sexta-feira, 19 de julho de 2013

De: Ucho Haddad – Para: Dilma Rousseff – Assunto: Óleo de peroba


(*) Ucho Haddad –
Dilma, você provou mais uma vez que para se eleger no Brasil não é preciso talento. Basta dinheiro (se for público, melhor), desfaçatez e conversa fiada. Sobre esse tripé qualquer um chega onde quiser. Você é o melhor exemplo dessa fórmula eleitoral mágica.
Acompanhei sua participação na cerimônia que marcou a abertura do pontificado do papa Francisco. Você foi tão magistral encenando, que logo pensei que no palco do teatro nem mesmo Dulcina de Moraes, Tônia Carrero e Fernanda Montenegro, juntas, seriam capazes de superá-la. Ter dito logo em seguida que se emocionou durante a missa mostrou sua inconteste vocação para o drama. Já estou pensando em criar o Prêmio Dilma para a classe teatral.
Sabe, Dilma, ainda forço o cérebro para tentar compreender como você consegue estar presidente. Um governo que é desmascarado por uma receita de miojo enxertada em redação do Enem não merece o respeito de quem quer que seja. Certa vez, Dilma, o seu padrinho político, o fugitivo Lula, demitiu o então ministro da Educação (Cristovam Buarque) pelo telefone. Coisa de gente covarde, é verdade (o que não piora o currículo do seu antecessor), mas é preciso lembrar que essa degola foi fruto de algo bem menos importante que o escândalo do miojo.
Estivesse no seu lugar, afogaria o ministro da Educação na água fria da Fontana di Trevi, aproveitando que você e seu séquito de bajuladores estão em Roma a passear. Você até poderia usar outro método para se livrar do ministro, mas não há opção para quem comanda uma pasta com integrantes que conseguem a proeza de afirmar que o miojo não fugiu ao tema da redação, que era processo migratório. Provavelmente porque o néscio que chegou a essa brilhante conclusão tem miojo no lugar da massa cinzenta.
Dilma, você é defensora confessa do aborto, convida uma “abortista” para fazer parte do seu governo e se emociona na principal igreja do Catolicismo? Definitivamente você é uma mulher ousada. Falta com a verdade ao pé da cruz e ainda consegue agendar um papo com o papa. Na mesa de pôquer você certamente é imbatível, pois “nunca antes na história deste país” alguém blefou com tanto talento. Essa ousadia explica seus índices de aprovação e de seu governo inoperante. Em terra de gente séria, que não é o caso do Brasil, a última pesquisa do Ibope já teria recebido o Oscar da mitomania.
Dilma, como você está fazendo turismo na Itália com o suado dinheiro dos contribuintes brasileiros, aproveite e vá comemorar mais essa farsa estatística. Convide a sua horda de seguidores e refestelem-se no cardápio preciso e elegante do La Pergola. Não se avexe com a conta, pois aqui no Brasil há um bando de palhaços financiando essa farra oficial. Dilma, tenha modos, porque o La Pergola é um lugar de gente em ordem. Não vá passar carraspana nos assessores dentro do restaurante, porque o La Pergola não é o refeitório do Palácio do Planalto. E segure o ministro da Educação para que ele não peça no restaurante um miojo só porque no Brasil essa “gororoba” agora é cult.
Ao ler mais esse capítulo do nosso quase interminável colóquio redacional, você poderá pensar que estou com zombaria, mas não. Na verdade, Dilma, estou preocupado, pois em breve você estará com o papa Francisco para falar de pobreza e fome. Considerando que você está hospedada em um hotel cuja diária chega a 7,5 salários mínimos, o que não é coisa de pobre, não fica bem uma chefe de Estado chegar ao Vaticano com fome e pedindo uma hóstia para mastigar. Por isso sugeri o La Pergola, na certeza de que nesse restaurante, impecável e que tão boas lembranças me traz, você poderá pensar melhor na desoneração mentirosa da cesta básica, que serviu apenas para turbinar a pesquisa do Ibope. Fique tranquila, Dilma, sem se preocupar com desculpas. Depois de décadas fazendo jornalismo político, sei muito bem como funciona a política. À base de um cardápio de sacanagens dos mais variados matizes e para todos os gostos.
Contudo, Dilma, minha preocupação maior é com o papa Francisco, que acaba de estrear oficialmente na Santa Sé. Depois da missa que marcou o início do pontificado do cardeal argentino Jorge Bergoglio, agora papa Francisco, você disse, na meteórica entrevista que concedeu aos jornalistas brasileiros que insistiram em atrapalhar sua sequência de passeios, que o fato de o pontífice “ter essa opção preferencial pelos pobres tem a ver com o nosso continente, que está passando por um processo de superação da pobreza, o que deve comover, de fato, um padre da nossa região”.
Por isso, Dilma, peço que seja comedida, pois Bergoglio não é mais um adolescente, está com 76 anos e não tem parte de um dos pulmões. Ele pode perder o fôlego se souber das inúmeras conquistas patrocinadas por Lula e você nessa última e dourada década. Não conte que o PT, o seu partido, conseguiu o milagre de elevar o salário mínimo para R$ 678. Vá com calma quando revelar ao papa que você está conseguindo vencer a miséria com R$ 80 por mês. Omita também a tristeza e a preocupação que carrega por causa da nova tragédia de Petrópolis. Nem toque no assunto das 6 mil residências que, em janeiro de 201, você prometeu aos desabrigados da cidade da histórica cidade fluminense, mas que esses ingratos insistiram em continuar morando no barranco apenas porque as casas não saíram do papel. O papa é capaz de excomungar essa gente.
Dilma, se contar que você e o Lula conseguiram colocar 40 milhões de pessoas na classe média e que esse batalhão não mede esforços para diariamente escalar as montanhas de carnês vencidos, o papa é capaz de acreditar que o Brasil é uma usina de milagres e que o povo brasileiro é mais obediente que a vaca do presépio do Menino Jesus.
Para finalizar, Dilma, não mais tomando seu tempo porque você precisa caprichar na maquiagem e pisar no Vaticano com semblante angelical, confesso que meu maior medo é que o papa Francisco descubra que você é a Virgem Maria, que Deus caiu de paraquedas em Garanhuns, perdeu o dedo mindinho e agora, usando um chapéu de Al Capone, vive a fugir da legião de fãs. Não esqueça, Dilma, de colocar na bolsa um vidro de óleo de peroba, pois o frio que nessa época do ano sopra na Praça São Pedro costuma danificar faces lenhosas.

