quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Me engana que eu gosto, por Elio Gaspari

POLÍTICA


Elio Gaspari, O Globo
Com o conhecimento do governo americano, a polícia inglesa deteve por cerca de nove horas e interrogou no aeroporto de Heathrow o cidadão brasileiro David Miranda, que desembarcara de um voo procedente de Berlim, a caminho do Rio de Janeiro.
O chanceler Antonio Patriota disse que o episódio “não é justificável” e informou que os dois governos continuarão tratando do caso. Já o embaixador da Grã-Bretanha em Brasília foi mais preciso: o assunto “continua sendo uma questão operacional da Polícia Metropolitana de Londres”. Aleluia: Sua Majestade tem um governo que fala claro na defesa dos seus interesses.
Patriota precisa definir o que “não é justificável”, pois o embaixador inglês justificou-se. Nada de novo. Em julho de 2005 o brasileiro Jean Charles de Menezes, que vivia em Londres com todos os papéis em ordem, saiu de casa, entrou num vagão de metrô e tomou sete tiros na cabeça. A Polícia Metropolitana de Londres confundira-o com um terrorista e “lamentou o episódio”. Sua família recebeu uma indenização de cem mil libras.

David Miranda, brasileiro preso e interrogado pela polícia inglesa. Foto: O Globo

Cinco anos depois, Tony Blair, o primeiro-ministro da ocasião, publicou um livro de memórias no qual lamentou o “terrível erro”, lembrando que ficou “profundamente entristecido pelos policiais que estavam agindo de boa-fé, tentando garantir a segurança do país”. Aleluia de novo. Os governantes ingleses defendem suas polícias. Já as autoridades brasileiras agem de maneira diversa: depois da morte de Jean Charles, Blair foi convidado para prestar serviços de consultoria ao Rio de Janeiro, preparando-o para as Olimpíadas.
Nessa época o governo inglês tentava criar, nos aeroportos de Pindorama, barreiras para viajantes brasileiros. Milhares de nativos eram deportados ao descer em aeroportos europeus. Uma pesquisadora da Universidade de São Paulo foi recambiada de Madri enquanto estava a caminho de Lisboa. Só depois de alguma gritaria o Itamaraty adotou um critério de reciprocidade, devolvendo espanhóis. Veio a crise e hoje é a Espanha que manda gente para o Brasil, sempre bem recebida.
Em julho o doutor Patriota repudiou o procedimento dos governos de Portugal, Espanha, França e Itália, que negaram direito de sobrevoo ao avião do presidente Evo Morales porque se supunha que tinha a bordo o americano Edward Snowden. Deu em quê? Detiveram o companheiro do jornalista americano que divulgou os documentos secretos coletados pelo ex-funcionário da CIA.
Se governos da Europa e dos Estados Unidos acreditam que suas leis especiais justificam-se porque o combate ao terrorismo é um conflito mundial, o receituário da Guerra Fria poderia ser ressuscitado. O governo brasileiro conhece as identidades dos funcionários ingleses que trabalham para o serviço de informações e vivem aqui, sob o guarda-chuva diplomático. Basta pedir que um deles retorne ao seu país, o que não chega a ser uma punição pessoal.
Seria apenas um gesto capaz de materializar o desagrado do governo, como fez a rainha Vitoria com o ditador boliviano Melgarejo. Ele amarrara o embaixador inglês a uma mula, e a soberana mandou bombardear La Paz. Ao saber que a cidade ficava fora do alcance de seus canhões, riscou a Bolívia de seu mapa e declarou que ela não existia mais.

Elio Gaspari é jornalista.

De pai para filho, por Ilimar Franco

POLÍTICA


Ilimar Franco, O Globo
O PMDB reclamou ontem da falta de empenho do PT para que as alianças avancem nos Estados. Os peemedebistas consideram que os petistas, pelo fato de estarem no governo federal, deviam fazer mais para unir sua base nas disputas regionais. As queixas foram abertas pelo senador Jader Barbalho.

 
Helder Barbalho, vice-presidente do PMDB/PA

Ele quer toda a base governista, e não apenas o PT, apoiando a candidatura do filho, Helder Barbalho, ao governo do Pará. O presidente do Senado, Renan Calheiros, também protestou. O PT está disposto a apoiá-lo para o governo de Alagoas. Mas Renan quer que o PT garanta o apoio a qualquer nome que o PMDB apresentar, inclusive o do deputado Renan Filho.

