domingo, 21 de julho de 2013

Fase de gangorra

LUIZ GARCIA


O Senado votou na semana passada uma questão de visível importância: o destino dos candidatos ao mandato sem votos — ou seja, os suplentes. Derrubou uma prerrogativa, digamos assim, caseira: ou seja, o direito de senadores escolherem parentes como suplentes. E também reduziu de dois para um o número de suplentes de cada senador. Foi um golpe severo no nepotismo — um caso típico e obviamente contrário ao interesse público —, uma ressurreição, em plano mais modesto, do antigo direito dos reis de serem sucedidos pelos filhos. O que — nem é preciso lembrar — não faz sentido em regimes democráticos, que têm como ponto de partida o direito da sociedade de escolher seus representantes pelo voto popular. 

Os senadores decidiram corretamente. Mas, como não é raro, fizeram uma concessão bastante discutível: mantiveram o suposto direito dos suplentes de herdar os mandatos até o fim, em caso de vacância definitiva. Derrubaram com isso a decisão anterior de mantê-los no cargo apenas até as próximas eleições — o que poderia significar menos de um ano. 

Ou seja: transformaram os suplentes em herdeiros de um mandato que não conquistaram nas urnas em vez de simples substitutos eventuais e provisórios. O que é precisamente o que significa a expressão "suplente". 

Deve-se reconhecer que o Senado não vive, digamos assim, os seus melhores dias — que já teve, não poucas vezes, na defesa do regime democrático que vivemos hoje. Há mais dois exemplos: na semana passada, mais uma vez foi adiada — e não pela primeira vez — a proposta de emenda constitucional que elimina o foro privilegiado para deputados e senadores, e também foi suspensa a instalação do grupo de trabalho que discutirá a reforma política, pelo motivo menor de que dois petistas disputam a coordenação do trabalho. 

A decisão sobre os suplentes merece óbvios aplausos. Mas eles não nos deixam esquecer que o índice de eficiência do órgão mais importante do Legislativo está, nestes dias, abaixo do nível que o país merece e precisa. Na mais generosa hipótese, está numa fase de gangorra: com altos e baixos.
Publicado no Globo

Apoiando o Uruguai na regulação da maconha

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO


Há dois anos, em minha qualidade de presidente da Comissão Global de Política sobre Drogas, realizei um chamado público pela descriminalização do consumo de drogas e pela experimentação com modelos de regulação legal. Eu e meus colegas fizemos este chamado a partir do reconhecimento de que o proibicionismo fracassou em muitos níveis. Por tempo demais, o modelo repressivo implicou o desperdício de recursos públicos inestimáveis, que pouco resultado proporcionou para a segurança e a saúde públicas. 
Assim, apoiamos a busca de modelos de regulação legal porque acreditamos que reduzirão o poder do crime organizado e ajudarão a proteger a saúde e a segurança das pessoas. Por este motivo, acho que a proposta do Uruguai de regular a maconha é digna de consideração. 
Uma série de fatores leva a concluir sobre a necessidade de um controle regulatório no Uruguai e em muitas outras localidades do mundo. Um fato relevante é que, no modelo repressivo, os usuários estão vinculados ao mercado criminoso. Essas pessoas são efetivamente conduzidas a um mercado ilícito que não impede a venda de drogas a menores de idade, não se preocupa com indivíduos que desenvolvem o uso problemático ou certifica a qualidade sanitária da substância, envolvendo a cadeia de uso em um contexto de violência e delinquência. 
Estes são apenas alguns dos riscos para as pessoas que fazem uso de maconha. Porém, o próprio mercado gera preocupações adicionais. 
O lucro deste mercado sustenta uma economia informal, cujo alcance pode ser apenas estimado. Os informes oficiais indicam que o tamanho do mercado de maconha no Uruguai gira em torno dos US$ 30 a US$ 40 milhões por ano. Quanto deste dinheiro é utilizado para corromper as forças de segurança ao largo das fronteiras dos países de origem da droga? Quanto deste dinheiro é utilizado para subornar a polícia ou é "lavado" através de instituições financeiras? E quanto acaba sendo empregado na compra de armas e financiamento de quadrilhas criminosas? 
Tais preocupações não são derivadas do consumo de drogas, mas consequências de uma política que ignora as condições do mundo real. 
A proposta de regulação que se discute no Uruguai não parece centrar esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança públicas. Também é evidente que essa proposta possa significar uma soma pela subtração: simplesmente retirar recursos do crime organizado seria um benefício em si mesmo. 
Como em qualquer lugar do globo, a transformação interna na política sobre drogas gera controvérsia, simpatizantes e antagonistas. No Uruguai, diversas organizações sociais e personalidades públicas consolidaram seu apoio à plataforma "Regulación Responsable", que tem por objetivo enriquecer o debate cidadão com dados reais e tornar visível o apoio à iniciativa de regulação da maconha. Com muito entusiasmo, saúdo o compromisso da cidadania uruguaia e com satisfação declaro publicamente minha adesão a Regulación Responsable.
A proposta de regulação que se discute no Uruguai não parece centrar esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança públicas.
Publicado no Globo de hoje. Fernando Henrique Cardoso é sociólogo, ex-presidente da República. Este artigo foi escrito para o grupo de jornais associados ao GDA.