De: Ucho Haddad – Para: Lula – Assunto: Imbecilidade, canalhice e boçalidade


(*) Ucho Haddad –
Lula, finalmente você reapareceu, apesar de continuar fugindo da imprensa. A sua estratégia de marketing foi interessante, pois um histriônico confesso quando desaparece o faz porque a necessidade de estar em evidência, mesmo que na condição de fugitivo, é muito maior do que se imagina. Esse tipo de comportamento muitos psicólogos são capazes de resolver, mas às vezes é caso de psiquiatra, com direito a medicamento “tarja preta”. Ainda bem que não existe remédio para mitomania, pois do contrário você seria ainda mais insuportável. Pense, Lula, num lobista mentiroso e estabanado que acredita ser deus imaginando que fala a verdade. Por certo Messias, o original, já estaria desempregado.
Depois de suas incursões pela África, para onde seguiu a bordo de um refinado jatinho de empreiteira – afinal ninguém é de ferro –, você ressurge do nada e barra a imprensa falada e escrita em uma das suas ufanistas palestras. Compreendo essa atitude, pois se registram tudo o que você fala a sua fama de parente de Aladim vai pelos ares. Na verdade, quem acredita nessa sua genialidade só pode ser tão boçal quanto você.
Sabe, Lula, depois de quase 55 anos uso pela primeira vez a palavra boçal. E também pela primeira vez não me sinto incomodado, apesar de não ser dado às deselegâncias. Não que jamais tenha encontrado nas estradas da vida pessoas parecidas com você, mas é que aprendi a respeitar o próximo. Como tudo na vida um dia muda, você me mostrou nos últimos dez anos que não merece respeito. Se enquanto você estava presidente eu o tolerava por imposição da visão míope de parte do eleitorado, imagine agora que é nada.
Na sua mais recente palestra, que somente jovens incautos e pouco experimentados foram capazes de assistir, em Santo André, você chamou de canalhas e imbecis os que inventaram notícias a respeito da sua saúde. Meu finado pai, Lula, me ensinou que antes de mandar é preciso saber fazer, pois se não a ordem perde sua força e essência. E meu pai foi ainda mais longe. Disse-me que também é necessário saber a fundo sobre determinado fato antes de qualquer afirmação. Sendo assim, creio que você tem conhecimento sobre o que é canalhice e imbecilidade.
Lula, quando começou a circular a notícia de que você estava frequentando o Sírio-Libanês de madrugada para se submeter a um escondido e misterioso tratamento quimioterápico, de chofre afirmei que se tratava de mentira, de armação barata. E fui além, Lula. Disse que todo ser humano deve torcer pelo bem do próximo, inclusive do inimigo, do adversário. Sou obrigado a concordar com você que mentira é uma imbecilidade. Dependendo da extensão e da gravidade, é uma canalhice. Eu torço por você, Lula, pois sem a sua presença a palhaçada em que se transformou a política nacional perde a graça. Pense numa enorme lona cobrindo um picadeiro sem palhaço. Que coisa sonsa!
Apesar de não lhe tirar a razão nesse caso específico, você precisa saber os motivos que levam as pessoas a essas notícias esculpidas com o cinzel da inverdade. Você é uma pessoa tão espetacular e adorada, Lula, que as pessoas querem vê-lo morto. E desejam que a morte ocorra da pior forma possível, como merece todo político que engana o povo. Não fosse você esse salvador da pátria amada e idolatrada chamada Brasil, o boato sobre a recidiva do câncer não teria o Sírio-Libanês como destino das suas escapadas noturnas e secretas, mas, sim, aquele hospital de Havana em que seu concorrente, agora finado, Hugo Chávez escafedeu-se. Na mesma Cuba de onde a sua companheira Dilma, a “gerentona inoperante”, quer importar seis mil agentes da ditadura castrista disfarçados de médicos.
Compreendo perfeitamente esse desapontamento com os que inventaram a boataria sobre a sua saúde. Até, porque Lula, no caso foi o câncer que lutou para se livrar de você. Sem fugir do assunto, explico as razões que me permitem compreender a sua decepção. Certa vez, Lula, ainda jovem, ouvi falar de um comunista de boteco, desses que ficam dependurados à porta das fábricas ou à beira da linha do trem. Do nada esse especialista em água que passarinho não bebe começou a ganhar espaço na mídia – afinal a imprensa canhestra sempre precisa de um fato novo, mesmo que seja uma farsa – e a ser incensado como se fosse a versão sindicalista de Sassá Mutema.
Tão boçal quanto você, Lula, esse sujeito, sempre abusado, passou a acreditar que era a derradeira solução do planeta. Diante de uma vastíssima plateia de ignaros, esse imbecil logo foi aclamado como líder dos trabalhadores e dos pobres. Trabalho que é bom o sujeito nunca soube o que é e pobreza ele já não lembra o que significa. Até porque, Lula, uma pessoa que compra um relógio Cartier, em Nova York, com o dinheiro do povo não sabe o que é pobreza. No máximo sabe o que é banditismo consentido.
Voltando ao assunto… O tal comunista de botequim, cachaceiro convicto e conhecido, um dia resolve ser presidente. Chega ao poder e começa a rasgar o discurso de décadas e a mentir continuadamente para o povo. Pois bem, Lula, você há de concordar comigo que esse sujeito abusado é um canalha, um imbecil. Fosse pouco o fato de encarnar um Messias de araque, o tal comunista de boteco começou a patrocinar a corrupção. Quando o escândalo vinha à tona, o malandro dizia que de nada sabia. Paciência, porque dizem por aí que cada povo tem o governante que merece.
Para cair nas graças do povo, o tal cachaceiro-presidente começou a distribuir esmolas oficiais. Como se não bastasse tamanho absurdo, o comunista de camelô arremessou 40 milhões de desavisados cidadãos na vala do consumismo. Constatada a tragédia, o espertalhão surgiu com um discurso novo, apesar de ter espetado um pesado carnê nas costas de cada um. Disse o malandro que os endividados integravam a nova classe média. Pense, Lula, na ousadia e na irresponsabilidade desse alarife com mandato. O sujeito é ou não um canalha? Mas Lula, veja como existem imbecis no planeta. O comuna do boteco que virou presidente conseguiu enganar uma legião de gente letrada e arrebatou mais de uma dúzia de títulos de “doutor honoris causa”, apenas porque enganou o povo e destruiu o próprio país.
Deixemos esse imbecil de lado, Lula, e retomemos a sua insana verborragia. A extensa maioria da imprensa brasileira, para a sua sorte, tem dificuldades para pensar ou passa com frequência pelo caixa do desgoverno que se instalou no Palácio do Planalto. Você dedicou adjetivos ácidos aos que criaram o boato sobre a sua saúde, mas os jornalistas não tiveram a capacidade de interpretar o seu discurso nas entrelinhas. Se diante de uma mentira você esperneou, o seu silêncio em relação a determinadas polêmicas as transformam em verdade.
Veja só, Lula! A Rosemary Noronha, que você deve conhecer, disse que era – não sei se ainda é – sua namorada. E fez essa afirmação enquanto protagonista de um escândalo de corrupção. A polícia desmontou o esquema comandado pela Marquesa de Garanhuns e você se viu obrigado a sair de circulação. Tudo absolutamente natural em se tratando de um covarde. Mas em nenhum momento você disse que a Rose é mentirosa, canalha, imbecil. Possivelmente porque as declarações dela não são boatos.
Esse caso sobre o seu namoro com a Rose é assunto para resolver em casa, com a esposa, os filhos, os netos. Vocês são vermelhos e que se entendam. Apenas dê uma explicação ao povo brasileiro sobre o esquema criminoso que surgiu no vácuo de uma traição conjugal. E cá pra nós, Lula, você tem um péssimo gosto para mulher ou é um azarado no assunto. Mas gosto e preferências não são passiveis de discussões. De tal modo, sejam todos felizes.
Agora pinço mais uma das aberrações que levam a sua digital. Lula, sou adepto da teoria longínqua de que sabe escrever aquele que lê com frequência. Como você mesmo disse ser avesso à leitura, escrever por certo não faz parte das suas maiores predileções. Mesmo assim, a reboque de um escriba qualquer de aluguel, que como sempre rascunha as bobagens do contratante, você se transforma em colunista do “The New York Times”. Se isso tivesse acontecido com aquele comunista do boteco, diria que ele é um imbecil canalha. Mas não é o seu caso, porque você é um homem justo, verdadeiro, cumpridor da palavra dada, um verdadeiro Don Quixote a lutar contra a corrupção e que jamais traiu a confiança da população.
Mas Lula, pense bem no teor da sua primeira coluna no NYT. Se o seu escriba de aluguel não lhe aplicou uma troça, você deveria estar transtornado quando afirmou que os recentes protestos que tomaram as ruas de várias cidades brasileiras representam a satisfação do povo, que depois das conquistas alcançadas durante o seu desgoverno querem mais. Lula, em qualquer país minimamente sério você já teria sido apedrejado. Então, Lula, quer dizer que as últimas pesquisas de opinião que apontam o calvário político de Dilma refletem a satisfação do povo? Veja só, mestre (sic) Lula, pensava eu, no topo da minha ingenuidade, que fosse o contrário, que aquelas pessoas gritando nas ruas estavam enfurecidas com o seu magnífico legado e a competência do governo da “companheira” Dilma. Não sei o que seria de mim e dessas pessoas ingratas que protestam se você não existisse, Lula.
Apesar de você ser essa pessoa magnânima e celestial, sinto-me na obrigação de lhe passar uma carraspana. Você disse, ao criticar os criadores do boato sobre sua saúde: “Graças a Deus não tenho mais câncer, e não é correto que algum canalha, imbecil fique pela internet contando mentiras”. Se é que compreendi de fato sua declaração, Lula, canalha e imbecil é aquele que conta mentira na internet. Fora da rede mundial de computadores o mentiroso é divindade. É isso ou estou enganado?
Não contente, você abusou em seu discurso eivado pela ira. “Não tenho câncer, não quero ter câncer, não vou ter câncer e não gosto de quem tem câncer”. Lula, fico feliz por você ter se livrado do câncer. Sei o quanto é difícil essa batalha, mas a alta médica não significa que você está curado. Isso só será possível afirmar dentro de mais alguns anos. E garanto que torço para que esse dia chegue o quanto antes, pois o quero vivo e com energia para ser criticado como merece.
Sei da sua vocação para divindade, mas não querer ter câncer ou afirmar que não terá câncer não é assunto da sua competência. Quem decide isso é o Criador, que já deve ter reservado a lição que lhe cabe. Se em algum momento você tem lapsos de consciência, certamente deve imaginar o que vem pela frente. O pior foi você ter afirmado que “não gosta de quem tem câncer”. Lula, você é metido a deus e deveria saber que pensamentos desse naipe não coadunam com divindades. Mas é preciso reconhecer que o céu também tem seus embusteiros de plantão. Eu gosto do ser humano incondicionalmente, com ou sem câncer, e torço pelo bem do próximo. Atitude pequena para alguém da sua grandeza.
Lula, para finalizar e não tomar o seu precioso tempo, pois sei que agenda de lobista e palestrante é muito concorrida, preciso revelar a conclusão a que cheguei depois de uma década convivendo com os seus desvarios. Você é, pelo menos por enquanto, o tumor maior do Brasil, que pela peçonha da própria existência colocou no comando do País a sua metástase.
Para mim, Lula, você é apenas um boçal que acredita ser gênio, mas se na sua opinião aquele que mente é canalha e imbecil, o problema é seu.
(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e cometarista político, cronista esportivo, escritor e poeta.