Brasil não deve remar contra a maré do câmbio (Editorial)

ECONOMIA


O Globo
As reações nos mercados financeiros brasileiros têm sido mais extremas do que a média internacional. Não por acaso, depois de liderar, anos atrás, a apreciação frente ao dólar, o real é, em 2013, a moeda que mais se depreciou, superando nos últimos dias até mesmo a rúpia indiana. Além de alguns indicadores apontarem para possíveis tempestades ao longe, há também a perda de credibilidade da política econômica.
O Banco Central tenta atenuar o que considera uma volatilidade excessiva no câmbio e nas taxas de juros, não só preocupado com o impacto dessa flutuação sobre os custos e preços domésticos, mas porque essa agitação no mercado torna a economia ainda mais imprevisível, o que pode levar os agentes econômicos, investidores em especial, a dar marcha à ré em projetos essenciais ao futuro do país.
Apesar dessa tendência ao excesso dos mercados, o Brasil conta com o mais adequado mecanismo para se defender dessa turbulência que atinge diferentes moedas. É o câmbio flutuante. Em determinados momentos, o ajuste é inexorável, e remar contra a maré significaria queimar rapidamente bilhões de dólares em reservas, e provavelmente sem resultado.


Como as demais moedas também estão se movendo, se o real ficasse paralisado o Brasil certamente perderia mercados conquistados a duras penas, e isso em um momento que a balança comercial tem registrado déficits, aumentando as necessidades de financiamento para que o país feche suas contas externas.
O câmbio flutuante embute o antídoto contra crises externas que no passado provocaram graves turbulências na economia brasileira. O ajuste no câmbio fortalece as exportações e torna o Brasil mais atrativo para visitantes estrangeiros. Em contrapartida, algumas importações devem diminuir e os brasileiros terão de ser mais comedidos em suas viagens internacionais.
Mas, como em economia há sempre os dois lados da “moeda”, o câmbio depreciado força uma parte das empresas a buscar redução de custos e eficiência, mas também abre espaço para elevação de preços domésticos no caso dos bens e serviços que ficarem menos expostos à concorrência externa.

A questão das "externalidades"