Pompa e circunstância

ZUENIR VENTURA


É provável que tenha sido um dos casamentos mais caros do ano, R$ 2 milhões, e o mais inadequado para o momento em que a onda de protestos teve como motivação inicial o alto preço e a má qualidade dos transportes públicos. É que o avô da noiva, Jacob Barata, é ninguém menos que o empresário conhecido no Rio como Rei dos Ônibus, e o pai do noivo, o ex-deputado Francisco Feitosa, é seu sócio em negócios no Ceará. A união do poder econômico, a pompa ostensiva e algumas infrações soaram como deboche: os dois Mercedes que conduziam os pais e padrinhos dos nubentes, por exemplo, carregavam 22 multas e permaneceram duas horas estacionados debaixo da placa "proibido estacionar". Assim, antes da cerimônia, na entrada da Igreja do Carmo, no Centro da cidade, cerca de 100 "espectadores" organizaram protestos, mas pacíficos e bem-humorados. Além de cartazes gozando o acontecimento — "Uuuuu, todo mundo pra Bangu"; "Hahaha, o noivo vai broxar" —, um casal encenava uma paródia em que ela de branco, véu e grinalda, oferecia baratas de plástico em bandeja. A polícia manteve distância e não precisou intervir.
A recepção no Copacabana Palace, porém, degenerou. Enquanto os manifestantes vaiavam os que iam chegando, alguns convidados de dentro do hotel revidavam lançando cédulas de real. Até que alguém jogou da sacada um cinzeiro na cabeça do jovem Ruan Martins do Nascimento, que estava protestando. Ferido, ele foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde recebeu seis pontos. O principal acusado da agressão, reconhecido pela vítima, é o sobrinho-neto de Barata, Daniel, de 18 anos, que nega, assumindo apenas como erro ter jogado um aviãozinho feito de R$ 20 sobre os que estavam lá embaixo.
Para agravar a situação, faltava um personagem, que ultimamente tem estado presente em todas as ocorrências desse tipo: a Tropa de Choque, que chegou exibindo toda a sua truculência. Embora o ato de violência tivesse partido de dentro da festa, não dos que protestavam do lado de fora, os PMS desembarcaram espalhando spray de pimenta e apontando seus fuzis com bombas de efeito moral contra os manifestantes. Pelo menos dessa vez não jogaram gás lacrimogêneo no interior de clínica médica, como na semana passada. Por que tanto despreparo?
Ontem, o secretário de Direitos Humanos, Zaqueu Teixeira, reconheceu os excessos da polícia, prometeu punição e disse que o governo vai criar cursos de aperfeiçoamento e capacitação para os PMs. Ótimo. Mas alguma providência mais urgente precisa ser tomada para disciplinar as tropas que estão saindo às ruas.
Embora o ato de violência tivesse partido de dentro da festa, não dos que protestavam do lado de fora, os PMS desembarcaram espalhando spray de pimenta e apontando seus fuzis.
Publicado no Globo