Será que Gandhi era um libertário?



ghandi.jpgMohandas K. Gandhi nasceu em 2 de outubro de 1869, em Porbandar, cidade portuária da Índia Ocidental, às margens do mar de Omã. O pai era oficial de alta patente no governo do pequeno principado que exercia o poder nominal das imediações; na prática, o Gandhi mais velho reportava-se aos príncipes locais, que por sua vez reportavam-se aos oficiais britânicos locais, que eram quem de fato administrava as coisas. O mais jovem tinha interesse em fazer carreira na medicina, mas abandonou a ideia para agradar aos pais, demonstrando sua humildade e obediência, e dar continuidade às tradições familiares: em 1888, com 18 anos, mudou-se para Londres, para estudar Direito.
De volta à Índia, depois de três anos, descobriu que não conseguiria viver uma vida digna trabalhando como procurador, pelo menos não no próprio país. Depois do fracasso das tentativas de se estabelecer no setor privado, em Bombaim, voltou a fixar residência em Porbandar, trabalhando sob a supervisão de advogados já estabelecidos, no exercício de uma função que hoje seria descrita como assistência jurídica. Na primavera de 1893, com 23 anos e, ao que parecia, incapaz de se sustentar exercendo a profissão que, a princípio, só tinha abraçado para satisfazer à família, as circunstâncias econômicas obrigaram-no a aceitar um cargo no departamento jurídico de uma empresa indiana da cidade de Durban, na costa leste da África do Sul, outra parte do Império Britânico.
Até esse período da vida, Mohandas Gandhi tinha sido um exemplo de espírito colaborativo, que relegava a si mesmo a segundo plano. Nas palavras de seu biógrafo, o finado B. R. Nanda, "ele ainda não tinha manifestado nenhum tipo de autoafirmação, nem de agressividade". O próprio Gandhi, muito tempo depois, comentaria que tinha sido educado "para acatar as ordens dos mais velhos, não para tentar entendê-las". E não tentava entendê-las; obedecia sem reclamar, nem questionar. Tampouco o jovem Mohandas Gandhi revelava o mínimo interesse em política e eventos públicos, o que Nanda explica nos seguintes termos:
Até os 18 anos de idade, raramente Gandhi lia os jornais. Nem quando estudante na Inglaterra ou advogado em ascensão na Índia, demonstrou muito interesse pela política. Na verdade, era tomado de um nervosismo assustador toda vez que se levantava para ler um discurso numa reunião social ou para defender um cliente perante o juiz.
Contudo, à época em que chegou na África do Sul, na primavera de 1893, as coisas tinham mudado. Seus pais tinham falecido, e embora outros parentes mais idosos continuassem vivos, ele estava a mais de 6 mil quilômetros de casa e já não podia ouvir seus comentários e conselhos.
Tenham sido essas algumas de suas razões ou não, o fato é que aquele Mohandas Gandhi, cuja humildade era famosa dentre todos que o conheciam no primeiros anos de sua vida na Índia e Inglaterra, desapareceu depois de se mudar para a África e nunca mais voltou a ser visto. Foi substituído por um Gandhi mais empedernido, um Gandhi que já estava saturado daquela vida de capacho dos outros, um Gandhi que se rebelaria ao extremo contra quem ousasse usar de força contra ele.
Nanda relaciona algumas das indignidades que Gandhi sofreu pouco depois de sua chegada, impostas com base em leis sul-africanas que sujeitavam a tratamento de segunda classe pessoas consideradas "de cor". Um dia,
viajando de trem para Pretória, ele foi expulso sem cerimônia de uma cabine da primeira classe [pela qual tinha pago] e foi largado na Estação Pietermaritzburg, tremendo e se remoendo; em outro trecho da viagem, foi surrado por um cocheiro branco, que se recusou a viajar no estribo para dar lugar a um passageiro europeu; e, por fim, foi barrado em hotéis reservados "somente para europeus".
Nanda escreve que, em resposta, Gandhi,
quase da noite para o dia, desabrochou como um habilidoso ativista político. Redigiu petições ao legislativo [colonial] e ao governo britânico, e coletou a assinatura de centenas de compatriotas. Ele … inspirou um espírito de solidariedade na heterogênea comunidade indiana. Inundou o governo, o legislativo e a imprensa de relatórios rigorosamente fundamentados, com queixas de indianos. Por fim, expôs aos olhos do restante do mundo o esqueleto que se escondia no armário do Império: a discriminação praticada contra os súditos indianos da Rainha Vitória em uma de suas colônias africanas.
A partir do outono de 1906, começou a usar outro instrumento, chamado "satyagraha". Aqueles que Gandhi tinha organizado eram convocados a desafiar pacificamente toda lei considerada injusta e submeter-se a toda e qualquer penalidade resultante desse desafio. A tradução de Nanda para "satyagraha" é "devoção à verdade", mas às vezes o vocábulo também é traduzido por "resoluta insistência na verdade" ou "persistência na busca da verdade". Nanda escreve que se tratava de "uma nova técnica de reparar injustiças atraindo sobre si o sofrimento, em vez de infligi-lo; de resistir ao adversário sem rancor e combatê-lo sem violência".
No livro The triumph of liberty, Jim Powell relata que
por volta de 1907, Gandhi promoveu campanhas na África do Sul contra as leis que proibiam os indianos de viajar, comerciar e viver em liberdade, e um amigo presenteou-o com uma cópia daDesobediência civil [de Henry David Thoreau], que ele leu nos três meses em que ficou preso em Pretória. Gandhi reconhece que
as ideias [de Thoreau] exerceram uma enorme influência sobre mim. Não só adotei algumas delas como recomendei o estudo do autor a todos os amigos que me ajudavam com a causa da independência da Índia. …
Antes de ler esse ensaio, ainda não tinha achado uma tradução adequada do vocábulo indiano Satyagraha para o inglês.
Especialista em ThoreauWalter Harding escreve que, depois de ler A desobediência civil pela primeira vez, naquela prisão em Pretória, Gandhi "sempre levava uma cópia consigo, nas muitas vezes em que foi preso" nos anos seguintes.
