthus e o contexto histórico da época
Em interessante artigo, intitulado Say, Sismondi e o debate continental sobre os mercados, o Professor Rogério Arthmar, da Universidade Federal do Espírito Santo, relata  o debate travado entre Say e Jean Charles Léonard de Sismondi (1773-1842), um economista suíço e crítico severo da revolução industrial e do capitalismo (embora não chegasse a ser um socialista rígido), a respeito da possibilidade de saturação geral dos mercados, no contexto histórico da Europa continental no início do século XIX, destacando  as particularidades da experiência francesa de industrialização.
O debate entre Say e Sismondi , segundo Athmar,
pode ser interpretado como um desdobramento, no âmbito da teoria econômica liberal, do legado político da Revolução Francesa. Mais precisamente, do princípio expresso desde cedo pelo Abade Sieyès de constituir-se o terceiro Estado na própria nação. Fiéis a esse preceito maior, tanto Say quanto Sismondi viriam a apregoar o livre comércio e a abominar o consumo improdutivo de todas as ordens, fosse ele do governo ou da nobreza. Distanciavam-se eles, assim, de qualquer ligação com as doutrinas econômicas pré-revolucionárias, a saber, o mercantilismo e a fisiocracia, desqualificadas como produtos do antigo regime monárquico. Essa confluência política entre ambos, todavia, encerrava profundas divergências teóricas na interpretação do melhor caminho a seguir pela sociedade francesa. No juízo de Say, a industrialização representava a possibilidade de um futuro promissor para todos, o acesso à civilização moderna proporcionado pela proliferação em larga escala dos produtos e, por conseguinte, das necessidades. Sismondi, ao contrário, embora sem jamais fazer concessões às teses socialistas ou aos economistas heréticos de seu tempo, enxergava no capitalismo uma etapa histórica única na qual o aumento dos poderes produtivos do capital havia sido alçado à condição de prioridade absoluta em detrimento das condições de vida e da capacidade de consumo dos verdadeiros artífices da riqueza social. [trecho da conclusão]
Contudo, o debate mais famoso de Say foi com Thomas Malthus (1766-1834). A argumentação contundente de Say, em cinco cartas, provê respostas às visões malthusianas negativas sobre o impacto do aumento da população sobre o bem-estar dos trabalhadores e fornece uma popularização de suas ideias econômicas. Em curto, porém bastante elucidativo artigo, William L. Anderson analisa a Lei de Say, desde os tempos em que o Traité foi publicado até os dias atuais (boa parte da discussão econômica entre Ronald Reagan e Jimmy Carter, na campanha para as eleições de 1980, nos Estados Unidos, segundo Anderson, foi centrada na Lei de Say).
Thomas Malthus contestou a Lei de Say em 1820, com uma peça que foi rapidamente respondida por David Ricardo. No entanto, Thomas  Sowell, em 1985, escreveu que o ataque mais virulento veio de Karl Marx, que declarou a Lei de Say um "absurdo", um "balbuciar infantil", uma "conversa oca lamentável", "uma evasão insignificante" e chamou Say de "chato", "fútil", "miserável", "imprudente" e  "uma "farsa". Apesar de todos esses "elogios" de Marx, no entanto, a maioria dos economistas do século XIX foram convencidos pela lógica de Say e geralmente aceitaram a doutrina do francês. Já naquele tempo, os xingamentos eram os "argumentos" de quem não tem argumentos.