Manter a ordem

LUIZ GARCIA


É muito fácil falar mal da polícia, aqui e na maioria dos países — mesmo nos mais adiantados, com a possível exceção de democracias tranquilas, tipo Suíça ou Noruega. 
Em geral, quem reclama e se queixa é a opinião pública — da qual a imprensa é, ou tenta ser, porta-voz tão fiel quanto eloquente (ou, na opinião de alguns, simplesmente barulhento). É por isso notável o comportamento do nosso governo estadual, a propósito da reação da PM às manifestações populares de dias recentes. 
É indiscutível que, por mais justa que fosse a causa, a rapaziada caiu na bagunça. Talvez seja mais correto dizer que, no meio de uma manifestação legítima e em boa causa, havia grupos que perderam o controle, se é que já não saíram de casa sem ele. E seu comportamento obviamente prejudicou a visão da opinião pública sobre um protesto absolutamente legítimo. Não é fácil, para os legítimos líderes dos eventos, evitar que isso aconteça — mas devem ter essa preocupação, evitá-lo tanto quanto possível. 
A ação dos policiais, embora legítima na sua origem e na sua intenção, foi prejudicada, na opinião pública, pela falta de controle de alguns deles. Principalmente no caso de uma moça de 26 anos, atingida por uma bomba lançada por um PM, que lhe causou a perda da visão num olho. 
É notável — e raro — que as autoridades tenham reconhecido que os policiais reagiram com força excessiva. Talvez seja necessário incluir na formação de policiais a consciência de que a energia usada na repressão a criminosos profissionais não pode ser a mesma empregada no restabelecimento da ordem em protestos legítimos de cidadãos. 
Pode ser possível — na verdade, indispensável — incluir, na formação dos nossos PMs, a consciência de que deve haver uma nítida diferença entre o combate a bandidos e a manutenção da ordem no caso de manifestações de reivindicação ou protesto de cidadãos honestos. É provável ou talvez inevitável que, nesta segunda hipótese, baderneiros ou mesmo criminosos profissionais entrem em ação. 
Cabe à polícia — e reconhecemos que não é muito fácil, às vezes quase impossível — distinguir uns de outros. Manter a ordem já não é simples; restabelecê-la, bem mais complicado. 
Mas não custa lembrar que também é dever e interesse dos manifestantes legítimos fazerem o possível para não serem confundidos com baderneiros, amadores ou profissionais.
Publicado no Globo 

A saga de Ulysses Guimarães



Sinopse

"A História de Mora" engloba uma série de episódios ocorridos em torno de um ícone da política brasileira no século 20: Ulysses Guimarães. Figura central no processo de democratização do país, no livro do jornalista Jorge Bastos Moreno traz momentos históricos decisivos e trágicos da trajetória do deputado e constituinte são contados por um narrador especial, que a tudo vê com olhos de esposa, dona Ida Malani de Almeida, carinhosamente apelidada de Mora.
A visão feminina faz toda a diferença. No meio de uma às vezes terrível luta política entre homens, o livro apresenta um olhar marginal no melhor sentido do termo, um olhar cheio de afeto e sentimento, mas também perspicaz como só uma mulher sabe ser. Ou, nas palavras do antropólogo Roberto Da Matta, que assina a introdução da obra, "Mora observava tudo tirando dos fatos a sua participação como um ator fora do proscênio e, com isso, filtrava e desvestia os acontecimentos da aura da sacralidade e segredo que tipificam o mundo político, no caso do Brasil e o mundo em geral"