Quando se menciona esse vínculo entre Thoreau e Gandhi, é quase garantido que alguém pergunte (seja em tom de queixa, em tom de sarcasmo ou movido por uma curiosidade genuína): "Mas Gandhi era libertário?" Ora, é claro que isso depende de como esses termos são definidos — o que se entende pelo vocábulo "libertário" e que tipo de evidência se considera válida quando se trata de decidir se determinado escritor, professor ou ativista político é ou foi "libertário". Um número enorme de pessoas dispostas a dar crédito à reivindicação de Glenn Beck ou de Bob Barr, de serem "libertários", mostra-se estranhamente avesso a estender o mesmo benefício da dúvida a – digamos — Emma Goldman ou Rudolf Rocker.
No caso de Mohandas Gandhi, os fatos são os seguintes:
B. R. Nanda relata que, em Durban, em janeiro de 1897, Gandhi
foi assaltado e quase linchado por uma turba de brancos … mas recusou-se a processar os assaltantes. Segundo disse, era um princípio que ele adotava: não querer reparar uma injustiça pessoal em um tribunal de justiça. … [A descrença no aparato do governo era quase tão arraigada em [Gandhi] quanto em Tolstoi. Ele teria concordado com a doutrina do século XIX segundo a qual 'o melhor governo é o que menos governa'. … [E]ssa máxima de Jefferson era fundamental no pensamento de Gandhi. "Uma sociedade organizada e gerida com base na absoluta não violência", declarou várias vezes, "seria a mais pura das anarquias. … Só é perfeito e não violento o estado onde as pessoas são menos governadas." E mais: "O estado não violento ideal será uma anarquia organizada. O estado mais bem-governado é aquele menos governado."
O historiador intelectual George H. Smith explica a questão de um jeito bem parecido. "A repulsa de Gandhi à opressão do estado", escreve, "era tão apaixonada e sincera quanto a de qualquer libertário de hoje". Ele menciona as palavras de Gandhi, que teria dito que "todo homem que sujeita a própria vontade à do estado abdica de sua liberdade, desse modo tornando-se um escravo".
Conforme Smith,
Muitos analistas apontam que Gandhi seguia a tradição anarquista e que seu anarquismo era acentuadamente individualista. Em comparação com a filosofia que se atribui ao Oriente, segundo a qual o indivíduo não teria importância nenhuma, Gandhi argumentava que "o indivíduo é o mais importante objeto de consideração". "Nenhuma sociedade", escreveu, "pode ser erigida sobre a negação da liberdade individual." É contrário à própria natureza humana. Assim como em um homem não crescem chifres nem rabo, tampouco ele existirá como homem a menos que seja dotado de um espírito próprio. Na verdade, mesmo quem não acredita na liberdade do indivíduo acredita na própria liberdade."
Em defesa de seu argumento, Smith menciona a opinião do filósofo acadêmico indiano Raghavan Iyer, que passou a maior parte da vida adulta nos Estados Unidos, lecionando na Universidade da Califórnia. "Não seria um exagero", escreveu Iyer, em 1973, "considerar Gandhi um dos individualistas mais revolucionários e um dos revolucionários mais individualistas." Citando Iyer, Smith alega que Gandhi "custava a acreditar na prioridade moral de qualquer agente coletivo sobre o indivíduo."
O próprio juízo de Smith é inequívoco. "Na ótica libertária, sob qualquer critério razoável — o mesmo com o qual se avalia um Sam Adams, um Thomas Paine ou um Lysander Spooner", escreve, "Mohandas Gandhi atenderia aos requisitos de um herói." Smith admite que "no imenso corpus de seus escritos, não se acha um único tratado sistemático sobre teoria política. Entretanto, dispersos em várias cartas e artigos, vêem-se indícios inconfundíveis de sua tendência anarquista." "Em seu modo de ver as coisas", garante Smith, "[Gandhi] foi predominantemente libertário." Ao longo de sua carreira de ativista, orientou-se pela "concepção de uma sociedade anarquista."
E isso não é tudo. "Diversas vezes, Gandhi declarou-se anarquista", escreve Smith,
Recusou cargos no poder político … exigiu a abolição do Congresso indiano, depois da independência do país … criticou o governo de Nehru … aspirou à abolição do exército indiano e à manutenção de uma força policial mínima, se tanto. … seu programa social inteiro tinha por eixo o estabelecimento de "assembléias de aldeia" descentralizadas, que lançariam mão de sanções sociais para manter a ordem e estariam isentas do controle do estado. … Gandhi era opositor ferrenho do imperialismo … da guerra (inclusive da Segunda Guerra Mundial), da censura e de quase todo tipo de intromissão do estado."
No fim das contas, é claro que o argumento definitivo em favor do libertarianismo de Mohandas Gandhi é o fato de ser ele um pacifista. Em fóruns on-line, onde bravateadores munidos de pouca informação falam, em tom categórico, de assuntos sobre os quais são particularmente desinformados, não é incomum deparar com a afirmação de que "libertarianismo não é pacifismo". "Você deve ter confundido libertarianismo e pacifismo", erguerá a voz uma sedizente autoridade, com ar de enorme confiança e convicção. E não deixa de haver um quê de verdade em toda essa atitude.
É claro que libertarianismo não é pacifismo — não necessariamente, pelo menos. Por outro lado, pacifismo é libertarianismo. Quando se renuncia a toda forma de violência, é preciso renunciar ao estado. Desse modo, embora nem todo libertário seja pacifista, todo pacifista é libertário, tenha ele consciência disso ou não (e, convenhamos, grande número de pacifistas não têm essa consciência). Ao que parece, Gandhi era um dos que tinham.
Como o mundo inteiro sabe, Mohandas Gandhi voltou para a Índia em 1914, com 44 anos de idade, pouco depois da eclosão do que viria a ser conhecida como a Primeira Guerra Mundial. Ao longo das três décadas seguintes, para libertar a Índia do controle britânico, organizou e liderou o movimento que acabou atingindo esse objetivo.
Em 30 de janeiro de 1948, em Deli, a caminho do palanque de onde discursaria para um grupo de oração, foi morto a tiros de pistola por um nacionalista hindu — assassinado" é o termo que se costuma usar, uma vez que Gandhi era tanto um ativista político, quanto uma figura pública. Tinha 78 anos de idade.
Será que ele merece um lugar na tradição libertária? Eu diria que sim.