Sowell, em 1994, escreveu que no sistema clássico a Lei de Say envolveu seis proposições principais: 
1. Os pagamentos totais recebidos pelos fatores utilizados para a produção de um determinado volume (ou valor) de produto são necessariamente suficientes para comprar esse volume (ou valor) de produto; 
2. Não há nenhuma perda de poder de compra em qualquer lugar na economia (em outras palavras, nenhum"leakage" keynesiano), pois as pessoas poupam apenas na medida do seu desejo de investir e não de guardar dinheiro além do necessário para suas transações no período atual; 
3. O investimento é apenas uma transferência interna, e não uma redução líquida da demanda agregada; 
4. Em termos reais, a oferta é igual à demanda ex ante, uma vez que cada indivíduo produz apenas por causa de sua demanda por outros bens; 
5. A maior taxa de poupança vai causar uma maior taxa de crescimento subsequente do produto agregado; 
6. Desequilíbrios na economia podem existir apenas porque as proporções internas do produto diferem do mix de preferência do consumidor – e não porque a produção é excessiva no agregado.
Como Sowell aponta, até mesmo os críticos concordam com as três primeiras proposições. Foram as três últimas que criaram a controvérsia (aqui deve também ser notado que a última proposição ajuda a formar a base para a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, conforme descrita por Mises, Hayek e Rothbard).
Portanto, o famoso capítulo XV do Traité — em que Say explica a lei dos mercados — sempre foi motivo de aceitação e também de refutação, como até hoje acontece. Mas o que dizer da controvérsia entre Say e Malthus, cuja teoria pessimista previa que a população cresceria a taxas geométricas, enquanto os meios de subsistência cresceriam a uma taxa aritmética, sendo, portanto, o futuro infestado pela escassez?
Malthus escreveu a David Ricardo em uma carta: 
A demanda efetiva consiste em dois elementos: o poder de compra e a vontade de comprar. . .  A nação deve, certamente, ter o poder de comprar tudo o que ela produz, mas posso facilmente imaginar que não tenha a vontade.
Malthus era um clérigo inglês que ganhou fama por seu Ensaio sobre a População (1798), no qual ele previu que a taxa de crescimento da população iria eventualmente ultrapassar o aumento do fornecimento de alimentos, levando à fome em massa, como escrevemos linhas atrás. Ao contrário de Smith, que era preocupado com a produção, Malthus escolheu a questão da distribuição para enfatizar.
A noção de pessoas que não têm vontade de consumir era certamente estranha para os postulados da economia clássica. Smith havia argumentado que as pessoas desejam ficar materialmente melhores do que estão em seu estado atual. No entanto, em decorrência dos efeitos da revolução industrial, que provocou deslocamentos maciços de camponeses para as cidades, houve especulações sobre o futuro dos trabalhadores, o que levou à "Lei de ferro dos salários" de Ricardo (nome, aliás, que Ricardo não deu à sua teoria) e ao ensaio de Malthus sobre a população.
É muito importante atentarmos para o contexto histórico daqueles tempos, que se seguiram a dois dos mais importantes acontecimentos da história da civilização: a revolução industrial e a revolução francesa de 1789. Esses dois eventos mudaram o mundo político e o mundo econômico. E a teoria econômica não poderia ser mais a mesma de antes.
No início do século XIX, na Grã-Bretanha, a grande classe média, que agora domina os países industrializados, era quase inexistente. As disparidades entre ricos e pobres eram muito maiores do que são hoje e os economistas estavam incertos sobre a forma como os trabalhadores se sairiam depois que a produção aumentou com a revolução industrial. Alguns, como Malthus e Ricardo, acreditavam que os trabalhadores viveriam sempre em níveis de subsistência, pois sua maior produtividade seria minada por sua capacidade de produzir famílias cada vez maiores. (Deve-se acrescentar que embora a base original para a "Lei de Ferro" tenha vindo de Malthus, Ricardo foi mais dogmático sobre seus efeitos determinísticos do que Malthus). 
Além disso, o velho argumento da época mercantilista da "utilidade da pobreza" não tinha sido totalmente enterrado. Os trabalhadores, Malthus argumentou, "podem ser satisfeitos com uma vida de comida simples, roupas mais pobres e casas mais humildes. . . . "(Malthus, p. 9) Se isso fosse verdade, então os trabalhadores, ao se tornarem mais produtivos através da industrialização, provavelmente consumiriam menos do que aquilo que produziam. Isso seria deixar as pequenas classes altas com o fardo de consumir esse excedente, algo que Malthus duvidava que pudesse ocorrer.