externalidade.jpgA ideia de externalidades é altamente intuitiva; faz sentido imaginar que as ações de um indivíduo afeta a felicidade e o bem-estar de outros.  Uma externalidade positiva ocorre quando a ação de um indivíduo beneficia pessoas que não participaram diretamente dessa troca.  Pense, por exemplo, no beneficio que um homem recebe quando uma mulherbonita passa ao seu lado na calçada.
Por outro lado, uma externalidade negativa impõe um custo sobre terceiros.  Uma fábrica poluindo o ar ou o abastecimento de água de uma cidade é um exemplo típico desse caso.  Muitos economistas utilizam a ideia de externalidades como base para fazer recomendações de políticas públicas: impor tributos ou conceder subsídios para "compensar" os custos externos.  Com efeito, várias atividades governamentais — para não dizer todas — já foram, cada uma à sua época, justificadas com base no argumento das externalidades.
Mas será que as externalidades realmente possuem algum papel significativo na ciência econômica?
Para a Escola Austríaca, a abordagem correta para a questão das externalidades é uma só: defender o cumprimento e a imposição de direitos de propriedade.  Nesta abordagem, os direitos de propriedade fornecem a resposta para os problemas gerados pelas externalidades.  Se um indivíduo gera danos físicos à propriedade de terceiros, ele é obrigado a pagar por esse estrago.  Tal abordagem, obviamente, só se aplica para os casos de externalidades em que os direitos de propriedade de um indivíduo foram infringidos.  Mises explica como a adoção do sistema de propriedade privada removeu as externalidades que afligiam o antigo sistema no qual não havia proprietário definido para as terras cultiváveis. 
O exemplo extremo nos é proporcionado pelo caso, já referido anteriormente, das terras sem dono.  Se a terra não tem dono, embora o formalismo jurídico possa qualificá-la de propriedade pública, as pessoas utilizam-na sem se importar com os inconvenientes de uma exploração predatória.  Quem tiver condições de usufruir de suas vantagens — a madeira e a caça dos bosques, os peixes das extensões aquáticas e os depósitos minerais do subsolo — não se preocupará com os efeitos posteriores decorrentes do modo de exploração.  Para essas pessoas, a erosão do solo, o esgotamento dos recursos exauríveis e qualquer outra redução da possibilidade de utilização futura são custos externos, não considerados nos cálculos pessoais de receita e despesa.  Cortarão as árvores sem qualquer consideração para com as que ainda estão verdes ou para com o reflorestamento. Ao caçar e pescar não hesitarão em empregar métodos contrários à preservação das reservas de caça e pesca.
Nos primórdios da civilização, quando ainda havia abundância de terras de qualidade não inferior à já utilizada, o uso de métodos predatórios era corrente.  Quando a produtividade diminuía, o lavrador abandonava sua terra e se mudava para outro lugar. Só mais tarde, à medida que a população crescia e não havia mais disponibilidade de terra virgem de primeira classe, as pessoas começaram a considerar tais métodos predatórios um desperdício. Consolidava-se assim a instituição da propriedade privada da terra; a princípio, nas terras aráveis, e depois, passo a passo, estendendo-se aos pastos, às florestas, aos pesqueiros.
Ele também argumenta que as externalidades subsequentes "poderiam ser eliminadas por meio de uma reforma das leis relativas à responsabilidade por danos infligidos e pelo cancelamento das barreiras institucionais que impedem o pleno funcionamento do sistema de propriedade privada."
No entanto, para que ações judiciais por danos infligidos corrijam as externalidades, o custo de restituição determinado deve ser igual à quantidade da externalidade.  Porém, mesmo se soubéssemos o preço de mercado correto a ser pago pela propriedade danificada, o que dizer sobre o valor do dano psíquico?  Nesse ponto, Mises está cometendo um erro similar ao de Ronald Coase, quando este disse que a decisão judicial não irá afetar a alocação de recursos (considerando-se que os custos de transação sejam zero).  Se, por exemplo, a poluição gerada por uma fábrica estiver destruindo um objeto de alto valor sentimental mas de baixo valor de mercado, o proprietário deste objeto pode não ter os meios para "subornar" o dono da fábrica para que este cesse a poluição.  Para este caso, o teorema de Coase não é válido.  Da mesma maneira, se uma decisão judicial levar em conta apenas o valor de mercado da propriedade destruída, a externalidade não será "corrigida" para o caso de objetos de valor sentimental.
Uma abordagem austríaca mais moderna para a questão das externalidades é mostrar que elas são impossíveis de ser calculadas em uma escala significativa.  Rothbard demonstrou que a economia do bem-estar era ilógica, pois é impossível fazer uma comparação interpessoal de utilidade.  Em outras palavras, a felicidade não pode ser mensurada em uma escala quantitativa da mesma forma que, por exemplo, a tensão elétrica pode.  Isso significa que é impossível calcular racionalmente a utilidade ganhada ou perdida em decorrência de uma intervenção governamental. 
Dado que os impostos ou os subsídios propostos para corrigir uma externalidade devem necessariamente ser acompanhados de algum tipo de coerção governamental, torna-se óbvio que nem todos os envolvidos irão se beneficiar desta política. Como então podemos determinar se os resultados de tal política aumentaram ou não a utilidade social da economia?  Nenhum número pode ser calculado, nem mesmo em teoria, para estipular qual foi o benefício líquido da intervenção estatal para a sociedade, ou mesmo para determinar se o benefício líquido foi positivo ou negativo.  Só é possível haver um aumento no benefício líquido se as ações dos indivíduos foremvoluntárias; um ato voluntário indica uma preferência por aquela ação escolhida em detrimento de todas as outras opções disponíveis.  A consequência lógica de tudo isso é que a afirmação de que existe uma externalidade é algo puramente arbitrário.
A análise acima sobre a natureza da utilidade é satisfatória porque traz descrédito à ideia de se utilizar as externalidades como base racional para as decisões políticas do governo.  No entanto, nem é preciso ir tão longe assim, dado que a ideia de externalidades pode ser descartada em bases puramente metodológicas.
Externalidades são definidas a partir do momento em que se toma como referencial um indivíduo que não age.  É sobre esse indivíduo passivo que recaem os custos ou os benefícios de uma ação realizada por terceiros.  Por exemplo, em uma situação em que há danos à sua propriedade, o que ocorreu é que os recursos deste indivíduo proprietário foram utilizados sem seu consentimento.  Para o caso de outras externalidades, o indivíduo que recebe o custo ou o benefício é apenas um inocente observador.  É exatamente pelo fato de os indivíduos não agirem nestas situações, que os economistas criaram uma categoria separada para descrever os efeitos sobre a utilidade deles.  Se um indivíduo age, ele demonstra preferência e espera a maximização de sua utilidade marginal; uma externalidade é o efeito de uma ação sobre a utilidade de terceiros.
Mas é justamente porque as externalidades não podem ser reveladas através da ação humana, que elas são irrelevantes para o estudo da ciência econômica.  Sendo assim, a ideia de externalidades não pode resultar em nenhum conhecimento adicional sobre economia.
Pode-se contestar dizendo que o exemplo de uma pessoa danificando a propriedade de outra demonstra uma externalidade negativa.  No entanto, é sim possível que o dono da propriedade aprove o que foi feito à sua propriedade, sendo que o único motivo de ele próprio não ter feito isso é porque ele preferiu agir de alguma outra maneira.  Ou talvez, tivesse ele tido a opção, ele teria aprovado a maneira como sua propriedade foi utilizada por esse outro indivíduo.  Você se sentiria pior caso alguém jogasse um tijolo de ouro na sua janela?
Mas e o que dizer quanto ao fato, alegado por Coase, de que as externalidades geram agentes que, por meio de barganhas e subornos, decidirão como alocar seus recursos?  A resposta a isso é uma só: do ponto de vista de um economista, isso não interessa (embora possa ser bastante interessante do ponto de vista da psicologia).  A ciência econômica se baseia em um axioma fundamental: os humanos agem.  A razão pela qual um homem escolhe uma determinada ação em detrimento de outra não é importante.  Como dito antes, a única verdade econômica que podemos retirar de uma ação é que ela demonstrou uma preferência.  O motivo dessa preferência é desconhecido e não é o escopo da ciência econômica.
Dado que um economista não estuda os motivos de uma preferência, é irrelevante determinar se uma ação individual é motivada por uma externalidade ou por outra coisa qualquer.  Por exemplo, se eu observo um indivíduo fazendo uma oferta para comprar um ornamento de jardim do vizinho, a ciência econômica vai me ajudar apenas a afirmar que esse indivíduo prefere o ornamento ao dinheiro que ele está oferecendo em troca.  Pode ser que ele esteja apenas querendo retirar aquele ornamento da vista de sua janela (pois ele o acha feio), ou pode ser que ele queira colocar o ornamento em seu próprio jardim, para que possa contemplá-lo mais de perto.  O economista não é capaz de diferenciar qual destes dois motivos gerou o ato, por isso ele deve tratar o ato como sendo o mesmo em ambos os casos.
Outra defesa possível das externalidades é que elas ilustram como a propriedade comunal é mais propensa a ser utilizada mais descuidadamente do que uma propriedade privada.  Tudo o mais constante, um indivíduo terá um incentivo para utilizar e exaurir ao máximo uma propriedade comunal enquanto ela ainda estiver utilizável.  Mas esse fenômeno pode prontamente ser explicado sem se recorrer às externalidades.  Um indivíduo não lidaria com custos de depreciação de seu capital caso utilizasse uma terra comunal, ao passo que ele arcaria integralmente com estes custos caso ela fosse propriedade privada.  Em condições normais, os custos mais baixos de se utilizar uma terra comunal fornecerão um incentivo para que ele a utilize mais negligentemente e com mais intensidade do que se ela fosse privada.  Isso é tudo o que temos de afirmar como economistas.
A teoria das externalidades é tão relevante para a ciência econômica quanto uma teoria sobre como o alinhamento dos planetas afeta o humor das pessoas.  Ambas, por definição, tentam explicar os motivos que levam um indivíduo a formar suas preferências.  Para o economista, não importa se uma pessoa vai comprar um sanduíche de presunto porque está com fome, ou porque isso irá aliviar uma inquietação provocada por ações de terceiros ou porque ela leu que tal sanduíche irá prevenir o envelhecimento.  Tudo o que interessa é que essa pessoa prefere o sanduíche aos $2 em sua mão.