Este artigo foi transcrito do podcast Libertarian Tradition (A tradição libertária), "Mohandas K. Gandhi (1869–1948)".


Jeff Riggenbach  
é jornalista, autor, redator, locutor e educador. Membro da Organization of American Historians e membro sênior do Randolph Bourne Institute, escreveu para os jornais New York TimesUSA TodayLos Angeles Times e San Francisco Chronicle; para as revistas ReasonInquiry e Liberty; e para os websitesLewRockwell.com, AntiWar.com e RationalReview.com. Graças à habilidade vocal aperfeiçoada em rádios de música clássica e de notícias, de Los Angeles, San Francisco e Houston, Riggenbach também narrou as versões em audiobook de inúmeras obras libertárias, muitas delas disponíveis em Mises Media. Envie um e-mail. Veja oarquivo com os artigos de Jeff Riggenbach.

Como educar seus filhos



Pai.jpgPelo fato de eu escrever muito sobre política, as pessoas sempre me perguntam qual a melhor maneira de ensinar às crianças como funciona nosso sistema de governo. E eu sempre respondo que elas podem, em suas próprias casas, dar a seus filhos um curso básico de cívica.
Por meio de minha experiência pessoal como pai, fui capaz de descobrir várias artimanhas simples capazes de ilustrar, de maneira facilmente compreensível para a mente de uma criança, os princípios através dos quais o estado moderno lida com seus cidadãos. Creio que esses métodos também serão úteis para você.
Tudo começou na época em que eu costumava jogar com meu filho um simples jogo de cartas chamado WAR. Após algum tempo, depois de ele ter entendido por completo que as cartas mais altas sempre batiam as mais baixas, decidi que era hora de criar um novo jogo. E a esse jogo dei o nome de GOVERNO. Nele, eu era o Governo e, sendo assim, eu sempre ganhava cada embate, independentemente de quem tivesse a melhor carta. Meu filho, é óbvio, rapidamente perdeu todo o interesse por esse novo jogo, mas gosto de pensar que foi exatamente esse jogo quem ensinou a ele uma valiosa lição para todo o resto de sua vida.
Eis como ele funciona.
Quando seu filho já estiver um pouco mais maduro, você poderá ensiná-lo sobre o funcionamento do nosso sistema tributário de uma maneira fácil dele entender. Ofereça a ele, digamos, $10 para lavar o carro. Quando ele tiver terminado de lavar e vier pedir o pagamento, dê-lhe apenas $5 e diga que os outros $5 ficaram como imposto de renda retido na fonte. Dê $1 para o irmão mais novo e diga a seu filho que isso é "justo", pois assim ele estaria "fazendo pelo social". Também diga a ele que você, o Governo, precisa dos $4 restantes para se auto-financiar, isto é, para cobrir os custos oriundos desse "trabalho" de redistribuir o dinheiro. Quando ele chorar e disser que isso é injusto, diga-lhe que ele está sendo "egoísta" e "ganancioso".
Crie o maior número possível de regras e nunca explique as razões por que elas foram criadas. Aplique-as arbitrariamente. Sempre acuse seu filho de quebrar regras sobre as quais você nunca havia lhe contado. Mantenha-o angustiado, temeroso de estar violando ordens que você ainda não expediu abertamente. Inculque nele o sentimento de que regras governamentais são coisas completamente irracionais, mas que, não obstante, devem ser seguidas à risca, sem qualquer tipo de questionamento. Isso irá prepará-lo para viver sob um regime democrático de governo.
Quando seu filho já estiver maduro o suficiente para entender como o sistema judicial funciona, determine um horário para ele ir dormir. E então descumpra o combinado e mande-o pra cama uma hora mais cedo, ameaçando-o com punições caso ele não obedeça. Quando ele lacrimosamente acusar você de estar quebrando as regras, diga a ele que foi você quem as criou e que, por isso, você pode interpretá-las da maneira que mais lhe aprouver, adequando-as sempre às condições que mais lhe forem convenientes. Isso irá prepará-lo para o peculiar conceito de que as leis estatais são regras "sérias, sensatas, democraticamente benéficas e inquestionáveis".
Prometa frequentemente levá-lo ao cinema ou ao parque. Na hora marcada, recline-se confortavelmente numa poltrona e, com um jornal à mão e um charuto na boca, diga-lhe que você mudou seus planos. Quando ele gritar "Mas você prometeu!", diga a ele que aquilo era apenas uma promessa de campanha.
De vez em quando, sem qualquer aviso, dê um tapa no seu filho. Depois explique que isso era apenas uma forma de auto-defesa. Diga a ele que você, o Governo, tem de estar sempre vigilante, a todo e qualquer momento, para evitar que qualquer inimigo em potencial - possíveis questionadores - cresça e se torne uma ameaça capaz de lhe prejudicar. Quanto a isso, também, seu filho lhe será grato. Não naquele momento, mas mais tarde, no decorrer da vida.
Em alguns momentos seu filho irá naturalmente expressar descontentamento com seus métodos. Ele pode até mesmo vocalizar o petulante desejo de querer viver com outra família. Para evitar e/ou minimizar essa reação, diga-lhe o quão sortudo ele é por ter você, o pai mais tolerante e amoroso do mundo. E então comece a contar histórias lúgubres sobre a crueldade de outros pais. Isso irá torná-lo completamente leal a você e, posteriormente, irá fazê-lo aceitar a idéia amplamente difundida pelas escolas de que o estado assistencialista pós-moderno é o melhor e mais livre método de organização política já concebido. Se seu filho for mais esperto e contra-atacar, utilizando argumentos como estes ou estes, interrompa imediatamente a conversa, repreenda-o por ter a ousadia de fazer questionamentos e obrigue-o a estudar mais literatura marxista e social-democrata.
O que nos leva finalmente à técnica de educação infantil mais importante de todas: a mentira. Minta para seu filho constantemente. Ensine a ele que as palavras não valem absolutamente nada - ou, ainda melhor, que os significados das palavras estão em contínua "evolução", e que amanhã elas podem significar exatamente o oposto do que significam hoje.
Alguns leitores podem contestar, reclamando que esse é um método muito falho de se educar uma criança. Mas esse é exatamente o ponto: o abuso psicológico infantil é o melhor método de preparo para a vida adulta sob a atual forma de GOVERNO.
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O Homeschooling nos EUA (e no Brasil)


por  

N. do T.: o texto a seguir é de 2003. Desnecessário dizer que seu conteúdo, além de cada vez mais atual, é também de interesse nacional, como ficará claro mais abaixo.