Outra base crítica de Malthus era a sua crença de que as trocas nem sempre envolvem mercadorias por mercadorias, uma vez que também poderão ser trocadas por serviços. Mercadorias — observou ele — não eram "figuras matemáticas", mas sim algo existente para satisfazer desejos humanos. Se os desejos estavam saciados, mas ainda existia renda extra, então iria ocorrer um excesso.
Adam Smith tinha escrito sobre a "demanda efetiva", que disse ser baseada na capacidade de alguém para comprar um bem. Usando o exemplo do pobre e do treinador, ele observou que alguém poderia "exigir" alguma coisa, mas se não tivesse os recursos para comprar esse bem, em seguida, então não existiria "demanda efetiva".
Na opinião de Malthus, a demanda efetiva (que ele chamou de "effectual demand") também envolve a vontade de comprar alguma coisa. Enquanto Smith aplicou um teste de meios para a demanda,  Malthus acrescentou desejo. Em outras palavras, alguém pode ter a capacidade de comprar um bem ou serviço, mas se não o desejar, então a demanda será inexistente. Enquanto a análise de Malthus é quase controversa do ponto de vista econômico, o clérigo viu algo economicamente sinistro se os ricos não consomissem bens suficientes para evitar um excesso de oferta.
David Ricardo refutou com sucesso Malthus, pelo menos para a satisfação da maioria dos economistas do século XIX. Como Say, ele baseou sua refutação, em 1817, sobre a idéia de que as pessoas produzem não por razões de produção, mas por razões de consumo:
Nenhum homem produz  a não ser com o objetivo de consumir ou vender, e ele nunca vende, a não ser com a intenção de comprar algum outro produto, que pode ser imediatamente útil para ele, ou que pode contribuir para a produção futura. Ao produzir, então, torna-se necessariamente ouconsumidor dos seus próprios bens, ou o comprador e consumidor de bens de qualquer outra pessoa.
Ricardo, como Say e outros economistas clássicos, não acreditava que poderiam ocorrer gluts, mas, em vez disso, considerou que tais gluts eram apenas temporários e proporcionais na natureza, em vez de serem gerais, como Malthus afirmou.  Ele observou: "Os homens erram em suas produções, não há deficiência de demanda". Ricardo também escreveu:
Muito de uma determinada mercadoria pode ser produzido, de tal modo que pode haver um tal excesso no mercado, para não pagar o o capital dispendido sobre ela, mas isto não pode ser o caso no que diz respeito a todas as mercadorias.
A controvérsia Ricardo-Malthus é um dos capítulos mais interessantes da história da Escola Clássica. Ricardo usou um argumento lógico poderoso, enquanto seu adversário, embora levantando questões importantes, não foi capaz de enquadrar os seus pontos de forma mais clara. A argumentação de Malthus também sofreu da incapacidade do clérigo para diferenciar entre a demanda e a quantidade demandada, e este problema, sem dúvida, prejudicava sua eficácia intelectual.
No entanto, mesmo não tendo influenciado os pensadores econômicos mais influentes de sua época, Malthus iria influenciar grandemente Keynes. Assim, o legado de Malthus de desafiar a Lei de Say, infelizmente, não desapareceu e permanece até os nossos dias.
9. Conclusões
Nas cartas a Malthus, fica bastante claro que as duas visões do mundo econômico são determinadas pela teoria do valor endossada por cada um dos adversários : enquanto Malthus e Ricardo aceitavam a teoria do valor trabalho herdada de Adam Smith, segundo a qual o valor é determinado pelas horas de trabalho utilizadas na produção de um bem, Say, antecipando Jevons, Walras e Carl Menger (que no ano de 1871 concluíram que o valor depende da utilidade marginal), conseguiu antever que era a capacidade de satisfazer as necessidades dos consumidores que determina o valor, ou seja, que o valor depende da demanda. Este é o ponto crucial !