Coluna Nhenhenhém


Campos: 'Volta, Lula' é fardo
Eduardo Campos lembrou a Lula que o processo eleitoral de 2014 começa agora em setembro, quando se esgota o prazo para mudança de partido. 
Aí então, Campos já saberá onde terá palanques para as eleições presidenciais. Se tiver um número mínimo de dez estados, ele se sentirá confortável para definir sua candidatura. Mas só a anunciará em janeiro, no Congresso do PSB. 
Sem rodeios, mas com elegância, o governador acusou o ex-presidente de ter antecipado em um ano o debate sucessório quando lançou a reeleição da Dilma. 
— Você sabe por que eu fiz isso. Foi para conter o movimento interno do "Volta, Lula" no momento em que a Dilma estava bem nas pesquisas. Mas, agora, com a queda de popularidade, o movimento cresceu. 
Mesmo percebendo que a conversa caminhava para a reafirmação do apoio a Dilma, Campos exorcizou: 
— É tiro no pé, atestado de incompetência política. Sua candidatura já nasceria com esse fardo, presidente.
Sem saída
O governador, em dialeto pernambucano, falou ao conterrâneo do "desmantelo" que provocaria uma suposta desistência sua. 
Com outras palavras, disse que, se a Dilma for para o segundo turno, o PT vai precisar dele. Se for ele para o segundo, o PT vai precisar dele ainda mais, para preservação e aperfeiçoamento do projeto de governo do campo progressista a que pertencem os dois partidos.
ET
Não mais que de repente, Brasília, por algumas horas, virou uma espécie de Varginha (MG): a via-sacra de Serra pelos gabinetes do Senado. 
Como a criançada faz com ele nas campanhas, segui os passos daquele simpático, mas assustador, extraterrestre e consegui reconstruir o que de mais importante disse aos senadores que visitou.
Aí tem
Primeiro, Serra, nas conversas, tentou desconstruir a presidente. Disse que hoje a Dilma "está reduzida a pó" e que ele não sabe nem se ela termina o mandato. 
Depois, esclareceu que estava em Brasília por questões estritamente pessoais. 
O ex-governador deixou seus interlocutores apavorados e preocupados. 
Todos agora querem saber que motivos pessoais levariam o desalmado à capital do país. 
Façam suas apostas, senhores!
Fofos
No clima de exacerbação total dos ânimos populares contra os políticos, soa quase como um elogio a forma como o vice de Cabral é tratado nas faixas dos protestos. 
Ou ninguém vê diferença entre o "Fora, Cabral!" e o "Vaza, Pezão!"?
Amor
Impressionou-me, na visita que fiz à prefeitura de São Paulo, o esbanjamento de elogios do Fernando Haddad aos tucanos FH e Alckmin. 
O desprezo do alcaide a José Serra só é comparável ao do Serra por ele.
Pecadores
Apesar do vapt-vupt da viagem para ver o Papa, Dilma levará na bagagem duas malas pesadas: Renan e Alves. 
Mas, para chegar perto de Sua Santidade, os dois impuros terão que antes confessar seus pecados, mas sem direito a comunhão.
No ar
Justiça se faça. Desde Sarney até hoje, ministros de São Paulo sempre voltaram para casa no mesmo jatinho da FAB. 
Ontem, por exemplo, Cardozão teve que se sentar ao lado da sua colega Eleonora Menicucci. 
É que só havia os dois no voo.
Ira
A entrevista de Henrique Alves a Fernando Rodrigues defendendo a extinção de 14 ministérios tirou o humor da Dilma. 
A presidente só voltou ao normal quando um assessor sugeriu-lhe responder que só faria a reforma administrativa do governo se pudesse começar pelo Dnocs, o parque de diversão da família Alves.
Armação
Agora em setembro, ou dezembro, ou janeiro, não importa a data, o fato é que Dilma muda ministros, mas não reduz o número de ministérios. 
Claro, tudo o que interessa a "Coisa-Ruim" et caterva não interessa ao país.
Boato
O PMDB se prepara para romper com a Dilma. Dizem que é sério. É crer para ver!
Publicada no Globo

Anitta, a preparada da vez


  • Como uma ex-cantora de igreja foi transformada no fenômeno da vez, repetindo uma velha fórmula no país


Do primeiro vídeo na internet aos primeiros lugares das paradas de sucesso do Brasil, foram apenas três anos para Anitta
Foto: Mônica Imbuzeiro
Do primeiro vídeo na internet aos primeiros lugares das paradas de sucesso do Brasil, foram apenas três anos para Anitta Mônica Imbuzeiro
RIO - Um mês, em tempo de Anitta, é quase uma eternidade. Há menos de duas semanas, a cantora carioca de 20 anos lançou “Anitta”, seu álbum de estreia. O disco estava programado para sair em setembro. Mas, com o estouro da música “Show das poderosas” — alçada ao primeiro lugar das paradas de sucessos do país há cerca de dois meses e ainda entre as três mais tocadas — e a velocidade com que sua carreira foi ganhando vulto, o disco teve que ser antecipado. Numa das cada vez mais raras brechas entre apresentações e aparições promocionais na TV, Anitta conversou com o GLOBO sobre o disco, que está no topo da lista dos mais vendidos do país, com 40 mil cópias comercializadas (até sexta-feira). Se o processo não tivesse sido tão corrido, ela diz que teria feito diferente no disco.