homeschool.jpgFoi apenas uma questão de tempo para que Hollywood "descobrisse" o homeschooling. (Nome dado à prática de se educar os filhos dentro da própria casa, ao invés de confiá-los às escolas públicas e/ou privadas. Dentre os motivos para tal, os mais freqüentes são o baixo nível técnico das escolas, as questões religiosas e as divergências ideológicas de todas as sortes).
Na véspera da estréia do seriado cômico The O'Keefes, em 2003, os seguintes chamados comerciais foram veiculadas pela Warner Brothers:
"Harry e Ellie O'Keefe são pais amorosos, porém excêntricos, que optaram por escolarizar seus três filhos em casa com o intuito de protegê-los de um mundo vulgar e libidinoso." (Tradução: os pais são uns derrotados.)
"Apesar do banimento de toda a cultura pop, os adolescentes Danny e Lauren e o irmão caçula Mark estão ficando cada vez mais curiosos para descobrir o que existe além das paredes de sua sala de estudos/jantar." (Tradução: as crianças são mantidas em prisão domiciliar.)
"Elas falam seis idiomas, mas são impossibilitadas de conversar com garotos da sua idade. A solução para isso jaz no pior pesadelo de seus pais: a escola pública." (Tradução: crianças que não freqüentam as escolas do governo se tornam desajustadas.)
É enfurecedor, ainda que nada surpreendente, que os adeptos do homeschooling (os homeschoolers) - o maior dos grupos pertencentes ao movimento da escolha escolar - ainda sejam alvo de escárnio. A NEA (National Education Association, uma espécie de sindicato dos professores de escolas públicas), por exemplo, aprova regularmente resoluções anti-homeschooling em suas convenções anuais. As resoluções sempre terminam concluindo que o homeschooling "não é capaz de proporcionar ao aluno uma experiência educacional abrangente." Agora parece ser a vez de Hollywood lançar ataques contra aproximadamente 1,5 milhão de crianças americanas que são educadas em casa.
Mesmo em uma nação que aplaude a inovação e a liberdade, o homeschooling continua levantando muitas dúvidas incômodas, porém importantes, sobre a questão da regulação governamental das opções privadas. Abaixo estão as sete perguntas mais freqüentes sobre o ensino domiciliar. Espero que as respostas expliquem os benefícios desse esforço educacional e acabem com as impressões equivocadas que tipicamente se apresentam contra o homeschooling.
Por que optar pelo homeschooling?
O homeschooling, como foi dito, é simplesmente o ato de educar crianças em idade escolar nas suas próprias casas ao invés de em alguma escola. Por que as pessoas escolhem essa opção? Em 1996, o Departamento de Educação da Flórida enviou um formulário de pesquisa para 2.245 homeschoolers, sendo que 31 por cento dessas pessoas deram retorno. Desse grupo, 42 por cento disseram que a insatisfação com o ambiente predominante nas escolas públicas (insegurança, drogas e pressão adversa do ambiente) foi a razão que os fez elaborar um programa próprio de educação domiciliar.
Minha tese de doutorado, focalizada no homeschooling e na mídia, analisou mais de 300 artigos de jornais e revistas. Neles, descobri que as quatro principais razões para se evitar o ensino escolar convencional foram a insatisfação com as escolas públicas, o desejo de se transmitir livremente valores religiosos, a superioridade acadêmica do ensino doméstico e a necessidade de se construir laços familiares mais robustos.
Que tipo de família escolhe o homeschooling?
A Associated Press divulgou as constatações de um relatório do Ministério da Educação dos EUA, de 2001, sobre o homeschooler "típico". A reportagem da AP observou que "A probabilidade de eles morarem com dois ou mais irmãos e junto aos pais, sendo que um dos progenitores trabalha fora, é maior do que para outros alunos. Os pais dos homeschoolers são, em geral, mais instruídos do que outros pais - uma grande porcentagem é diplomada -, conquanto suas rendas sejam praticamente as mesmas. Como boa parte dos outros pais, a vasta maioria daqueles que educam seus filhos em casa ganham menos de $50.000 por ano, e muitos ganham menos de $25.000".
Dada a propensão americana para associações, já existem grupos nacionais de homeschooling para os deficientes físicos, para os religiosos e para aqueles de mentalidade mais atlética. Johnson Obamehinti, por exemplo, fundou a Minority Homeschoolers of Texas. Sua organização promove o ensino domiciliar entre as minorias étnicas, como os afro-americanos, os asiáticos, os hispânicos, os judeus, os indígenas, e os anglos que adotaram crianças pertencentes a uma dessas minorias.
O homeschooling também vem atraindo "celebridades" para suas fileiras, como o jogador da NFL, Jason Taylor, e a sensação da música country, LeAnn Rimes.
Existem diferentes métodos de homeschooling?
As famílias podem optar por comprar um currículo já montado por empresas que têm especificamente os homeschoolers como alvo. Dentre essas empresas estão a A Beka Home School e a Saxon Publishers. Outras podem optar por matricular seus filhos em instituições que também oferecem educação a distância, como a Calvert School de Maryland, a Christian Liberty Academy Satellite Schools de Illinois, ou a Clonlara School de Michigan. Já as escolas voltadas para a educação on-line, como a K-12 Inc., oferecem currículos na internet para os homeschoolers.
À medida que as famílias vão ganhando confiança em suas habilidades de homeschooling, elas passam a optar por uma abordagem menos estruturada. Algumas procuram tutores que ensinam habilidades específicas, como uma língua estrangeira, um instrumento musical, ou uma aula de ciências do ensino médio. As crianças também participam de excursões e de cooperativas de aprendizado com outras crianças também adeptas do homeschooling, ou até mesmo fazem algumas matérias em escolas ou colégios locais.
Como as crianças educadas em casa interagem com outras pessoas?
Essa pergunta se deve a uma caricatura grosseira feita por aqueles que imaginam que o homeschooling faz com que as crianças fiquem isoladas e hibernadas em uma casa. A definição do que vem a ser socialização é um exercício arbitrário. O ônus, entretanto, ainda parece recair sobre os pais adeptos do homeschooling. São eles quem tem de se defender. Com esse intuito, um estudo desmontou o mito de que os homeschoolers são misantropos.
Em 1992, Larry Shyers, da Universidade da Flórida, defendeu uma tese de doutorado na qual ele desafiava a noção de que as crianças que ficam em casa apresentam um desenvolvimento social mais atrasado. Em seu estudo, crianças de 8 a 10 anos eram filmadas brincando. O comportamento de cada uma delas foi observado por orientadores psicológicos que não sabiam quais eram as crianças que freqüentavam escolas convencionais e quais eram as que estavam sob homeschooling. O estudo não encontrou qualquer diferença significativa entre os dois grupos em termos de assertividade, que foi medida por exames que avaliavam a evolução social de cada criança. Mas as filmagens mostraram que as crianças educadas em casa por seus pais apresentavam menos problemas comportamentais.
Tipicamente, os homeschoolers participam de várias atividades externas - jogos desportivos (existem inúmeros times de homeschoolers), programas de escotismo, igrejas, serviços comunitários ou empregos de meio expediente. Richard G. Medlin, da Universidade Stetson, observa que os homeschoolers recorrem expressivamente a grupos de apoio como meio de manter contato com famílias de idéias afins.
O homeschooling é legítimo?