Stephen Halbrook é formado em engenharia pelo Dartmouth College.

Tradução de Leandro Roque

O que as urnas farão com as ruas?, por Ruth de Aquino Ruth de Aquino, ÉPOCA

GERAL


A pergunta, feita por um jovem durante debate na Casa do Saber, no Rio de Janeiro, provocou um silêncio pesado e ensurdecedor, na plateia e na mesa. Ninguém ousaria responder. O medo da radicalização se instalou nas casas, nas famílias, nos locais de trabalho.
As ofensas de baixo calão na internet mostram que uma simples divergência de opinião leva pedradas e balas de borracha. O gás lacrimogêneo nubla a lucidez, o spray de pimenta favorece o extremismo. Não se prevê sequer o que acontecerá no próximo dia 7 de setembro. As redes sociais convocam todos os brasileiros para “o grito do gigante” contra a corrupção política.
Um tema válido e nacional, que causa a repulsa de todo cidadão de bem e transcende partidos. “Não existe corrupção do PT, do PSDB ou do PMDB. Existe corrupção. Não há corrupção melhor ou pior. Dos ‘nossos’ ou dos ‘deles’. Não há corrupção do bem. A corrupção é um mal em si e não deve ser politizada”, disse o mais novo ministro do Supremo Tribunal Federal, Roberto Barroso. Concordo.
Espero que a declaração de Barroso signifique que todos serão punidos. E não que todos serão inocentados, sob o argumento de que “sempre se roubou” no Brasil. Caso contrário, o julgamento dos mensaleiros virará uma chicana.