Neste sentido, Say estava corretíssimo e pode ser considerado um legítimo precursor (ao lado de Juan de Mariana, Richard Cantillon e Bastiat, a quem influenciou) da Escola Austríaca de Economia.
Duzentos e dez anos após o Traité d´economie politique de 1803, em tempos de ajuste difícil às rápidas mudanças globais e tecnológicas, é tempo de se resgatar o valor do trabalho de Say, ao desenvolver os fundamentos para uma sociedade livre: a estrutura legal-institucional e a economia de mercado.
Mas a história interminável de disputas sobre o conteúdo e validade da sua famosa "lei dos mercados" — de Sismondi a Malthus, de Ricardo a Mill, de Keynes a Schumpeter — que confundiu tantos foi reformulada numa versão mais popular por James Mill: "a oferta cria a sua própria procura", apotegma que foi ardilosamente captado por Lord Keynes.
Como muito bem exposto em Jean Baptiste Say, na página do Movimento Liberal Social — Liberalismo em Portugal,
Tal formulação constituiu uma provocação para todos aqueles que defendiam que uma procura pequena é a causa para um crescimento econômico pequeno, para a depressão econômica e para o desemprego, e que a política de um governo para aumentar a procura, via salários mais elevados e baixas taxas de juro, é a melhor cura para o crescimento e criação de empregos: as "políticas pelo lado da procura"de Keynes e dos Keynesianos, são ainda apreciadas pelos sindicados e pelos socialistas. Say defende "políticas económicas pelo lado da oferta": Mais investimento de capital cria mais produção e empregos mais bem pagos. Mas, numa simplicidade bíblica, pode reconhecer Say pelos seus frutos, "políticas pelo lado da oferta": A oferta cria a sua própria procura apenas se determinadas pré-condições forem satisfeitas.
Como alguém poderia formular hoje em dia, Say questiona por políticas que mantenham sob controle a inflação, por forma a prevenir distorções no mecanismo de preços relativos. Say exige a segurança da propriedade privada, definição livre de preços, competição e mercados livres, como incentivos sustentáveis para manter os empreendedores sempre na busca de melhores soluções para problemas antigos e contemporâneos, para sinalizar aos empreendedores o que a população realmente deseja: que produtos, como, onde e quando. Say exige também baixos impostos e orçamentos equilibrados, que financiam a necessária estrutura legal e institucional da economia de mercado, deixando sempre aos cidadãos e seus descendentes, uma percentagem razoável dos frutos do seu trabalho. Hoje em dia adicionaríamos: permitindo também que eles vivam uma vida em liberdade e assumindo as suas responsabilidades'.
Na obra completa de Say, especialmente no Traité, encontramos, às vezes de maneira incompleta, outras vezes de forma fragmentada, mas outras com feição integral, os elementos que identificam um economista comoaustríaco, a saber, o tratamento que dá aos conceitos básicos de ação, tempo e conhecimento, aos elementos de propagação desses conceitos, a saber, a utilidade, a utilidade, o subjetivismo e as ordens espontâneas, bem como os desdobramentos dessas ferramentas analíticas nos problemas relacionados à Epistemologia, à Filosofia Política e, principalmente, à Economia, no estudo dos mercados como processos, do empreendedorismo, na rejeição ao uso da matemática e da estatística e nas questões relacionadas às teorias monetária, do capital e dos ciclos econômicos.
Say, senhoras e senhores (especialmente os jovens), foi um excepcional economista e um dos mais importantes precursores da Escola Austríaca! Nosso papel como defensores da economia de mercado e das liberdades individuais, contra a opressão e a burocracia do Estado, deve ser o de dar a Say o que é de Say. Até porque já o roubaram e deturparam muito nos últimos duzentos anos!