National Homeschool Association observou que "o homeschooling é legalmente permitido em todos os 50 estados dos EUA, mas as leis e regulamentações são muito mais favoráveis em alguns estados do que em outros." Porexemplo, o estado de Oklahoma é considerado mais amistoso em relação ao homeschooling, pois os pais não são obrigados a contactar as autoridades do estado antes de começarem a educar seus filhos em casa. No estado de Massachusetts, entretanto, a regulamentação é ferrenha (aprovação de currículo, avaliação de trabalhos dos alunos, etc.).[*] Os veteranos mais experientes recomendam que os pais se familiarizem com as leis do seu estado antes de iniciar seu homeschooling.
O clima jurídico favorável não quer dizer que desavenças não ocorram. Dean Tong, autor do livro Elusive Innocence: Survival Guide for the Falsely Accused (2002), diz que um pequeno número de homeschoolers já teve de lutar contra acusações falsas de abuso infantil.
"Baseando-se em consultas telefônicas que tive com (esses) homeschoolers, a maioria deles foi acusada, por tribunais de dependência juvenil, de negligência, falta de proteção, abuso emocional e psicológico, e até de provocar inanição", diz Tong. No que tange aos homeschoolers, ele diz que essas acusações infundadas são geralmente feitas por vizinhos intrometidos que acreditam que crianças devem receber uma educação mais formal, feita em sala de aula.
Como a educação de uma criança adepta do homeschool se compara em relação àquela convencionalmente recebida pelas outras crianças?
Uma medida é ver o quão bem elas se saem nos testes padronizados, como o SAT (Stanford Achievement Test) ou oIowa Test of Basic Skills. O National Home Education Research Institute observa que "repetidamente, por todo o país, os alunos educados em casa pontuam tão bem quanto ou até melhor do que aqueles oriundos de escolas convencionais".
A NMSC (National Merit Scholarship Corporation) selecionou mais de 70 alunos em idade de ensino médio, mas que foram educados em casa, como semifinalistas em sua competição de 1998. Em 1999, esse número passou para 137 e em 2000, para 150.
Rebecca Sealfon, uma homeschooler de 13 anos de idade, residente no Brooklyn, em Nova York, venceu a competição nacional de ortografia (a Scripps Howard National Spelling Bee) de 1997. David Beihl, também de 13 anos, da cidadezinha de Saluda (3.000 habitantes), Carolina do Sul, venceu a competição nacional de geografia (aNational Geographic Bee) de 1999. George Thampy, um homeschooler de 12 anos de idade, de Maryland Heights, Missouri, venceu a competição nacional de ortografia de 2000. Calvin McCarter, um homeschooler de 10 anos de idade, residente nos arredores de Grand Rapids, Michigan, venceu a competição nacional de geografia de 2002, tornando-se o mais jovem vencedor do prêmio.
Vários homeschoolers graduaram-se em instituições tão prestigiosas quanto a Escola de Direito de Yale, a Academia Naval do EUA e a Mount Holyoke College. Barnaby Marsh, educado em casa nas paisagens ermas do Alasca, acabou graduando-se na Universidade de Cornell e se tornou um dos 32 alunos selecionados para uma bolsa de estudos na Universidade de Oxford, em 1996.
Que tipo de jovens adultos o homeschooling produz?
J. Gary Knowles, da Universidade de Michigan, estudou 53 adultos com o intuito de observar os efeitos de longo prazo de uma educação domiciliar. Em 1991, ele apresentou uma monografia com seus veredictos no encontro anual da American Educational Research Associationem Chicago. Segundo Knowles: "Não encontrei qualquer evidência que mostre que esses adultos possuíam qualquer tipo de desprovimento. . . . Dois terços deles eram casados, a norma para os adultos da sua idade, e nenhum deles estava desempregado ou recebendo qualquer tipo de assistência governamental. E mais de três quartos deles sentiam que ter sido educado em casa na realidade tinha-os ajudado a interagir com pessoas de diferentes níveis da sociedade."
O pequeno empresário Tim Martin, de 29 anos, e sua esposa, Amy, de 28, moram na cidade de Whitehall, Montana, com seus quatro filhos. Ambos os Martins têm um passado de educação domiciliar e hoje também estão educando seus rebentos em casa. "A educação simplesmente funciona melhor quando fica entre dois indivíduos lidando diretamente", diz Tim. "Por que as pessoas acham que a maneira 'certa' de se educar é colocar 20 ou 30 crianças em uma sala de aula com um professor? Esse modelo é mais apropriado para linhas de produção do que para a educação."
E é verdade. Ao utilizar sabiamente suas liberdades, pais adeptos do homeschooling nos EUA já graduaram vários alunos cultos e bem preparados, sob um ambiente de interferência governamental mínima e a uma fração do custo de qualquer programa estatal. Agora uma segunda geração está pronta para seguir esses passos. É o tipo de história digna de um documentário atencioso, e não de um tolo seriado cômico.
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[*] No Brasil, o homeschooling ainda é algo praticamente fictício, pois a legislação brasileira não permite a educação domiciliar. Porém, há uma tênue esperança para os amantes da liberdade: uma corajosa família de Timóteo, MG, decidiu que ela, e não o estado, é que sabe o que é melhor para a educação de seus dois filhos de 14 e 15 anos. Nada mais de obrigar as crianças a ir à escola regularmente para ouvir o que o estado tem a lhes dizer. Basta!
E assim, há dois anos e meio os pais dessa família tiraram os filhos da escola e passaram a educá-los em casa.
Porém, temeroso de perder o monopólio da doutrinação, o estado vem perseguindo implacavelmente essa família, fazendo de tudo para puni-la pelo hediondo crime de ter optado por não submeter seus dois filhos ao lixo ideológico e às inutilidades de toda sorte que são ensinados na educação básica (pra não dizer no ensino médio e superior).
Dispostos a tudo para impedir o sucesso do individualismo e do mérito próprio, os burocratas processaram criminalmente a família - cujos pais podem ir pra cadeia - e ameaçam tomar a guarda dos filhos. Além disso, a Justiça decidiu que os dois meninos deveriam fazer provas de conhecimentos gerais para verificar se houve "abandono intelectual" - isto é, para verificar se eles deixaram de aprender as coisas que o estado quer que elas aprendam.
Incansáveis, os pais corajosamente seguiram em frente, e aceitaram o desafio de submeter seus filhos a essas provas, as quais, é óbvio, foram elaboradas de maneira peculiarmente maliciosa pelos burocratas da Secretaria Municipal de Educação de Timóteo e da Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais.
A raiva estatal era tão fragorosa que os burocratas chegaram ao cúmulo de inventar questões que exigiam conhecimento sobre teatro japonês e teoria das cores e pinturas, além de questões dissertativas sobre obras de arte de Pablo Picasso, Leonardo da Vinci e Claude Monet. Não satisfeitos, os burocratas também inventaram questões de educação física, as quais incluíam conhecimentos sobre a história do handball, basquete, futebol, atletismo e outros "esportes de alto rendimento". Por acaso tal currículo é cobrado em algum vestibular?
E, falando em vestibular, vale registrar que esses dois meninos foram aprovados no vestibular de Direito de uma universidade local, mostrando que o ensino domiciliar, se feito por uma família dedicada, já é capaz de colocar crianças em idade de sétima série dentro das universidades brasileiras.
Eis um link para as matérias publicadas a respeito: 