Foto: André Coelho

Barroso poderia acrescentar que os abusos e desvios não se restringem ao Legislativo. Contaminam o Executivo e também o Judiciário, Poder que ele representa. Há mordomias imorais para todo gosto entre os excelentíssimos representantes do povo.
Ou Barroso acha válido que a gente pague R$ 101 milhões de auxílio-alimentação retroativo a juízes? Por isso, as ruas se levantaram com tanta indignação. Não porque as pessoas estão felizes e querem mais.

Quais as razões da Câmara para não cassar Donadon?

POLÍTICA


Joaquim Falcão
Hoje a Câmara decide se cassa ou não o mandato do deputado Natan Donadon. Condenado pelo Supremo desde outubro de 2010, aguardava em liberdade o julgamento de seus recursos. A decisão da Câmara tem duas consequências distintas e interligadas.
A mais obvia é jurídica. Diz respeito a separação de poderes entre o Judiciário e o Legislativo. A paciência do Supremo pareceu se esgotar quando os advogados de Donadon entraram com um segundo embargo de declaração.
Ficou nítido que eram protelatórios. Expediu-se o mandado de prisão. Desde 28 de junho deste ano ele está preso. Mas continua deputado federal. O que a Câmara decidirá hoje é se mesmo preso ele continua ou não deputado.
Não seria essa cassação automática? A Constituição diz que os poderes são independentes. Mas a Constituição é um dever ser. Devem ser harmônicos. A realidade é outra.
As relações entre Judiciário, Executivo e Legislativo são sempre tensas. Em vez de harmonia, tensão. É a vida como ela é. O importante é não radicalizar a ponto de romper esta tensão. A tensão é a harmonia.

Natan Donado, deputado

O Senador Jarbas Vasconcelos acredita que em alguns casos deve prevalecer a decisão do Judiciário. O que alivia a possibilidade da tensão se reproduzir caso a caso.
Por isso, propôs um projeto de Emenda Constitucional, onde a perda do mandato do parlamentar condenado por crime contra a Administração Pública ou por improbidade administrativa é automática.
Esta proposta ainda está em tramitação. Já foi aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, mas precisa ser votada em dois turnos pelo plenário e depois pela Câmara. É uma demonstração de distencionamento.
A segunda consequência diz respeito às relações da Câmara com seus eleitores e com a opinião pública. Não cassar o mandato de Donadon, não implica tirá-lo da cadeia. Não o absolve. É deputado na cadeia. Lá ficará cumprindo a pena.
Tudo que a Câmara precisa é evitar esta relação deputado-cadeia. Em nome de quê, a Câmara vai convencer a opinião pública que um condenado na justiça por improbidade deve continuar a ser deputado?
Não estamos em tempos de perseguições políticas, revoluções. Mas a opinião pública precisa que a Câmara explicite claramente as razões de não cassar. Assim como o Supremo explicitou as razões de condenar.

Segurança versus liberdade - ansiar pela primeira pode nos deixar sem a segunda

 
estadocivilConcurseiro.jpgA sociedade inteira se terá convertido numa só fábrica e num só escritório, com igualdade de trabalho e igualdade de remuneração. - Lênin (1917)
Num país em que o único empregador é o estado, oposição significa morte lenta por inanição. O velho princípio "quem não trabalha não come" foi substituído por outro: "quem não obedece não come". -Leon Trotsky (1937)