Três anos atrás, por sinal, alguns hão de lembrar, Anitta nem Anitta era. Era Larissa de Macedo Machado, estudante do bairro de Honório Gurgel, que cantava na igreja e fazia dança de salão. O cabelo ainda era crespo, o nariz, um pouco menos afinado, e o corpo menos exuberante, então sem próteses de silicone. Um vídeo seu no YouTube, com um cover da música “Soltinha”, da cantora Priscila Nocetti (estrela da Furacão 2000) foi visto por um dos produtores da equipe de som, o DJ Renato Azevedo, conhecido como Batutinha. Ele a chamou para um teste para ver se de fato sabia cantar. Depois, conferiu como ela se saía no palco. E ficou impressionado com a habilidade da cantora e das amigas no stiletto — modalidade de dança em cima de salto alto, popularizada pela estrela americana Beyoncé. Na mesma hora, resolveu trabalhar com ela.— Eu pensava em uma coisa muito inovadora, chocante. Mas não posso falar o que é, porque eu vou usar essa ideia em outra situação! — conta a moça. — Mas aí a gravadora me abriu os olhos para uma coisa: aqui no Rio, eu posso até estar no cenário há muitos anos (três, na verdade), mas para o resto do Brasil estou começando. O pessoal ainda não tem essa imagem da Anitta.
É uma velha história na música brasileira. Em 1977, o produtor argentino Santiago Malnati, o Mister Sam, viu no programa de calouros de Silvio Santos uma cantora com um belo par de glúteos chamada Maria Odete. Foi atrás dela e se ofereceu para transformá-la em estrela. Só achava que o nome não ajudava. A cantora se lembrou do filme “Aleluia, Gretchen”, que fazia sucesso nos cinemas, e assim nasceu a primeira estrela da música calipígia brasileira, dos hits “Conga, conga, conga” e “Freak le boom boom”. Gretchen vendeu milhões de discos, sumiu e depois virou figura cult, entre participações em filmes pornô e shows em boates GLS.
— A Anitta é um conjunto. A música, a voz, a dança, o carisma e o show — diz Batutinha, que, assim como Mister Sam, convenceu sua pupila a pensar em um nome artístico.
E Larissa, fã da minissérie “Presença de Anita”, tinha uma boa sugestão para dar.
— A Anita tinha um mistério que despertava a curiosidade de homens, mulheres, de todo mundo. Era só uma menina, mas, ao mesmo tempo, era uma mulher. Brincalhona, sexy, mas não vulgar. Eu gostava dessa brincadeira — conta a cantora, que acatou a ideia de Batutinha de dobrar o T do nome.
Da mesma forma que a dança ajudou Anitta a se destacar, ela ajudou Carla Perez. A bailarina do grupo baiano de axé É o Tchan (ex-Gera Samba) foi parte fundamental (e muito planejada), com suas coreografias de grande apelo sexual e a força de sua imagem loura cheia de curvas, para que o grupo vendesse milhões de discos a partir de 1995. E a safra de bibelôs na música brasileira seguiu, em 1999, com Tiazinha, personagem que atuava como assistente de palco do “Programa H”, de Luciano Huck. Interpretada pela atriz e dançarina Suzana Alves, ela chegou a lançar um disco, pop dançante, com músicas de Vinny e Reginaldo Rossi. Hoje, tanto Carla quanto Suzana estão afastadas da música — e do sucesso.
Carência no mercado
Anitta, porém, tem mais afinidades com uma geração posterior de “preparadas”, que se iniciou há cerca de dez anos, quando a cantora Kelly Key surgiu com a música “Baba” (“baba, olha o que perdeu/ baba, a criança cresceu/ bem feito pra você, agora eu sou mais eu/ isso é pra você aprender a nunca mais me esnobar”). Hoje, a cantora se dedica à atividade de jurada no programa “Ídolos kids”, da TV Record.