E não deixe de assistir ao vídeo. Observe particularmente a arrogância dos parasitas estatais, que se atribuem a si próprios o direito de propriedade sobre os filhos alheios. [N. do T.]

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Cléber Nunes, herói do homeschooling no Brasil (foto exclusiva do Instituto Mises Brasil)


Isabel Lyman Ph.D., é a autora do livro The Homeschooling Revolution, sobre o moderno movimento de educação domiciliar. Seus artigos já foram publicados em jornais e revistas como Miami Herald, Wall Street Journal, Dallas Morning News, Pittsburgh Tribune-Review, Investor's Business Daily, Boston Herald, Los Angeles Daily Journal, National Review, Chronicles, Daily Oklahoman, e outras publicações. Visite seu website.

Educação em poder do estado

 


bricks.JPGAlgumas cidades do interior paulista adotaram o toque de recolher para crianças e adolescentes e outros municípios já estão interessados na medida.  Fiquei perplexa quando li a primeira notícia que tratava do assunto, mas logo percebi que há todo um quadro que sustenta essa medida.  Em primeiro lugar, já faz tempo que desertamos as ruas das cidades porque perdemos a confiança de que sejam lugares onde se pode ter uma vida boa.
As ruas são consideradas locais inseguros que provocam medo; transformaram-se em depósitos de problemas originados por nossos estilos de vida.  Todo o aparato de segurança que usamos - de condomínios fechados a travas de segurança nas portas dos carros - servem para nos colocar fora das ruas.  Vivemos em pequenos "quartos de pânico", não parece?
Em segundo lugar, também já faz tempo que nós, adultos, perdemos a mão de como nos postar diante dos adolescentes.  Em parte porque eles têm aquilo que mais desejamos, perseguimos e fazemos de conta ter: a juventude.  Por isso, passamos a tratá-los como iguais, como se ocupassem lugares simétricos aos nossos.
A questão da educação democrática é um capítulo à parte.  Passamos a acreditar que os adolescentes devem ser respeitados em seus direitos sem saber ao certo o que são tais direitos e sem também ensiná-los sobre os deveres correlatos.  Sim: cada direito - o de ser respeitado, por exemplo - exige um dever - o de respeitar. Mas isso serviu mesmo a mais uma deserção: de nossa autoridade.
Em nome dessa ideia de educação, sentimo-nos sem o direito de ocupar um lugar legítimo para conter, restringir, coibir ou suspender, mesmo que temporariamente, os quereres impulsivos e impositivos deles.  Finalmente, vivemos um período em que, voluntariamente e em nome de causas aparentemente nobres, temos abdicado de nossa autonomia.  Vivemos em tempos de terceirizar nossas vidas, lembra-se? E é isso que abre espaço para a entrada do estado. Basta enumerar, como exemplo, quantos decretos proibitivos que envolvem a vida social já foram editados.
Voltemos ao toque de recolher.  Muitos pais são favoráveis à medida.  Imagino que seja mais fácil, para eles, segurar o filho em casa pela força do estado do que pela própria autoridade.  Mas é bom lembrar que essa medida restringe a liberdade de escolha dos pais de como educar seus filhos.
Em relação aos jovens, diretamente atingidos, a medida é preconceituosa.  Afinal, qual a porcentagem de adolescentes nas ruas que comete delitos, envolve-se em confusão ou entra em contato com drogas, por exemplo?  E a dos que não fazem nada disso?  E a dos que fazem tudo isso dentro de casa?  Mais uma vez, optamos por demonizar a juventude e retirá-la de cena.
Cada vez mais, permitimos - e queremos - a intervenção do estado em nossas vidas.  Parece mesmo que buscamos nele um pai que as governe.  Quem precisa de pai e de mãe são as crianças e os jovens.  Que sejam eles a governar a vida dos filhos, e não o estado, a polícia etc. 

A educação como mercadoria



logo_campanha_educacao_mercadoria_jpg (1).jpgUma recente pichação no campus sede da Universidade Estadual de Maringá diz que "educação não é mercadoria".  Parece que também haverá uma palestra sobre isso e, se não me engano, existe até uma campanha sobre o tema rolando por aí (a foto ao lado é desta campanha).
Bom, enquanto constatação de fato, parece-me que é verdade que "educação não é mercadoria".  No Brasil, não existe espaço para um livre mercado da educação, porque o Leviatã dita as regras para tudo quanto é curso e ainda ocupa o sistema de todos os lados, seja ofertando cursos gratuitamente seja injetando recursos em instituições privadas.

Acontece que a pichação que eu citei é normativa, e não uma descrição factual.  Ela quer dizer que a educação não deve ser uma mercadoria.  E aí eu pergunto: ora, e por que não?

Ter a educação como mercadoria significaria apenas e tão somente que um determinado conteúdo ou uma determinada competência poderia ter seu ensino livremente ofertado por aquele que se julgasse em condições para tanto, em troca de um preço por ele estipulado, ao passo que o interessado em adquirir aquele conteúdo ou competência poderia livremente aceitar a oferta se desejasse pagar o preço estipulado.  Que mal há nisso?  Acaso é a educação alguma espécie de bem sagrado que não poderia receber um preço?  O educador teria que educar por uma espécie de sacerdócio, sem receber para tanto?  Por quê?

Se há um problema normativo com relação à educação, a meu ver, ele está representado pela tirania do estado, que determina, acima dos pais, o que devemos aprender, quando e como.  Dado que os estatistas julgam que o estado sabe melhor do que o indivíduo o que é o melhor para ele próprio, eles também julgam que haveria um grande mal em deixar os indivíduos decidirem quais conhecimentos desejam para si e para seus filhos.
Pois eu julgo que negar esse direito ao indivíduo é justamente tomar o cidadão como uma criança a ser tutelada pelo pai estado.  Ao decidirem que a educação não pode ser mercadoria, decidem que o cidadão sequer pode decidir se quer ou não ser educado.  Ele é forçado a pagar pela educação na forma de impostos, é forçado também a recebê-la e ainda a recebê-la de uma dada maneira.

Nada pode ser mais avesso à liberdade individual do que um estado educador.  Portanto, se tivermos que fazer algum reclame sobre a educação, que seja para que ela se torne, sim, mercadoria.  Um estado que tutela seu povo pretendendo que isso seja um meio para o fim de esclarecê-lo não passa de uma grande farsa.
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