A segurança econômica, assim como a falsa "liberdade econômica", é muitas vezes apresentada como condição indispensável da autêntica liberdade.  Em certo sentido, isso é ao mesmo tempo verdadeiro e importante.  É raro encontrar independência de espírito ou força de caráter entre aqueles que não confiam na sua capacidade de abrir caminho pelo próprio esforço.  Todavia, a ideia de segurança econômica não é menos vaga e ambígua do que a maioria dos outros conceitos nesse campo; e por isso, a aprovação geral à reivindicação de segurança pode tornar-se um perigo para a liberdade.  
Com efeito, quando a segurança é entendida num sentido absoluto, o empenho geral em conquistá-la, ao invés de possibilitar maior liberdade, torna-se a mais grave ameaça a ela.
Há um tipo de planejamento estatal que exerce um efeito insidioso sobre a liberdade, tal planejamento é justamente aquele que visa a um tipo específico de segurança.  É o planejamento que se destina a proteger indivíduos ou grupos contra a redução de suas rendas, redução que, embora imerecida, ocorre diariamente numa sociedade competitiva.  É o planejamento contra perdas que impõem duras privações, e que, contudo, são inseparáveis do sistema de concorrência.  A reivindicação desse tipo de segurança é, pois, apenas um outro aspecto da exigência de que deve haver uma "justa remuneração" para cada indivíduo, uma remuneração proporcional aos méritos subjetivos e não aos resultados objetivos do esforço individual.  
Mas essa espécie de segurança ou de justiça não parece conciliável com a livre escolha da ocupação.
Em qualquer sistema no qual a distribuição dos indivíduos entre as várias ocupações e os diferentes setores daeconomia resulte da escolha individual, é necessário que a remuneração em tais setores corresponda à utilidade dos indivíduos para os outros membros da sociedade, ainda que essa utilidade não seja proporcional ao mérito subjetivo.  Embora os resultados obtidos correspondam com frequência a esforços e intenções, isso não se aplica a qualquer forma de sociedade em todas as circunstâncias. Tal não sucederá, em particular, nos muitos casos em que a utilidade de algum ofício ou habilidade especial é modificada por acontecimentos imprevisíveis. Todos nós conhecemos a trágica situação do homem altamente treinado cuja especialidade, adquirida com esforço, perde de súbito todo o valor por causa de alguma invenção muito benéfica para o restante da sociedade.  O último século está repleto de exemplos dessa espécie, alguns deles atingindo ao mesmo tempo centenas de milhares de pessoas.
O fato de um homem vir a sofrer grande redução dos rendimentos e amarga frustração de todas as suas esperanças sem por isso ter sido responsável, e apesar de sua dedicação e de uma excepcional habilidade, indubitavelmente ofende o nosso senso de justiça. As reivindicações das pessoas assim prejudicadas de que o estado intervenha em seu favor a fim de salvaguardar-lhes as legítimas expectativas conquistarão por certo a simpatia e o apoio popular.  A aprovação geral de tais reivindicações fez com que, na maioria dos países, os governos decidissem agir, não só no sentido de amparar as possíveis vítimas de tais dificuldades e privações, mas também no de assegurar-lhes o recebimento de seus rendimentos anteriores e assim protegê-las contra as vicissitudes do mercado.
Contudo, para que a escolha das ocupações seja livre, a garantia de uma determinada renda não pode ser concedida a todos.  E se for concedida a alguns privilegiados, haverá prejuízo para outros, cuja segurança será, ipso facto, diminuída.  É fácil demonstrar que a garantia de uma renda invariável só poderá ser concedida a todos pela abolição total da liberdade de escolha da profissão.  E, contudo, embora essa garantia geral de expectativas legítimas seja muitas vezes considerada o ideal a ser visado, não é perseguida com afinco.  O que ocorre constantemente é a concessão parcial dessa espécie de segurança a este ou àquele grupo, do que decorre um aumento constante da insegurança daqueles sobre os quais recai o ônus.  Não admira que, em consequência, aumente também de modo contínuo o valor atribuído ao privilégio da segurança, tornando-se mais e mais premente a sua exigência, até que, no final, nenhum preço, nem o da própria liberdade, pareça excessivo.
Se o estado for proteger aqueles indivíduos cuja utilidade foi reduzida por circunstâncias que eles mesmos não poderiam controlar ou prever, e se, por outro lado, o estado for impedir de auferir vantagens imerecidas aqueles indivíduos cuja utilidade aumentou em função de circunstâncias também incontroláveis e imprevisíveis, a remuneração deixaria em breve de ter qualquer relação com a verdadeira utilidade de cada. Passaria a depender da opinião de uma autoridade sobre o que cada pessoa deveria ter feito ou previsto, e sobre a validade de suas intenções.  Tais decisões seriam, em grande medida, arbitrárias.  Como consequência necessária, a aplicação do princípio faria com que pessoas que realizam o mesmo trabalho recebessem remunerações diferentes. As diferenças de remuneração deixariam, assim, de oferecer um estímulo adequado para que os indivíduos empreendessem as mudanças socialmente desejáveis, não sendo sequer possível aos interessados decidir se determinada mudança compensaria o esforço despendido para levá-la a efeito.