— A Kelly introduziu a coisa da mulher com discurso forte, mas não deu continuidade nisso. A Perlla (do sucesso “Tremendo vacilão”, de 2006, hoje gravando discos para o segmento gospel) absorveu o vácuo que ela deixou no mercado. Mas quando a Perlla saiu de cena, ficou um buraco muito grande que, aos poucos, virou carência — analisa o produtor e compositor Umberto Tavares, que trabalhou com as duas cantoras e que, junto com o parceiro Mãozinha, cuidou da produção do álbum de Anitta.
Umberto e Mãozinha chegaram à cantora pelas mãos de Kamilla Fialho, 32, ex-empresária do cantor Naldo. Ela resolveu comandar a carreira de Anitta no ano passado após vê-la num show.
— Ela era diferente — conta Kamilla, que então descobriu que Anitta também sabia compor.
As primeiras músicas da cantora, “Vou ficar”, “Fica só olhando” e “Proposta” foram feitas por Batutinha, a partir de ideias dadas por ela.
— Depois, sozinha, fiz “Menina má” — diz Anitta. — Eu nem me achava boa compositora. Aí um produtor pegou a voz que eu tinha deixado em estúdio, produziu a faixa, e ela estourou. Só não sabia se eu conseguiria fazer outra música boa.
Vídeo em Las Vegas
Kamilla Fialho investiu pesado na carreira de Anitta. Ao contratá-la, em junho do ano passado, pagou a multa de R$ 260 mil que a Furacão 2000 exigia para liberá-la. Depois, montou um espetáculo com músicos e bailarinos, cuidou das mudanças de imagem da cantora (roupas, cabelo e plástica no nariz) e ainda gastou mais R$ 40 mil na gravação de um clipe de “Meiga e abusada”, a primeira faixa que Anitta produziu com Umberto Tavares e Mãozinha. O vídeo foi gravado em outubro, em Las Vegas, com direção do americano Blake Farber, que já trabalhara com Beyoncé. Com ele, a cantora virou sensação na internet.
Aos poucos, as grandes gravadoras começaram a cortejar Kamilla atrás do passe de Anitta. Ela conta que passou o mês de dezembro “enrolando” duas delas, até se decidir pela Warner, com a qual assinou contrato em janeiro.
— É necessário pulverizar a Anitta pelo país — diz Kamilla.
— O que eu tinha visto dez anos antes com a Kelly Key agora estava ali, mais desenvolvido — conta o diretor artístico da Warner Wagner Vianna. — A Anitta tem personalidade.
A produção do álbum começou em fevereiro, com um pequeno problema: mesmo juntando todas as músicas da cantora, elas não enchiam um CD. O jeito foi reservar alguns dias de estúdio para Anitta compor com a equipe de produção.
— A galera ficou sem dormir algumas noites. A Anitta deu muita opinião, mas não foi complicado — avalia Wagner.
Nisso, ela fez, sozinha, as músicas “Show das poderosas” e “Tá na mira”. A Warner preferiu a segunda e quis lançá-la como single. Anitta bateu o pé.
— Eu tinha certeza de que o “Show das poderosas” seria um estouro. “Tá na mira” é muito boa. É para mulheres, homens, gays... Mas não acho que era aquela música que até criança iria cantar. O “Show” é — diz.
Cenário internacional
Deu no que deu. O sucesso da canção pôs Anitta em outro patamar pop. Hoje ela viaja sem parar, com diferentes espetáculos. Um deles, o Clube da Anitta (“para o público AAA”, diz Kamilla), reúne oito bailarinos e ingressos a R$ 300. Há ainda o Show das Poderosas, para grandes palcos, com 15 bailarinos, três cenários, quatro trocas de roupa. E o Camarote da Anitta, em que o público pode vê-la retocando a maquiagem.
Em janeiro, ela grava um DVD. E Kamilla já planeja sua carreira internacional, começando por Portugal.
— Eu quero inovar a cada dia, mostrar para as pessoas que não vim para ir embora daqui a pouco. Há um ano, a gente já tinha as ideias que está botando em prática — diz a “poderosa”.

em http://oglobo.globo.com/cultura/anitta-preparada-da-vez-9110966#ixzz2ZjsFmGu8 
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