Se, porém, as alterações na distribuição dos indivíduos entre as várias ocupações — necessidade constante em qualquer sociedade — já não se podem produzir mediante "recompensas" e "penalidades" expressas em dinheiro (as quais não têm nenhuma relação necessária com o mérito subjetivo), então elas deverão ser efetuadas por meio de ordens diretas.  Quando a renda de uma pessoa é garantida, não se lhe pode permitir que permaneça no emprego unicamente porque este lhe agrada, nem que escolha qualquer outro pelo qual tenha preferência. Como o ganho ou a perda não dependem do fato de o indivíduo optar por permanecer ou não no mesmo emprego, a escolha terá de ser feita por aqueles que controlam a distribuição da renda disponível.
A questão dos estímulos adequados, que surge nesse contexto, é em geral analisada como se se tratasse basicamente de as pessoas estarem ou não dispostas a se esforçarem ao máximo.  Mas, embora isso tenha a sua importância, não constitui todo o problema, nem mesmo o seu aspecto mais relevante.  Não se trata apenas de fazer com que o esforço seja compensador para que cada um dê o melhor de si.  O mais importante é que, se quisermos deixar a escolha ao indivíduo, se se espera que ele esteja em condições de julgar o que tem de ser feito, é preciso proporcionar-lhe um padrão simples de julgamento que lhe permita medir a importância social das diferentes ocupações.  Mesmo com a maior boa vontade, seria impossível a qualquer pessoa fazer uma escolha inteligente entre várias alternativas, se as vantagens que estas oferecem não tivessem relação com sua utilidade social.  Para saber se, em resultado de certa mudança, um indivíduo deveria abandonar uma profissão e um ambiente ao qual se afeiçoou e trocá-los por outros, é necessário que a alteração dos valores relativos dessas ocupações para a sociedade seja expressa nas remunerações que oferecem.
O problema reveste-se de importância ainda maior porque, no mundo que conhecemos, torna-se improvável que um indivíduo dê o melhor de si por muito tempo, a menos que seu interesse esteja diretamente envolvido. A maioria das pessoas necessita, em geral, de alguma pressão externa para se esforçar ao máximo.  Assim, o problema dos incentivos é bastante real, tanto na esfera do trabalho comum como na das atividades gerenciais.  A aplicação da engenharia social a toda uma nação — e é isto o que significa planejamento — gera problemas de disciplina difíceis de resolver.
A política governamental hoje adotada em toda parte, de conceder o privilégio da segurança ora a este grupo, ora àquele, vai rapidamente criando condições em que o anseio de segurança tende a sobrepujar o amor à liberdade.  Isso porque, a cada vez que se confere segurança completa a um grupo, aumenta-se a insegurança dos demais. Se garantirmos a alguns uma fatia fixa de um bolo de tamanho variável, a parte deixada aos outros sofrerá maior oscilação, proporcionalmente ao tamanho do todo. E o aspecto essencial da segurança oferecida pelo sistema de concorrência — a grande variedade de oportunidades — torna-se cada vez mais restrito.
No sistema de mercado, a segurança só pode ser concedida a determinados grupos mediante o gênero de planejamento conhecido como 'regulação'.  O "controle", isto é, a limitação da concorrência (leia-se "da produção") de modo que os preços finais assegurem um ganho "adequado", é o único meio pelo qual se pode garantir um certo rendimento aos produtores numa economia de mercado.  Isso, porém, envolve necessariamente uma redução de oportunidades para os demais.  Para que o produtor, seja ele dono de empresa ou operário, receba proteção contra a concorrência de preços mais baixos, outros, em pior situação, serão impedidos de participar da prosperidade relativamente maior das indústrias controladas.  Qualquer restrição à liberdade de ingresso numa profissão reduz a segurança de todos os que se acham fora dela.
E, à medida que aumenta o número daqueles cujo rendimento é assegurado dessa forma, restringe-se o campo das oportunidades alternativas abertas aos que sofrem uma perda de rendimento — enquanto que, para os que são atingidos por qualquer mudança, diminui do mesmo modo a possibilidade de evitar uma redução fatal da sua renda. E se, como vem acontecendo com frequência, em cada categoria em que ocorre uma melhora de condições permite-se que seus membros excluam os demais para garantir a si mesmos o ganho integral sob a forma de salários ou lucros mais elevados, os que exercem profissões cuja demanda diminuiu não têm para onde se voltar, e a cada mudança produz-se grande número de desempregados. Não há dúvida de que foi em grande parte por causa da busca de segurança por esses meios nas últimas décadas que aumentou a tal ponto o desemprego e, por conseguinte, a insegurança para vastos setores da população.
Numa sociedade em que a mobilidade ficou tão reduzida como resultado dessas restrições, é de absoluta falta de perspectiva a situação daqueles que se encontram fora do âmbito das ocupações protegidas, e um abismo os separa dos privilegiados possuidores de empregos a quem a proteção contra a concorrência tornou desnecessário fazer concessões para dar lugar aos que estão de fora.  Tal situação, na verdade, só pode ser avaliada por aqueles que a viveram.  Não se trata de os privilegiados cederem o seu lugar, mas apenas de partilharem a desventura comum mediante certa redução da própria renda, ou, muitas vezes, simplesmente mediante algum sacrifício das suas perspectivas de melhora.  A proteção do estado ao seu "padrão de vida", ao "preço razoável" ou à "renda profissional", que julgam um direito, impede que isso aconteça.
Em consequência, em vez de preços, salários e rendimentos individuais oscilarem, são agora o emprego e a produção que ficam sujeitos a violentas flutuações.  Nunca houve pior e mais cruel exploração de uma classe por outra do que a exercida sobre os membros mais fracos ou menos afortunados de uma categoria produtora pelos que já desfrutam de posições estáveis, e isso foi possibilitado pela "regulamentação" da concorrência.  Poucas coisas têm tido efeito tão pernicioso quanto o ideal da "estabilização" de certos preços (ou salários), pois, embora ela garanta a renda de alguns, torna cada vez mais precária a posição dos demais.
Assim, quanto mais nos esforçamos para proporcionar completa segurança interferindo no sistema de mercado, tanto maior se torna a insegurança; e, o que é pior, maior o contraste entre a segurança que recebem os privilegiados e a crescente insegurança dos menos favorecidos.  E quanto mais a segurança se converte num privilégio, e quanto maior o perigo para os que dela são excluídos, mais será ela valorizada.  À medida que o número dos privilegiados aumenta, e com ele o hiato entre a sua segurança e a insegurança dos demais, vai surgindo uma escala completamente nova de valores sociais.  Já não é a independência, mas a segurança, que confere distinção e status; o que faz de um homem um "bom partido" é antes o direito a uma pensão garantida do que a confiança em sua capacidade — ao passo que a insegurança se converte numa terrível condição de pária, à qual estão condenados para sempre aqueles a quem na juventude foi negado ingresso no porto seguro de uma posição assalariada.
Essa evolução foi acelerada por outro efeito das doutrinas socialistas: o deliberado menosprezo por todas as atividades que envolvem risco econômico e a condenação moral dos lucros que compensam os riscos assumidos, mas que só poucos podem obter.  Não podemos censurar os nossos jovens quando preferem o emprego seguro e assalariado do funcionalismo público ao risco do livre empreendimento, pois desde a mais tenra idade ouviram falar daquele como sendo uma ocupação superior, mais altruísta e mais desinteressada.  A geração de hoje cresceu num mundo em que, na escola e na imprensa, o espírito da livre iniciativa é apresentado como indigno e o lucro como imoral, onde se considera uma exploração dar emprego a cem pessoas, ao passo que chefiar o mesmo número de funcionários públicos é uma ocupação honrosa.
As pessoas mais velhas poderão considerar exagerada essa imagem da situação atual, mas a experiência diária do professor de universidade não deixa dúvidas de que, como resultado da propaganda anticapitalista, a alteração dos valores já está muito adiantada em relação às mudanças que até agora se têm verificado nas instituições deste país. Resta ver se, transformando as nossas instituições para atender às novas reivindicações, não destruiremos inadvertidamente valores que ainda reputamos superiores.
Numa sociedade em que o indivíduo conquista posição e honras quase exclusivamente em função de ser um servidor assalariado do governo; em que o cumprimento do dever prescrito é considerado mais louvável do que a escolha do próprio campo de atividade; em que todas as ocupações que não conferem um lugar na hierarquia oficial ou o direito a um rendimento fixo são julgadas inferiores e até certo ponto aviltantes — seria demais esperar que a maioria prefira por muito tempo a liberdade à segurança.
E quando só se pode optar entre a segurança numa posição de dependência e a extrema precariedade numa situação em que tanto o fracasso quanto o êxito são desprezados, poucos resistirão à tentação da segurança ao preço da liberdade.  Tendo-se chegado a esse ponto, a liberdade torna-se quase um objeto de escárnio, pois só pode ser alcançada com o sacrifício de grande parte das boas coisas da vida.  Nessas condições, não surpreende que um número cada vez maior de pessoas se convença de que, sem segurança econômica, a liberdade "não vale a pena", e se disponha a sacrificar esta em troca daquela.
Nada é mais funesto do que o hábito, hoje comum entre os líderes intelectuais, de exaltar a segurança em detrimento da liberdade.  Urge reaprendermos a encarar o fato de que a liberdade tem o seu preço e de que, como indivíduos, devemos estar prontos a fazer grandes sacrifícios materiais a fim de conservá-la.  Para tanto, faz-se mister readquirir aquela convicção que Benjamin Franklin expressou numa frase aplicável a tanto a indivíduos quanto a nações: "aqueles que se dispõem a renunciar à liberdade essencial em troca de uma pequena segurança temporária não merecem liberdade nem segurança".

Artigo originalmente publicado em 1944

Friedrich A. Hayek (1899-1992) foi um membro fundador do Mises Institute. Ele dividiu seu Prêmio Nobel de Economia, em 1974, com seu rival ideológico Gunnar Myrdal "pelos seus trabalhos pioneiros sobre a teoria da moeda e das flutuações econômicas e por suas análises perspicazes sobre a interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais". Seus livros estão disponíveis na loja virtual do Mises Institute.